sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Do Além

Horrível, para além de qualquer concepção, foi a mudança por que passou meu melhor amigo, Crawford Tillinghast. Eu não o vira desde aquele dia, dois meses e meio antes, quando ele me falou da meta em direção à qual suas pesquisas físicas e metafísicas se encaminhavam e quando respondeu à minha demonstração de espanto e medo expulsando-me de seu laboratório e de sua casa num estouro de raiva fanática.

Eu sabia que ele agora passava a maior parte do tempo fechado em seu laboratório no sótão com aquela maldita máquina elétrica, comendo pouco e afastado até dos próprios criados, mas não pensara que um período tão breve de dez semanas pusesse alterar e desfigurar de tal maneira uma criatura humana. Não há prazer em ver um homem garboso tornar-se magro de repente, e é pior ainda quando a pele flácida começa a amarelar ou a acinzentar, os olhos fundos, esgazeados, brilhando de modo sobrenatural, a testa enrugada e coberta de veias, e as mãos trêmulas e contorcidas. E se, adicionado a isso, houver um desalinho repulsivo, uma desordem louca do vestir, moitas de cabelos escuros esbranquiçados na raiz, e uma sombra de barba não aparada sobre um queixo que sempre fora cuidadosamente barbeado, o efeito cumulativo será chocante.

Mas esse era o aspecto de Crawford Tillinghast na noite em que sua mensagem pouco coerente me trouxe até sua porta depois de semanas de exílio. Tal era o espectro que tremia enquanto me fazia entrar, uma vela na mão, a olhar furtivamente por sobre o ombro, como se receoso de coisas invisíveis na casa antiga e solitária, situada ao fundo da Benevolent Street.

Para Crawford Tillinghast, ter um dia estudado ciência ou filosofia fora um erro. São coisas que deveriam ser deixadas para o investigador impessoal e frio, pois oferecem duas alternativas igualmente trágicas ao homem de sentimento e ação: desespero, se fracassa em sua busca, e terrores indizíveis e inimagináveis, se obtém sucesso. Tillinghast fora presa uma vez do fracasso, da reclusão e da melancolia; mas agora eu sabia, entre receios repelentes de minha parte, que ele era presa do sucesso. De fato, eu o tinha alertado, duas semanas antes, quando aventou, num ímpeto, a história do que estava prestes a descobrir. Tornara-se vermelho e excitado, falando num tom de voz muito alto e antinatural, embora sempre pedante.

"O que sabemos", ele dissera, "sobre o mundo e o universo ao nosso redor? Nossos meios de receber impressões são absurdamente escassos, e nossas noções dos objetos que nos cercam são infinitamente estreitas. Vemos as coisas somente na medida em que somos construídos para vê-las e não podemos fazer idéia alguma de sua natureza absoluta. Com cinco débeis sentidos, queremos compreender o cosmos ilimitadamente complexo, enquanto outros seres, com uma gama de sentidos diferente, mais ampla ou mais possante, não apenas poderiam ver de modo diferente as coisas que vemos, como também ver e estudar mundos inteiros de matéria, energia e vida que jazem próximos de nós, mas que não podem ser detectados com os sentidos que temos.

Sempre acreditei que tais mundos estranhos e inacessíveis existem colados aos nossos cotovelos, e agora creio que encontrei um modo de romper as barreiras. Não estou blefando. Dentro de vinte e quatro horas aquela máquina sobre a mesa gerará ondas que agirão sobre órgãos ignorados de sentidos que existem em nós como vestígios atrofiados ou rudimentares. Essas ondas abrirão para nós inúmeros panoramas desconhecidos do homem e muitos desconhecidos de qualquer coisa que consideramos como vida orgânica. Haveremos de ver aquilo para o qual os cachorros uivam na escuridão, aquilo para o qual os gatos levantam suas orelhas após a meia-noite. Veremos essas coisas e outras coisas que nenhuma criatura que respira jamais viu. Vamos saltar sobre o tempo, o espaço e as dimensões e, sem mover nossos corpos, espiar o fundo da criação."

Quando Tillinghast disse essas coisas, não disfarcei, pois conhecia-o bem o suficiente para ter muito mais receio do que admiração; mas ele era um fanático e expulsou-me da casa. Agora ele não era menos fanático, mas seu desejo de falar sobrepujara o ressentimento, e ele me escrevera num tom imperativo, com uma caligrafia quase ilegível. Quando penetrei na casa desse amigo tão subitamente metamorfoseado numa gárgula vacilante, infectou-me o terror que parecia espreitar em meio a todas as sombras. Era como se as palavras e crenças expressas dez semanas antes se encarnassem na escuridão que cercava o pequeno círculo de luz da vela, e senti-me mal diante da voz oca e alterada de meu anfitrião.

Desejei que os criados estivessem por perto e não gostei quando ele disse que todos tinham deixado a casa havia três dias. Pareceu estranho que o velho Gregory, ao menos, pudesse desertar de seu senhor sem dizer isso a um amigo tão próximo como eu. Era ele que me dava toda a informação que tive sobre Tillinghast depois que, furioso, este me expulsou.

No entanto, logo obriguei meus medos a se subordinarem à minha curiosidade e fascinação. O que é que Crawford Tillinghast queria de mim agora eu podia até conjeturar, mas de que ele tinha algum segredo ou descoberta estupenda para revelar, disso eu não duvidava. Antes eu protestara contra sua perquirição indiscreta do impensável, e agora que ele evidentemente tivera algum tipo de sucesso eu quase compartilhava seu espírito, por mais terrível que pudesse ser o custo da vitória. Seguindo a luz vacilante da vela que a mão daquela paródia trêmula de homem segurava, subi em direção à escuridão vazia da casa.

A eletricidade parecia ter sido desligada, e quando perguntei ao meu guia ele disse que era por um motivo definido.
"Seria demais… Eu não ousaria", ele continuava a murmurar. Notei em especial esse seu novo hábito de murmurar, pois não era do seu feitio falar sozinho. Entramos no laboratório no sótão, e observei aquela detestável máquina elétrica a cintilar com uma luminosidade doentia, sinistra, violeta. Estava conectada a uma potente bateria química, mas não parecia receber corrente, pois eu me lembrava de que em seu estágio experimental ela tinha roncado e ciciado quando posta em ação. Em resposta à minha pergunta, Tillinghast sussurrou que esse brilho permanente não era elétrico em nenhum sentido que eu pudesse entender.

Ele me fez sentar próximo à máquina, de modo que ela ficou à minha direita, e acionou um comutador que ficava por baixo de uma profusão de bulbos de vidro. Os estralejos usuais começaram, tornaram-se um gemido, e terminaram num rumor monótono e tão suave que dava impressão de retornarem ao silêncio. Entrementes a luminosidade aumentou, diminuiu, até assumir uma tonalidade pálida e inusitada ou uma mistura de cores que eu não poderia situar ou descrever. Tillinghast tinha estado a me observar, notando minha expressão de perplexidade.

"Sabe o que é isso?", murmurou, "Isso é ultravioleta". E gargalhou ao ver a minha surpresa. "Pensou que o ultravioleta era invisível, e é – mas você pode vê-lo e a muitas outras coisas agora. Ouça-me! As ondas dessa coisa estão despertando em você mil sentidos adormecidos – sentidos que você herdou de éons de evolução, desde o estado dos elétrons errantes até o estado da humanidade orgânica. Eu vi a verdade, e pretendo mostrá-la a você. Faz idéia de como ela se parece? Vou dizê-lo a você." Aqui, Tillinghast se sentou também, de frente para mim, segurando sua vela e olhando-me perversamente nos olhos. "Seus órgãos sensórios existentes – ouvidos primeiro, suponho – captarão muitas das impressões, pois estão intimamente conectados com os órgãos adormecidos. Então haverá outros. Já ouviu falar da glândula pineal? Rio-me dos ingênuos endocrinologistas, pretensiosos e comparsas iludidos dos freudianos. Essa glândula é o órgão sensório por excelência – eu o descobri. É como uma visão, afinal, e transmite imagens visuais ao cérebro. Se você é normal, esse será o modo como você obterá a maior parte... Refiro-me à maior parte da evidência do além."

Olhei em volta o imenso sótão com a parede alta ao sul, obscuramente iluminada por raios que os olhos cotidianos não poderiam ver. Os cantos mais distantes eram pura sombra, e o lugar inteiro mergulhava numa irrealidade nevoenta que obscurecia sua natureza e convidava a imaginação ao simbolismo e à fantasmagoria. Durante o longo intervalo em que Tillingthast permaneceu em silêncio, tive um devaneio de estar num incrível e vasto templo de deuses há muito desaparecidos, num edifício vago de inúmeras colunas de pedra negra que se elevavam de um piso de lajes úmidas até alturas de nuvens que ficavam para além da minha visão.

A imagem me pareceu bastante vívida por algum tempo, mas gradualmente deu lugar a uma concepção mais horrível – aquela da solidão extrema e absoluta do espaço infinito, inescrutável e silencioso. Parecia haver um vazio e nada mais, e senti um medo infantil que me fez sacar do bolso junto ao peito um revólver que passei a carregar desde que fora assaltado em East Providence. Então, das mais distantes regiões do remoto, o som deslizou suavemente para dentro da existência. Era infinitamente débil, sutilmente vibrante, e inequivocamente musical, mas continha um não sei quê de indizivelmente selvagem que fazia com que o seu impacto parecesse uma tortura delicada de todo o meu corpo.

Vieram-me sensações que eram como se alguém pisasse vidro moído no chão. Simultaneamente, desenvolveu-se alguma coisa como um sopro frio, que aparentemente passava por mim vindo do som distante. Enquanto, sem fôlego, aguardava, percebi que tanto o som quanto o vento estavam aumentando, o efeito assemelhando-se ao de ter sido atado a um par de trilhos no caminho de uma gigantesca locomotiva que se aproximasse. Comecei a falar a Tillinghast e, quando o fiz, todas as impressões incomuns se desvaneceram abruptamente. Vi apenas o homem, as máquinas cintilantes e o cômodo penumbroso.

Tillinghast ria de um jeito repulsivo para o revólver que eu sacara quase inconscientemente, mas pela sua impressão compreendi que ele tinha visto e ouvido tanto quanto eu, se não muito mais. Murmurei o que eu tinha experimentado, e ele me instruiu para que permanecesse o mais quieto e receptivo possível.

"Não se mova", advertiu, "pois nesses raios tanto podemos ver quanto ser vistos. Eu lhe disse que os servos foram embora, mas não lhe disse como. Foi aquela governanta de cabeça dura; ela acendeu as luzes no térreo depois que eu avisei para não fazer isso, e os arames captaram vibrações empáticas. Deve ter sido amedrontador – pude ouvir os gritos daqui de cima, a despeito de tudo o que via e ouvia vindo de outra direção, e mais tarde foi pavoroso encontrar aqueles montes vazios de roupas por toda a casa. As roupas da senhora Updike estavam próximas do comutador de luz da sala – eis como eu soube que ela o fizera. Pegou-os a todos. Mas, desde que não nos movamos, estamos razoavelmente seguros. Lembre-se de que estamos lidando com um mundo medonho no qual somos praticamente indefesos... Fique quieto!"

O choque combinado da revelação e da intimação abrupta deu-me um tipo de paralisia, e no terror minha mente se abriu de novo para as impressões que vinham do que Tillinghast chamou de "além". Um vórtice de som e movimento me envolvia agora, imagens confusas surgindo diante de meus olhos. Eu via os contornos imprecisos do cômodo, mas de algum ponto do espaço parecia jorrar uma coluna fervilhante de formas irreconhecíveis ou de nuvens, penetrando no teto sólido num ponto adiante, à minha direita.

Então vislumbrei o templo – como efeito novamente, mas desta vez os pilares subiam em direção a um oceano aéreo de luz, o qual despejava um raio de luz ofuscante por todo o caminho da coluna de nuvens que eu vira antes. Depois disso, a cena tornou-se quase inteiramente caleidoscópica, e na profusão de visões, sons e impressões sensoriais não identificadas, senti que estava prestes a me dissolver ou, de algum modo, a perder a forma sólida. De um determinado lance eu hei de me lembrar para sempre.

Pareceu-me ter visto, por um instante, uma nesga de estranho céu noturno repleto de esferas cintilantes e rodopiantes, e quando desapareceu vi que os sóis brilhantes formavam uma constelação ou galáxia de forma definida, sendo essa forma o rosto distorcido de Crawford Tillinghast. Noutra ocasião, senti que as coisas imensas e animadas se arrastavam para além de mim e às vezes caminhavam ou vogavam através do meu corpo supostamente sólido, e pensei ter visto Tillinghast olhar para elas como se seus sentidos mais bem treinados pudessem captá-las visualmente. Lembrei-me do que ele dissera acerca da glândula pineal e me perguntei o que ele via com esse olho sobrenatural.

De súbito, senti-me também possuído por uma espécie de visão aumentada. Por cima e ao longo do caos luminoso e sombrio se elevava uma imagem que, embora vaga, continha elementos de consistência e permanência. Era de fato algo familiar, pois a parte incomum estava superposta à cena comum e terrestre, tal como uma imagem de cinema se pode projetar sobre a cortina pintada de um teatro. Vi o laboratório do sótão, a máquina elétrica e a forma indistinta de Tillinghast em frente a mim, mas de todo o espaço não ocupado por objetos familiares sequer a menor porção estava vaga. Formas indescritíveis, vivas ou não, se misturavam numa desordem repulsiva, e perto de cada coisa conhecida havia mundos inteiros de entidades alienígenas e ignotas.

Igualmente, parecia que todas as coisas conhecidas entravam na composição de outras coisas desconhecidas e vice-versa. Mais à frente, entre os objetos vivos, havia monstruosidades pretas, semelhantes a medusas, que estremeciam languidamente com as vibrações da máquina. Manifestavam-se numa profusão nauseante, e eu vi, para o meu horror, que se imbricavam, que eram semifluidas e capazes de passar através umas das outras e daquilo que conhecemos como sólidos. Essas coisas jamais paravam; antes: pareciam flutuar sempre com algum propósito maligno.

Às vezes, davam mostras de devorar-se umas às outras, o atacante lançando-se sobre sua vítima e instantaneamente fazendo-a desaparecer de vista. Trêmulo, entendi o que tinha feito desaparecer os infelizes criados, e não podia expulsar a coisa de minha mente enquanto lutava para observar outras propriedades do mundo, há pouco tornado visível, que existe incógnito à nossa volta. Mas Tillinghast tinha estado a me observar e agora falava.

"Você as vê? Você as vê? Vê as coisas que flutuam e se precipitam à sua volta a cada momento de sua vida? Vê as criaturas que formam o que os homens chamam de ar puro e de céu azul? Não tive sucesso em romper a barreira, não mostrei a você mundos que os outros homens jamais chegaram a ver?" Ouvi seu grito através do horrível caos e olhei para a face selvagem que tão ofensivamente se colava à minha. Seus olhos eram poços de chamas e me fitavam com aquilo que – logo entendi – era apenas o mais profundo ódio. A máquina ronronava de maneira horrorosa.

"Pensa que essas coisas rastejantes arrebataram os criados? Tolo, são inofensivas! Mas os criados desapareceram, não é? Você tentou me impedir, você me desencorajou quando precisei de cada gota de incentivo que pudesse obter. Você teve medo da verdade cósmica, seu maldito covarde, mas agora eu o peguei! O que foi que levou os criados? O que os fez berrar tão alto?... Não sabe, hein? Logo, logo saberá. Olhe para mim – ouça o que eu digo. Supõe você que existem mesmo tais coisas como tempo e magnitude? Acredita mesmo que existem tais coisas como forma e matéria? Eu lhe digo, você atingiu profundidades que o seu pequeno cérebro não pode conceber. Vi para além das fronteiras do infinito e arrastei demônios das estrelas... Conduzi as sombras que perambulam de mundo para mundo para semear a morte e a loucura... O espaço me pertence, está me ouvindo? As coisas estão à minha caça agora – as coisas que devoram e dissolvem –, mas eu sei como ludibriá-las.

É a você que elas pegarão, como fizeram com os criados... Está tremendo, caro senhor? Eu lhe disse que era perigoso mover-se, coloquei-o a salvo dizendo que se mantivesse quieto – salvei-o para ter mais visões e para me ouvir. Se você tivesse se movido, eles já teriam se atirado sobre você há muito tempo. Não se preocupe, não vão machucá-lo. Não machucaram os criados – foi apenas ver que os fez berrar daquele jeito. Meus bichinhos não são bonitos, pois vêm de lugares onde os padrões estéticos são... muito diferentes. Eu quase os vi, mas soube como parar. Você é curioso? Sempre soube que você não era um cientista. Tremendo, hein? Tremendo de ansiedade para ver as últimas coisas que descobri. Por que não se move, então? Cansado? Bem, não se preocupe, amigo, pois elas estão vindo… Olhe, olhe, amaldiçoado, olhe… Está bem em cima do seu ombro esquerdo."

O que falta contar é bem pouco, e vocês talvez já tenham sabido por meio dos jornais. A polícia ouviu um tiro na velha casa de Tillinghast e nos encontrou lá – Tillinghast morto, e eu, inconsciente. Prenderam-me, porque o revólver estava em minha mão, mas soltaram-me dentro de três horas, pois descobriram que foi a apoplexia que acabou com Tillinghast e viram que meu tiro tinha sido disparado contra a máquina perversa que agora jaz irremediavelmente destroçada no chão do laboratório. Não contei muito do que vi, pois temi que o coronel ficasse cético, mas, pela descrição evasiva que dei, o médico me disse que, sem dúvida, eu tinha sido hipnotizado pelo louco vingativo e homicida.

Quem dera eu pudesse acreditar no médico. Seria bom para os meus nervos se eu pudesse pôr de lado o que agora tenho de pensar sobre o ar e o céu que me envolvem e que estão acima de mim. Nunca me sinto sozinho e confortável, e um senso horrível e arrepiante de perseguição às vezes me invade quando esmoreço. O que me impede de acreditar no médico é apenas este fato: que a polícia nunca encontrou os corpos dos criados que, segundo dizem, Crawford Tillinghast assassinou.


por H. P. Lovecraft

Óleo de Cão

Chamo-me Boffer Bings. Nasci de pais honestos, malgrado muito pobres. Meu pai era fabricante de óleo de cão, e minha mãe tinha, ao pé da igreja da vila, um pequeno gabinete, onde eliminava bebês indesejados. Já na minha infância aprendi os processos da indústria.

Não apenas ajudava o meu pai procurando os cães para seu caldeirão, como também minha mãe me encarregava freqüentemente da missão de me desfazer dos despojos de seu trabalho no gabinete. Para me desincumbir desse mister, às vezes precisei de toda minha natural inteligência, posto que todos os agentes da lei da vizinhança se opunham aos negócios de minha mãe. O assunto não tinha injunções políticas, já que os agentes não haviam sido eleitos pela oposição: simplesmente faziam-no por fazer.

Naturalmente, o trabalho de meu pai era menos impopular, embora os proprietários dos cães desaparecidos o olhassem às vezes com desconfiança, o que, por extensão, se refletia em mim. Como sócios, à escondida, tinha meu pai os farmacêuticos da cidade, que quase nunca aviavam uma receita sem que nela constasse ao que eles designavam “Ol. can.”, o remédio mais valioso que já se houvera descoberto. Mas a maioria das pessoas não está disposta a fazer sacrifícios pessoais pelos afligidos, e era evidente que muitos dos cachorros mais gordos da cidade eram proibidos de brincar comigo. Isto feriu a minha sensibilidade juvenil e certa feita dirigiram-se a mim para fazer-me de pirata.

Lembrando-me daqueles dias, não posso, às vezes, evitar o arrependimento, pois, levando indiretamente os meus pais à morte, fui o autor dos infortúnios que profundamente afetaram o meu futuro.

Certa noite, quando vinha do gabinete de minha mãe com um exposto, vi passar, à frente da fábrica de azeite de meu pai, um guarda que parecia observar atentamente os meus movimentos. Embora bastante jovem, eu já aprendera que os guardas só acorriam aos fatos mais repreensíveis, de molde que dele me esquivei, enfiado-me na fábrica de azeite por uma porta lateral, que calhou de estar aberta. Travei a porta de uma vez e fiquei só com o meu morto. O meu pai já se recolhera. A única luz daquele lugar provinha do forno, que ardia intensamente sob um dos caldeirões, espalhando uma profunda luz e lançando reflexos rubros nas paredes. No caldeirão, o óleo estava em indolente ebulição, e, por conta de seu movimento, às vezes exibia pedaços de cachorro na superfície. Fiquei a esperar que o guarda se retirasse.

Mantive no meu colo o corpo nu da criancinha e lhe acariciei ternamente o cabelo curto e sedoso. Ah, como era bela! Já naquela tenra idade eu gostava muitíssimo das criancinhas e, ao contemplar aquele anjinho, quase desejei que a pequena ferida vermelha de seu peito, obra de minha querida mãe, não fosse mortal.

O que eu pretendia era jogar a criança ao rio, que a natureza sabiamente nos legara para tal fim, mas, naquela noite, com medo do guarda, não me atrevi a sair da fábrica de azeite. “Afinal – disse com os meus botões- , não acho que teria importância se eu vier a entorná-la no caldeirão. O meu pai nunca irá distinguir os seus ossos dos ossos de um cachorro. E as poucas mortes que poderão advir da administração de outro tipo de azeite no lugar do incomparável 'Ol. can.' não serão percebidas em uma população que cresce tão rapidamente".

Em suma, dei o meu primeiro passo para o crime e entornei a criança no caldeirão com indescritível tristeza.

No dia seguinte, para minha surpresa, meu pai, a esfregar as mãos de satisfação, informou a mim e à minha mãe que obtivera o óleo de qualidade nunca vista, e que este era o parecer dos médicos aos quais levara amostras. Argüiu que não tinha idéia de como lograra tal resultado, pois tratara os cães como sempre o fizera, em todos os aspectos, e eram eles da raça habitual. Considerei que era o meu dever lhes ofertar uma explicação e, notem bem, teria certamente contido o ímpeto de minha língua se pudesse prever as conseqüências.

Os meus pais, lamentando olvidar as vantagens de combinar os seus afazeres, adotaram medidas para reparar o equívoco. Minha mãe mudou o seu gabinete para uma ala do edifício da fábrica e as minhas tarefas com relação ao ofício cessaram. Já não mais precisavam de mim para que me desfizesse dos pequenos supérfluos e não remanescia a necessidade de atrair os cães à condenação, pois o meu pai renunciou completamente a eles, embora ainda ocupassem o honroso nome no azeite.

Assim, subitamente ocioso, poder-se-ia esperar que eu me tornasse uma pessoa viciosa e dissoluta, mas não foi isso o que aconteceu. A influência benéfica de minha mãe seguiu protegendo-me das tentações que assediam a juventude, e, além disso, meu pai era diácono de uma igreja. Mas, por culpa minha, estas estimáveis pessoas iam ter um fim tão funesto!

Ao experimentar um proveito duplo com os seus negócios, minha mãe se entregou ao mister com uma assiduidade nunca dantes vista. Não apenas se desfazia dos indesejados que lhe eram entregues, como acorria às ruas e becos à procura de criancinhas maiores e mesmo adultos que lograva atrair à fábrica. Também meu pai, amante daquele óleo de melhor qualidade, fornia os seu caldeirões com zelo e diligência. Em síntese: a conversão de meus vizinhos em óleo de cão tornou-se a única paixão de suas vidas. Uma avidez absorvente e portentosa invadiu suas almas e ocupou o lugar da esperança que tinham de alcançar o paraíso, que, por outra parte, também os inspirava.

E se atiraram tão vivamente à empresa que os cidadãos reuniram uma assembléia pública, na qual adotaram resoluções que os censuravam severamente. O presidente deu a entender que os ataques sucessivos contra a população eram recebidos com hostilidade. Meus pobres pais abandonaram a assembléia com o coração partido, desesperados e com as mentes perturbadas. Considerei prudente, de toda forma, não entrar com eles na fábrica de óleo naquela noite e fui dormir lá fora, num estábulo.


À meia-noite, um misterioso impulso ordenou que eu me levantasse e espreitasse por uma fresta do quarto do forno, onde eu sabia que meu pai dormia. O lume ardia vivamente, como se esperasse por uma colheita abundante no dia seguinte. Um dos enormes caldeirões fervia devagar, dotado de um misterioso aspecto de contenção, como se aguardasse o momento de envidar toda as suas energias.

Mas meu pai não estava na cama. Levantara-se e estava de roupas de dormir. Fazia um nó corrediço numa corda vigorosa. Pelos olhares que dirigia à porta do quarto de minha mãe, deduzi perfeitamente o propósito que lhe ia na mente. Imobilizado e mudo pelo terror, nada pude fazer para contê-lo. Subitamente, a porta do quarto de minha mãe se abriu sem fazer ruído e eles se defrontaram, ambos surpreendidos com a presença do outro. Ela também estava de camisola, e levava, na mão direita, a sua ferramenta de trabalho: uma longa adaga de folha estreita.

Minha mãe foi, igualmente, incapaz de abdicar à única escolha que a minha ausência e a atitude hostil dos cidadãos a deixaram. Por instantes, eles contemplaram mutuamente os olhos acesos e, então, lançaram-se com indescritível fúria um contra o outro. Como demônios, lutaram pelo cômodo todo. Meu pai maldizia. Minha mãe gritava. Ela tentava cravar-lhe a adaga. Ele forçava por estrangulá-la com as grandes mãos nuas. Não sei por quanto tempo tive a desgraça de observar este desagradável momento de infelicidade doméstica, mas, enfim, depois de um esforço mais vigoroso que o ordinário, os adversários subitamente se separaram.

O peito de meu pai e a arma de minha mãe exibiam sinais de contato. Por instantes, olharam-se da forma mais hostil. Então meu pobre e ferido pai, sentido sobre si a mão da morte, saltou à frente e, fazendo pouco da resistência que a minha mãe oferecia, tomou-a nos braços, conduzindo-a ao caldeirão fervente. E, reunindo as suas últimas forças, fê-la nele mergulhar. Em um momento, ambos tinham desaparecido e adicionavam seu óleo àquele do comitê dos cidadãos que os haviam convocado, no dia anterior, à reunião pública.

Convencido que estes funestos acontecimento obstruíam todos os caminhos para uma honrável carreira naquela cidade, abandonei a famosa vila de Otumwee, onde escrevi estas memórias com o coração repleto de remorsos por um ato tão imprudente e que envolve um deveras catastrófico desastre comercial.


A História do Necronomicon

Breve, porém completo resumo da história deste livro, de seu autor, de diversas traduções e edições desde sua redação (no ano de 730) até os dias atuais.

Edição comemorativa a cargo de Wilson H. Shepherd, The Rebel Press, Oakman, Alabama.

O título original era “Al-Azif”. Azif era o termo utilizado pelos árabes para designar o ruído noturno (produzido pelos insetos) que, supunha-se, era o murmúrio dos demônios. Escrito por Abdul Al Hazred (figura acima), um poeta louco de Sana, fugido no Iêmen, na época dos califas Olmeias, pelo ano de 700.

Visita as ruínas da Babilônia, e os subterrâneos secretos de Mênfis, e passa dez anos sozinho no grande deserto que se estende ao sul da Arábia, o Roba el-Khaliyeh, o “Espaço vital” dos antigos e o Dahna, “O deserto Rubro” dos árabes modernos. Afirma-se que este deserto é habitado por espíritos malignos e por monstros tenebrosos. Os que afirmam haver penetrado em suas regiões contam coisas estranhas e sobrenaturais.

Durante os últimos anos de sua vida, Al Hazred viveu em Damasco, onde escreveu o “Necrononicon” (Al-Azif), por onde circulam terríveis e contraditórios boatos sobre a sua morte ou desaparecimento em 738. O seu biógrafo do Séc. XII, Ibn-Khalikan, conta que Al Hazred foi assassinado por um monstro invisível em pleno dia, sendo devorado na presença de um número expressivo de testemunhas aterrorizadas.

Contam-se ainda muitas coisas acerca de sua loucura. Ele alegava ter visto a famosa Ilrem, a Cidade dos Pilaree, e ter encontrado, sob as ruínas de uma cidade perdida do deserto, oos anais secretos de uma raça mais antiga que a humanidade. Ele não participava da fé mulçumana, pois adorava umas desconhecidas entidades chamadas Yog-Sothoth y Cthulhu.

No ano de 950, o “Azif”, que havia circulado secretamente entre os filósofos da época, foi ocultamente traduzido pelo grego Theodorus Philetas, de Constantinopla, sob o título “Necronomicon”. Durante um século, e por arte de sua influência, ocorreram certos fatos terríveis, razão pela qual o livro foi proibido e queimado pelo patriarca Michael. Desde então, não temos mais que vagas referências ao livro, mas em 1228, Olaus Wormius encontrou uma tradução para o latim que foi impressa duas vezes, sendo uma no Séc. XV, em letras negras (com toda segurança na Alemanha) e outra no Séc. XVII (provavelmente na Espanha).

Estas traduções não trazem qualquer esclarecimento, de tal forma que somente pela tipografia é que se supõe a data e o local de impressão. A obra, tanto em sua versão grega quanto na latina, foi proibida em 1232 pelo Papa Gregório IX, pouco depois que a tradução latina havia se convertido em um poderoso foco de atenção.

A edição árabe original se perdeu na época de Wormius, conforme foi dito no prefácio (há vagas alusões sobre a existência de uma cópia secreta encontrada em São Francisco, no início do século, mas que desapareceu no grande incêndio). Não há rastro da versão grega, impressa na Itália, entre 1500 e 1550, depois do incêndio ocorrido na biblioteca de uma certa personagem de Salem, em 1692.

Igualmente, existia uma tradução do doutor Dee, jamais impressa, baseada no manuscrito original. Os textos latinos ainda subsistem; um, (do Séc. XV) está guardado no Museu Britânico; outro (do Séc. XVII), se acha na Biblioteca Nacional de Paris. Uma edição do Séc. XVII encontra-se acautelada na biblioteca de Wiedener de Harvard e outra na Biblioteca da Universidade de Miskatonic, en Arkham; há mais uma na biblioteca da Universidade de Buenos Aires.

É possível que existam outras cópias mantidas em segredo; há rumores persistentes de que uma cópia do Séc. XV foi parar na coleção de um célebre milionário americano. Outro rumor assegura que uma cópia do texto grego do Séc. XVI é propriedade da família Pickman de Salem, mas é quase certo que esta cópia desapareceu, ao mesmo tempo que o artista R. U. Pickman, em 1926.

A obra está veementemente proibida pelas autoridades e por todas as organizações legais inglesas. Sua leitura pode atrair conseqüências nefastas. Acredita-se que R. W. Chambers se baseou neste livro em sua obra “O rei amarelo.”


Cronologia

-Al-Azif é escrito em Damasco en el 730, por Abdul Al-Hazred.
-Traducão grega com o l título de Necronomicón, por Theodorus Philetas, em 950.
-O patriarca Michael o proíbe no ano de 1050 (texto grego). O árabe se perdera.
-Em 1228, Olaus traduz o l texto grego para o latim.
-As edições latina e grega são destruídas por Gregório IX em 1232.
-Em 14... (?), aparece una edição em caracteres góticos na Alemanha.
-Em 15... (?), o texto grego é impresso na Itália.
-Em 16... (?), aparece a tradução espanhola do texto latino.

por H. P. Lovecraft
Tradução de J. Jaegger

A Pata do Macaco

Lá fora, a noite estava fria e úmida, mas na pequena sala de visitas de Labumum Villa os postigos estavam abaixados e o fogo queimava na lareira. Pai e filho jogavam xadrez: o primeiro tinha idéias sobre o jogo que envolviam mudanças radicais, colocando o rei em perigo tão desnecessário que até provocava comentários da velha senhora de cabelos brancos, que tricotava serenamente perto do fogo.

- Ouça o vento - disse o Sr. White, que, tendo visto tarde demais um erro fatal, queria evitar que o filho o visse.

- Estou escutando - disse o último, estudando o tabuleiro ao esticar a mão.- Xeque.

- Eu duvido que ele venha hoje à noite - disse o pai, com a mão parada em cima do tabuleiro.

- Mate - replicou o filho.

- Essa é a desvantagem de se viver tão afastado - vociferou o Sr. White, com um a violência súbita e inesperada. - De todos os lugares desertos e lamacentos para se viver, este é o pior. O caminho é um atoleiro, e a estrada uma torrente. Não sei o que as pessoas têm na cabeça. Acho que, como só sobraram duas casas na estrada, elas acham que não faz mal.

- Não se preocupe, querido - disse a esposa em tom apaziguador. - Talvez você ganhe a próxima partida.

O Sr. White levantou os olhos bruscamente a tempo de perceber uma troca de olhares entre mãe e filho. As palavras morreram em seus lábios, e ele escondeu um sorriso de culpa atrás da barba fina e grisalha.

- Aí vem ele - disse Herbert White, quando o portão bateu ruidosamente e passos pesados se aproximaram da porta.O velho levantou-se com uma pressa hospitaleira e, ao abrir a porta, foi ouvido cumprimentando o recém chegado. Este também o cumprimentou, e a Sra. White tossiu ligeiramente quando o marido entrou na sala, seguido por um homem alto e corpulento, com olhos pequenos e nariz vermelho.

- Sargento Morris - disse ele, apresentando-o.O sargento apertou as mãos e, sentando-se no lugar que lhe ofereceram perto do fogo, observou satisfeito o anfitrião pegar uísque e copos, e colocar uma pequena chaleira de cobre no fogo.

Depois do terceiro copo, seus olhos ficaram mais brilhantes, e ele começou a falar, o pequeno círculo familiar olhando com interessante este visitante de lugares distantes, quando ele empertigou os ombros largos na cadeira e falou de cenários selvagens e feitos intrépidos: de guerras, pragas e povos estranhos.

- Vinte e um anos nessa vida - disse o Sr. White, olhando para a esposa e o filho. - Quando ele foi embora era um rapazinho no armazém. Agora olhem só para ele.

- Ele não parece ter sofrido muitos reveses - disse a Sra. White amavelmente.

- Eu gostaria de ir à Índia - disse o velho - só para conhecer, compreende?

- Você está bem melhor aqui - disse o sargento, sacudindo a cabeça. Pôs o copo vazio na mesa e, suspirando baixinho, sacudiu a cabeça novamente.

- Eu gostaria de ver aqueles velhos templos, os faquires e os nativos - disse o velho. - O que foi que você começou a me contar outro dia sobre uma pata de macaco ou algo assim Morris?

- Nada - disse o soldado rapidamente. - Não é nada de importante.

- Pata de macaco? - perguntou a Sra. White, curiosa.

- Bem, é só um pouco do que se poderia chamar de magia, talvez - disse o sargento com falso ar distraído. Os três ouvintes debruçaram-se nas cadeiras interessados. O visitante levou o copo vazio à boca distraidamente e depois recolocou-o onde estava. O dono da casa tornou a enchê-lo.

- Aparentemente - disse o sargento, mexendo no bolso - é só uma patinha comum dissecada. Tirou uma coisa do bolso e mostrou-a. A Sra. White recuou com uma careta, mas o filho, pegando-a, examinou-a com curiosidade.

- E o que há de especial nela? - perguntou o Sr. White ao pegá-la da mão do filho e, depois de examiná-la, colocá-la sobre a mesa.

- Foi encantada por um velho faquir - disse o sargento -, um homem muito santo. Ele queria provar que o destino regia a vida das pessoas, e que aqueles que interferissem nele seriam castigados. Fez um encantamento pelo qual três homens distintos poderiam fazer, cada um, três pedidos a ela.

A maneira dele ao dizer isso foi tão solene que os ouvintes perceberam que suas risadas estavam um pouco fora de propósito.

- Bem, por que não faz os seus três pedidos, senhor? - disse Herbert White astutamente.O soldado olhou para ele como olham as pessoas de meia-idade para um jovem presunçoso.

- Eu fiz - disse ele calmamente, e seu rosto marcado empalideceu.

- E teve mesmo os três desejos satisfeitos? - perguntou a Sra. White.

- Tive - disse o sargento, e o copo bateu nos dentes fortes.

- E alguém mais fez os pedidos? - insistiu a senhora.

- O primeiro homem realizou os três desejos - foi a resposta. - Eu não sei quais foram os dois primeiros, mas o terceiro foi para morrer. Por isso é que consegui a pata.

Seu tom de voz era tão grave que o grupo ficou em silêncio.

- Se você conseguiu realizar os três desejos, ela não serve mais para você Morris - disse o velho finalmente. - Para que você guarda essa pata?

O soldado meneou a cabeça.

- Por capricho, suponho - disse lentamente. - Cheguei a pensar em vendê-la, mas acho que não o farei. Ela já causou muitas desgraças. Além disso, as pessoas não vão comprar. Acham que é um conto de fadas, algumas delas; e as que acreditam querem tentar primeiro para pagar depois.

- Se você pudesse fazer mais três pedidos - disse o velho, olhando para ele atentamente -, você os faria?

- Eu não sei - disse o outro. - Eu não sei.

Pegou a pata e, balançando-a entre os dedos, de repente jogou-a no fogo.

White, com um ligeiro grito, abaixou-se e tirou-a de lá.

- É melhor deixar que ela se queime - disse o soldado solenemente.

- Se você não quer mais, Morris - disse o outro -, me dá.

- Não - disse o amigo obstinadamente. - Eu a joguei no fogo. Se você ficar com ela, não me culpe pelo que acontecer. Jogue isso no fogo outra vez, como um homem sensato.

O outro sacudiu a cabeça e examinou sua nova aquisição atentamente.

- Como você faz para pedir? - perguntou.

- Segure a pata na mão direita e faça o pedido em voz alta - disse o sargento -, mas eu o advirto sobre as conseqüências.

- Parece um conto das Mil e uma noites - disse a Sra. White, ao se levantar e começar a pôr o jantar na mesa. - Você não acha que deveria pedir quatro pares de mão para mim?

- Se quer fazer um pedido - disse ele asperamente -, peça algo sensato. O Sr. White colocou a pata no bolso novamente e, arrumando as cadeiras acenou para que o amigo fosse para a mesa. Durante o jantar o talismã foi parcialmente esquecido, e depois os três ficaram escutando, fascinados, um segundo capítulo das aventuras do soldado na Índia.

- Se a história sobre a pata de macaco não for mais verdadeira do que as que nos contou - disse Herbert, quando a porta se fechou atrás do convidado, que partiu a tempo de pegar o último trem -, nós não devemos dar muito crédito a ela.

- Você deu alguma coisa a ele por ela, papai? - perguntou a Sra. White, olhando para o marido atentamente.

- Pouca coisa - disse ele, corando ligeiramente. - Ele não queria aceitar, mas eu o fiz aceitar. E ele tornou a insistir que eu jogasse fora.

- É claro - disse Herbert, fingindo estar horrorizado. - Ora, nós vamos ser ricos, famosos e felizes. Peça para ser um imperador, papai, para começar, então você não vai ser mais dominado pela mulher.

Ele correu em volta da mesa, perseguido pela Sra. White armada com uma capa de poltrona.

O Sr. White tirou a pata do bolso e olhou para ela dubiamente.

- Eu não sei o que pedir, é um fato - disse lentamente. - Eu acho que tenho tudo o que quero.

- Se você acabasse de pagar a casa ficaria bem feliz, não ficaria? - disse Herbert, com a mão no ombro dele. - Bem, peça 200 libras, então, isso dá.

O pai, sorrindo envergonhado pela própria ingenuidade, segurou o talismã, quando o filho, com uma cara solene, um tanto franzida por uma piscadela de olhos para a mãe, sentou-se no piano e tocou alguns acordes para fazer fundo.

- Eu desejo 200 libras - disse o velho distintamente.

Um rangido do piano seguiu-se às palavras, interrompido por um grito estridente do velho. A mulher e o filho correram até ele.

- Ela se mexeu - gritou ele, com um olhar de nojo para o objeto caído no chão. - Quando eu fiz o pedido, ela se contorceu na minha mão como uma cobra.

- Bem, eu não vejo o dinheiro - disse o filho ao pegá-la e colocá-la em cima da mesa - e aposto que nunca vou ver.

- Deve ter sido imaginação sua, papai - disse a esposa, olhando para ele ansiosamente.

Ele sacudiu a cabeça.

- Não faz mal, não aconteceu nada, mas a coisa me deu um susto assim mesmo.

Eles se sentaram perto do fogo novamente enquanto os dois homens acabavam de fumar cachimbos. Lá fora, o vento zunia mais do que nunca, e o velho teve um sobressalto com o barulho de uma porta batendo no andar de cima. Um silêncio estranho e opressivo abateu-se sobre todos os três, e perdurou até o velho casal se levantar e ir dormir.

- Eu espero que vocês encontrem o dinheiro dentro de um grande saco no meio da cama - disse Herbert, ao lhes desejar boa noite - e algo terrível agachado em cima do armário observando vocês guardarem seu dinheiro maldito.

Ficou sentado sozinho na escuridão, olhando para o fogo baixo e vendo caras nele. A última cara foi tão feia e tão simiesca que ele olhou para ela assombrado. A cara ficou tão vivida que, com uma risada inquieta, ele procurou um copo na mesa que tivesse um pouco de água para jogar no fogo. Sua mão pegou na pata de macaco, e com um ligeiro estremecimento ele limpou a mão no casaco e foi dormir.

Na claridade do sol de inverno, na manhã seguinte, quando este banhou a mesa do café, ele riu de seus temores. Havia um ar de naturalidade na sala que não existia na noite anterior, e a pequena pata suja estava jogada na mesa de canto com um descuido que não atribuia grande crença a suas virtudes.

- Eu creio que todos os velhos soldados são iguais - disse a Sra. White. - Essa idéia de dar ouvidos a tal tolice! Como é que se pode realizar desejos hoje em dia? E se fosse possível, como é que iam aparecer 200 libras, papai?

- caindo do céu, talvez - disse Herbert, com ar brincalhão.

- Morris disse que as coisas aconteciam com tanta naturalidade - disse o pai - que a gente podia até achar que era coincidência.

- Bem, não gaste o dinheiro antes de eu voltar - disse Herbert, ao se levantar da mesa. - Estou com medo de que você se torne um homem mesquinho e avarento, e vamos ter de renegá-lo.

A mãe riu e, acompanhando-o até a porta, viu-o descer a rua. Voltando à mesa do café, divertiu-se à custa da credulidade do marido. O que não a impediu de correr até a porta com a batida do carteiro, nem de se referir a sargentos da reserva com vício de beber, quando descobriu que o correio trouxera uma conta do alfaiate.

- Herbert vai dizer uma das suas gracinhas quando chegar em casa - disse ela, quando se sentaram para jantar.

- Com certeza - disse o Sr. White, servindo-se de cerveja -, mas, apesar de tudo, a coisa se mexeu na minha mão; eu posso jurar.

- Foi impressão - disse a senhora apaziguadoramente.

- Estou dizendo que se mexeu - replicou o outro. - Não há dúvida; eu tinha acabado... O que houve?

A mulher não respondeu. Estava observando os movimentos misteriosos de um homem do lado de fora, que, espiando com indecisão para a casa, parecia estar tentando tomar a decisão de entrar. Lembrando-se das 200 libras, ela reparou que o estranho estava bem-vestido e usava um chapéu de seda novo.

Por três vezes ele parou no portão, e depois caminhou novamente. Da quarta vez ficou com a mão parada sobre ele, e depois com uma súbita resolução abriu-o e entrou.

A Sra. White no mesmo momento desamarrou o avental rapidamente, colocando-o debaixo da almofada da cadeira. Convidou o estranho, que parecia deslocado, a entrar. Ele olhou para ela furtivamente, e ouviu preocupado, a senhora desculpar-se pela aparência da sala, e pelo casaco do marido, uma roupa que ele geralmente reservava para o jardim. Então ela esperou, com paciência, que ele falasse do que se tratava, mas, a princípio, ele ficou estranhamente calado.

- Eu... pediram-me para vir aqui - disse ele finalmente, e abaixando-se tirou um pedaço de algodão das calças. - Eu venho representando "Maw & Meggins".

A senhora sobressaltou-se.

- Aconteceu alguma coisa? - perguntou ela, ofegante - Acontecem alguma coisa a Herbert? O que é? O que é?

O marido interveio.

- Calma, calma, mamãe - disse ele rapidamente. - Sente-se e não tire conclusões precipitadas. O senhor certamente não trouxe más notícias, não é, senhor - e olhou para o outro ansiosamente.

- Eu lamento... - começou o visitante.

- Ele está ferido? - perguntou a mãe desesperada.

O visitante assentiu com a cabeça.

- Muito ferido - disse. - Mas não está sofrendo.

- Ah, graças a Deus! - disse a senhora, apertando as mãos. - Graças a Deus! Graças...

Parou de falar de repente quando o significado sinistro da afirmativa se abateu sobre ela, e ela viu a terrível confirmação de seus temores no rosto desviado do outro. Prendeu a respiração e, virando-se para o marido, menos perspicaz, pôs a mão trêmula sobre a dele. Seguiu-se um demorado silêncio.

- Ele foi apanhado pela máquina - repetiu o Sr. White, estonteado. - Ah! Sim.

Ficou sentado olhando para a janela e, tomando a mão da esposa entra as suas, apertou-a como tinha vontade de fazer nos velhos tempos de namoro há quase 40 anos.

- Ele era o único que nos restava - disse ele, voltando-se amavelmente para o visitante. - É difícil.

O outro tossiu e, levantando-se, caminhou lentamente até a janela.

- A firma me pediu para transmitir os nossos sinceros pêsames a vocês por sua grande perda - disse ele, sem olhar para trás. - Eu peço que compreendam que sou apenas um empregado da firma e estou apenas obedecendo ordens.

Não houve resposta; o rosto da senhora estava branco, os olhos parados e a respiração inaudível; no rosto do marido havia um olhar que o amigo sargento talvez tivesse na primeira batalha.

- Devo dizer que "Maw & Meggins" estão isentos de toda responsabilidade - continuou o outro. - Eles não têm nenhuma dívida com a família, mas, em consideração aos serviços de seu filho, desejam presenteá-los com uma certa soma como compensação.

O Sr. White largou a mão da esposa e, pondo-se de pé, olhou para o visitante horrorizado. Seus lábios secos pronunciaram as palavras:

- Quanto?

- Duzentas libras - foi a resposta.

Indiferente ao grito da esposa, o velho sorriu fracamente, estendeu as mãos como um homem cego e caiu, desfalecido, no chão.

No enorme cemitério novo, a alguns quilômetros de distância, os velhos enterraram seu morto e voltaram para casa mergulhada em sombras e silêncio. Tudo terminara tão rápido que a princípio nem se davam conta do que acontecera, e ficaram num estado de expectativa como se fosse acontecer mais alguma coisa - algo mais que aliviasse esse fardo, pesado demais para corações velhos.

Mas os dias se passaram, e a expectativa deu lugar à resignação - a resignação desesperançada dos velhos, às vezes chamada erradamente de apatia. Algumas vezes nem trocavam uma palavra, pois agora não tinham nada do que falar e os dias eram compridos e desanimados.

Foi por volta de uma semana depois que o velho, acordando subitamente de noite, estendeu o braço e viu-se sozinho. O quarto estava no escuro e o ruído de soluços baixinhos vinha da janela. Ele se levantou na cama e ficou ouvindo.

- Volte para a cama - disse ele ternamente. - Você vai ficar gelada.

- Está mais frio para ele - disse a senhora, e chorou novamente.

O som de seus soluços apagou-se nos ouvidos dele. A cama estava quente, e seus olhos pesados de sono. Ele cochilava a todo instante e acabou pegando no sono, quando um súbito grito histérico da esposa o despertou com um sobressalto.

- A pata! - gritou histericamente. - A pata de macaco!

Ele se levantou, alarmado.

- Onde? Onde está? O que houve?

Ela correu agitada até ele.

- Eu quero a pata - disse ela calmamente. - Você não a destruiu?

- Está na sala, em cima da prateleira - replicou ele atônito. - Por quê?

Ela chorou e riu ao mesmo tempo e, debruçando-se, beijou-o no rosto.

- Só tive essa idéia agora - disse ela histericamente.

- Por que não pensei nisso antes? Por que você não pensou nisso antes?

- Pensar em quê? - perguntou ele.

- Nos outros dois desejos - replicou ela rapidamente. - Nós só fizemos um pedido.

- Não foi suficiente? - perguntou ele, irado.

- Não - gritou ela, triunfante; - ainda vamos fazer um. Desça, apanhe a pata rapidamente, e deseje que o nosso filho viva novamente.O homem sentou-se na cama e arrancou as cobertas de cima do corpo trêmulo.

- Meu bom Deus, você está louca! Gritou ele, horrorizado.

- Pegue aquela coisa - disse ela, ofegante -, pegue depressa, e faça o pedido... Ah, meu filho, meu filho! O Marido riscou um fósforo e acendeu a vela.

- Volte para a cama - disse ele, incerto. - Você não sabe o que está dizendo.

- Nós conseguimos satisfazer o primeiro pedido - disse a senhora, febrilmente. - Por que não o segundo?

- Foi uma coincidência - gaguejou o velho.

- Vá buscar a pata e faça o pedido - gritou a esposa, tremendo de excitação.

O velho virou-se, olhou para ela, e sua voz tremeu.

- Ele já está morto há 10 dias e, além disso, ele... - eu não queria lhe dizer isso, mas... só consegui reconhecê-lo pela roupa. Se já estava tão horrível para você ver, imagine agora?

- Traga-o de volta - gritou a senhora, e o arrastou para a porta. - Você acha que tenho medo do filho que criei?

Ele desceu na escuridão, foi tateando até a sala e depois até a lareira. O talismã estava no lugar, e um medo horrível de que o desejo ainda não expresso pudesse trazer o filho mutilado apossou-se dele, e ficou sem ar ao perceber que perdera a direção da porta. Com a testa fria de suor, ele deu volta na mesa, tateando, e foi-se amparando na parede até se achar no corredor com a coisa nociva na mão.

Até o rosto da esposa parecia mudado quando ele entrou no quarto. Estava branco e ansioso, e para seu temor parecia ter um olhar estranho. Ele sentiu medo dela.

- Peça! - gritou ela, com voz forte.

- Isso é loucura - disse ele, com voz trêmula.

- Peça! - repetiu a esposa.

Ele levantou a mão.

- Eu desejo que meu filho viva novamente.

O talismã caiu no chão, e ele olhou para a coisa com medo. Então afundou numa cadeira, trêmulo, quando a esposa, com os olhos ardentes, foi até a janela e levantou a persiana. Ficou sentado até ficar arrepiado de frio, olhando ocasionalmente para a figura da velha senhora espiando pela janela.

O cotoco de vela, que queimara até a beirada do castiçal de porcelana, jogava sombras sobre o teto e as paredes, até que, com um bruxulear maior do que os outros, se apagou. O velho, com uma imensa sensação de alívio pelo fracasso do talismã, voltou para a cama, e um ou dois minutos depois a senhora veio silenciosamente para o seu lado.

Nenhum dos dois disse nada, mas permaneceram deitados em silêncio, ouvindo o tique-taque do relógio. Um degrau rangeu, e um rato correu guinchando através do muro. A escuridão era opressiva e, depois de ficar deitado por algum tempo, criando coragem, ele pegou a caixa de fósforos e, acendendo um, foi até embaixo para pegar uma vela.

Nos pés da escada o fósforo se apagou, e ele parou para riscar outro; no mesmo momento ouviu-se uma batida na porta da frente, tão baixa e furtiva que quase não se fazia ouvir. Os fósforos caíram-lhe da mão e espalharam-se no corredor. Ele permaneceu imóvel, com a respiração presa até a batida se repetir.

Então virou-se e fugiu rapidamente para o quarto, fechando a porta atrás de si. Uma terceira batida ressoou pela casa.

- O que é isso? - gritou a senhora, levantando-se.

- Um rato - disse o velho com voz trêmula -, um rato. Ele passou por mim na escada.

A esposa sentou-se na cama, escutando. Uma batida alta ressoou pela casa.

- É Herbert! - gritou. - É Herbert!

Ela correu até a porta, mas o marido ficou na frente dela e, pegando-a pelo braço, segurou-a com força.

- O que você vai fazer? - sussurrou ele com voz rouca.

- É meu filho; é Herbert! - gritou ela, debatendo-se mecanicamente. - Eu esqueci que ele estava a 10 quilômetros daqui. Por que está me segurando? Me solte. Eu tenho de abrir a porta.

- Pelo amor de Deus não deixe entrar - gritou o velho tremendo.

- Você está com medo do próprio filho - gritou ela, debatendo-se. - Me solte. Eu já vou, Herbert; eu já vou.

Ouviu-se mais uma batida, e mais outra. A senhora com um arrancão súbito soltou-se e saiu correndo do quarto. O marido seguiu-a até a escada e chamou-a enquanto ela corria para baixo. Ele ouviu a corrente chocalhar e a tranca do chão ser puxada lenta e firmemente do lugar. Então a voz da senhora soou, nervosa e ofegante.

- A tranca - gritou ela alto. - Desça que eu não consigo puxar a tranca.

Mas o marido estava de joelhos no chão, procurando a pata desesperadamente. Se pelo menos conseguisse encontrá-la antes que a coisa entrasse. Uma série de batidas reverberou pela casa, e ele ouviu o arrastar de uma cadeira quando a esposa a colocou no corredor encostada na porta.

Ouviu o ranger da tranca quando esta se destravou lentamente, e no mesmo momento encontrou a pata de macaco, e desesperadamente fez o terceiro e último pedido.

As batidas pararam subitamente, embora ainda ecoassem na casa. Ele ouviu a cadeira ser arrastada de volta, e a porta se abrir. Um vento frio subiu pela escada, e um gemido alto e demorado de decepção e tristeza da esposa lhe deu coragem para correr até ela e depois até o portão. O lampião da rua que tremulava do outro lado brilhava numa estrada silenciosa e deserta.


por W. W. Jacobs

Amor Cigano

Ao lado do velho carroção, Berta remota um cachimbo tão velho quanto ela, que no dizer dos ciganos de sua tribo era tão velha quanto o tempo. No acampamento, ao lado leste das torres do Castelo de Epsnein, a planície desdobrava-se num lençol verde, batido àquela hora pela luz do luar.

Berta apertou mais os olhos miudinhos e fitou um ponto negro que avançava como uma flecha em sua direção. Era Jaino, o coxo, que vinha a toda brida, trazendo-lhe notícias de Zínara.

A velha cigana esperou que o acólito apeasse e então indagou com a voz roufenha, mais se assemelhando a um lamento fúnebre:

- Então, capeta... onde se mete aquela vagabunda?

Jaino abaixou a cabeça, riscou o chão três vezes em sinal de respeito, com a ponta do polegar, e falou excitado:

- Vi-a entrando no castelo pela porta que dá para o lado do rio. Berta retorceu o rosto numa expressão indefinida e os cabelos pardos eriçaram-se. Jaino afastou se temeroso. Sabia que quando aquilo ocorria, Berta entrava em comunicação direta com os seres das trevas!

Depois, olhando a lua boiando num firmamento muito azul, a velha praguejou alto e repetiu as palavras misteriosas da cabala. E num assomo de raiva, berrou para Jaino:

- Vai, desgraçado. Volte para lá e fique vigiando até a hora em que ela sair. Não a deixe vê-lo... e faça como mandei.

Claudicando da perna esquerda, um defeito que trazia de berço, Jaino azulou imediatamente, curtindo no fundo um sentimento de ódio e despeito. Também como os demais de sua tribo, era apaixonado por Zínara e não conseguia resistir aos encantos que sua beleza selvagem expandia.

Aceitara trabalhar de comum acordo com Berta a fim de poder obter a sua cota de vingança... pois desde há seis meses, quando o grupo se instalara próximo ao castelo, Zínara dera sinais de fraqueza evidente... enamorando-se de Robert Wall, filho de Lord de Epsnein. Aquilo motivara revolta geral no selo da tribo, mas ninguém tinha coragem de censurá-la... temendo perder suas atenções. Agora, era chegada a hora da vingança!

Às cinco horas da manhã, Jaino viu o portão abrir-se e por ele deslizar furtivamente a figura esbelta da bela cigana. E seus olhos arderam de ódio e o coração ameaçou sufocá-lo enquanto a mão apertava ardorosamente o cabo de prata do punhal húngaro.

Zínara atravessava agora a metade do campo. Seus cabelos vinham soltos, soprados pela brisa suave da manhã e os raios da aurora tornavam mais excitantes sua pele morena, refrescada pela noite que passara nos braços de Robert Wall.

Jaino lutou consigo mesmo. Sabia o que era preciso fazer... mas faltava-lhe a força necessária. Bateu duas ou três vezes contra o solo e invocou a figura de Berta. Quase subitamente, do canto de uma pequena sebe, viu subir uma labareda arroxeada e sentiu um forte cheiro de alho... Sabia que Berta estava ali em corpo mental. Em pequenas convulsões, viu-se repentinamente envolvido pela chama fria e temeu que fosse perder a consciência.

Zínara estava bem próxima agora. Um instinto secreto advertia-o de que era preciso agir com rapidez e segurança para evitar qualquer reação da parte da moça. Uma palavra de perdão que fosse proferida por ela, quebraria nele as forças do mal que o encantavam. Mas, tal coisa não aconteceu. O que viu depois de um salto felino e de haver sua mão mergulhado de duas a três vezes no peito da cigana foram os olhos vidrarem-se e uma golfada de sangue inundar-lhe o rosto.

Morta, a cigana caiu sem um grito de dor. Seu corpo ficou no chão estendido, enquanto Jaino fugia a toda velocidade em direção ao acampamento.

Iniciavam-se os primeiros movimentos da manhã, agitando a vida da comunidade, quando o rapaz chegou espavorido, banhado em sangue. O primeiro a vê-lo assim foi Dormik, o tocador de flauta e, reconhecidamente, o maior enamorado de Zínara.

- Louvado, Jaino! Que houve? Está ferido?

Tomando de súbito pânico, o rapaz negaceou com a cabeça e, sem prestar atenção ao que dizia, afirmou:

- Oh não! Matei Zínara. Está lá no bosque com o peito aberto!

Nada poderia ter maior força do que aquelas palavras que funcionaram como um impulsionador mágico. Imediatamente toda a tribo foi to-mada de incontido alvoroço. E ali mesmo, iniciaram o julgamento cigano: os mais velhos sentaram no interior de um círculo feito a giz, tendo os jovens à sua volta. A sentença partia do meio do círculo e era atirada contra os mais jovens em torno.

Movendo os lábios em sussurros, os anciãos discutiam. Depois, de acordo com o decidido, era atirado para cima um búzio preto ou branco: o primeiro condenava o acusado à morte; o segundo, bania-o para sempre. Os dois juntos, ao mesmo tempo, significavam absolvição.

A mente de Jaino estava por demais perturbada para prestar atenção a esses detalhes e somente quando o búzio preto foi lançado ao ar, pôde compreender que iria morrer.

Tomado de pânico, gritou por Berta, pedindo-lhe socorro, mas nem uma palha moveu-se. A velha cigana continuava imóvel, sentada no seu canto sem mostrar a menor preocupação pela sorte de Jaino.

Ouvindo a risada da turba, Jaino foi levado a uma árvore próxima, no tombo de um cavalo e tendo a corda passada no pescoço. Num movimento rápido, o carrasco alçou um galho forte e depois de proferidas as palavras do Wandor preparou-se para espalmar o animal, deixando o condenado balançando-se pelo pescoço na ponta da corda. Súbito, alguém lembrou-se:

- Vamos buscar o corpo de Zínara para que esteja presente à execução!

- Não - gritou Berta - saindo do seu horrível mutismo. - Eu mesma irei.

- Como tu, velha bruxa? Não tens forças nem para...

Berta lançou um olhar gelado sobre o audacioso e ele se catou enco-lhendo-se acovardado a um canto do grupo. Em seguida, a velha sumiu na planície. Mas, a impaciência, o ódio e a revolta gerados no coração da turba não podiam esperar mais. A figura de Jaino era um desafio brutal às lembranças amorosas destruídas com a morte de Zínara. E por que mantê-lo vivo por mais tempo? Sim, por quê?

Um par de mãos vigorosas assustou o animal, fazendo-o sair a galope. Um tranco forte deteve a vítima na ponta do baraço... E momentos antes de expirar para sempre, ainda viu, surpreso, como os demais, a figura esbelta da bonita cigana surgindo da planície como se nada lhe tivesse acontecido... trazendo sobre os ombros o corpo inerte da velha Berta.

Depois, atirando um largo sorriso à todos, a cigana aproximou-se de Jaino, que já exalava o último suspiro e disse baixinho para que ninguém a ouvisse:

- Obrigada, Jaino. Agora poderei viver mais cem anos!...

Só então, Jaino reconheceu em Zínara a voz roufenha e cavernosa de Berta. Mas aí... já era tarde. Tarde demais para arrepender-se!


por Normam B. Peace

Pé Grande finalmente encontrado ou fraude


Dois caçadores afirmaram em uma conferência de imprensa em Palo Alto, Califórnia na sexta-feira 15 de Agosto que possuem em sua guarda o corpo de um "Sasquatch" também conhecido como "Bigfoot" ou "Pé Grande" mas, mostraram apenas 2 fotos e 3 exames de DNA inconclusivos. A conferência não foi aberta ao público, somente a membros da imprensa credenciados.

Conforme contam os caçadores Matthew Whitton e Rick Dyer, o "Pé Grande" foi encontrado morto em uma floresta no Norte da Georgia, EUA. Os dois homens mais o "showman de Las Vegas" e pesquisador profissional de "Bigfoots", Tom Biscardi, disseram que o corpo é genuíno, e que vão efetuar uma autópsia na próxima semana.

O criptozoologista Loren Coleman, autor de vários livros sobre o "Bigfoot", que pesquisa o assunto desde os anos 60, ceticamente chamou a descoberta de "Gorila da Georgia" e descreveu a conferência de imprensa como um "show de carnaval". Na conferência, entre centenas de jornalistas céticos havia uma pessoa em uma fantasia de "Chewbacca". Quando foi perguntado a Biscardi quanto dinheiro ele esperaria ganhar com o corpo, ele disse: "O quanto Eu puder". Coleman disse que Biscardi é um "hoaxer", conhecido por já ter perpetrado várias fraudes.

O "Bigfoot Field Research Organization" um grupo que tenta ratificar avistamentos do "Bigfoot", publicou um release classificando a coisa toda como um "trote" e chamando Biscardi de "abutre barato". "O propósito desta grande artimanha," diz o release, "é atrair muita atenção para ele mesmo...ter a atenção da grande mídia enquanto ele fecha negócios para documentários, livros, etc..."

As versões contadas pelos dois homens mudaram várias vezes desde o início. Na primeira o animal teria sido baleado por um ex-criminoso e os dois homens o teriam seguido pela floresta. Em uma segunda versão, eles o encontraram quando estavam em uma expedição procurando por uma família de "Bigfoots" que eles dizem ter visto nas montanhas do Norte da Georgia. Em uma terceira versão, eles estavam fazendo "hiking" na floresta e encontraram o animal morto por ferimentos na floresta.

Na sexta-feira, Matthew Whitton disse que ele mesmo nem acreditava no "Bigfoot" e que foi apenas sorte, embora descreva a si mesmo como sendo o "melhor rastreador de Bigfoot do mundo" (Abaixo foto do suposto "Sasquatch" descongelado no freezer).

Algumas características do suposto Pé Grande

O corpo tem 7 pés e 7 polegadas de tamanho (2,27 Mts).
Pesa mais de 500 libras (+250 Kg).
Aparenta ser meio humano meio macaco - É um macho.
Tem pêlos avermelhados e olhos preto-acinzentados.
Tem 2 braços e 2 pernas com 5 dedos nos pés e mãos.
O pés são chatos e similares aos de humanos.
Sua pegada tem 16 polegadas e 3/4 de comprimento. (41,87 cms)
Suas mãos medem 11 polegadas e 3/4 de comprimento (29,37 cms) e 6 polegadas e 1/4 de largura. (15,62 cms)
A criatura anda ereta (supostamente vários foram vistos no dia em que o corpo foi encontrado).
Seus dentes são mais similares aos de humanos do que aos de macacos.

Circula pela internet também a versão de que o corpo seria apenas a fantasia acima, vendida por US$ 449,99 na loja online "The Horror Dome". Está aqui a maior bobagem publicada neste site.

Fontes: Fianna.multiply.com/journal

Steven Spielberg


No dia 31 de maio de 2002, a trilha sonora de Indiana Jones tocava no volume máximo durante uma cerimônia de formatura. Os alunos eram estudantes de cinema e artes eletrônicas da Universidade do Estado da Califórnia, em Long Beach (EUA). Até aí, tudo normal. Surpreendente mesmo é que um dos formandos era ninguém menos que o diretor responsável pela famosa trilogia do arqueólogo: Steven Allan Spielberg.

O cinqüentão Spielberg estava no meio dos alunos, feliz da vida, num evidente incentivo à educação nos Estados Unidos. Ele havia iniciado seus estudos na universidade em 1965, mas interrompeu o curso em 1968 para dedicar-se à carreira. Trinta e três anos mais tarde concluiu o bacharelado e garantiu seu diploma.

No currículo, o recém-formado poderia incluir como experiência profissional alguns dos mais estrondosos sucessos de bilheteria de todos os tempos, como Poltergeist, O Fenômeno, ET, o Extraterrestre, as trilogias Parque dos Dinossauros e Indiana Jones, Tubarão e O Resgate do Soldado Ryan, entre outros.

Desde criança, a vida pessoal de Spielberg se confunde com seus trabalhos cinematográficos. Nascido em Cincinnati em 18 de dezembro de 1946, o pequeno Steve já dava umas escapadas da escola para editar algumas fitas de vídeo caseiro. Com 13 anos de idade passou a dirigir seus primeiros curtas. Filmar era uma fuga para a tensão entre seus pais, que se separaram quando ele tinha 17 anos. Depois de produzir pouco mais de meia dúzia de filmes, aos 21 anos assinou seu primeiro contrato profissional, com a Universal.

Até 1975, dirigiu um longa por ano, incluindo o brilhante debute Encurralado, sendo que o último desse período foi o responsável pelo grande impulso na sua carreira: Tubarão. O thriller, um sucesso de bilheteria, é considerado o pontapé inicial dos blockbusters de verão. A partir deste filme, os grandes estúdios passaram a investir no modelo que atraía multidões às salas de cinema do Hemisfério Norte durante a estação mais quente do ano. Star Wars, lançado dois anos depois sob direção de George Lucas, comprovou o fenômeno. É deste ano também Contatos Imediatos de Terceiro Grau, que rendeu a Spielberg sua primeira indicação ao Oscar na categoria melhor diretor.

Em 1979, ele encarou seu primeiro fracasso de bilheteria e crítica, com a comédia 1941, sobre uma suposta invasão da Califórnia por japoneses após o ataque a Pearl Harbor. O fiasco só foi superado em 1981, quando o diretor emplacou Os Caçadores da Arca Perdida, um dos mais expressivos exemplos de como é possível conciliar puro entretenimento com qualidade artística. Aqui uma nova indicação da Academia, mas nada de estatueta. A aventura teve duas seqüências, boas mas inferiores ao primeiro episódio: Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984) e Indiana Jones e a Última Cruzada (1989).

O filme protagonizado por Harrison Ford e produzido por George Lucas, firmou Spielberg no primeiro escalão dos diretores de Hollywood. Em 1982, a consagração definitiva veio com o lançamento de E.T, o Extraterrestre, a maior arrecadação da história do cinema até então, que rendeu uma nova indicação. Mas, novamente, ele ficou só na vontade. Em 1985, com A Cor Púrpura, o diretor experimentava um projeto mais maduro e controverso. Na mesma linha, em 1987, lançou O Império do Sol. Seu próximo sucesso comercial ocorreria somente em 1991, com Hook - A volta do Capitão Gancho, produção recebida com frieza pela crítica.

Em 1993, dois filmes do diretor lotaram as salas de cinema em todo o mundo. O primeiro, Jurassic Park, voltou a quebrar recordes e se tornou o maior fenômeno de bilheteria do cinema até a data. Já o segundo era um projeto de valor pessoal, A Lista de Schindler, sobre o martírio dos judeus na Segunda Guerra Mundial. Foi por este último que Spielberg finalmente conseguiu a sua primeira estatueta dourada de Melhor Diretor da Academia de Artes.

A consagração artística e a conta bancária proporcionaram um novo salto na carreira do realizador, que passou de funcionário a dono de estúdio em 1994, fundando a Dreamworks SKG em sociedade com Jeffrey Katzenberg, da Disney, e David Geffen, proprietário da gravadora Geffen Records. Hollywood não testemunhava o surgimento de um novo grande estúdio havia 75 anos. Amistad, de 1997, inaugurou a era Spielberg pela Dreamworks, mas teve a ingrata missão de concorrer com Titanic e acabou amargando um fraquíssimo desempenho nas bilheterias.

A recuperação veio no ano seguinte, com o Resgate do Soldado Ryan. Mais uma vez o pano de fundo é a Segunda Grande Guerra, revelando a sensibilidade do diretor de origem judaica com o tema. A ligação é forte, já que a avó de Spielberg sobreviveu a um campo de concentração na Polônia. E o pai, um engenheiro eletrônico, serviu o Exército durante a Guerra, no sudeste asiático. Pelo filme, Spielberg acabou levando para casa sua segunda estatueta de melhor diretor.

Os dois longas seguintes, e olha que são desnecessariamente longos, foram um verdadeiro teste de paciência para não-fãs de Spielberg, principalmente A.I. - Inteligência Artificial, de 2001. Minority Report, lançado em 2002, mostrou-se um pouco melhor. Mesmo assim, é incrível como o diretor conseguiu transformar dois excelentes pontos de partida em algo muito chato.

Ainda em 2002 uma nova recuperação veio com o lançamento de Prenda-me se For Capaz. Um filme despretensioso e, talvez por isso mesmo, muito mais envolvente que os dois anteriores. Mais ou menos na mesma linha foi o simpático O Terminal, de 2004; seguido pelo suspense de ficção científica Guerra dos Mundos, lançado em 2005, outro sucesso para o cineasta.

Em 2006, Spielberg, continuando a alternar blockbusters e produções consideradas mais "sérias", com grandes temas, lançou Munique, sobre a caçada aos assassinos de onze atletas da delegação israelense durante os Jogos Olímpicos de 1972. Agora, retoma um de seus maiores sucessos de todos os tempos com o quarto Indiana Jones.

Durante três décadas, Spielberg construiu seu reconhecimento como um dos mais importantes diretores de todos os tempos, seja pela vocação empresarial, pelo espírito visionário ou, simplesmente, por sua habilidade artística. Nesses 30 anos de altos e baixos, o diretor teve várias vezes o prestígio abalado, mas conseguiu dar a volta por cima, sempre em busca da perfeição cinematográfica. Unir entretenimento de massa com aprovação da crítica é uma das tarefas mais difíceis na sétima arte. E nesse quesito, Spielberg é insuperável.

Curiosidades

* Tubarão foi o primeiro filme a ultrapassar a arrecadação de US$ 100 milhões.

* Em 1997, o faturamento pessoal do diretor chegou a US$ 283 milhões, o maior do show business mundial naquele ano. Ele possui hoje uma fortuna superior a 2 bilhões de dólares.

* Com 8 anos de idade, Spielberg passou a manifestar suas emoções brincando com a câmera de 8mm do pai.

* Em 1957, os Spielbergs se mudaram para Scotsdale, no Arizona, onde eram a única família judia em toda a vizinhança.

* Na escola, o futuro cineasta deparou-se com o anti-semitismo. Havia épocas em que apanhava com freqüência no recreio.

* Frase famosa de Spielberg: “Antes de iniciar as filmagens de um novo trabalho, eu sempre assisto a quatro filmes. São eles: Os Sete Samurais (Akira Kurosawa, 1954), Lawrence da Arábia (David Lean, 1962), A Felicidade não se Compra (Frank Capra, 1946) e Rastros de Ódio (John Ford, 1956)."

* Spielberg nunca tomou café em toda a vida. A única tentativa ocorreu quando ele era criança, mas detestou o gosto.

* Além dos filmes que dirigiu, Spielberg atuou decisivamente como produtor nos sucessos Poltergeist (1982), Gremlins (1984 e a continuação em 1990), a trilogia De Volta para o Futuro (1985, 1989 e 1990), Goonies (1985), A Máscara do Zorro (1998) e Shrek (2001), entre outros.

Fonte: Omelete Cine - Steven Spielberg

Poltergeist, O Fenômeno

"Eles estão aqui". Foi com esta frase que a atriz mirim, então com sete anos, Heather O'Rouker apresentou ao mundo um dos melhores filmes de terror da história, Poltergeist - O Fenômeno (Poltergeist, 1982).

Criado e produzido pelo cineasta Steven Spielberg (E.T.) e dirigido por Tobe Hooper (O Massacre da Serra Elétrica), o filme marcou época e continua sendo classificado como uma das melhores produções do gênero.

A velha história da casa assombrada marcou pela excelente forma como foi conduzida por seus realizadores, possuir autênticos momentos de medo, além de um elenco impecável e também pelo trágico desfecho da atriz O'Rourke, que faleceu repentinamente logo após terminar de gravar o terceiro capítulo da série (Poltergeist 3), em 1988, aos 12 anos.

Original do alemão "polten", que significa "bater" e "geist", traduzido como "espírito", o fenômeno tratado pelo filme, o poltergeist, é reconhecido e estudado por grupos de parapsicólogos de várias partes do mundo há décadas. Atividades ligadas a este tipo de acontecimento podem ser ligadas a pessoas e são marcadas por objetos que se movem sem que ninguém os toque, barulhos estranhos e interferências em aparelhos tecnológicos como telefones e equipamentos domésticos. A duração pode ser de algumas horas até meses ou acabar de repente, diferente de assombração clássica onde um local, em geral uma casa, sofre do fenômeno por décadas.

É nesse contexto, que surge a família Freeling. Trata-se na verdade de uma alusão ao sonho americano, onde pessoas felizes moram em uma bela casa de uma pequena cidade chamada Cuesta Verde. A família é composta pelo pai Steven (Craig T. Nelson, de Advogado de Diabo), a mãe Diane (Jobeth Williams, de Kramer vs. Kramer) e os filhos Dana (Dominique Dunne), Robbie (Oliver Robins) e a caçula Carol Anne (Heather O´Rouker). Tudo vai bem até que certos acontecimentos estranhos começam a chamar a atenção da família, como cadeiras que se mexem sozinhas e utensílios de metal que misteriosamente aparecem tortos, entre outros.

O que parece sem importância logo toma proporções trágicas quando durante uma noite chuvosa, a pequena Carol Anne desaparece misteriosamente. Vista pela última vez no quarto onde dormia, a garota simplesmente desaparece do mundo físico sendo levada para uma dimensão paralela. A única forma de contato que a família consegue ter com a menina será através de uma televisão ligada em um canal sem sintonia e que por este motivo está aberto para receber sinais e ondas de vários tipos e freqüências.

Procurando auxílio, a família vai recorrer à parapsicóloga Dra. Lesh (Beatrice Straight, de Amor sem Fim) e posteriormente a clarividente Tangina Barrons (Zelda Rubinstein, de Os Olhos da Cidade são Meus). Esta última vai ter fundamental importância para a trama por servir como elemento de ligação entre o mundo físico e o espiritual, além de apresentar o motivo pelo qual a garota tenha sido escolhida por estes espíritos.

De acordo com Tangina, Carol Anne representa uma presença viva no plano espiritual onde está sendo mantida e que estas almas que estão com ela vêem na energia vital da criança a força que eles não possuem, mas que passam a ter por estarem com ela. A clarividente ainda alerta a família para uma terrível presença que sentiu próximo da garota e que é forte o suficiente para fazê-la vagar numa dimensão paralela definitivamente caso algo não seja feito.


O filme Poltergeist fez enorme sucesso de público e de crítica. Grande parte deste fenômeno de bilheterias se deu pela combinação de vários elementos que fazem a produção parecer um filme de terror de luxo. A história, bem construída, tem seu desenvolvimento feito de forma eficaz. Os efeitos especiais criados pela Industrial Light & Magic (ILM) de George Lucas são muito bem realizados, demonstrando um cuidado grande com a parte técnica.

A bela trilha sonora composta pelo excelente Jerry Goldsmith (Jornada nas Estrelas) foi indicada ao Oscar, assim como para efeitos sonoros e efeitos especiais, porém, não ganhou em nenhuma categoria. O sucesso da película também acontece pelo eficiente clima de medo que é construído durante o filme até o apoteótico final. Medo este que não é criado simplesmente através de cenas fortes, mas por situações que conduzem o espectador quase a um medo infantil, como os filhos do casal Freeling. Podemos citar cenas memoráveis como o pavoroso palhaço que fica no quarto das crianças, a piscina de esqueletos, a primeira aparição das entidades espirituais, entre tantas outras.

Um outro ponto que merece destaque do filme é o de ser capaz de injetar elementos dramáticos na trama, através da mãe desesperada pelo desaparecimento da filha causado por algo que a própria família não compreende. Desespero aliado ao sentimento de impotência afinal a garota não foi seqüestrada por criminosos que possam ser procurados pela polícia.

Temos aqui uma entidade sobrenatural e a busca de uma solução parece cada vez mais distante. A grande casa vai se resumir então apenas à sala, onde toda a família vai permanecer próxima do aparelho de televisão sempre ligado na espera da voz da garota desaparecida. Num dos momentos mais tensos, a conversa da mãe com Carol Anne é interrompida pela fala da menina que diz "mamãe tem alguém aqui comigo, é você?". Paralisada pelo medo, a mãe de Carol chora diante da impotência em proteger a filha.

Baseado no episódio Little Girl Lost, da série de TV dos anos 60 Twilight Zone, que conta a história de uma garota que desaparece dentro do seu quarto, Poltergeist foi escrito, roteirizado e produzido por Steven Spielberg. Mesmo com a direção ficando por conta de Tobe Hooper, muitas das decisões técnicas e relativas ao próprio andamento do filme ficaram por conta de Spielberg.

Analisado hoje, Poltergeist tem muito mais a característica de uma produção de Spielberg, dos cuidados técnicos ao roteiro sólido, do que das produções assinadas por Hooper, que mesmo sendo o criador de clássicos como O Massacre da Serra Elétrica e Eaten Alive, possui um estilo mais artesanal de filmar.

O filme, e posteriormente a série, Poltergeist foi também marcado pela morte de membros do elenco, algumas de forma trágica, como a atriz que fez a filha mais velha Dana, Dominique Dunne, que foi estrangulada pelo namorado, John Thomas Sweeney, quatro meses depois do lançamento do filme, em 4 de novembro de 1982 (por Filipe Falcão).

Ficha Técnica

Título Original: Poltergeist
Gênero: Terror
Tempo de Duração: 115 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1982
Estúdio: MGM
Distribuição: MGM
Direção: Tobe Hooper
Roteiro: Steven Spielberg, Michael Grais e Mark Victor, baseado em estória de Steven Spielberg
Produção: Frank Marshall e Steven Spielberg
Música: Jerry Goldsmith
Direção de Fotografia: Matthew F. Leonetti
Desenho de Produção: James H. Spencer
Edição: Michael Kahl
Efeitos Especiais: Industrial Light & Magic

Sinopse

Família de classe média vai morar em novo bairro e passa a sofrer a ameaça de estranhos fenômenos que movem objetos e levam a filha mais nova, de cinco anos, para dentro de um aparelho de TV. Para recuperar a criança os pais pedem a ajuda de uma médium especialista em almas penadas, que os ajudará a revelar o mistério que se esconde não só na casa deles, mas nas colinas da região.

Prêmios

Indicações para o Oscar de Melhor Roteiro Original, Efeitos Sonoros e Efeitos Visuais.

Fonte: Boca do Inferno: Poltergeist; webcine - Poltergeist, O fenômeno.

Fantasmas

Há vários anos, fiquei num pequeno apartamento junto de uma cabana. A propriedade ficava longe das luzes da cidade e, em noites claras, as sombras eram um pouco fantasmagóricas. Algumas vezes, principalmente nas noites escuras do outono e do começo do inverno, eu tive a estranha sensação de que não estava sozinho.

Numa noite em que eu estava no apartamento, ouvi uma pancada abafada, que parecia vir de dentro da cabana. Normalmente eu teria desconsiderado o som, em razão de o prédio ser centenário, mas era uma noite assustadora e eu já tinha visto o terreno ao redor da cabana afundar depois de escurecer. Depois de ouvir o som várias vezes, comecei a me perguntar se estava acontecendo algo sobrenatural, mas não tive coragem de ir ver.

Na manhã seguinte, ouvi o mesmo som enquanto estava do lado de fora e, quando me virei para ver o que era, vi uma maçã rolando pela grama. Para provar a teoria, peguei a maçã e a larguei. O som era idêntico ao que havia me assustado na noite anterior.

Relatos de fantasmas que causavam mortes ou desastres eram freqüentes na era vitoriana, mas parecem ser menos comuns atualmente. Os pesquisadores ofereceram algumas explicações possíveis para essa queda de mensageiros sobrenaturais:

* as pessoas não relatam mais terem visto os espíritos de seus entes amados por medo de parecerem loucos;

* as melhorias na comunicação, como telefones e o e-mail, descartaram a intervenção dos fantasmas na comunicação humana.

Durante o dia, vendo as maçãs caídas embaixo da árvore, a idéia de achar que a cabana era assombrada parecia tola, mas noites escuras e prédios velhos podem fazer que mesmo as pessoas mais céticas se questionem sobre a existência de fantasmas. Segundo uma pesquisa Gallup de 2005, mais de um terço dos americanos acreditam que casas podem ser assombradas e aproximadamente 32% acreditam especificamente em fantasmas.

Para os que acreditam, um fantasma é o espírito de uma pessoa morta que pode ainda não ter ido para o "além-vida" ou que tenha voltado de lá. A definição de "espírito" pode variar. Alguns o descrevem como a alma de uma pessoa, ao passo que outros acreditam que seja a impressão energética que uma pessoa deixa no mundo.

Os seres humanos acreditam (ou não) em fantasmas há milhares de anos. Eles são mencionados até na obra literária mais antiga que se conhece, "A Epopéia de Gilgamesh". Histórias de fantasmas fazem parte do folclore da maioria das culturas, embora os detalhes variem muito em cada região.

As pessoas descrevem encontros fantasmagóricos de várias formas diferentes. As pessoas vêem aparições ou luzes estranhas, sentem uma presença no ambiente, ouvem barulhos ou sentem uma queda brusca de temperatura. Elas sentem na cozinha o cheiro da comida preferida de um familiar morto ou ouvem a música favorita tocando com o rádio desligado. Os objetos caem das prateleiras e as portas abrem e fecham sozinhas. A eletricidade fica desordenada, fazendo que as luzes pisquem ou que a TV ligue ou desligue sozinha. Algumas vezes as pessoas não passam por nada que seja anormal, mas reparam em aparições ou formas estranhas quando olham para fotos que tiraram.

Algumas histórias sobre fantasmas envolvem aparições visíveis, restritas a lugares ou famílias específicas. Esses fantasmas normalmente aparecem como um aviso de que alguém irá morrer. Eles não são todos humanos: alguns tomam a forma de animais. Semelhantemente, alguns registros de fantasmas envolvem aparições que informam amigos ou membros da família sobre mortes recentes ou crises iminentes. Alguns pesquisadores da paranormalidade classificam isso como uma forma de telepatia em vez de um fantasma real.

Outros fantasmas foram relatados como sendo os espíritos de pessoas que morreram de forma violenta ou repentina. Eles podem reconstituir suas mortes ou tentar se vingar. Por exemplo: algumas pessoas acreditam que as Luzes Marrons da Montanha da Carolina do Norte (luzes piscantes que aparecem no declive da montanha) sejam os espíritos dos americanos nativos que morreram em guerras. Algumas vezes as reproduções fantasmagóricas de objetos inanimados, como navios naufragados ou carros batidos, reaparecem depois de acidentes ou tragédias.

Finalmente, há os fantasmas que estão por aí porque se negam a ir embora ou não conseguem deixar a Terra. Pesquisadores da paranormalidade normalmente se referem a esses fantasmas como espíritos materiais. Um fantasma material pode assombrar um lugar específico, como a casa onde vivia, o lugar que mais gostava de visitar ou o lugar onde morreu. Ele pode estar tentando passar uma mensagem para amigos ou entes queridos para completar uma tarefa que começou em vida ou para se agarrar a sua casa ou seus pertences. Alguns pesquisadores e médiuns dizem serem capazes de encorajar tais espíritos a se desamarrarem dos nós que os prendem à Terra e irem para o mundo espiritual.

Para muitas pessoas, ver, ouvir ou sentir um fantasma é o suficiente para provar sua existência, mas pesquisadores encontraram várias explicações possíveis para fenômenos comumente atribuídos a fantasmas.

A Câmara de Horrores do Dr. Phibes

Agora Dr. Phibes (Vincent Price) parte para o Egito buscando um rio perdido e oculto nas pirâmides (O Rio da Vida) onde supostamente se alcançava a imortalidade. Leva então consigo sua esposa Victoria embalsamada, na esperança de ressuscitá-la e obter a vida eterna para os dois. Vide o comentário da sequência inicial em O Abominável Dr. Phibes.

Ficha Técnica

Ano: 1972
País: Inglaterra
Duração: 90 minutos
Direção: Robert Fuest
Roteirista: Robert Fuest, Robert Blees
Elenco: Vincent Price, Robert Quarry, Peter Jeffrey, Valli Kemp, Fiona Lewis, Peter Cushing, Berry Reid, Caroline Munro.

Fonte: Camâra de Horrores do Dr. Phibes, A

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O Abominável Dr. Phibes

Um dos maiores monstros sagrados do cinema de horror, Vincent Price é lembrado por vários de seus personagens ao longo de sua carreira, mas nada tão marcante quanto sua interpretação como o psicopata Dr. Anton Phibes.

Assim como imortalizamos ao longo da história o monstro de Frankenstein a Boris Karloff e o Conde Drácula a Bela Lugosi (anos 1930 e 40) e Christopher Lee (décadas de 1950, 60 e 70), ou ainda Freddy Krueger a Robert Englund (anos 1980 e 90 - este, é claro, infinitamente inferior aos mitos anteriores), Price ficou associado ao Dr. Phibes, único personagem em sua carreira a ter uma sequência de filmes.

Dirigido em 1971 por Robert Fuest e com produção inglesa da American International Pictures, "O Abominável Dr. Phibes", é um típico exemplo do estilo "camp", com visual e cenários muito coloridos e estética brega, porém um clássico absoluto do humor negro em sua essência.

O Dr. Phibes, deformado em um acidente e dado como morto, planeja uma maquiavélica vingança contra a equipe de cirurgiões que ele acusa de falharem em salvar a sua esposa Victoria, na mesa de operações. Auxiliado por uma bela, misteriosa e silenciosa jovem, Vulnavia (Virginia North), ele executa todos com muita arte e engenhosidade, inspirando-se nas históricas dez pragas de Deus contra um faraó egípcio. Os assassinatos calculados despertaram a atenção da polícia que em vão fica em seu encalço tentando impedí-lo.

Desfigurado pelo acidente, Dr. Phibes transformou-se numa criatura hedionda que utilizava uma máscara com suas antigas feições e falava através de um gramofone plugado a sua garganta que alterava seu tom de voz para algo bem gutural. E é através desse orifício que ele também ingeria seus alimentos.

Apesar dos brutais e inventivos assassinatos, Dr. Phibes mantinha uma atmosfera romântica em torno de sua vingança, onde possuía até uma orquestra de bonecos mecânicos em seu esconderijo, que tocavam para ele e sua assistente dançarem comemorando cada crime cometido. Além disso, ele mantinha também um órgão no estilo "O Fantasma da Ópera", onde tocava suas melodias fúnebres, enquanto derretia a face de bonecos de cera com fogo após o sucesso de mais assassinatos.

Após dizimar com maestria a equipe de médicos incompetentes, Dr. Phibes voltou novamente em 1972 na sequência "A Câmara de Horrores do Abominável Dr. Phibes" com mesma direção e produção do filme original. Agora ele parte para o Egito buscando um rio perdido e oculto nas pirâmides (O Rio da Vida) onde supostamente se alcançava a imortalidade. Leva então consigo sua esposa Victoria embalsamada, na esperança de ressuscitá-la e obter a vida eterna para os dois. Em seu rastro seguem também um grupo de arqueólogos com o mesmo objetivo, obrigando Dr. Phibes a liquidá-los.

A sequência de assassinatos artísticos continua com a mesma intensidade, talvez um pouco mais gratuitos agora, porém cada vez mais engenhosos e divertidos, o que inspirou outro filme de Vincent Price no ano seguinte, "As Sete Máscaras da Morte" (Theatre of Blood), onde interpretou um ator shakespereano que simula suicídio e se vinga ferozmente de seus críticos, inspirando-se em textos de Shakespeare.

O Dr. Phibes foi um típico "serial killer" do cinema, porém ele chacinava suas vítimas com classe e genialidade, arquitetando cuidadosamente seus métodos e maneiras de matar, como um verdadeiro cavalheiro, combinando com a personalidade aristocrática de Vincent Price. Bem diferente das dezenas de filmes posteriores onde os assassinos em série como os psicopatas famosos, porém pouco inteligentes, Jason Voorhees (Sexta-Feira 13) e Michael Myers (Halloween), interpretados por atores inexpressivos, sempre mancharam as telas de sangue ao exagero e com pouca inventividade em seus crimes, variando apenas no uso das armas (de machados à serras elétricas) ou nos métodos brutais (mutilações diversas).

Mas o horror é fascinante por tudo isso, por abranger um infindável universo onde há espaço para todas as manifestações e estilos e onde tudo tem características próprias e sua importância na consolidação do gênero como arte de entretenimento (por Renato Rosatti).


Ficha Técnica

O Abominável Dr. Phibes (The Abominable Dr. Phibes, ING, 1971) 91minutos
Direção: Robert Fuest
Roteiro: James Whiton e William Goldstein
Produção: Louis M. Heyward e Ron Dunas
Produção Executiva: Samuel Z. Arkoff e James H. Nicholson
Música: Basil Kirchin
Fotografia: Norman Warwick
Maquiagem: Trevor Cole-Rees
Efeitos Especiais: George Blackwell
Edição: Tristam Cones
Direção de Arte: Bernard Reeves
Elenco: Vincent Price (Dr. Anton Phibes), Joseph Cotten (Dr. Vesalius), Peter Jeffrey (Inspetor Trout), Hugh Griffith (Rabbi), Terry-Thomas (Dr. Longstreet), Virginia North (Vulnavia), Caroline Munro (Victoria Phibes), Aubrey Woods (Goldsmith), Susan Travers (Enfermeira Allen); David Hutcheson (Dr. Hedgepath); Edward Burnham (Dr. Dunwoody); Alex Scott (Dr. Hargreaves); Peter Gilmore (Dr. Kitaj); Sean Bury (Lem Vesalius).

Sinopse

Para quem gosta de filmes de terror – no que têm de pior e de melhor -, um prato cheio. Dr. Phibes (Vincent Price) é um gênio louco e incompreendido, querendo se vingar dos médicos que o julgaram culpado pela morte da esposa. Escondido num cinema abandonado, arquiteta planos mirabolantes a partir da leitura do Velho Testamento, mais especificamente da história que fala das sete pragas do Egito.

Fontes: O Abominável Dr. Phibes; Webcine: Abominável Dr. Phibes, O.
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