domingo, 30 de novembro de 2008

O Festival

Efficiut Daemones, ut quae non sunt, sic tamen quasi sint, conspicienda bominibus exhibeant. (Lactantius)

Eu estava longe de casa, e o feitiço do mar oriental havia caído sobre mim. Ao crepúsculo, eu o ouvia batendo nas rochas e sabia que ele ficava logo depois do monte onde os salgueiros se contorciam contra o céu claro e as primeiras estrelas da noite. E como meus pais haviam me chamado para a velha cidade mais adiante, atravessei a neve rasa e necém-caída ao longo da estrada que subia até onde Aldebarã bailava por entre as árvores; na direção da cidade muito antiga, que eu nunca tinha visto, mas com a qual várias vezes sonhara.

Era o Yuletide, que os homens chamam de Natal, embora saibam em seus corações que é mais antigo que Belém e a Babilônia, mais velho que Mênfis e a Humanidade. Era o Yuletide, e eu havia vindo finalmente à antiga cidade costeira onde minha gente havia habitado e mantido a festividade mesmo nos velhos tempos, quando ela era proibida; onde eles também haviam instruído seus filhos a manterem o festival uma vez a cada século, para que a memória dos segredos primais não fosse esquecida. Minha gente era antiga, e já eram antigos mesmo quando esta terra foi colonizada, três séculos atrás. E eles eram estranhos, porque tinham vindo como um povo furtivo e obscuro dos jardins de papoulas narcóticas do sul, e falavam outra língua antes de aprenderem a língua dos pescadores de olhos azuis. E eles estavam dispersos, e compartilhavam apenas os rituais de mistérios que nenhum vivente poderia entender. Eu era o único que tinha voltado aquela noite à velha cidade pesqueira, como rezava a lenda que apenas os pobres e solitários lembravam.

Então, além do cume da colina, vi Kingsport com seus moinhos e campanários, telhados e chaminés, cais e pequenas pontes, salgueiros e cemitérios; intermináveis labirintos de ruas íngremes, estreitas e tortas, vertiginosas torres de igrejas que o tempo não ousou tocar; uma confusão incessante de casas coloniais amontoadas e espalhadas em todos os ângulos e níveis como os blocos desordenados dos folguedos de ulna criança; antigüidades pairando com asas cinzentas abertas em telhados duplos embranquecidos pelo inverno; janelas cortinadas, uma a uma piscando na escuridão fria para se juntar a Orion e as estrelas arcaicas. E contra os cais apodrecidos o mar se chocava; o mar, imemorial e cheio de segredos, do qual as pessoas tinham vindo nos tempos antigos.

Ao lado do topo da rua, uma elevação ainda mais alta começava, desolada e exposta ao vento, e vi que era um campo santo, onde lápides negras fincavam-se fantasmagoricamente através da neve, como as unhas apodrecidas do cadáver de um gigante. A rua era vazia e solitária, e às vezes eu pensava ouvir, no vento, um horrível e distante gemido, como um enforcamento. Eles haviam enforcado quatro parentes meus por bruxaria em 1692, mas eu não sabia exatamente onde.

No cruzamento da rua com a ladeira voltada para o mar, fiquei atento aos sons alegres de um entardecer de aldeia, mas não os escutei. Então lembrei da época, e achei que esse velho povo puritano possivelmente tinha costumes natalinos estranhos a mim, cheios de orações silenciosas. Então, depois que eu não ouvi sons alegres nem vi peregrinos, fiquei observando as casas silenciosamente iluminadas, e os muros sombrios de pedras, onde as placas de velhas lojas e tavernas batiam à brisa salgada, e as aidravas grotescas penduradas nas portas cintilavam ao longo das ruas sem pavimento, à luz de pequenas janelas cortinadas.

Eu havia visto mapas da cidade, e sabia onde encontrar a casa da minha gente. Foi dito que eu seria reconhecido e bem-vindo, pelas velhas tradições da aldeia; então me apressei pela Back Street até a Cicle Court, e atravessei a neve fresca sobre toda a laje que pavimentava a cidade, até onde a Green Lane levava aos fundos da Market House. Os velhos mapas ainda serviam bem, e eu não tive nenhum problema; embora em Arkham, devem ter mentido quando disseram que passavam bondes por ali, já que não vi um único fio no alto. A neve teria coberto os trilhos, de qualquer modo. Estava satisfeito por ter preferido andar, pois a aldeia branca tinha parecido muito bonita da colina; e agora eu estava ansioso em bater à porta da minha gente, a sétima casa à esquerda na Green Lane, com um antigo telhado pontudo e segundo andar ressaltado, tudo construído antes del650.

Havia luzes dentro da casa quando me dirigi a ela, e vi pelas janelas de grades cruzadas que deveria estar muito próxima de seu estado antigo. A parte superior sobressaia à rua estreita e coberta de grama e quase encontrava a parte que sobressaia da casa em frente, de forma que me encontrava quase num túnel, com o degrau de pedra da porta totalmente coberto de neve. Não havia calçada, mas muitas casas tinham portas altas que eram alcançadas por degraus duplos com corrimãos de ferro. Era uma cena estranha, e como eu era um estranho à Nova Inglaterra, nunca havia visto algo assim antes. Embora isso tenha me agradado, eu teria saboreado melhor se houvesse pegadas na neve, pessoas nas ruas e algumas janelas fechadas sem cortinas.

Quando sondei a antiga aldrava de ferro, fiquei com um pouco de medo. Algum temor havia se acumulado em mim, talvez por causa da estranheza da minha herança, a falta de movimento e o silêncio estranho da manhã naquela velha cidade de costumes bizarros. E quando minha batida foi respondida, fiquei completamente amedrontado, porque não havia ouvido nenhum passo antes da porta abrir com um rangido. Mas não fiquei com medo por muito tempo, pois o homem idoso de pijama e chinelos na entrada tinha um rosto brando que me tranqüilizou; e apesar de ter feito sinais de que era surdo, escreveu uma curiosa e antiga saudação com o estilete e a tabuleta de cera que carregava.

Acenou para que o seguisse até uma sala baixa, iluminada por velas, com caibros expostos e móveis escuros, rijos e esparsos, do século XVII. O passado estava vivo ali, nenhum atributo tinha sido perdido. Havia uma lareira cavernosa e uma máquina de fiar próxima na qual uma mulher idosa, usando um manto e uma touca comprida, sentava-se na minha direção, fiando silenciosamente, apesar da época festiva. Um desalento indefinido parecia pairar sobre o lugar, e eu estava bestificado pelo fogo não estar aceso. O quarto em frente às janelas cortinadas parecia estar ocupado, embora eu não tivesse certeza. Eu não gostei de tudo o que vi, e senti o temor novamente. Este temor ficou mais forte do que estava antes de ser abrandado. Quanto mais olhava para o rosto brando do velho, mais a sua brandura excessiva me aterrorizava. Os olhos nunca se moviam, e a pele assemelhava-se à cera. Finalmente fiquei convencido de que não era realmente um rosto, mas uma habilidosa máscara demoníaca. Suas mãos fantásticas, curiosamente enluvadas, escreveram na tabuleta com impressionante habilidade e me disseram que eu deveria esperar um pouco para ser levado ao local da festividade.

Apontando uma cadeira, uma mesa e uma pilha de livros, o velho agora deixou a sala; e quando me sentei para ler, vi que os livros estavam esbranquiçados e bolorentos, e que incluíam o velho Maravilhas da Ciência, de Morryster, o terrível Saducismus Triumpharus, de Joseph Glanvil, publicado em 1681, o chocante Daemonolarreia, de Remigius, impresso em 1681 em Lyons, e o pior de todos, o impronunciável Necronomicon, do árabe louco Abdul Al-hazred, na tradução latina proibida de Olaus Wormius; um livro que eu nunca tinha visto, mas do qual ouvira sussurrarem coisas monstruosas. Ninguém falou comigo, mas eu podia ouvir o bater das placas ao vento no lado de fora, e o zumbido da máquina de fiar enquanto a velha de touca continuava silenciosamente a fiar e fiar. Achei a sala, os livros e as pessoas, muito mórbidas e inquietantes, mas por causa de uma velha tradição de festividades estranhas que meus pais tinham me intimado a seguir, resolvi esperar coisas esquisitas. Então tentei ler, e logo comecei a tremer, absorvido por algo que descobri ser o malfadado Necronomicon, um pensamento e uma lenda muito hedionda para sanidade ou consciência, mas eu me distraí dele quando supus ouvir o fechar de uma das janelas que ficava em frente à lareira, como se ela tivesse sido aberta furtivamente. Pareceu seguir-se um zumbido que não era da máquina de fiar da velha. Não pude ouvir bem, no entanto, pois a velha estava fiando vigorosamente, e o relógio antigo soara as horas. Depois disso, perdi a sensação de que haviam pessoas no local, e estava lendo intensa e tremulante quando o velho voltou, calçado de botas e vestido numa roupa folgada antiga, e sentou no mesmo banco, de forma que eu não podia vê-lo. Era certamente uma espera nervosa, e o livro blasfemo nas minhas mãos a fazia duas vezes maior. Quando soaram onze horas, entretanto, o velho se levantou, deslizou até uma arca maciça esculpida que estava a um canto, e pegou dois mantos encapuzados; um dos quais colocou, e com o outro cobriu a velha, que tinha parado seu fiar monótono. Então os dois se dirigiram à porta exterior; a mulher se arrastou, coxeando, e o velho, depois de pegar o mesmo livro que eu estava lendo, acenou para mim enquanto colocava o capuz sobre o rosto imóvel ou máscara.

Saímos para as ruas tortuosas e escuras daquela cidade incrivelmente antiga; saímos enquanto as luzes nas janelas cortinadas desapareciam uma a uma, e a estrela do Cão espreitava a turba de figuras cobertas e encapuzadas que safam silenciosamente de cada porta e formavam uma procissão monstruosa rua acima, passando pelas placas ruidosas, pelos frontões antediluvianos, pelos telhados emaranhados e pelas janelas de grades cruzadas; atravessando ruas precipituosas, onde casas decadentes cobriam-se e desagregavam-se, deslizando por pátios abertos e cemitérios de igrejas, onde postes de luz faziam as constelações parecerem medonhamente bêbadas.

Em meio à multidão, segui meus dois guias silenciosos; empurrado por cotovelos que pareciam extraordinariamente macios, e pressionado por peitos e estômagos que pareciam anormalmente felpudos; mas sem nunca ver um rosto e nunca ouvir uma palavra. Em frente, as colunas sinistras se arrastavam, e eu vi que todos os peregrinos convergiam a uma espécie de povo de becos loucos no topo de uma colina alta no centro da cidade, onde se elevava uma grande igreja branca. Eu a tinha visto do alto da estrada quando olhei a noite caindo em Kingsport, e ela me tinha feito tremer, porque Aldebara havia parecido balançar-se por um momento na torre fantasmagórica.

Havia um espaço aberto ao redor da igreja; uma parte era um cemitério com lápides espectrais, e a outra era uma quadra semipavimentada, que tinha sido praticamente toda varrida da neve pelo vento, e enfileirada com casas antigas e mal-conservadas, com telhados pontudos e frontões protuberantes. Fogos-fátuos dançavam sobre as tumbas, revelando alamedas repugnantes, embora estranhamente não fizessem sombra. Depois do cemitério, onde não havia casas, podia ver acima do cume da colina e observar o cintilar das estrelas no porto, pois a cidade era invisível no escuro. Vez por outra, uma lanterna meneava horrivelmente através de becos tortuosos, em seu caminho para juntar-se à turba, que agora estava entrando furtiva e silenciosamente na igreja. Eu esperei até que a multidão houvesse penetrado pela porta negra, e até que todos os que ali se acotovelavam os tivessem seguido. O velho estava puxando minha manga, mas eu estava determinado a ser o último. Atravessando a soleira em direção ao templo de escuridão desconhecida e cheio como uma colméia, virei-me uma vez para olhar o mundo exterior, onde uma fosforescência no cemitério fazia um brilho doentio no pavimento da colina, e ao fazer isso, estremeci. Pois embora o vento não houvesse deixado muita neve, tinham sobrado umas poucas porções no terreno perto da porta; e naquela olhada para trás, pareceu aos meus olhos confusos que não havia nenhuma marca de pegadas, nem mesmo as minhas.

A igreja estava escassamente iluminada por todas as lanternas que haviam sido trazidas pelos fiéis, e a maior parte da turba já havia desaparecido. Eles tinham afluído para a nave entre os bancos altos e as portas sem retorno das criptas, que se abriram repulsiva e largamente, logo depois do púlpito, e estavam agora se contorcendo ruidosamente. Eu segui, calado, os degraus gastos até a cripta escura e sufocante. O séquito daquela fila silenciosa em marcha noturna me parecia muito horrível, e eu os vi movendo-se sinuosamente ao interior de uma tumba de veneração que parecia mais horrível ainda. Então notei que o chão da tumba tinha uma fresta na qual a multidão se esgueirava, e em um momento, todos nós estávamos descendo uma escadaria agourenta de pedra bruta cortada; uma escadaria em espiral estreita, úmida e peculiarmente perfumada, que perfurava interminavelmente em direção às entranhas da colina, passando por paredes monótonas de blocos de pedras gotejantes e argamassa esmigalhada. Foi uma descida traumatizante e silenciosa, e depois de um intervalo horrível, percebi que as paredes e degraus estavam mudando sua natureza, como se fossem cinzeladas da rocha sólida. O que me perturbou principalmente foi que as miríades de passos não faziam sons e não produziam ecos. Depois de uma descida que parecia durar eras, vi algumas passagens laterais ou covas, que conduziam de recantos desconhecidos de escuridão a esta trilha de mistério noturno. Logo elas ficaram excessivamente numerosas, como catacumbas ímpias de ameaças inomináveis; e seu odor pungente de decadência aumentava quase insuportavelmente. Eu sabia que nós devíamos ter atravessado a montanha e estávamos agora abaixo da própria Kingsport, e eu estremeci ao pensar que uma cidade poderia ser tão velha e possuir subterrâneos tão diabólicos.

Então vi o bruxulear lívido de uma luz pálida, e ouvi o marulho insidioso de águas escuras. Novamente estremeci, porque eu não havia gostado das coisas que a noite tinha trazido, e desejava amargamente que nenhum antepassado tivesse me obrigado a este rito primitivo. À medida que os degraus e a passagem ficavam mais largos, eu ouvi outro som, o lamento agudo de uma flauta débil; e de repente surgiu na minha frente a paisagem ampla de um mundo interior: uma costa fungosa e vasta, iluminada por uma coluna que vomitava uma doentia chama esverdeada, e banhada por um largo rio oleoso que fluía dos abismos assustadores e desconhecidos para se juntar à baía negra do oceano antiqüíssimo.

Ofegando, à beira de desmaiar, olhei para o jardim profano de imensos cogumelos, fogo leproso e água viscosa, e vi a turba encapada formando um semicírculo ao redor do pilar em chamas Era o rito do Yule, mais antigo do que o Homem, e fadado a sobreviver a ele; o rito primitivo do solstício e a promessa de primavera após a neve; o rito do fogo e das plantações, luz e música. E nas grutas estígias, eu os vi fazer o rito, adorar o pilar doentio de chamas, e atirar na água punhados da vegetação que reluziam verdes ao brilho clórico. Vi isso e algo agachado amorficamente, distante da luz, tocando ruidosamente uma flauta; e enquanto a coisa tocava, pensei ouvir sibilos nocivos e abafados na escuridão inimiga onde eu não podia ver. Mas o que mais me aterrorizou foi a coluna de chamas; brotando vulcanicamente das profundezas inconcebíveis, sem produzir nenhuma sombra, como uma chama deveria fazer, e agasalhando a rocha nitrosa com um azinhavre sórdido e venenoso. Toda aquela combustão fervente não fazia nenhum calor, mas apenas umidade de morte e decomposição.

O homem que tinha me trazido agora até um ponto diretamente ao lado da chama odienta, fez passes cerimoniais rígidos para o semicírculo, à sua frente. Em certos estágios do ritual, faziam reverências em que tinham de se agachar, especialmente quando ele segurou acima de sua cabeça aquele detestável Necronomicon que trouxera consigo; e eu compartilhei todas as reverências, porque eu tinha sido convocado a este festival pelos escritos de meus ancestrais. Então o velho fez um sinal ao flautista semi-oculto nas trevas, cujo toque logo mudou de um zumbido fraco para um zumbido escasso mais alto em outra escala; precipitando um horror inimaginável e inesperado. Com tal horror, quase afundei na terra coberta de liquens, trespassado por um temor que não pertencia a este ou a nenhum outro mundo, mas apenas aos espaços enlouquecedores entre as estrelas.

Vindas da inimaginável escuridão além do fulgor gangrenoso da chama fria, das léguas tartáricas pelas quais o rio oleoso corria sobrenatural, oculta e obscuramente surgiu uma horda de seres alados e híbridos domesticados, que nenhum olho são jamais poderia captar ou nenhum cérebro normal jamais poderia recordar, batendo ritmicamente suas asas. Eles não eram propriamente nem toupeiras, nem abutres, nem formigas, nem morcegos vampiros, nem seres humanos decompostos, mas alguma coisa que eu não posso e não devo recordar. Eles sacudiam um pouco seus pés cobertos de teias e um pouco suas asas membranosas; e quando alcançaram a turba de celebrantes, as figuras cobertas as pegaram e montaram, e saíram, uma a uma, cavalgando ao longo da extensão daquele rio mal-iluminado, em direção a poços e galerias de pânico onde nascentes venenosas mantinham cataratas ocultas.

A velha fiandeira tinha ido com a turba, e o velho só ficara porque eu tinha recusado quando ele tentou me motivar a pegar um animal e cavalgá-lo como o resto. Eu vi, quando cambaleei sobre meus pés, que o flautista amorfo havia desaparecido, mas aqueles dois monstros estavam esperando pacientemente. Quando recuperei o equilíbrio, o velho tirou seu estilete e a tabuleta e escreveu que ele era o representante dos meus ancestrais que tinham fundado o culto do Yale neste local antigo; que tinha sido decretado que eu voltaria, e que os mistérios mais secretos ainda estavam para ser apresentados. Ele escreveu isso com mão muito velha, e como eu ainda hesitava, puxou de sua túnica folgada um anel e um relógio, ambos com os símbolos da minha família, para provar que ele era o que dizia ser. Mas era uma prova revoltante, porque eu sabia por papéis velhos, que o relógio tinha sido enterrado com meu tatatataravo em 1698.

Em seguida, o velho tirou o capuz e apontou para a semelhança da família em seu rosto, mas eu apenas estremeci, porque estava certo de que aquele rosto era apenas uma máscara demoníaca. Os animais alados estavam agora arranhando impacientemente os liquens, e eu vi que o velho estava ele mesmo quase impaciente. Quando uma das coisas começou a se mexer para ir embora, ele se virou rapidamente para detê-la; então seu movimento repentino desalojou a máscara de cera de que outrora deve ter sido sua cabeça. E então, porque aquela posição de pesadelo me barrava à escada de pedra de onde tínhamos vindo, eu me joguei no rio oleoso que borbulhava de algum lugar das cavernas até o mar; me joguei naquele suco putrefato dos horrores do interior da Terra, antes que a loucura de meus gritos trouxesse toda aquela legião mortuária que esses abismos pestilentos ocultavam.

No hospital, disseram-me que eu havia sido encontrado semicongelado no porto de Kingsport ao alvorecer, agarrado ao tronco flutuante que o acaso mandou para me salvar. Eles me disseram que eu tinha pego a bifurcação errada na estrada da colina na noite anterior e caído dos penhascos no Ponto Laranja; uma coisa que deduziram das pegadas encontradas na neve. Não havia nada que eu pudesse dizer, porque tudo estava errado. Tudo estava errado, com as janelas largas mostrando um mar de telhados nos quais apenas um em cinco era antigo, e o som de bondes e motores nas ruas abaixo. Eles insistiram que esta era Kingsport, e eu não podia negar. Quando fiquei delirante ao ouvir que o hospital ficava perto do velho cemitério da igreja na colina central, eles me mandaram ao Hospital Santa Maria, em Arkham, onde eu poderia ser mais bem tratado. Gostei de lá, pois os médicos tinham mentes abertas, e até me emprestaram sua influência para obter a cópia cuidadosamente guardada de contestáveis Necronomicon de Al-hazred, da biblioteca da Universidade de Miskatonic. Eles disseram alguma coisa sobre uma “psicose”, e concordei que eu deveria tirar todas as obsessões mórbidas de minha mente.

Lendo o hediondo capítulo, estremeci duplamente porque não era realmente novo para mim. Eu o tinha visto antes, deixe as pegadas dizerem o que eles quiserem; e seria melhor esquecer onde eu o tinha visto. Não havia ninguém - nas horas diurnas - que poderia me lembrar disso; mas meus sonhos eram cheios de terror, devido às frases que não devo citar. Ouso citar apenas um parágrafo, traduzido em nossa língua como posso, do estranho Baixo Latim.

As cavernas mais inferiores, escreveu o árabe louco, não são para a compreensão dos olhos que vêem; pois suas maravilhas são estranhas e terríveis. Amaldiçoado o chão onde pensamentos mortos.


por H. P. Lovecraft

Bela Lugosi


Bela Lugosi ou Bela Ferenc Dezsõ Blaskó (Lugoj, 20 de Outubro de 1882 — Los Angeles, 16 de Agosto de 1956) foi um ator húngaro nascido no então Império Austro-Húngaro, na região do Banat.

O mais jovem dos quatro filhos de um banqueiro, Bela Lugosi começou a sua carreira nos palcos da Europa em várias peças de William Shakespeare. Mas no entanto tornou-se famoso pelo seu papel de Drácula numa encenação da clássica história de vampiro de Bram Stoker, e teve como especialidade os filmes de horror.

Fugiu de casa com 11 anos, abandonou a escola e engajou-se no trabalho de mineração. Na adolescência começou a atuar em pequenas companhias teatrais. O caminho mais comum o guiou do teatro para o cinema mudo húngaro, atuando com o nome artístico de Arisztid Olt. Porém, teve que interromper seu início de atividades no cinema graças à Primeira Guerra Mundial. Há boatos de que ele tenha sido ferido três vezes, assim causando sua futura dependência em morfina para aliviar as dores que seguiram por sua vida inteira. Há também uma versão que diz que ele conseguiu ser liberado do serviço se passando por louco.

Ao ser liberado do serviço militar, teve uma vida conturbada. Fez cerca de 12 filmes, casou-se pela 1ª de cinco vezes e saiu da Hungria por conta das suas opiniões políticas. Ele se refugiou na Alemanha, mas passou pouco tempo no país e foi para o país onde conseguiu alcançar a fama: os Estados Unidos. Bela participou do teatro na comunidade húngaro-americana, e após algum tempo ganhou a oportunidade de interpretar Drácula numa adaptação teatral escrita por John Balderston.

Sua interpretação única e assustadora nesta peça foi que abriu as portas para seu estrelato no cinema. O diretor Tod Browing descobriu e o chamou para interpretar o vampiro em sua versão cinematográfica de Drácula. Este papel deu estrelato a Lugosi, mas ao mesmo tempo o marcou como "um ator de um só papel".

Bela fez vários outros filmes de horror,como também de outros gêneros. Dentre os de horror, merecem destaque Murdes In The Rue Morgue, The Raven, Mark of Vampire, dentre outros. Porém,o ator não conseguiu estabilidade no cinema, e passou a partir de meados da década de 30 a atuar em filmes baratos.

Ainda conseguiu papéis bons como em Son of Frankenstein, The Ghost of Frankenstein, The Corpse Vanishes, etc... Porém, estereotipado como "Drácula", e seguindo o mesmo declínio do gênero na década de 40, no qual os monstros clássicos protagonizavam filmes em que se enfrentavam ou comédias, Bela ficou desempregado.

Foi descoberto por Ed Wood, que gravou alguns filmes com Bela (inclusive Ed Wood arcou com vários custos de internação de Bela, consumido pelo vício em morfina).

O último filme de Bela Lugosi foi Plan 9 from Outer Space, de Ed Wood. Porém Bela filmou somente uma semana, falecendo no dia 16 de agosto de 1956. Bela foi sepultado com o traje de Drácula (sendo este seu último desejo). Assim, o horror perdeu um de seus maiores ícones.

Mas Bela Lugosi continua vivo na memória dos fãs do gênero, tendo sido interpretado por Martin Landau, ganhador do Oscar por este papel, no filme Ed Wood de Tim Burton. Bela Lugosi sempre será o eterno Drácula das telonas, independente de ser esta associação positiva ou negativa.

Filmografia

* 1917 Az Ezredes
* 1923 The Silent Command
* 1924 The Rejected Woman
* 1925 Midnight Girl
* 1925 Daughters Who Pay
* 1928 How to Handle Women
* 1928 The Veiled Woman
* 1929 Prisoners
* 1929 The Thirteenth Chair
* 1930 Viennese Nights
* 1930 Such Men Are Dangerous
* 1930 Wild Company
* 1930 Oh, for a Man
* 1930 Renegades
* 1931 The Black Camel
* 1931 Women of All Nations
* 1931 Drácula
* 1931 Fifty Million Frenchmen
* 1931 Broadminded
* 1932 Chandu the Magician
* 1932 Murders in the Rue Morgue
* 1932 White Zombie
* 1932 Island of Lost Souls
* 1933 International House
* 1933 Night of Terror
* 1933 The Devil's in Love
* 1933 The Death Kiss
* 1933 The Whispering Shadow
* 1934 Chandu on the Magic Island
* 1934 Gift of Gab
* 1934 The Return of Chandu
* 1934 The Black Cat
* 1935 The Best Man Wins
* 1935 The Mysterious Mr. Wong
* 1935 The Raven
* 1935 Mark of the Vampire
* 1935 Murder by Television
* 1935 Phantom Ship
* 1936 The Invisible Ray
* 1936 Postal Inspector
* 1936 Shadow of Chinatown
* 1936 Dracula's Daughter
* 1937 S.O.S. Coast Guard
* 1939 Son of Frankenstein
* 1939 The Phantom Creeps
* 1939 The Human Monster
* 1939 The Gorilla
* 1939 Ninotchka
* 1940 The Saint's Double Trouble
* 1940 Saturday Night Serials
* 1940 You'll Find Out
* 1940 Black Friday
* 1941 The Wolf Man
* 1941 The Black Cat
* 1941 Spooks Run Wild
* 1941 The Devil Bat
* 1941 The Invisible Ghost
* 1942 Black Dragons
* 1942 Dick Tracy, Detective / The Corpse Vanishes
* 1942 Frankenstein Meets the Wolfman
* 1942 Bowery at Midnight
* 1942 Dick Tracy vs. Cueball / Bowery at Midnight
* 1942 The Corpse Vanishes
* 1942 Night Monster
* 1942 The Ghost of Frankenstein
* 1943 The Return of the Vampire
* 1943 The Old Dark House
* 1943 The Ape Man
* 1943 Ghosts on the Loose
* 1944 Matinee Double Feature
* 1944 Return of the Ape Man
* 1944 Zombies on Broadway
* 1944 One Body Too Many
* 1944 Voodoo Man
* 1945 The Body Snatcher
* 1946 Genius at Work
* 1947 Scared to Death
* 1947 Dick Tracy Meets Gruesome
* 1948 Abbott and Costello Meet Frankenstein
* 1952 Bela Lugosi Meets a Brooklyn Gorilla
* 1952 Old Mother Riley Meets the Vampire
* 1953 Glen or Glenda
* 1955 Bride of the Monster
* 1956 The Black Sleep
* 1956 Plan 9 from Outer Space


Fonte: Wikipédia.

Franz Kafka

A desesperança e a alienação do homem moderno, imerso num mundo que não consegue compreender, estão magistralmente descritas na obra de Kafka, escritor tcheco de expressão alemã.

Franz Kafka nasceu em Praga, então pertencente ao império austro-húngaro, em 3 de julho de 1883, de família judia remediada. Sua infância e adolescência foram marcadas pela figura dominadora do pai, comerciante próspero, para quem apenas o sucesso material contava.

Na obra de Kafka, a figura paterna está freqüentemente associada à opressão ou aniquilação da vontade humana, especialmente na célebre Brief an den Vater (1919; Carta a meu pai).
Na formação intelectual de Kafka tiveram peso especial a leitura de Heinrich von Kleist, Flaubert, Pascal e Kierkgaard e o ambiente de Praga, cidade medieval gótica dotada de elementos eslavos, alemães e de barroco sombrio.

De 1901 a 1906, estudou direito na Universidade de Praga, onde conheceu seu grande amigo (e posterior biógrafo) Max Brod. Começou então a freqüentar os círculos literários e políticos da pequena comunidade judaico-alemã, na qual circulavam idéias e atitudes críticas e inconformistas, com que Kafka se identificava. Concluído o curso, empregou-se em 1908 numa companhia de seguros, como inspetor de acidentes de trabalho.

Apesar da competência profissional e da consideração que lhe dispensavam os colegas de trabalho, Kafka sempre se sentiu insatisfeito, pois o emprego o impedia de dedicar-se totalmente à atividade literária. Também a vida emocional foi conturbada, com noivados e amores infelizes.

Tais circunstâncias acentuaram o sentimento de solidão e desamparo que nunca o abandonaria e que ele próprio manifestou nos fragmentos publicados em 1909 sob o título Beschreibung eines Kampfes (Descrição de uma luta) e publicado na íntegra em 1936. Nessa inquietante e perturbadora narração, que passou quase despercebida, o mundo dos sonhos, tema constante na produção do autor, adquiria uma desconcertante e persistente lógica no mundo da realidade.

Em 1912 Kafka escreveu a maior parte do romance Amerika, que permaneceu inacabado e foi publicado postumamente em 1927. Em vida, publicou apenas Die Verwandlung (1915; A metamorfose), em que o personagem acorda certo dia transformado num imenso e repugnante inseto; Das Urteil (1916; A sentença); In der Strafkolonie (1919; Na colônia penal), que narra as torturas a que são submetidos presidiários que desconhecem a natureza dos crimes que cometeram; e Ein Landarzt (1919; Um médico rural), coletânea de contos.

Suas obras-primas, Der Prozess (1925; O processo) e Das Schloss (1926; O castelo), só foram publicadas postumamente por Max Brod. Nesses romances, a ambigüidade onírica do peculiar universo kafkiano e as situações de absurdo existencial chegam a limites insuspeitados. No primeiro, o bancário Joseph K., por razões que nunca chega a descobrir, é preso, julgado e condenado por um misterioso tribunal. A desolada poesia de sua obra, em estilo sóbrio e realista, não nascia, porém, da resignação, mas do desejo de encontrar um fundamento espiritual capaz de explicar a contradição entre o desejo humano e a realidade cotidiana.

Afligido pela tuberculose, Kafka submeteu-se, a partir de 1917, a longos períodos de repouso. Em 1922 deixou definitivamente o emprego e, excetuadas breves temporadas em Praga e Berlim, passou o resto da vida em sanatórios e balneários.

Morreu em 3 de junho de 1924, em Kierling, perto de Viena. Contra o desejo expresso do escritor, que queria que seus inéditos fossem queimados após sua morte, Max Brod publicou romances, textos em prosa, correspondência pessoal e diários de Kafka. Sua obra teve profunda influência sobre movimentos artísticos como o surrealismo, o existencialismo e o teatro do absurdo.

Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

A Bola de Fogo na Sibéria


O norte da Sibéria, com os seus invernos rigorosos e verões escaldantes nas primeiras horas de uma manhã de junho constituem um momento que merece ser apreciado. O agricultor Sergei Semenov fizera um intervalo no trabalho que executava no seu campo de trigo para gozar alguns momentos de descanso, ao sol, à porta de sua casa.

Passavam alguns minutos das 7h da manhã do dia 30 de Junho de 1908 e a Semenov, muitos quilômetros de distância da febre revolucionária que começava a varrer o país, parecia-lhe um bom tempo para estar vivo.

Precisamente às 7h e 17m, o seu sonho acordado teve um fim abrupto, pois uma enorme explosão dilacerou o horizonte provocando uma luz ofuscante.

Contou mais tarde Semenov: "Apareceu um grande clarão e o calor era tão grande que a minha camisa quase de queimou nas costas. Vi uma enorme bola de fogo que cobria uma grande porção do céu e, a seguir, fez-se muito escuro".

Foi então que a enorme força da explosão atirou o agricultor para fora da porta, deixando-o inconsciente, e quando recuperou os sentidos um enorme estrondo, uma espécie de trovão gigantesco, varria a tundra. "Abanou toda a casa e quase a arrancou das fundações", acrescentou.

Semenov teve sorte, pois se se encontrasse mais perto do centro do holocausto não teria sobrevivido para contar a sua estranha e assustadora história, e apenas o fato de o desastre se ter dado no remoto vale do rio Tunguska evitou que a devastação fosse ainda mais terrível.

Aquele inferno destruiu uma área do tamanho de Leningrado, incinerou manadas inteiras de renas e praticamente todas as árvores de uma área com 70Km de diâmetro foram arrancadas e atiradas para fora do centro de explosão, ficando dispostas tal como raios de uma roda gigantesca. Componentes de uma tribo nômade, a 70Km de distância, foram atirados ao chão e as suas tendas feitas em farrapos por um vento furioso.

Qual a causa desta terrível devastação? Poderá algo semelhante voltar a acontecer?

Somente 20 anos depois alguém conseguiu chegar suficientemente perto para encontrar as respostas. Em 1930, o professor L. A. Kulik, da Academia de Ciências Soviética, passou quase um ano na área com uma pequena equipe de investigadores, tendo acabado por descobrir uma paisagem coberta de crateras e encontrando quase 3200Km quadrados de troncos de árvores arrancados e a apodrecerem. Contudo, o mais importante de tudo é que conseguiu localizar

testemunhas da explosão, que lhe falaram de uma brilhante bola de fogo a correr através dos céus, "tão brilhante que fazia com que a luz do sol parecesse escura":

Pessoas que se encontravam a mais de 90Km de distância do centro da explosão contaram que sentiram "violentas vibrações" seguidas por "um corpo brilhante que deixava uma larga tira de luz através do céu". Um deles recordou: "Estava a lavar lã no rio Kan quando ouvi um barulho semelhante ao sopro das asas de aves assustadas. A água do rio começou a formar ondas e a seguir houve um sacão tão violento que um dos meus amigos caiu ao rio".

A cerca 400Km de distância, na cidade de Kirensk, as pessoas tinham visto "uma coluna de fogo, seguida por vários trovões e enorme estrondo", e até a 970Km, em Turukhansk, uma testemunha afirmou ter escutado "três ou quatro estrondos abafados, como tiros de canhão ao longe". Muitas desta testemunhas pareciam descrever uma explosão nuclear, pois algumas afirmaram ter visto uma bola de fogo seguida por uma coluna de fumo em forma de cogumelo, com muitos Km de altura. Mas poderia ter ocorrido uma explosão atômica quase 40 anos antes da devastação de Hiroxima e Nagasáqui?

Na verdade. alguns cientistas já sugeriram que a explosão talvez tivesse sido nuclear, apresentando a espantosa teoria de que uma nave espacial com visitantes de outro planeta se avariou ao entrar na atmosfera terrestre. O combustível nuclear terá aquecido acima do seu ponto crítico e provocando uma explosão equivalente à de uma bomba nuclear de 30 megatoneladas.

O jornalista australiano John Baxter e o cientista a americano Thomas Atkins acompanharam o trabalho dos cientistas russos e apoiaram a teoria da explosão da nave espacial com as seguintes provas:

- Numa explosão nuclear, o campo magnético da terra é perturbado, o que aconteceu quando da explosão na Sibéria.

- As explosões nucleares provocam um padrão de destruições muito específicas, o que sucedeu com a da Rússia.

- As bombas atômicas lançadas no Japão em 1945 causaram estranhas mutações nas plantas, o mesmo aconteceu após o desastre da Sibéria.

- As explosões nucleares deixam atrás de si minúsculos glóbulo verdes, de pó derretido, denominados trinites, os quais também foram encontrados no local desta explosão, e além disso, de acordo com os especialistas russos, essas trinites continham vestígios de metais que não existem normalmente na região de Tunguska e que geralmente não fazem parte da composição dos meteoritos.

- Finalmente, foi referido o testemunho de pessoas que viram, momentos antes da explosão, um grande objeto azulado e cilíndrico a atravessar o céu com um rugido, deixando um rasto de vapor atrás de si.

Outras soluções apresentadas pelos cientistas, e bastante menos extraordinárias:

A TEORIA DO COMETA: pensa-se que os cometas são constituídos por gigantescas bolas de gases gelados e por destroços, um deles poderia ter entrado na atmosfera terrestre, apesar de não existirem indícios de que alguém o avistasse, e gerado tanto calor que acabasse por explodir no ar.

A TEORIA DA ANTIMATÉRIA: alguns cientistas pesam que uma massa de antimatéria, ou seja, matéria correspondente à que se encontra na terra mas constituída por partículas positivas(positrões), em vez de negativas(electrões), poderia ter mergulhado na atmosfera terrestre e, entrado em contacto com átomos da matéria normal, provocar uma enorme explosão.

A TEORIA DO BURACO NEGRO: pensa-se que os buracos negros são estrelas que implodiram, diminuindo muito de tamanho, mas, por causa da sua imensa massa(a terra caberia num buraco negro do tamanho de uma bola de tênis), a sua força gravitacional é suficientemente forte par impedir a luz de se escapar, pelo que os objetos não podem ser vistos, no sítio onde se encontram existe apenas um buraco negro, já foi sugerido que um deles tivesse atingido a Sibéria.

A TEORIA DO METEORITO: uma das mais populares teorias, apesar de ao princípio ter sido posta de lado, era a de que um meteorito gigante havia caído na terra, pois eles entram atmosfera terrestre à razão de 200 milhões por dia, embora a maior parte arda antes de atingir a superfície do nosso planeta, um meteorito que caiu no Arizona, em tempos pré-históricos, deixou uma cratera de 500m de diâmetro e como, a certa altura, os cientistas afirmaram que na Sibéria não havia cratera alguma, a explosão não podia ter sido provocada por um objecto desse tipo, porém, depois disso já se descobriu que um corpo celeste, feito de rocha em vez de metal, que são os mais comuns, pode explodir pouso antes de atingir o solo, causando, portanto, extensos prejuízos sem abrir crateras.

Fosse o que fosse que provocou a explosão siberiana, uma coisa é certa, o fato de ela ter acontecido numa zona virtualmente desabitada foi um golpe de sorte, pois se o corpo proveniente do espaço tivesse caído numa grande cidade, o resultado teria sido o maior desastre de historia da humanidade.

Edith Wharton

A escritora americana Edith Wharton ganhou fama por seus romances e contos que descrevem os costumes de uma elite hipócrita e convencional, na qual ela nasceu e viveu.

Edith Newbold Jones nasceu em 24 de janeiro de 1862 na cidade de Nova York. Educada em casa e na Europa, em 1885 casou com Edward Wharton, banqueiro de Boston.

Suas primeiras obras de ficção foram contos, aos quais se seguiu o sucesso do primeiro romance, The Valley of Decision (1902; O vale da decisão). Consolidou sua fama com a publicação do romance seguinte, The House of Mirth (1905; A casa da alegria).

Nas décadas de 1920 e 1930 publicou outros romances, além de livros de contos e estética literária.

As melhores obras de Edith Wharton são Madame de Treymes (1907), que mostra a influência de Henry James; o popular Ethan Frome (1911), único sobre a classe média, atualmente exaltado pela crítica; The Reef (1912; O recife) e The Custom of the Country (1913; O costume do país), em que trata da falsidade dos ricos; e Age of Innocence (1920; Era da inocência), que lhe garantiu o Prêmio Pulitzer e foi duas vezes adaptado para o cinema, em 1924 e 1994.

Das coletâneas de contos, a melhor é Xingu and Other Stories (1916; Xingu e outros contos).

Edith Wharton faleceu em Saint-Brice-sous-Forêt, França, em 11 de agosto de 1937.

Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

sábado, 29 de novembro de 2008

Eça de Queiroz

Artesão exímio, iniciador do realismo na literatura de língua portuguesa, capaz de domínio inigualável da palavra escrita, Eça de Queiroz (ou Queirós) dissecou a burguesia do Portugal de seu tempo em romances de fascínio permanente.

José Maria de Eça de Queiroz nasceu em Póvoa de Varzim, em 25 de novembro de 1845. Filho ilegítimo de um magistrado, passou a infância longe dos pais, no Aveiro, e formou-se em direito pela Universidade de Coimbra (1866).

Nessa época tomou parte na Questão Coimbra, ao lado de Antero de Quental e Teófilo Braga, em defesa do realismo na literatura. Estreou então como escritor, na Gazeta de Portugal, com o folhetim de Notas marginais, mais tarde parte das Prosas bárbaras (1905). Em 1867 lançou o Distrito de Évora, jornal que dirigiu.

Admitido por concurso na carreira diplomática em 1870, foi cônsul em Cuba, no Reino Unido e finalmente em Paris, onde permaneceu até a morte. Com Ramalho Ortigão, lançou em 1871 As Farpas, publicação mensal para a qual escreveu artigos de crítica político-social demolidora, mais tarde reunidos em Uma campanha alegre (1890): em estilo irônico e contundente, o livro é uma mostra de jornalismo participante e pioneiramente moderno.

Com Ramalho também escrevera uma novela policial, O mistério da estrada de Sintra (1870). Seu conto Singularidades de uma rapariga loira (1874), além de uma obra-prima, é o primeiro de cunho realista em português. Essa atitude seria elevada a alta eficiência expressiva nos romances que publicou em seguida.

Eça se casou (1886) com Emília de Castro Pamplona, irmã de um amigo e companheiro de viagens, o conde de Resende. De 1889 em diante o consulado de Paris, que muito ambicionara, não lhe alterou a produtividade; fundou a Revista de Portugal (1889-1892) e continuou a colaborar em jornais portugueses e brasileiros, enviando cartas, ecos, "bilhetes" lidos e relidos com avidez.

Romancista

Eça de Queirós é um dos maiores ficcionistas da literatura de língua portuguesa. Dotado de senso estético invulgar, desde o início impressiona pela riqueza e flexibilidade estilística. Escreve o português mais vivo de seu tempo, sem pruridos puristas e impregnado de verdade concreta, capaz de recriar e criticar todos os seres e coisas com originalidade e volúpia.

Humorista irreverente, no romance O crime do padre Amaro (1875) essa característica se alia a um realismo severo, feroz e espirituoso ao mesmo tempo, que satiriza a corrupção do clero e reconstitui seus costumes com extrema vivacidade. Mais densa é a escrita de O primo Basílio (1878), primorosamente construído, com as personagens como que aprisionadas, em seus impulsos e alternativas, pela circunstância social que as limita e condiciona.

Mais voltado para a dinâmica das relações do que para a psicologia dita profunda, Eça tempera o psicólogo social com o amante da natureza, que a registra com frescor e embevecimento. Na sociedade inquieta, entre fútil e amarga às portas da revolução republicana, a usura e a beatice pequeno-burguesa encontram um caricaturista minucioso e às vezes cruel em A relíquia (1887), em que a aventura do humor não se esquiva às máscaras do grotesco.

"Porque tudo se resolve, como já ensinara o sábio do Eclesiastes, em desilusão e poeira." Antes da obra-prima que é o romance Os Maias (1888), e de suas implicações, o autor talvez não fizesse essa anotação. Obra maior da maturidade, esse vasto panorama de uma família burguesa, de seu prazer e sua dor, sua sensualidade e seu cerco de convenções, realiza até o mais alto grau o gênio de Eça de Queirós. A captação de cada passo, cada ranhura ou eco da paixão incestuosa leva o escritor a beirar a noção do inconsciente e a dar um sentido existencial às marcas do desengano.

Outro livro admirável é A ilustre casa de Ramires (1900), em que a observação e a fina ironia focalizam a pequena nobreza decadente, entre seus últimos bens e os males que a corroem. Sobressaem neste caso, junto às outras saborosas peculiaridades do mestre, a ampla visão sociológica, em que avulta o amor pela terra portuguesa, e o empenho metaliterário que faz do protagonista autor de um árduo romance.

Essa agudeza não se acha menos presente em A cidade e as serras (1901), deliciosa sátira dos progressos ainda canhestros dos tempos modernos e reencontro do romancista com a paisagem de sua meninice. Vê-se também aí, no jogo dos contrastes, o apego nostálgico à essencialidade honesta da vida ainda natural e limpa do interior.

Perfeccionista obsessivo, Eça estigmatiza a escravidão ao ouro ou a qualquer acúmulo improdutivo, mesmo que de requintes, de livros. Uma sábia alegoria do problema suscitou na novela O mandarim (1880) algumas de suas páginas mais fecundas. O tema, no fundo, se depura ainda no esplendor austero das vidas de três santos, reunidas em últimas páginas (1912).

Eça foi escritor de uma auto-exigência quase impiedosa. Além de deixar inacabados e inéditos vários trabalhos que não o satisfizeram, desprezou a primeira versão de Os Maias, publicada em 1980 com o título de A tragédia da rua das Flores.

Outras faces

De realismo menos estrito e quase mágico nos Contos (1902), Eça deixou sua crítica dispersa em periódicos e cartas que se publicaram aos poucos -- a autobiográfica Correspondência de Fradique Mendes (1900), as Cartas de Inglaterra (1903), os Ecos de Paris (1905) e as Cartas familiares e bilhetes de Paris (1907).

Em Notas contemporâneas (1909) o crítico se envolve com os principais temas e debates de seu tempo e se faz presente também em O Egito (1926), sobre a viagem ao Oriente. Na ficção que ficara inédita, há ainda seduções, e fortes, em A capital, O conde de Abranhos, Alves & Cia., os três impressos em 1925. Por fim, a encantadora tradução de As minas do rei Salomão (1891), de Riger Haggard, é um divertimento inesquecível.

Criador de tipos que ficaram proverbiais, como o conselheiro Acácio ou Jacinto de Tormes, nem sempre os fez, como estes, algo esquemáticos e caricaturais. Maria Eduarda, entre outras criaturas, é de verdade profunda e de presença inefável.

É questão de sentir e entender ao mesmo tempo. Como lembrou Moniz Barreto, "a paixão e a fantasia ocupam um lugar importante em sua obra, ao lado da observação e da análise". Eça de Queirós morreu em Paris em 16 de agosto de 1900.

Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

Cidades Perdidas no Brasil

Na seção de manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, existe um documento de pouco mais de dez páginas, classificado sob o número 512, que foi descoberto em 1838 por um secretário do Instituto Histórico e que descreve detalhadamente uma imensa cidade abandonada no interior da Bahia.

A localização é imprecisa, mas a região apontada é a mesma onde antigos viajantes afirmam ter encontrado altos muros e ruas calçadas de grandes pedras. Com a invasão do mato, a cidade só é notada pelo viajante que venha a atravessá-la, sendo muito possível passar nas suas proximidades sem perceber sua existência.

Uma velha lenda que data do tempo dos bandeirantes fala da cidade perdida no sertão baiano. É dessas lendas que persistem e volta e meia aparecem, dando a idéia de que ocultam alguma coisa de verdadeiro.

Entre 1840 e 1847, foi feita minuciosa pesquisa na região apontada, que é bastante vasta e inóspita. Aristides Espíndola, em conferência feita em 1888, afirmava que os moradores da margem direita do rio Gongori têm notícia de ruínas espantosas. Essa é, das nossas, talvez a lenda mais intrigante, dada a persistência com que se repete há séculos. Os depoimentos nem sempre coincidem, mas em alguns pontos confirmam uns aos outros.

Coronel Fawcett

Em 1925 uma expedição ao Mato grosso, na Serra do Roncador, o explorador Cel. Fawcett, seu filho Jack e um amigo desapareceram. Eles já haviam dito que descobriram túneis na serra que levavam à cidades subterrâneas.

Certa vez o filho do explorador, que não foi na expedição, recebeu uma carta de um soldado alemão dizendo que seu pai estava vivo e morando numa dessas cidades.

Fawcett levava consigo, quando desapareceu, um pequeno ídolo negro encontrado numa viagem anterior à região e que, para o inglês, era uma das provas da existência de não apenas ruínas, mas de uma civilização sobrevivente ainda hoje, isolada por completo do resto do mundo.

Que civilização seria essa, muito anterior à chegada dos europeus à América, capaz de erigir grandes muros e calçar ruas com imensas lajes, como os astecas, os incas e os babilônios ? E por que seus demais vestígios teriam desaparecido, ficando apenas a legendária cidade ?

E. T. A. Hoffmann

Os tons macabros e sarcásticos que Hoffmann emprestou freqüentemente à narrativa romântica exerceram influência duradoura em toda literatura fantástica posterior.

Ernst Theodor Wilhelm Hoffmann (cujo penúltimo nome trocou para Amadeus em homenagem a Mozart) nasceu em 24 de janeiro de 1776 em Königsberg, Prússia (posteriormente Kaliningrado, Rússia).

Estudou direito e depois de ocupar vários cargos burocráticos tornou-se, em 1806, diretor de orquestra em Bamberg e em Dresden, já que, além de escritor, era excelente crítico musical e compositor de qualidades, autor do balé Arlequin (1811) e da ópera Undine (1816).

Em 1814 Hoffmann mudou-se para Berlim como juiz da corte de apelação. Iniciou a carreira literária com Phantasiestücke nach Callots Manier (1814-1815; Fantasias à maneira de Callot), coleção de contos fantásticos, seguidos do romance Elixieren des Teufels (1815-1816; As drogas do diabo).

O prestígio que lhe deram essas obras tornou-se ainda maior com a publicação de livros de contos como Nachtstücke (1817; Cenas noturnas) e Die Serapionsbrüder (1819-1821; Os irmãos Serapião). Neles predomina uma angustiante confusão entre o sono e a vigília, a vida real e o sobrenatural; e sinistros ou estranhos personagens irrompem na vida cotidiana dos seres humanos para marcá-los indelevelmente com sua presença.

A última obra do autor foi um romance, Lebensansichten des katers Murr nebst fragmentarischer Biographie des Kapellmeisters Johannes Kreisler (1820-1822; Opiniões do gato Murr, com uma biografia fragmentária do maestro Johannes Kreisler), magnífico exemplo de sua irônica capacidade de observação.

Suas obras de ficção inspiraram óperas e balés a compositores como Wagner, Hindemith e Offenbach ao criarem óperas e balés, e sob o título de Contos de Hoffmann tornaram-se leituras favoritas do grande público.

Hoffmann morreu em Berlim em 25 de junho de 1822.

Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Charles Baudelaire

Baudelaire marcou com sua presença as últimas décadas do século XIX, influenciando a poesia internacional de tendência simbolista. De sua maneira de ser originaram-se na França os poetas "malditos". De sua obra derivaram os procedimentos anticonvencionais de Rimbaud e Lautréamont, a musicalidade de Verlaine, o intelectualismo de Mallarmé, a ironia coloquial de Corbière e Laforgue.

Poeta e crítico francês, Charles-Pierre Baudelaire nasceu em Paris em 9 de abril de 1821. Desavenças com o padrasto forçaram-no a interromper seus estudos, iniciados em Lyon, para uma viagem à Índia, que interrompeu nas ilhas Maurício. Ao regressar, dissipou seus bens nos meios boêmios de Paris, onde conheceu a atriz Jeanne Duval, uma de suas musas. Outras seriam, depois, Mme. Sabatier e a atriz Marie Daubrun. Endividado, foi submetido a conselho judiciário pela família, que nomeou um tutor para controlar seus gastos. Baudelaire permaneceu sempre em conflito com esse tutor, Ancelle.

Acontecimento capital na vida do poeta é o processo a que foi submetido em 1857, ao publicar Les Fleurs du mal (As flores do mal). Além de condená-lo a uma multa por ultraje à moral e aos bons costumes, a justiça obrigou-o a retirar do volume seis poemas. Só a partir de 1911 apareceram edições completas da obra.

Mal compreendida por seus contemporâneos, apesar de elogiada por Victor Hugo, Teóphile Gautier, Gustave Flaubert e Théodore de Banville, a poesia de Baudelaire está marcada pela contradição. Revela, de um lado, o herdeiro do romantismo negro de Edgar Allan Poe e Gérard de Nerval, e de outro o poeta crítico que se opôs aos excessos sentimentais e retóricos do romantismo francês.

Uma nova estratégia da linguagem

Quase toda a crítica moderna concorda que Baudelaire inventou uma nova estratégia da linguagem. Erich Auerbach observou que sua poesia foi a primeira a incorporar a matéria da realidade grotesca à linguagem sublimada do romantismo. Nesse sentido Baudelaire criou a poesia moderna, concedendo a toda realidade o direito de ser submetida ao tratamento poético.

A atividade de Baudelaire se dividiu entre a poesia, a crítica literária e de arte e a tradução. Seu maior título são Les Fleurs du mal, cujos poemas mais antigos datam de 1841. Além da celeuma judicial, o livro despertou hostilidades na imprensa e foi julgado por muitos como um subproduto degenerado do romantismo.

Tanto Les Fleurs du mal como os Petits poèmes en prose (1868; Pequenos poemas em prosa), depois intitulados Le Spleen de Paris (1869) e publicados em revistas desde 1861, introduziram elementos novos na linguagem poética, fundindo o grotesco ao sublime e explorando as secretas analogias do universo. Para fixar a nova forma do poema em prosa, Baudelaire usou como modelo uma obra de Aloïsius Bertrand, Gaspard de la nuit (1842; Gaspar da noite), se bem tenha ampliado em muito suas possibilidades.

Crítica de arte e traduções

Baudelaire destacou-se desde cedo como crítico de arte. O Salon de 1845 (Salão de 1845) e o Salon de 1846 (Salão de 1846) datam do início de sua carreira. Seus escritos posteriores foram reunidos em dois volumes póstumos, com os títulos de L'Art romantique (1868; A arte romântica) e Curiosités esthétiques (1868; Curiosidades estéticas). Revelam a preocupação de Baudelaire de procurar uma razão determinante para a obra de arte e fundamentam assim um ideário estético coerente, embora fragmentário, e aberto às novas concepções.

Extensão da atividade crítica e criadora de Baudelaire foram suas traduções de Edgar Allan Poe. Dos ensaios críticos de Poe, sobretudo "The Poetic Principle" (1876; "O princípio poético"), Baudelaire tirou as diretrizes básicas de sua poética, voltada contra os excessos retóricos: a exclusão da poesia dos elementos de cunho narrativo; e a relação entre a intensidade e a brevidade das composições.

Ainda um outro Baudelaire é o revelado em suas obras especulativas e confessionais. É o caso de Les Paradis artificiels, (1860; Os paraísos artificiais, ópio e haxixe), especulações sobre as plantas alucinó opium et haschischgenas, parcialmente inspiradas nas Confessions of an English Opium-Eater (1822; Confissões de um comedor de ópio) de Thomas De Quincey; e de Journaux intimes (1909; Diários íntimos) -- que contém "Fusées" (notas escritas por volta de 1851) e "Mon coeur mis a nu" ("Meu coração desnudo") --, cuja primeira edição completa foi publicada em 1909. Tais escritos são o testamento espiritual do poeta, confissões íntimas e reflexões sobre assuntos diversos.

Quer pelo interesse inerente a sua grande poesia, quer pelos vislumbres que essas confissões propiciam, Baudelaire se destaca entre os poetas franceses mais estudados por ensaístas e críticos. Jean-Paul Sartre situou-o como protótipo de uma escolha existencial que teria repercussões no século XX, enquanto a crítica centrada nas relações históricas, como a de Walter Benjamin, dedicou-se a examinar sua consciência secreta de uma relação impossível com o mundo social.

Após uma existência das mais atribuladas, Baudelaire morreu de paralisia geral em Paris em 31 de agosto de 1867, quando mal começava a ser reconhecida sua influência duradoura sobre a evolução da poesia.

Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

Robert Louis Stevenson

Tido a princípio como ensaísta artificial e afetado, ou mero escritor de livros infantis, somente meio século após sua morte Stevenson passou a ser visto como autor vigoroso e original, que em seus ensaios e romances revela aguda percepção da alma humana.

Robert Louis Balfour Stevenson nasceu em 13 de novembro de 1850 em Edimburgo, Escócia. Filho de renomado engenheiro civil, recusou-se a seguir a profissão do pai e comprometeu-se a estudar direito, mas abandonou o curso para ser escritor.

Em 1873 viajou à França em busca de clima mais adequado ao tratamento dos problemas respiratórios que o atormentavam. Suas freqüentes viagens ao exterior, em especial à França, foram relatadas no livro de crônicas An Inland Voyage (1878; Uma viagem pelo interior) e Travels with a Donkey in the Cévennes (1879; Viagem com um asno nas Cévennes).

Em 1881 fixou residência na Escócia e posteriormente em Bournemouth, na Inglaterra, onde pôde se dedicar inteiramente à literatura. Ainda em 1881 Stevenson publicou Virginibus puerisque (Às donzelas e aos garotos) e, em 1883, Treasure Island (A ilha do tesouro). Com esses livros, angariou prestígio imediato junto ao público pela capacidade de prender a atenção do leitor, graças à maneira habilidosa de contar suas histórias. Em todas as obras de ficção, Stevenson manteve o gosto pela aventura e pelo fantástico, a que se mistura uma notável capacidade de análise psicológica dos personagens.

O livro que lhe deu maior popularidade, no gênero de romance de aventuras, foi Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hide (1886; O médico e o monstro), no qual o autor aborda as duas naturezas antagônicas da alma humana. The Merry Men and Other Tales and Fables (1887; Os homens alegres e outras histórias e fábulas) revela a inclinação de Stevenson pelos temas de terror. Kidnapped (1886; Seqüestrado), que teve seqüência em Catriona (1893), e The Black Arrow: A Tale of the Two Roses (1888; A flecha negra: história de duas rosas) são romances históricos.

Dr. Jekyl And Mr. Hyde - The Transformation - Illustration by William Hole


Em agosto de 1887, ainda com o objetivo de tratar da saúde, foi para Nova York, onde encontrou boa recepção do público. Vários editores interessaram-se pela publicação de suas obras e chegaram a oferecer-lhe contratos lucrativos. Nessa época, escreveu The Master of Ballantrae (1889; O senhor de Ballantrae), outra obra em que trata da ambigüidade moral, num relato impactante prejudicado pelo desfecho artificial.

Em 1888 Stevenson empreendeu viagem com a família pelas ilhas do Pacífico sul, novamente motivado por problemas de saúde. Nesses lugares exóticos, esforçou-se por compreender a vida dos nativos, e como resultado escreveu In the South Seas (1896; Nos mares do sul) e A Footnote to History (1892; Nota de rodapé da história). Decidiu então fixar-se em Vailima, Samoa Ocidental, onde durante o resto da vida contou com a simpatia e a admiração dos nativos.

Seus últimos romances reproduzem, com notável lucidez, a frustração do homem diante do contraste entre o desejo e a realidade. A esse período pertence também a coletânea de poesias Ballads (1890; Baladas). Stevenson morreu em Vailima, Samoa, em 3 de dezembro de 1894.

Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

Bernardo Guimarães

Bernardo Joaquim da Silva Guimarães, romancista e poeta da segunda geração romântica, nasceu em 1825 e morreu em 1884. Como ficcionista, a capacidade incomum para retratar os costumes regionais o levou à adoção de uma linguagem atravessada por saborosas expressões do interior e, mais do que isso, pelo próprio pitoresco da oralidade provinciana.

Assim, uma de suas contribuições mais importantes foi a de minar o excesso declamatório vigente na época em que viveu. Com Escrava Isaura, romance de denúncia antiescravocrata, o escritor se tornou popular até nossos dias.

Aventurou-se, também, como José de Alencar, pelo romance histórico, folclórico-lendário, indianista e psicológico, mas, contrariamente àquele, com sua poesia, realizou paródias do indianismo com o intuito de, ridicularizando-o, deixá-lo para trás.

Poemas satíricos, obscenos e bestialógicos, filiando-o à corrente satânica do ultra-romantismo, consolidaram o lado boêmio do escritor.

Afastando-se de um lirismo açucarado de muitos poetas de então, ele emprega todo um vocabulário de práticas sexuais explícitas que choca a moralidade conservadora reinante.

Arthur Miller

As obras do dramaturgo americano Arthur Miller exerceram grande influência no teatro do século XX e criaram novos modelos no que se refere à temática social e à profundidade psicológica dos personagens.

Arthur Miller nasceu na cidade de Nova York, em 17 de outubro de 1915. A ruína econômica de sua família, precipitada pela grande depressão da década de 1930, obrigou-o a trabalhar como auxiliar num armazém para custear os estudos na Universidade de Michigan, onde começou a escrever suas peças. Seu primeiro sucesso foi Focus (1945; Foco), romance sobre o anti-semitismo, e All My Sons (1947; Todos eram meus filhos), inspirada no teatro de Ibsen, foi sua primeira peça importante.

A consagração definitiva veio com Death of a Salesman (1949; A morte do caixeiro-viajante), representação da dramática desintegração dos valores sociais e humanos de um indivíduo de classe média, que ganhou o Prêmio Pulitzer. A esse êxito se sucederam outros, como The Crucible (1953; As feiticeiras de Salem), sobre os julgamentos de bruxas em Massachusetts, em 1692, que foi interpretada como uma alusão às perseguições macartistas na década de 1950.

Em After the Fall (1964; Depois da queda) se observam referências de caráter autobiográfico sobre sua relação com a segunda esposa, a atriz Marilyn Monroe, para quem escrevera anteriormente um roteiro de cinema, The Misfits (1961; Os desajustados).

Em 1969, dirigiu a montagem londrina de sua peça The Price (1968; O preço). Numa fase posterior, Miller dedicou-se preferencialmente a gêneros como o conto e o ensaio sobre teatro.

Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

Sexta-Feira 13

Essa data é considerada popularmente como um dia de azar e a superstição teve origem no dia 13 de Outubro de 1307, sexta-feira, quando a Ordem dos Templários foi declarada ilegal pelo rei Filipe IV de França. Os seus membros foram presos simultaneamente em todo o país, e alguns torturados e, mais tarde, executados, por heresia.

Essa data foi fatal para os templários, e lembrado supersticiosamente ainda nos nossos dias como a azarenta ‘Sexta-feira 13’. Ao fim da tarde, agentes do rei Filipe IV atacaram. Num assalto fulminante, acusaram e prenderam templários por toda a França. A data tinha sido escolhida pela coincidência da visita à França de vários líderes Templários, incluindo o próprio Grande Mestre Jacques de Molay.

Mas quando os agentes entraram no templo em Paris, sede dos templários, descobriram que todos os documentos e, mais importante ainda para Filipe, o tesouro tinha sido removido. Os agentes também tentaram capturar a frota templária, a maior da Europa, que estava atracada em La Rochelle.

Mas uma vez mais se frustrou a intenção — a frota tinha já partido. Até hoje a vasta riqueza dos Templários nunca foi encontrada. Nem tão pouco foi descoberto para que porto a frota seguiu — ou onde atracou.

Charles Dickens

Um dos mais célebres romancistas ingleses, Dickens é também o mais típico da Inglaterra vitoriana. Criou uma prosa original, rica de símbolos, e viu-se cercado da fama de reformador por ter narrado os horrores dos asilos, escolas e prisões da época.

Sua obra, impregnada de mistério, é aparentada com o romance gótico e constitui um vasto painel melodramático da Londres industrial de 1830-1850.

Charles John Huffam Dickens nasceu em Portsmouth, Hampshire, em 7 de fevereiro de 1812. Seguiu para Londres com a família, que em 1823 se instalou no bairro popular de Camden Town e passou por grandes dificuldades financeiras. O pai foi preso por dívidas e Charles teve de se empregar aos 12 anos numa fábrica.

Uma herança inesperada permitiu-lhe prosseguir os estudos. Depois de trabalhar como escrevente de cartório, dedicou-se ao jornalismo. Como repórter, aprofundou seu conhecimento da cidade e entrou em contato com a vida dos tribunais e do Parlamento. Desde 1833 publicou crônicas humorísticas, em diferentes periódicos, sob o pseudônimo de Boz.

Em 1836 casou-se com Catherine Hogarth, com quem teve dez filhos. De início, lançou seus romances em fascículos, com os quais obteve grande sucesso. Viajou pelos Estados Unidos, Itália, França e outros países. Foi editor de vários periódicos e, em 1846, fundou o Daily News. Ligou-se à atriz Ellen Ternan (1857), com quem passou a viver, e a partir de 1858 dedicou-se a leituras públicas de suas obras, já então internacionalmente famosas.

As primeiras crônicas humorísticas de Dickens, com cenas da vida cotidiana, foram reunidas no volume Sketches by Boz (1836; Esboços feitos por Boz). O sucesso valeu-lhe a encomenda dos Pickwick Papers (1836-1837; Documentos de Pickwick), romance burlesco sobre as peripécias de um grupo de esportistas amadores, cuja trama lhe serviu de pretexto para satirizar o sistema judiciário inglês.

Inspirado na Londres de sua infância, escreveu a seguir Oliver Twist (1838), história de um menino, vítima das condições sociais, que em meio à corrupção preserva sua pureza. Nicholas Nickleby (1839) descreve os horrores do internato, as perseguições sofridas pelas crianças e os abusos de mestres ignorantes e perversos.

Em The Old Curiosity Shop (1840-1841; Loja de antiguidades), Dickens examina os efeitos do jogo sobre o caráter, mas o livro tornou-se célebre pelo episódio da morte lenta e sofrida de Little Nell. Em Dombey and Son (1846-1848; Dombey e filho) é Little Paul quem enternece os leitores. A obra parte de um problema pessoal -- o orgulho -- para examinar o mundo do comércio na sociedade da época.

Romances históricos

Situado na época dos distúrbios anticatólicos de 1780, Barnaby Rudge (1841) enaltece a pureza e a simplicidade do povo e denuncia os políticos e a depravação dos grandes. É a única obra de Dickens que narra os movimentos sociais revolucionários de seu próprio tempo. A obra está cheia de reminiscências autobiográficas e revela influências da filosofia socializante de Carlyle. A Tale of Two Cities (1859; História de duas cidades), tido como o romance mais sentimental sobre a revolução francesa, alcançou enorme sucesso de público.

A postura essencialmente sentimental de Dickens expressou-se com muita nitidez em seus contos de Natal. Christmas Carol (1843; Canto de Natal), que é quase um conto de fadas, tornou-se parte integrante da mitologia natalina anglo-saxônica. Outros textos de Dickens sobre a mesma temática são The Chimes (O carrilhão) e The Cricket on the Hearth (O grilo na lareira), ambos publicados em 1845.

Outros títulos célebres

David Copperfield (1849-1850) é considerado por muitos a obra-prima de Dickens. Trata-se de um romance semi-autobiográfico, com incidentes e personagens exagerados. David tem muito em comum com Charles menino, mas, como na maioria dos romances de Dickens, a realidade é deformada para aumentar o efeito dramático e cômico. O imprevidente e bonachão Mr. Micawber parece inspirado na figura de seu pai. O enredo é intrincado e coincidências fantásticas resolvem os problemas na hora exata. David é um anjo incompreendido, como todos os heróis infantis de Dickens.

Seguiram-se Bleak House (1852; Casa desolada), sobre a corrupção nos tribunais e a exploração das crianças trabalhadoras, com descrições inesquecíveis de Londres sob o fog (nevoeiro), e Hard Times (1854; Tempos difíceis), a obra mais bem construída de Dickens, na qual manifesta hostilidade aos sindicatos operários, mostrando que o suposto defensor do povo era antitrabalhista. Little Dorrit (1857; A pequena Dorrit) denuncia a letargia burocrática e o sistema de prisão por dívidas.

Em 1861 Dickens publicou o mais equilibrado de seus romances: Great Expectations (Grandes esperanças). Acreditava, como todo inglês médio da época, na imutabilidade da hierarquia social e condensou no destino de Pip sua própria experiência: os perigos de uma ascensão social demasiado rápida. Em Our Mutual Friend (1864; Nosso amigo comum) tratou da nova plutocracia que surgia entre os ruídos ininterruptos e sinistros do porto de Londres.

Deixou inacabado o romance policial The Mistery of Edwin Drood (O mistério de Edwin Drood), que revela influência de seu amigo e discípulo Wilkie Collins. Charles Dickens morreu em Gad's Hill, perto de Chatham, Kent, em 9 de junho de 1870.

Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Galland e os Contos Árabes

Alguém já teve uma boa tia que cuidando da gente, nós naquela época com sete ou oito anos (deveria ser o ano de 1967 ou 1968), contasse histórias fantásticas, de aventuras mirabolantes, de aves gigantes, príncipes, sultões, reinos, ciclopes ou gênios enquanto nossos pais iam para a noite? Muita criança deve ter tido essa sorte e nós, eu e meu mano, também tivemos.

A tia Lea nos contagiou com o “extraordinário” e jamais esqueceremos aquelas noites felizes. Ela simplesmente nos contou todas as “As mil e uma noites”: quatro volumes traduzidos pelo francês Galland do árabe. “As nove viagens e aventuras do marinheiro Simbad”, “Ali Babá e os quarenta ladrões”, “Aladim e a lâmpada maravilhosa” é só um pouquinho do vasto conteúdo da obra que contagiou a minha imaginação infantil.

A obra, na verdade, parece ser mais antiga, narrativas que os árabes herdaram dos antigos persas, de cultura diferente, e que sincretizaram. Nas aventuras desses contos árabes é comum o califa Harun-Al-Rashid, grande comendador dos crentes (Bagdad, ano 840 d.C.) se disfarçar, junto com seu grão-vizir, de gente comum e sair pela cidade para descobrir as quantas andava sua popularidade. Isso não é propaganda para vender livro! Por favor! É só uma nostalgia que me acomete...

Entendo agora o porquê de eu gostar tanto da obra "Cem anos de Solidão": García Marquez usa muito dessa magia de tapetes voadores, ciganos, adivinhos, etc. Adoro mesmo essa tia Lea, até desconfio que ela fosse Sheerazade, a princesa que contava histórias toda noite, nunca as terminava, porque senão morreria... (este blogueiro saudoso).

"Não há necessidade de preveni-los sobre o mérito e a beleza dos contos incluídos nesta obra. Eles próprios se recomendam: basta lê-los para se concordar que, em tal gênero, jamais se viu coisa tão linda até agora noutra língua. Com efeito, haverá algo mais engenhoso do que se ter feito um todo de uma prodigiosa quantidade de contos, cuja variedade é tão surpreendente e cuja concate nação é tão admirável que parece haver sido escritos para compor a ampla coletânea donde estes foram extraídos? Digo ampla coletânea, pois o original árabe, intitulado “As Mil e Uma Noites”, possui trinta e seis partes; e não é senão a tradução da primeira que hoje damos a lume. Ignora-se o nome do autor de tão grande obra, mas provavelmente ela não pertence a um único homem, porque, como se pode crer que um único homem tenha tido imaginação suficiente para tanta ficção? Se os contos dessa espécie são agradáveis e divertidos pelo maravilhoso que neles reina, estes devem superar quantos hajam aparecido, por estarem repletos de fatos que surpreendem e seduzem o espírito, e fazerem ver como ultrapassam os árabes as demais nações em tal gênero de composição” (Prefácio de Galland sobre a sua tradução de ‘Contos árabes’).

Antoine Galland nasceu em 1646 de pais pobres, fixados numa aldeiazinha da Picardia. Tinha apenas quatro anos, e era o sétimo filho, quando seu pai faleceu. Sua mãe, não sabendo que destino dar-lhe, e reduzida ela própria a viver do trabalho, tanto fez que conseguisse colocá-lo no colégio de Noyon, onde o principal e um cônego da catedral dividiram os cuidados e o custo da sua educação. Ali ficou até os treze anos, quando perdeu ao mesmo tempo os dois protetores, o que o obrigou a voltar para sua mãe com um pouco de latim, grego e até hebraico. Sua mãe decidiu, então, que ele devia aprender um oficio. Antoine obedeceu e, apesar da sua aversão, permaneceu um ano com um mestre.

Certo dia, porém, abandonou o serviço e tomou o caminho de Paris, sem outros recursos que o endereço de uma velha parente e o de um bom eclesiástico que vira, às vezes, em casa do cônego de Noyon. A tentativa logrou êxito que ultrapassou as suas esperanças. No colégio du Plessis, continuou os seus estudos; em seguida, com Petitpied, doutor da Sorbona, aprofundou- se no conhecimento do hebraico e outras línguas orientais, e preparou um catálogo dos manuscritos orientais da biblioteca de Sorbone. Transferiu-se, depois, para o colégio Mazarino; um professor, Godoum, reunindo certo número de meninos de três ou quatro anos de idade somente, entre os quais o duque de la Meiileraye, pro pusera-se ensinar-lhes latim fácil e rapidamente, colocando-os ao lado de pessoas que não falassem outra língua. Galland, associado a tal trabalho, não teve tempo de ver o resultado.

Nointel, nomeado para a embaixada de Constantinopla levou-o consigo, para obter certas provas sobre artigos de fé que constituíam motivo de disputa entre Arnaud e o ministro Claude. Galland, chegado a Constantinopla, adquiriu em pouco tempo o uso do grego vulgar, e acompanhou Nointel a Jerusalém e demais lugares da Terra Santa, onde se pôs a pesquisar, anunciando ao embaixador as curiosidades descobertas; copiou inscrições, desenhou da melhor maneira possível outros monumentos, removendo-os também às vezes, e é a ele que devemos, entre outros, os singulares mármores hoje no gabinete de Baudelot. Galland não julgou oportuno acompanhar a Constantinopla Nointel, preferindo voltar para Paris, onde chegou em 1675. Ali travou conhecimento com Vaillant, Carcavy e Giraud.

Estes o enviaram de novo ao Oriente, donde ele trouxe, no ano seguinte, numerosos medalhões. Em 1679, Galland empreendeu terceira viagem, por conta da companhia das Índias Orientais. As mudanças sobrevindas na companhia interromperam os estudos, dezoito meses depois: mas Colbert, informado, empregou-o por conta própria; após a sua morte, o marquês de Louvois fez com que Galland continuasse ainda por algum tempo as suas pesquisas, com o título de antiquário do rei. Durante a sua longa permanência, Galland aprendeu a fundo o árabe, o turco e o persa.

Em Esmirna, quase morreu num espantoso tremor de terra. Na sua volta a Paris, auxiliou Thévenot, guarda do biblioteca do rei, até que este faleceu. Empregou-o em seguida Herbelot. Mas este também morreu em breve, deixando incompleto o seu trabalho. Continuou-o Galland, tal qual o temos, e escreveu o prefácio da obra, que passou a chamar-se Biblioteca Oriental. Participou da edição do Menagiana, aparecida então. Julga-se até que foi êle que forneceu o material do primeiro volume. Pouco antes, dera a lume uma Relação da morte do sultão Osmã, e da coroação do sultão Mustafá, traduzida do turco, e uma Coletânea de máximas e ditos, tirados das obras dos orientais.

Após a morte de Herbelot, apegou-se Galland a Bignon, primeiro presidente do grande conselho, que, por gosto hereditário, queria ter sempre ao seu lado um homem de letras. Bignon morreu no ano seguinte. Parecia ser destino de Galland perder sempre tão úteis proteções. Mas a proteção do digno magistrado ultrapassou os limites comuns, tanto que lhe deixou uma pensão. Além disso, Foucault, conselheiro de Estado, intendente naquela ocasião na Baixa Normandia, chamou-o ao seu lado.

No suave lazer de tão tranqüila posição, no meio de uma ampla biblioteca, Galland compôs várias obras menores. Foi aí que começou a imensa tradução dos Contos Árabes, tão conhecidos pelo nome de Mil e Uma Noites. Galland foi admitido pelo rei à academia das Inscrições. E imediatamente empreendeu para ela um Dicionário numismático, contendo a explicação dos nomes das dignidades, dos títulos de honra, e em geral de todos os termos singulares encontráveis nas medalhas antigas, gregas e romanas. Regressou, finalmente, para Paris em 1706.

Em 1709 foi nomeado professor de língua árabe no colégio real. Há outras obras escritas por Galland: Uma Relação das suas viagens, uma descrição particular da cidade de Constantinopla, adendas à Biblioteca Oriental de Herbelot, um catálogo dos historiadores turcos, árabes e persas, uma história geral dos imperadores turcos, uma tradução do Corão, com notas histórico-críticas, uma continuação da tradução das Mil e uma Noites.

Galland trabalhava sem cessar, fossem quais fossem as suas condições, pouca atenção dando às necessidades, e nenhuma ao conforto. Só tinha em mente a exatidão. Simples nos hábitos e nas maneiras como nas obras, teria ensinado por toda a vida a crianças os primeiros elementos de gramática com o mesmo prazer com o qual demonstrava a sua erudição em diferentes matérias.

Morreu em 17 de fevereiro de 1715, aos 69 anos.O amor das letras foi a última coisa que nele se extinguiu. Pouco antes da morte, julgou que as suas obras, o único bem por ele deixado, poderiam perder-se, pelo que deixou disposições, fielmente executadas, a fim de que os manuscritos orientais passassem para a biblioteca do rei, o Dicionário numismático para a Academia, e a sua tradução do Corão para o padre Bignon, como penhor da sua estima e do seu reconhecimento.

As Mil e uma Noites

Longe da finalidade moralizadora ou didática que caracteriza a literatura oriental, As mil e uma noites devem seu êxito e atualidade ao entretenimento que proporcionam: a magia, a aventura, o sobrenatural e o fantástico, a intervenção de gênios, gigantes e duendes fazem de muitos de seus contos clássicos da literatura universal.

As mil e uma noites (Alf layla u layl) são uma coletânea de contos orientais, de procedência diversa e autoria desconhecida. Sua trama central é bem conhecida. Desiludido das mulheres porque sua esposa o traíra, o rei Xariar ordena ao vizir que todas as noites lhe traga uma donzela.

Após possuí-la, manda matá-la na manhã seguinte. Por fim, cabe a vez a Xerazade, formosa filha do vizir. Esta, porém, concebe um estratagema. Noite após noite conta ao rei uma história, mas, interrompendo-a habilmente ao clarear o dia e retomando-a ao cair da noite, consegue manter sempre vivo o interesse do monarca, até ele resolver poupar sua vida.

Esse fio condutor é de origem indiana e chegou aos árabes pelos persas. Os contos que a ele se ligam, contêm elementos sobretudo árabes, persas e indostânicos. Supõe-se que tenham aparecido pela primeira vez, em língua árabe, no século VII, talvez adaptados de uma coletânea persa chamada Hazar afsaneh (Mil narrativas), conhecida por referências em obras de autores árabes do século X. Outros contos foram incorporando-se ao longo dos séculos ao relato central, até a versão definitiva da obra se completar no início do século XVI.

As histórias variam em sensibilidade e tipo. Em geral são de fadas, feiticeiros e "djins" (gênios), de amor cortesão, de viagens ou aventuras, de animais (fábulas), de fundo didático-moral, histórico, religioso, humorístico e erótico. Entre as mais conhecidas estão Aladim e a lâmpada maravilhosa, As aventuras de Simbá o marujo, Ali-Babá e os quarenta ladrões, A história do pescador e do gênio, O cavalo mágico e A história dos sete vizires.

A obra existe em diferentes versões, conforme foi decalcada, alternativamente, em cada uma das três tradições dos manuscritos (duas egípcias e uma asiática). Compiladores e tradutores orientais e ocidentais adaptaram-na ou acrescentaram-lhe trechos e novos contos. Talvez no século XVIII tenha sido revista com base numa das versões egípcias e em 1853 impressa na forma árabe definitiva.

Entre 1704 e 1712 apareceram na Europa os 12 volumes da tradução francesa de Antoine Galland, Les Mille et une nuits, contes arabes traduits en français (As mil e uma noites, contos árabes traduzidos para o francês), que ficou também conhecida como Os contos das mil e uma noites para crianças. Foi a primeira versão européia publicada, realizada a partir de dois manuscritos incompletos e das histórias fornecidas por um sírio. Serviu de base a numerosas traduções e ao acréscimo de fontes manuscritas ou orais que se realizaram durante a primeira metade do século XIX e que foram recompiladas por Maximilian Habicht na variante conhecida como edição Breslau (1825-1843).

Uma edição publicada em 1835, no Cairo, constituiu outra fonte importante para as traduções posteriores, a mais famosa das quais foi a inglesa The Thousand Nights and a Night (1885-1888), de Sir Richard Burton.

Outras traduções foram a alemã de Enno Littmann, a inglesa de John Payne e a francesa de Joseph Charles Mardruss. Em português, há uma edição em seis volumes prefaciada por Aquilino Ribeiro e traduzida por vários escritores, publicada em 1958.

O aparecimento de As mil e uma noites foi ponto de partida de uma onda de interesse pelas coisas orientais no século XVIII e começo do século XIX. A obra foi imitada na forma e nos motivos: Robert L. Stevenson escreveu as New Arabian Nights (1882; Novas noites árabes) e More New Arabian Nights (Mais novas noites árabes).

As mil e uma noites também inspirou a visão transfigurada do Oriente de Les Orientales (1829; As orientais), de Victor Hugo, e de Die Abbassiden (1834; Os abássidas) de August von Platen, e influenciou de diversas maneiras os escritores, como Voltaire em Zadig. É sabido também que a suntuosidade oriental das versões européias de As mil e uma noites influiu, provavelmente, em poemas de Coleridge e outros.

Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

Daniel Defoe

O profundo conhecimento da sociedade em que viveu e o talento para analisar os mínimos detalhes da existência cotidiana fizeram de Defoe um precursor do romance realista inglês.

Daniel Defoe nasceu em Londres em 1660. Membro de uma família dissidente da Igreja Anglicana, recebeu esmerada educação literária. Pretendia seguir a carreira eclesiástica, mas acabou se estabelecendo como comerciante por volta de 1683.

Atraído pela política, começou a escrever numerosos panfletos, um dos quais motivou seu encarceramento e a condenação ao pelourinho. Enquanto aguardava o cumprimento da pena, Defoe redigiu o célebre Hymn to the Pillory (1703; Hino ao pelourinho), que transformou a sentença num retumbante triunfo para ele. Contudo, ficou quase um ano preso em Newgate.

Uma vez livre, Defoe, cujos negócios estavam falidos, fundou em 1704 o periódico Review, de tendência conservadora, em que tratava de uma grande variedade de temas, e por isso foi considerado um precursor do jornalismo moderno. Decidindo-se pela literatura, publicou em 1719 Robinson Crusoe, romance que o tornou célebre.

Vazado em estilo realista e simples, inspirava-se na história verídica de Alexander Selkirk, marinheiro abandonado durante anos numa ilha deserta. A obra fez grande sucesso, embora, a princípio, fosse considerada apenas um relato de aventuras e só depois tenha assumido o caráter de símbolo do homem que enfrenta a natureza valendo-se apenas de suas forças e de sua razão.

Moll Flanders (1722) trazia o mesmo substrato moralista da obra anterior, mas graças à vivacidade da narrativa e à descrição realista da vida nas camadas inferiores da sociedade, constituiu um passo decisivo na história do romance social.

Em seus últimos anos de vida, o escritor manteve intensa atividade, mas tanto A Journal of the Plague Year (1722; Diário do ano da peste), minuciosa descrição dos horrores provocados em 1665 pela peste em Londres, quanto o romance Roxana (1724) são marcados por certa monotonia estilística.

Daniel Defoe morreu em Londres em 24 de abril de 1731.

Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

Petrônio

Personagem de destaque na corte de Nero, o escritor romano Petrônio deixou um retrato sarcástico da sociedade romana do século I da era cristã na obra Satíricon, que mantém atualidade como crítica social e fonte documental.


Acredita-se que o autor do Satíricon tenha sido o mesmo Caio Petrônio o Árbitro que viveu em Roma e a quem se referiu o historiador romano Tácito em seus Anais (XVI, 18-19).

De família aristocrática, foi descrito como pessoa requintada, que amava os prazeres da mesa e da vida em geral, o que não o impediu de exercer com eficiência e retidão os cargos de governador da Bitínia, atual Turquia, e depois o de cônsul. Conselheiro de Nero, no ano 63, aproximadamente, foi por ele nomeado arbiter elegantiae (árbitro da elegância).

O romance de Petrônio, do qual só se conservam partes, é destituído de intenções moralistas e reproduz o ambiente romano de devassidão nos bordéis e nas estações de água, com seus parasitos, prostitutas, novos-ricos e literatos.

Narrado por um libertino que viaja com dois companheiros pelo sul da Itália, os capítulos mais famosos são a "Matrona de Éfeso" -- fonte de anedotas sobre as mulheres e de várias novelas e comédias -- e "O festim de Trimalcião" -- em que o dono da casa, ansioso por mostrar-se culto, cai no ridículo ao desfiar uma série de citações equivocadas.

A obra, talvez escrita com a intenção de ridicularizar a oposição burguesa e intelectual a Nero, é uma das origens da novela moderna e o primeiro romance realista da literatura universal. Serviu de inspiração ao filme Satíricon, dirigido em 1969 pelo cineasta italiano Federico Fellini.

Vítima de intriga, Petrônio foi condenado ao suicídio, acusado de participar na conspiração do ano 65 contra o imperador. Passou suas últimas horas numa festa, em Cumas. Nessa ocasião, catalogou os vícios de Nero e enviou-lhe a lista antes de cortar os pulsos, no ano 66.

Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

Apuleio

A crise ideológica de Roma no século dos Antoninos, quando o ceticismo cortesão se entrelaçou ao crescente influxo dos cultos orientais, serviu de pano de fundo à elaboração da obra de Apuleio, notável figura da literatura, da retórica e da filosofia platônica de sua época.

Lúcio Apuleio nasceu em Madaura, na Numídia (moderna Argélia), por volta do ano 124. Educado em Cartago e Atenas, viajou pelo Mediterrâneo, interessando-se por ritos de iniciação como os associados ao culto da deusa egípcia Ísis.

Versátil e familiarizado com os autores gregos e latinos, ensinou retórica em Roma antes de regressar à África para casar-se com uma rica viúva, cuja família o acusou de ter recorrido à magia a fim de conquistar seu afeto. Para defender-se de tal acusação escreveu a Apologia (173), obra da qual emanam as informações disponíveis sobre sua vida.

Escreveu ainda diversos poemas e tratados, entre os quais Florida, coletânea de trabalhos de eloqüência, mas a obra que lhe deu fama foi a narrativa em prosa em 11 livros a que chamou Metamorfoses e se tornou conhecida como O asno de ouro. São aí relatadas as aventuras do jovem Lúcio, que é transformado por magia em burro e só recupera a forma humana graças à intervenção de Ísis, a cujo serviço se consagra.

O episódio mais destacado dessa obra-prima de Apuleio -- o único romance da antiguidade a chegar completo aos nossos dias -- é a bela fábula de "Amor e Psiquê", que pode ser interpretada como narração puramente estética ou, então, como alegoria da união mística. O episódio, aliás, destoa do estilo do romance em geral, pois este relaciona cenas grotescas, terrificantes, obscenas e, em parte, deliberadamente absurdas.

O tema de "Amor e Psiquê" foi retomado por muitos escritores, entre os quais, no século XIX, os poetas ingleses William Morris e Robert Bridges. Outras passagens de O asno de ouro reapareceram no Decameron, de Giovanni Bocaccio, no Don Quixote, de Miguel de Cervantes, e no Gil Blas de Alain Le Sage. Apuleio morreu em Cartago, provavelmente após o ano 170.

Fonte:Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.