sábado, 4 de abril de 2009

A Cruz de Caravaca

A história de Caravaca, por certo, é formada de episódios ricos que estão registrados; porém, o fato lendário perdurou e a Igreja não abre mão do mágico aparecimento da Cruz de Caravaca, tendo-o como real, verídico e milagroso.

No ano de 1231, reinava na Espanha o rei Abu Zeyt, conhecido como Muhammad ben Yaquib.

Em Caravaca, na fortaleza maior, Muhammad mantinha prisioneiros, um grupo de cristãos, suspeitos de tramarem contra os invasores. Entre o grupo, de aproximadamente quinze pessoas, encontrava-se, incógnito, um sacerdote de nome Gines Perez Chirinos que ministrava aos seus companheiros o conforto da religião.

Essas práticas foram descobertas pelos guardas e o fato chegou aos ouvidos de Muhammad que, interessado, mandou vir à sua presença o religioso prisioneiro, para conhecer as suas atividades e descobrir se estava sendo arquitetada a insurreição. Várias foram as audiências mantidas com Muhammad, que ficou impressionado com o religioso a ponto de se interessar pela atividade de sacerdote e o que significava a celebração da Santa Missa.

Chirinos viu a oportunidade, não exatamente de melhorar a sua situação de prisioneiro, mas a de preparar a alma do Rei para uma utópica conversão ao Cristianismo.

Certo dia Muhammad, mais paciencioso, pediu a Chirinos que lhe explicasse o mistério da Eucaristia. Chirinos objetou de que não poderia fazer o desejo do Rei, porque não dispunha dos elementos necessários para celebrar o ato sagrado.

Muhammad, julgando que Chirinos não desejava satisfazer a sua curiosidade, irritou-se, recomendando severidade no tratamento dos prisioneiros.

Com o passar dos dias, a curiosidade e talvez o toque espiritual divino, passaram a preocupar o Rei a ponto de perder a tranquilidade. Mandou vir, novamente, à sua presença Chirinos que se apresentou em lastimável estado de penúria e sofrimento.

Muhammad, com palavras suaves, tornou a pedir ao sacerdote que celebrasse a Missa e que fizesse uma relação de tudo quanto necessitaria para o ato.

Comovido, Chirinos foi enumerando todos os objetos necessários e pediu um local apropriado; foi escolhido um recanto da fortaleza, próximo à torre, que foi limpo, ordenado e preparado para a instalação de um altar.

Chegando às mão de Chirinos os elementos, foi fácil verificar que haviam sido retirados dos altares das igrejas, resultando, assim, em uma visível profanação. Negou-se Chirinos a prosseguir na sua tarefa, pois, o que havia sido profanado, não poderia servir ao sacrifício.

Muhammad então exigiu de Chirinos o prosseguimento dos preparativos, sob pena de serem os seus companheiros de cárcere torturados até a morte. Sem outra alternativa Chirinos prosseguiu.

Chirinos havia montado o altar, preparado o vinho e o pão e treinado dois companheiros de prisão para servirem como acólitos, todos devidamente trajados de conformidade com os costumes da Igreja; o sacerdote estava comovido.

O Rei mandou chamar os seus amigos e familiares e se dispôs com grande atenção e emoção a presenciar o ato máximo de uma 'Magia' Cristã. Foi naquele preciso momento de expectativa que Chirinos se deu conta de que havia esquecido de pedir o elemento principal: uma Cruz !

Notando o nervosismo de Chirinos, e vendo lágrimas em seus olhos, Muhammad indagou o que estava acontecendo. Quis saber o que significava a Cruz e por que era imprescindível a presença daquele símbolo.

O local onde se encontravam era iluminado pela luz solar que penetrava através de uma abertura sobre o Altar.

Chirinos vendo frustrado seu trabalho e temendo ser castigado como ameaçara o Rei, com palavras confusas e balbuciantes tentou descrever a Cruz.

Muhammad, com o olhar posto na abertura sobre o Altar, apontou com as mãos para ela e com voz embargada pela emoção: "É isso aí, a Cruz ?"

Chirinos acompanhou o gesto de Muhammad e viu assomarem pela janela dois anjos luminosos, trazendo em suas mãos uma Cruz !

A Cruz, que tinha um formato curioso, uma composição da Cruz Latina com Tau, revestida de pedraria, toda de ouro, foi colocada pelos anjos, no seu devido lugar, sobre o Altar. Um dos Anjos disse que a Cruz era parte da Cruz do Calvário. Todos tinham os seus olhares fixos na Cruz e não perceberam como os Anjos desapareceram.

O silêncio era comovente.

Chirinos, como possuído por uma força estranha, começou a celebrar. Muhammad, seus familiares e todos os presentes, converteram-se naquele momemto ao Cristianismo. Todos os prisioneiros foram libertados e aquela fortaleza foi transformada em Igreja.

Misteriosamente, e isso ninguém sabe, precisamente no dia 14 de Fevereiro de 1934, a Cruz desapareceu.

(Extraído do Livro "A Origem de Tudo", autor: Rizzardo da Camino)

O Crânio de Cristal

O crânio de Mitchell-Hedges é feito de puro cristal de quartzo e tem o tamanho de um crânio humano. É composto de duas peças (o crânio e uma mandíbula móvel). Suas dimensões são as seguintes: 13,18 cm de altura, 12,38 cm. de largura, 20 cm. de comprimento e 5,13 Kg de peso.

Esse Crânio de Cristal tem sua própria história. Em 1924, durante seu décimo-sétimo aniversário, Anna estava com seu pai nas Honduras Britânicas em uma expedição arqueológica quando descobriu o Crânio de Cristal. Ela viu algo brilhante refletindo a luz do sol em meio às rochas de uma das ruínas do que parecia ser um templo maia perfeito, com vestígios de um altar.

Depois de seis semanas removendo pedras e escombros, retiraram a parte superior (ou crânio) do Crânio de Cristal. Três meses depois, no mesmo local, encontraram a mandíbula inferior.

Quando esse Crânio de Cristal foi descoberto, os nativos maias do lugar ficaram tão alegres que o pai de Anna, F.A.Mitchell-Hedges, não teve coragem de ficar com o crânio, dando-o a eles. Mais tarde, em 1927, quando a expedição estava prestes a partir, o Sumo Sacerdote Maia entregou o Crânio de Cristal ao Sr. Mitchell-Hedges, como um presente em retribuição por todos os alimentos, roupas e assistência médica que haviam recebido dele durante o tempo que durou sua expedição. Se esses fatos não tivessem ocorrido, com certeza o Crânio de Mitchell-Hedges pertenceria hoje a algum dos museus envolvidos na expedição. Anna Mitchell-Hedges, sua proprietária, reside no Canadá.

O Crânio de Mitchell-Hedges, foi levado para diversos laboratórios especializados em cristal, e todos foram unânimes em afirmar que devido a sua pureza e acabamento, seria impossível fazer uma reprodução.

Em outubro de 1970, o Crânio foi levado para a Hewlett-Packard, em Santa Clara, na Califórnia, para uma análise científica. A H.P. possui um dos mais sofisticados laboratórios para pesquisa do cristal. Mais uma vez, resumindo as descobertas apresentadas, os pesquisadores afirmaram que seria virtualmente impossível reproduzir com exatidão aquele Crânio de Cristal. Os testes revelaram que ele possui um elaborado sistema interior de prismas e lentes que permite refratar e refletir a luz projetada sobre o Crânio de Cristal de maneiras específicas. Esses sistemas de lentes pressupõe uma competência técnica atingida apenas recentemente.

Através de um teste a laser e pela transparência, pode-se afirmar com certeza que ele é uma peça de quartzo inteiriça. Além disso, a parte interna do crânio apresenta-se como se alguém tivesse chegado até o interior do crânio e colocado os sistemas óticos lá dentro.


Um detalhe muito embaraçoso é o de que, não importando a que temperatura ele fosse submetido pelos pesquisadores, o Crânio de Mitchell-Hedges permanecia sempre a 21,11°C, além disso seja lá quem for que tenha esculpido o crânio, não considerou o eixo natural do cristal, o que tornaria a sua lapidação impossível.

Para a Hewlett-Packard, se fosse dado um ano, com 24 horas de trabalho por dia, poderia ser capaz de fazer um crânio parecido, mas não garantiria que funcionasse como o crânio de Mitchell-Hedges.

Outro fenômeno relacionado com o crânio, é sua capacidade de projetar imagens holográficas em seu interior, que podem ser vistas por muitas pessoas com seus próprios olhos. Muitas manifestações foram observadas em fotos do crânio, que parecem manter algumas de suas propriedades. Variações de cor, curas, levitações, e outros mistérios apenas parecem nos deixar cada vez mais distantes de entender seu propósito.

Somente a partir de 1980, é que esse assunto foi levado a público, ficando por aproximadamente 40 anos, mantido em segredo.

Já foram encontrados em todo o mundo vários crânios feitos de outras pedras, como o quartzo-rosa, ametista, etc., mas com certeza nenhum deles com a perfeição do Crânio de Mitchell-Hedges.

Como é um tema aberto para pesquisas e especulações, existem algumas teorias:

- Muitos acreditam que os crânios tenham reaparecido para entregar para pessoas selecionadas por ele próprio, conhecimento e sabedoria para orientar o desenvolvimento humano, armazenadas em seu interior como se fosse um computador.

- Outros acham que devido a sua perfeição em se parecer com um crânio humano, talvez alguma cultura terrestre ou alienígena, quem sabe na Atlântida, tivesse conhecimento de como cristalizar um cérebro humano, com o objetivo de perpetuar o conhecimento, após a morte física.

Recomendamos para aqueles que quiserem saber mais detalhes sobre o assunto, a leitura do livro "Mistérios dos Crânios de Cristal Revelados" da Editora Ground, de onde foram extraídos esses trechos transcritos acima, com o intuito de levar esse mistério ao conhecimento do maior número de pessoas, pois possivelmente um dos leitores, quem sabe, não tem a resposta para esse enigma.

Fonte: Portal das Curiosidades

O Caso das Crianças Verdes

As crianças apareceram não se sabe de onde. Eles falavam uma língua desconhecida, usavam estranhas roupas. Não comiam e tinham uma pele verde. Eles pareciam não ser deste mundo. Quem eram eles e de onde vieram?

Essas crianças misteriosas entram em nosso mundo através de uma janela do tempo, de outra dimensão ou emergiram do submundo? Depois de muitos anos, muitas pessoas têm se ocupado com estas questões, tentativas para encontrar uma explicação para essa estranha ocorrência que só torna o caso mais inexplicável.

A história começou há muito tempo atrás; as duas notáveis crianças foram descobertas na vila de Woolpit, em Suffolk ― UK. O incidente se deu durante o regime do rei Stephen da Inglaterra (1135-1154), numa época difícil. Os camponeses estavam trabalhando quando as duas crianças, um garoto e uma garota, repentinamente emergiram de um fosso profundo. As pessoas ficaram de olhos arregalados diante do fato.
Estavam vestidas com roupas de material nada familiar e suas peles eram verdes. Era impossível falar com eles por que tinham um dialeto desconhecido. Os dois foram levados para o dono do feudo, Sir Richard de Caline. Obviamente, eles estavam tristes e choraram por vários dias.


Os pequenos esverdeados se recusaram a comer e a beber qualquer coisa até que alguém ofereceu feijão ainda no talo para eles. Eles sobreviveram comendo feijão por vários meses. Mais tarde eles começaram a comer pão. O tempo passou, o pequeno e esverdeado garoto entrou em depressão, adoeceu e morreu. A garota adaptou-se melhor a sua nova situação. Ela aprendeu a falar inglês e gradualmente sua pele foi perdendo a cor verde. Mais tarde se tornou uma saudável jovem e se casou.

Ela era sempre perguntada sobre seu passado e de onde tinha vindo, mas tudo que falava só fazia aumentar o mistério sobre suas origens. Explicava que seu irmão e ela tinham vindo de "uma terra sem sol", com um perpétuo crepúsculo. Todos os habitantes eram verdes. Ela não tinha certeza exata onde se localizava sua terra. Ainda, ela chamava de "Luminous" a outra terra, que era cruzada por um "rio considerável" separando o mundo deles.

Também são inexplicáveis como as crianças apareceram naquele fosso. A garotinha disse que ela e seu irmão estavam procurando o rebanho do pai e seguiram por caverna escutando o som dos sinos. Vagaram na escuridão por um longo tempo até que acharam uma saída; de repente, eles ficaram cegos por um clarão de luz.

A luz do sol e a temperatura diferente deixaram-nos cansados; descansavam quando ouviram vozes, viram pessoas estranhas e tentaram fugir. Entretanto, não tiveram tempo de se mover da boca do fosso onde foram descobertos. As fontes originais dessa história são William de Newburgh e Ralph de Coggeeshall, dois cronistas ingleses do século 12.

Muitas explicações têm aparecido para o enigma das crianças verdes. Uma das teorias sugeridas é que as crianças eram imigrantes flamengas que sofreram perseguição. Seus pais teriam sido mortos e o garoto e a garota se esconderam na floresta. Esta ideia explicaria as roupas diferentes, mas não esclarece o fato das crianças falarem uma língua desconhecida, embora alguns habitantes locais achassem que era uma corruptela de flamengo.

Outros sugerem má nutrição ou o envenenamento por arsênico como a causa da pele verde. Também havia um rumor que um tio tentou envenenar as crianças, mas isso nunca foi confirmado. No entanto, outras pessoas como o astrônomo escocês, Duncan Lunan, sugeriam que as crianças eram alienígenas enviados de outro planeta para a Terra.

De acordo com outras teorias, as crianças vieram de um reino subterrâneo ou, possivelmente, de outra dimensão. Poderiam as crianças verdes de Woolpit ter vindo de um mundo paralelo, um lugar invisível ao olho nu? É importante lembrar que a garota disse que "não havia sol" no lugar de onde ela teria vindo. Disto se pode deduzir que ela habitava de um mundo subterrâneo. A verdadeira origem das crianças nunca foi descoberta e este caso continua um mistério.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

John Landis

John Landis, cineasta, nasceu em Chicago, Illinois, EUA, em 3 de Agosto de 1950. Aos 17 anos trabalhou como carteiro nos estúdios da Fox. Frequentemente escala diretores e produtores como atores em pequenas papéis em seus filmes. Dirigiu os videoclips das músicas Thriller e Black or White, ambos de Michael Jackson.

Landis é um caso peculiar na lista dos mestres do terror. De fato, o cineasta trabalhou tantas vezes no gênero como fora dele e não há dúvidas que o seu gênero de predileção é antes de tudo a comédia.

Essa forma de distanciação poderia ter feito de Landis um detestável realizador do gênero, mas, felizmente, o realizador nunca deixou dúvidas sobre o seu amor pelo gênero do fantástico, fazendo sempre prova de um grande respeito para com ele. Assim, John Landis deu-nos alguns dos melhores exemplos da fusão entre o riso e o medo, entre a comédia e o terror.

A sua carreira começou com o chanfrado Schlock em 1973, escrito e realizado pelo cineasta. Este low budget deixou claro de imediato a fusão de gêneros que marcará a sua filmografia. A partir daqui, Landis alternaria puras comédias e filmes de terror paródicos. Seguiram-se, portanto The Kentucky Fried Movie, Animal House, o mítico Os Irmãos Cara-de-Pau (The Blues Brothers), o não menos mítico Um Lobisomem Americano em Londres, Os Ricos e os Pobres", a sua participação em The Twilight Zone: The Movie, o famoso vídeo para Michael Jackson Thriller, as comédias Into the Night, Spies Like Us, Três Amigos, Cheeseburger Film Sandwich e Um Príncipe em Nova Iorque.

Como se pode verificar, John Landis contribuiu muito mais para o gênero da comédia do que para o do terror, mas Um Lobisomem Americano em Londres valeu-lhe uma merecida entrada no clube fechado dos realizadores do cinema fantástico.

Como praticamente todos os realizadores de gênero da sua geração, a entrada nos anos 90 foi complicada para o cineasta e os seus ensaios no cinema foram pouco convincentes, obrigando-o a desenvolver trabalhos para a televisão. No cinema, sucederam-se o fraco Oscar - Minha Filha Quer Casar, a simpática comédia vampiresca Innocent Blood, ou para esquecer Um Tira da Pesada 3", o desnecessário Blues Brothers 2000 e o inconseqüente Susan's Plan.

O seu trabalho para a televisão, como escritor, realizador e produtor, foi mais empolgante nomeadamente com a fabulosa série Dream On.

Será, portanto um pouco abusivo considerar John Landis um mestre do terror, mas há que reconhecer que muitos dos seus filmes, terror ou não, entraram no inconsciente coletivo dos fãs de filmes do gênero e, pensando bem, a sua participação nas duas temporadas de Masters of Horror parece perfeitamente lógica.

Filmografia

2007 - Don Rickles documentary
2006 - Great sketch experiment, The
2004 - Slasher (TV)
1998 - Plano de risco (Susan's plan)
1998 - Os irmãos cara-de-pau 2000 (Blue brothers 2000)
1996 - Os babacas (Stupids, The)
1994 - Um tira da pesada 3 (Beverly Hills cop 3)
1992 - Inocente mordida (Innocent blood)
1991 - Oscar - Minha filha quer casar (Oscar)
1988 - Um príncipe em Nova York (Coming to America)
1987 - As amazonas na lua (Amazon women on the moon)
1986 - Três amigos! (Three amigos!)
1985 - Os espiões que entraram numa fria (Spies like us)
1985 - Um romance muito perigoso (Into the night)
1983 - No limite da realidade (Twilight Zone: The movie)
1983 - Trocando as bolas (Trading places)
1981 - Um lobisomem americano em Londres (An american werewolf in London)
1980 - Os irmãos cara-de-pau (Blue brothers, The)
1978 - Clube dos cafajestes (Animal house)
1977 - Kentucky fried movie, The
1973 - Schlock

Fontes: FanatiCine; Adoro Cinema - Personalidades.

Um Lobisomem Americano em Londres


O diretor John Landis já era conhecido do público quando realizou este Um Lobisomem Americano em Londres. A surpresa é que ele até então, só tinha dirigido comédias escrachadas como O Clube dos Cafajestes (Animal House, 78) e Os Irmãos Cara-de-Pau (The Blue Brothers, 80), sucessos de bilheteria estrelados pelo saudoso John Belushi. Talvez seja por isso que ele tenha conseguido tornar a figura mítica do lobisomem um ser ameçador; as produções das décadas de 60 e 70 tinha ridicularizado a imagem do monstro.

Landis combinou as cenas de horror com o mais puro humor negro, onde o personagem que carrega a maldição é atormentado pelos fantasmas de suas vítimas. Aí entra o grande triunfo da fita: a maquiagem.

Rick Baker recebeu o Oscar pelo seu trabalho e mesmo agora passados mais de vinte anos, as cenas de transformação ainda impressionam. O filme teve uma continuação inferior em 1997, Um Lobisomem Americano em Paris, que pouco ou nada tem a ver com esta obra-prima da licantropia.

25 anos de um clássico absoluto

"O filme começa com os créditos aparecendo em meio a imagens das desoladas e inóspitas paisagens do interior da Inglaterra, ao som de “Blue Moon” interpretada magistralmente por Sam Cooke. Já está anoitecendo e o céu obscuro não promete nada de bom, quando então vemos uma camionete repleta de ovelhas parar junto a uma encruzilhada. Do meio das ovelhas saem David Kessler (David Naughton) e Jack Goodman (Griffin Dunne), dois amigos norte-americanos que estão passeando pela Europa.

O motorista da camionete lhes indica o caminho até o vilarejo mais próximo, e lhes adverte para que “evitem os pântanos e fiquem na estrada”. Os dois seguem caminhando e conversando descontraidamente, hora reclamando do frio, hora motivados com as expectativas da viagem.

Já nesse momento se percebe a perfeita química entre os dois jovens atores, que de certa forma quase convence o espectador de que eles são realmente grandes amigos e que se conhecem desde criança. Essa empatia entre o público e os personagens é fundamental para que as cenas posteriores causem o devido impacto a que se propõem.

As primeiras sombras da noite já encobrem a paisagem quando a dupla chega ao vilarejo e se dirigem para uma espécie de taverna chamada “Cordeiro Massacrado”. Ao entrarem no recinto, os jovens são recebidos com uma frieza quase hostil por parte dos freqüentadores do local.

A medida em que o ambiente recobra a descontração, Jack fica intrigado ao ver na parede o desenho de um pentagrama iluminado por velas. O rapaz zombeteiramente menciona com David que no filme do “Wolf-Man” aquela é a marca do lobisomem (essa é a primeira de várias citações ao clássico estrelado por Lon Chaney Jr.), portanto o símbolo na parede deve servir para manter os monstros distantes. Mal sabia ele como estava certo.

Sem conseguir resistir a curiosidade, Jack acaba perguntando para que servia o símbolo na parede, e rapidamente ele descobre que não foi uma boa idéia. Todos os freqüentadores da taverna se mostram irritados e praticamente expulsam os dois viajantes dali, mas não sem antes advertirem novamente para que “evitem os pântanos e fiquem na estrada”, acrescentando ainda um tenebroso “cuidado com a lua”.

David e Jack partem sem entender muito bem o motivo daquele comportamento estranho, enquanto na taverna as pessoas ficam discutindo: alguns acham que não adiantaria contar a verdade aos forasteiros, pois estes não acreditariam, outros achavam que foi um erro deixa-los partir, e que deveriam ir atrás deles.

A essa altura a dupla de amigos já está andando a esmo pelos úmidos e nebulosos pântanos que circundam a região. Apenas, quando a lua cheia passa a brilhar no céu, os dois se dão conta de que saíram da estrada e se perderam. Mas é tarde demais: uma fera desconhecida passa a espreitá-los e perseguí-los em meio à escuridão, e logo o pior acontece: a terrível criatura surge de surpresa e estraçalha Jack com extrema ferocidade. Apavorado, David foge correndo, mas depois decide voltar para ajudar o amigo, sendo também atacado pela criatura. Quando David está prestes a ser morto pelo monstro, surgem os freqüentadores da taverna “Cordeiro Massacrado” e fuzilam a fera. David está muito ferido e acaba perdendo a consciência.

Essa primeira parte do filme é desenvolvida com grande maestria, valorizando a paisagem local como um elemento a implementar o suspense, abusando dos efeitos sonoros e da subjetividade no momento em que o lobisomem está cercando os viajantes, e não poupando no sangue e na violência no momento em que os jovens são atacados. Uma seqüência memorável e que ainda hoje me parece um dos pontos altos do filme.

Em seguida vemos David acordando em um quarto de hospital em Londres. Lá lhe explicam que ele e Jack foram atacados por um maníaco, que seu amigo acabou sendo morto, e que provavelmente ele também seria caso os moradores locais não tivessem intervindo e baleado o assassino. David tenta argumentar que eles não foram atacados por um maníaco, mas sim uma fera. Porém, acreditando que o jovem estivesse traumatizado pelo acontecido, ninguém lhe dá importância..."

"Desnecessário dizer que o filme possui mais uma dúzia de cenas memoráveis, que já foram largamente mencionadas e debatidas, como o ataque do lobisomem dentro do cinema, a fantástica seqüência de acidentes de trânsito quando o monstro está correndo pelo centro da cidade, e a já clássica cena em que a fera persegue um pobre infeliz pelas galerias desertas do metrô, apenas para lembrar algumas..." (por André Bozzetto Junior).


Sinopse

Dois jovens viajando em férias pelo interior da Inglaterra são atacados por um enorme lobo. Um deles morre e o outro é brutalmente ferido. O que ele não sabe é que foi acometido por um terrível maldição, que o transformará em lobisomem nas noites de lua cheia. Atmosfera densa, ritmo acelerado, boa trilha sonora e efeitos especiais fantásticos contribuem para o ótimo desempenho da fita. Um dos melhores filmes sobre o tema já realizado, as sequências de transformação continuam insuperáveis até os dias atuais.

Ficha Técnica

Titulo Original: An American Werewolf in London
País:Inglaterra/EUA
Ano: 1981
Duração: 97 minutos
Titulo Brasil: Um Lobisomem Americano em Londres
Direção: John Landis
Roteiro: John Landis
Produção: George Folsey Jr.
Produção Executiva: Peter Guber; Jon Peters
Música: Elmer Bernstein
Fotografia: Robert Paynter
Direção de Arte: Leslie Dilley
Efeitos Especiais: Neil Corbould; Martin Gutteridge; Garth Inns
Edição: Malcolm Campbell
Maquiagem: Rick Baker; Robin Grantham; Beryl Lerman
Elenco: David Naughton (David Kessler); Jenny Agutter (Enfermeira Alex Price); Griffin Dunne (Jack Goodman); John Woodvine (Dr. J. S. Hirsch); Lila Kaye; Joe Belcher; David Schofield; Brian Glover; Rik Mayall; Sean Baker; Paddy Ryan; Anne-Marie Davies (Enfermeira Susan Gallagher); Frank Oz (Mr. Collins/Miss Piggy - voz); Don McKillop (Inspetor Villiers); Paul Kember (Sargento Paul Kember); Colin Fernandes (Benjamin); Albert Moses; Michele Brisigotti (Rachel Kessler); Mark Fisher (Max Kessler); Gordon Sterne (Mr. Kessler); Paula Jacobs (Mrs. Kessler); Christopher Scoular (Sean); Brenda Cavendish (Judith Browns); Mary Tempest (esposa do Sean); Sydney Bromley; Frank Singuineau; John Landis (homem sendo esmagado numa janela - não-creditado).

Curiosidades

- John Landis escreveu o roteiro para este filme em 1969, quando tinha apenas 19 anos de idade.

- O diretor convidou para compor a trilha sonora Cat Stevens (Moonshadow) e Bob Dylan (Blue Moon) que, recentemente ingressados à Igreja Batista, declinaram do convite por achar o tema "inapropriado". Ambas as músicas foram regravadas por outros cantores.

- O maquiador Rick Baker foi consultor técnico de outra produção sobre lobisomens, Grito de Horror (The Howling).

- Após os créditos há uma mensagem de congratulações à familia real pelo casamento do principe Charles e Lady Diana.

- Após os créditos finais há ainda outra brincadeira: "Todos os personagens e eventos deste filme são ficticios. Qualquer semelhança com eventos atuais ou pessoas, mortas, vivas ou morta-vivas, são pura coincidência"

Fontes: Templo do Horror: Um Lobisomem Amaricano em Londres; Boca do Inferno; Webcine: Um Lobisomem Amaricano em Londres

Diante da Lei

Diante da Lei está um guarda. Vem um homem do campo e pede para entrar na Lei. Mas o guarda diz-lhe que, por enquanto, não pode autorizar-lhe a entrada. O homem considera e pergunta depois se poderá entrar mais tarde. -”É possível” - diz o guarda. -”Mas não agora!”.

O guarda afasta-se então da porta da Lei, aberta como sempre, e o homem curva-se para olhar lá dentro. Ao ver tal, o guarda ri-se e diz. -”Se tanto te atrai, experimenta entrar, apesar da minha proibição. Contudo, repara, sou forte. E ainda assim sou o último dos guardas. De sala para sala estão guardas cada vez mais fortes, de tal modo que não posso sequer suportar o olhar do terceiro depois de mim”.

O homem do campo não esperava tantas dificuldades. A Lei havia de ser acessível a toda a gente e sempre, pensa ele. Mas, ao olhar o guarda envolvido no seu casaco forrado de peles, o nariz agudo, a barba à tártaro, longa, delgada e negra, prefere esperar até que lhe seja concedida licença para entrar. O guarda dá-lhe uma banqueta e manda-o sentar ao pé da porta, um pouco desviado.

Ali fica, dias e anos. Faz diversas diligências para entrar e com as suas súplicas acaba por cansar o guarda. Este faz-lhe, de vez em quando, pequenos interrogatórios, perguntando-lhe pela pátria e por muitas outras coisas, mas são perguntas lançadas com indiferenca, à semelhança dos grandes senhores, no fim, acaba sempre por dizer que não pode ainda deixá-lo entrar. O homem, que se provera bem para a viagem, emprega todos os meios custosos para subornar o guarda. Esse aceita tudo mas diz sempre: -”Aceito apenas para que te convenças que nada omitiste”.

Durante anos seguidos, quase ininterruptamente, o homem observa o guarda. Esquece os outros e aquele afigura ser-lhe o único obstáculo à entrada na Lei. Nos primeiros anos diz mal da sua sorte, em alto e bom som e depois, ao envelhecer, limita-se a resmungar entre dentes. Torna-se infantil e como, ao fim de tanto examinar o guarda durante anos lhe conhece até as pulgas das peles que ele veste, pede também às pulgas que o ajudem a demover o guarda.

Por fim, enfraquece-lhe a vista e acaba por não saber se está escuro em seu redor ou se os olhos o enganam. Mas ainda apercebe, no meio da escuridão, um clarão que eternamente cintila por sobre a porta da Lei. Agora a morte está próxima.

Antes de morrer, acumulam-se na sua cabeça as experiências de tantos anos, que vão todas culminar numa pergunta que ainda não fez ao guarda. Faz-lhe um pequeno sinal, pois não pode mover o seu corpo já arrefecido. O guarda da porta tem de se inclinar até muito baixo porque a diferença de alturas acentuou-se ainda mais em detrimento do homem do campo. -”Que queres tu saber ainda?”, pergunta o guarda. -”És insaciável”.

-”Se todos aspiram a Lei”, disse o homem. -”Como é que, durante todos esses anos, ninguém mais, senão eu, pediu para entrar?”. O guarda da porta, apercebendo-se de que o homem estava no fim, grita-lhe ao ouvido quase inerte: -”Aqui ninguém mais, senão tu, podia entrar, porque só para ti era feita esta porta. Agora vou-me embora e fecho-a”.

por Franz Kafka


(Este conto também faz parte da parte final do livro “O Processo”).

Conto do Mortal Imortal

"Dezesseis de julho de 1833. Este é um aniversario especial para mim, cumpro trezentos e vinte três anos!

O judeu errante? Decerto que não, por ele já passaram mais de oito séculos. Em comparação com ele sou um imortal muito jovem.

Serei imortal? Isso é o que me tenho perguntado dia e noite durante os últimos trezentos anos, e ainda não fui capaz de responder. Precisamente hoje descobri um cabelo branco entre meus fartos morenos, e isso certamente significa que começo a envelhecer. Ainda que também poderia já estar ali escondido durante trezentos anos, pois algumas pessoas têm o cabelo completamente branco antes de cumprir os vinte.

Vou contar a minha historia; e logo, deixarei que os leitores julguem por mim. Assim, enquanto a conto, irão passando umas tantas horas desta longa eternidade que me está sendo tão insuportável. Para sempre! É isso possível? Viver para sempre!

Tenho escutado sobre encantamentos em que as vítimas foram entregues a um profundo sono e despertaram cem anos depois, frescas coma uma rosa. Ouvi falar, por exemplo, dos Santos dormentes e do feliz que foi o lendário Nourjahad. Ser imortal dessa maneira não seria cansativo porém, ai, que insuportável se faz o peso do tempo eterno, o lento passo das horas sucedendo-se sem fim! Mas sigo com meu relato.

Todo o mundo ouviu falar de Cornelius Agrippa. A sua memória é tão imortal como sou eu, por causa da sua sabedoria. Todo o mundo ouviu também falar daquele discípulo seu que, sem querer, invocou o Inimigo na ausência do mestre e foi destruído por ele. O relato deste acidente, verdadeiro ou falso, pôs em apuros o célebre filósofo. Abandonaram-no todos alunos seus, e os seus serventes desapareceram. Não tinha quem mantivesse o lume aceso enquanto dormia ou quem prestasse atenção às mudanças de cor das suas poções enquanto estudava. Um após outro, estragavam-se todos seus experimentos, já que duas mãos não bastavam para ter conta deles. Os espíritos das trevas riam-se dele por não conseguir reter um só mortal a seu serviço.

Eu era naquela época mais novo, muito pobre e estava muito apaixonado namorado. Fora discípulo de Cornelius durante um ano mais ou menos, porém estava ausente quando ocorreu o acidente. Quando regressei, os meus amigos pediram-me que não voltasse àquela casa. Tremia quando me contaram aquela arrepiante historia e não esperei por um segundo aviso; assim que, quando Cornelius me veio oferecer uma bolsa de ouro para ficar sob seu teto, senti como se o próprio Satanás me estivesse a tentar. Estava arrepiado, batiam-me os dentes e sai correndo tão rápido quanto me permitiam as minhas debilitadas pernas.

Desfalecido, deixei que os meus passos me levassem ao lugar onde me dirigira cada serão dos dois últimos anos: a uma fonte da qual brotava suavemente uma água pura e limpa, perto da qual aguardava uma moça de cabelos mouros com olhos fixos no caminho pelo qual eu acabava de chegar. Não recordo o tempo em que não amava Bertha: fomos vizinhos e companheiros de jogos desde crianças; os seus pais, coma os meus, eram de condição humilde porém honrados, e nosso amor era fonte de alegria para eles. Mas um funesto dia, uma febre maligna levou seu pai e sua mãe, e Bertha ficou órfã. O meu pai a acolheria de bom grado sob nosso teto, porém, desgraçadamente, a dona do castelo vizinho, rica, solitária e sem filhos, declarou a sua intenção de apadrinhá-la. Daí em diante, Bertha vestiria roupas de seda, moraria num palácio de mármore e todos a veriam como aquela a quem sorria a fortuna. Realmente, apesar da sua nova situação e os seus novos amigos, Bertha seguia fiel a seu amigo de tempos mais humildes. Visitava amiúde a casa do meu pai, e quando lhe proibiram ir ali, desviava-se para um caminho próximo para encontrar-se comigo na sombria a fonte.

Dizia amiúde que com a sua nova protetora não tinha um compromisso tão sagrado como o que a unia comigo. E como eu não era bastante rico para poder casar, ela começava a estar farta de viver atormentada por causa minha. Era orgulhosa porém também impaciente, e exasperava-se pelos obstáculos que impediam a nossa união. Ela estivera muito aflita enquanto eu estava fora, e agora lastimava-se com amargura e me reprovava por ser pobre. Respondi-lhe sem pensar: "Sou pobre porém honrado! Não te preocupes, quem sabe logo serei rico!"

Esta afirmação deixou-a cheia de perguntas. Tinha medo de assustá-la se lhe confessasse a verdade. Porém conseguiu que eu contasse; e então, com um olhar de desprezo, disse: "Diz que me ama, não obstante tem medo de enfrentar o diabo por mim!"

Assegurei-lhe que só temia ofendê-la, porém ela teimava que receberia uma magnífica recompensa. Assim, alentado e envergonhado por ela, cego pelo amor e pela esperança e rindo-me dos meus temores, voltei com passo rápido e coração ligeiro para aceitar a oferta do alquimista, quem me devolveu imediatamente o meu antigo posto.

Passou um ano e ganhei uma soma considerável de dinheiro. O costume espantou os meus temores. Ainda que estava à espreita em todo momento, nunca achei nenhuma pegada de bode na nossa casa, nem se viu nunca a tranqüilidade do nosso estudo perturbada por gritos demoníacos. Segui vendo Bertha às escondidas e a esperança renasceu em mim; esperança sim, mas não felicidade completa, pois que Bertha cuidava que a segurança era inimiga do amor e se comprazia-se fazendo-me elixir entre eles. Ainda que fiel, era bastante coquete e fazia-me adoecer de ciúmes. Desprezava-me de mil maneiras e nunca se desculpava, fazia-me gemer de raiva e logo obrigava-me a suplicar-lhe perdão. Às vezes, quando cuidava que não era submisso o bastante, inventava alguma historia dum rival que era o preferido da sua protetora. Vivia rodeada de moços vestidos de seda, ricos e galantes, que oportunidade poderia ter o esfarrapento discípulo de Cornelius comparado com eles?

Numa ocasião, o filósofo tinha-me tão ocupado que não pude encontrar-me com ela tal como combináramos. Cornelius andava enredado em trabalho muito importante, e tive que ficar alimentando o forno e vigiando os preparados químicos dia e noite, enquanto Bertha esperava em vão na fonte. Era orgulhosa, e zangou-se muito por isso. Quando por fim pude escapar durante os escassos minutos que tinha para dormir, esperava que ela me confortasse; contudo, recebeu-me com indiferença e desprezo, e assegurou-me que não havia concedido sua mão a um homem que não fosse capaz de estar em dois lugares ao mesmo tempo por ela. Jurou que se vingaria, e decerto que o fez. Enquanto eu sofria em silêncio minha derrota, escutei dizer que ela estivera caçando acompanhada de Albert Hoffer. Hoffer era o preferido da sua protetora, e um dia passaram os três cavalgando diante de minha casa. Pareceu-me que mencionavam o meu nome, seguido duma risada burlesca, enquanto Bertha cravava os seus olhos escuros, cheios de desprezo, na minha velha casa.

Todo o veneno e o desassossego dos céus assolou meu coração. Primeiro derramei um rio de lágrimas pensando que nunca chegaria a ser minha, e logo reneguei da sua veleidade. Porém ainda assim tinha que seguir atiçando o lume e vigiando as mudanças das ininteligíveis mezinhas do alquimista.

Cornelius levava três dias e três noites de vigília sem sequer cerrar olhos. As poções dos seus alambiques progrediam a um ritmo mais lento do que ele esperava. Apesar de sua preocupação, já não podia manter os olhos abertos; custava-lhe um tanto sacudir o sono que lhe cegava uma e outra vez os sentidos. Por fim, olhou melancólico os crisóis e murmurou: "Ainda não está pronto, terá que passar ainda outra noite antes de que a obra esteja pronta. Winzy, filho, tu que és arguto e leal e dormiste pela noite, vigia este vaso. Contém um líquido duma cor ligeiramente rosada; quando começar a mudar de tom, acorde-me, até então deixa-me fechar um pouco os olhos. Primeiro põe-se branco, e depois despende faiscas douradas; porém não esperes até que passe disso, quando a cor rosa começar a sumir, acorda-me". Estas últimas palavras, murmuradas enquanto adormecia, já quase não as escutei. Mas, nem sequer então se deixou dobrar pelas leis da natureza e seguiu dizendo: "Winzy, filho, não toques o vaso, não se te ocorra levá-lo aos lábios. É um filtro que cura o amor, e tu não queres deixar de amar a tua Bertha, não é? Pois muito cuidado com ele!"

Repousou a venerável testa no peito e caiu no sono, apenas se escutava a sua respiração. Observei o vaso durante uns minutos, porém o tom rosa do liquido não mudou. Então, a minha mente começou a vagar, vi-me na fonte, em lembrando cenas encantadoras que nunca haviam de voltar, nunca! Quando a palavra "nunca" começou a tomar forma nos meus lábios encheu-me o coração de veneno. Traidora!, traidora e cruel! Nunca tornaria a olhar como olhava Albert. Mulher detestável e odiosa! A coisa não podia ficar assim, como vingança havia de dar morte a Albert a seus pés... mataria a ela com minhas próprias mãos... Sorria triunfante e altiva, consciente da minha aflição e o seu poder. Mas, que poder tinha ela sobre mim? O poder de provocar minha ira, o meu desprezo mais absoluto, a minha... qualquer coisa menos indiferença! Se pudesse conseguir isso! Se pudesse olhá-la com olhos indiferentes e entregar-lhe esse amor não correspondido a outra mais pura e sincera, isso seria, sem dúvida, uma vitória!

De repente, um luz intensa cintilou ante meus olhos. Já me esquecera da poção do mestre. Contemplei-a com assombro: a superfície do liquido refulgia com beleza admirável, despendia umas faíscas mais brilhantes que as produzidas pelos raios de sol ao passar através de um diamante. Uma fragrância deliciosa embebeu meus sentidos, o vaso parecia uma bola luminosa e brilhante, fascinante para a vista e cativante para o olfato. A minha primeira reação, inspirada instintivamente pelos sentidos, foi: "quero beber! tenho que beber!" Levei o vaso aos lábios e murmurei: "Curara-me deste amor, desta tortura!" Quando o filósofo acordou, já eu engolira a metade do licor mais delicioso que provou o paladar humano. Assustei-me e deixei cair o vaso, o liquido derramou cintilando pelo chão e começou a arder. Entretanto, senti como Cornelius me apertava a garganta berrando: "Desgraçado, destruíste o trabalho de toda a minha vida!"

Não se deu conta de que eu bebera parte da poção. Cria que pegara o vaso por curiosidade e que o deixara cair, assustado pelo resplendor e a intensa luz que desprendia; versão que eu admiti implicitamente. Nunca lhe contei a verdade. Apagamos o lume e o resto da poção foi-se esvaecendo, Cornelius recuperou a serenidade, como deve fazer todo filósofo ante as maiores adversidades, e deu-me permissão para descansar.

Seria inútil tentar descrever o sono celestial que elevou a minha alma ao paraíso do gozo durante as restantes horas daquela noite inesquecível. As palavras seriam simples representações banais da satisfação e da alegria que assolavam o meu coração quando despertei. Flutuava no ar, o meu pensamento vagava pelas nuvens. A terra parecia o céu, e o meu legado desse paraíso era viver num êxtase de gozo. "Isto é estar curado do amor", pensei. "Hoje irei visitar a Bertha e mostrar-me-ei frio e distante, demasiado feliz como para tratá-la com desprezo, porém completamente indiferente ante ela!"

As horas voavam e Cornelius, certo de que se o conseguira a primeira vez também o havia lograr uma segunda, começou de novo a elaborar a sua poção. Fechou-se com os livros e as ervas, e deu-me uns dias de descanso. Vesti-me cuidadosamente e olhei-me num escudo velho porém brilhante que me serviu de espelho; parecia que o meu aspecto melhorara extraordinariamente. com bom ânimo e rodeado de toda a beleza do céu e da terra, sai para fora dos limites da cidade. Fui ao castelo, chegando lá, dei-me conta conta de que era capaz de ver suas grandiosas torres com espírito leve, porque já estava curado do amor. Bertha viu-me ao longe quando subia pelo caminho, e não sei que repentina força despertou no seu peito que, ó verme, desceu a escada de mármore brincando com uma corça e começou a correr para mim. Mas também me viu a velha bruxa fidalga que se fazia chamar sua protetora e, na realidade, era a sua tirana; subia abafada e coxeando para o pórtico, enquanto um pagem, tão feio coma ela, lhe sustentava o vestido. Foi ele que deteve minha linda amiga dizendo: "Onde vais com tanta pressa, desvergonhada? Volta à tua gaiola, que fora revoam os falcões".

Podem apreciar como Bertha apertava as mãos, com olhos ainda voltados para mim. Como aborrecia a velha harpia que teimava em reprimir os nobres impulsos da minha amada quando por fim começava a comover-se! Até então, eu sempre evitara defrontar-me com a senhora do castelo por respeito, porém naquele momento não reparei em considerações tão triviais. Já curara do amor e estava por cima de qualquer temor humano, assim apurei o passo e cheguei em seguida ao pórtico. Bertha estava preciosa! Brilhavam-lhe os olhos e ardiam de impaciência e raiva, estava mais garrida e encantadora que nunca, porém eu já não a amava Oh, não! Adorava!, Venerava! Idolatrava!

Aquele dia pressionara-a com mais insistência que nunca para que consentisse em casar de imediato com meu rival. Reprovava-lhe que lhe tivesse dado azos, e ameaçava-a com expulsá-la da casa envergonhada e desonrada. Ela, orgulhosa, rebelou-se contra a tal ameaça; mais, ao lembrar todos os desprezos que me fizera, e que, quiçá por isso, perdera o que agora considerava o seu único amigo, rompeu a chorar com raiva e remorsos. Nesse momento apareci. "Oh, Winzy!", exclamou. "Leva-me em seguida a cabana da teu pai. Renego todos os luxos desta suntuosa casa que não me trouxe mais que desgraças, leva-me de volta à pobreza e à felicidade!"

Colhi-a nos braços, extasiado. A velha ficou muda de raiva, e quando começou a proferir impropérios já estávamos longe, caminho da casa dos meus pais. A minha mãe recebeu com ternura e alegria a coitadinha refugiada, que acabava de escapar duma gaiola de ouro buscando a liberdade na singeleza; e o meu pai, que lhe queria coma a uma filha, deu-lhe as boas-vindas de todo coração. Foi um dia de júbilo, o meu coração pulava de alegria sem necessidade de nenhuma poção mágica.

Pouco depois daquele dia tão agitado casei com Bertha. Deixei de ser discípulo de Cornelius, porém segui sendo seu amigo. Sempre lhe estive agradecido por permitir, sem saber, tomar um gole daquele elixir divino que, em vez de curar-me do amor ?triste cura!, um remédio cheio de saudade e dor contra uma coisa que hoje se assemelha a uma bênção? infundiu em mim a coragem e resolução necessárias para conquistar o inestimável tesouro que resultaria ser Bertha.

Com freqüência, recordo aquela época de embriaguez quase hipnótica. A beberagem de Cornelius não cumprira o cometido para o que ele afirmava que fora preparada, mas não há palavras que possam expressar os efeitos tão maravilhosos que produziu em mim. Ainda que o efeito se ia esvaecendo, durou muito tempo e encheu-me a vida de delícia. Às vezes, Bertha abraçava-se ao me ver tão alegre e entusiasmado, algo inusitado em mim já que antes era mais bem sério, mesmo tristonho. Agora, com meu novo caráter, ainda me queria mais, e nas nossas vidas não havia lugar para a tristeza.

Uns cinco anos depois, Cornelius mandou-me chamar a seu leito de morte requerendo a minha presença imediata. Achei-o deitado no leito cunha febre altíssima; a faísca de vida que lhe restava brilhava-lhe no penetrante olhar, fixo num vaso de vidro que continha um líquido rosado.

?Notaste do insignificante que é a vontade humana? ?disse com voz entrecortada e como para si. Pela segunda vez estão a ponto de ver-se cumpridas as minhas esperanças, e uma segunda vez me escapam. Vês essa poção? Lembra que há uns cinco anos preparei a mesma beberagem com mesmo resultado: daquela, como agora, esperava poder saciar a minha sede com elixir da imortalidade então, entregá-lo a ti e agora, já é tarde demais!

Falava com dificuldade e tinha que recostar-se contra a almofada. Mas não pude evitar dizer-lhe:

?Porém, venerado mestre, como pode um remédio contra o amor devolver-lhe a vida?

?Um remédio para o amor e para tudo: o Elixir da Imortalidade! Ai, se pudesse bebê-lo agora viveria para sempre! ?disse, de maneira case ininteligível, enquanto que um vago sorriso lhe iluminava a cara.

E, dizendo isto, do vaso surgiu um resplendor dourado, e uma fragrância bem conhecida por mim espalhou-se no ar. Apesar de débil que estava, ergueu-se e estendeu o braço, a força parecia retornar a seu corpo como por arte de magia. A mim assustou um forte estalo, o elixir despendeu fagulhas e o vaso quebrou em mil cacos. Olhei para o filósofo: caíra de costas e tinha os olhos vidrados e as feições rígidas, estava morto!

Porém eu estava vivo e ia viver para sempre! Isso disse o desafortunado alquimista, e durante uns dias acreditei nas suas palavras. Recordava a felicidade embriagadora que me inundou depois de tomar aquele trago às escondidas. Passei a observar as mudanças que se produziram no meu corpo e na minha alma: a exultante elasticidade do primeiro e o eufórico entusiasmo da última. Examinei o meu rosto detalhadamente no espelho, e não notei que se tivesse produzido nenhuma mudança nas minhas feições durante os últimos cinco anos. Recordava a luminosa cor e o aroma daquela deliciosa bebida, dignos do poder que possuía. Portanto, eu era Imortal!

Uns dias mais tarde, eu mesmo ria da minha credulidade. O velho provérbio que diz que "ninguém é profeta na sua terra" resultou ser verdade tocante a mim e meu defunto mestre. Eu apreciava-o como pessoa e respeitava-o como mestre, porém a idéia de que pudesse ter algum poder sobre as forças das trevas parecia-me ridícula e ria- me do medo supersticioso com que o olhavam. Era um filósofo sábio, mas não conhecia outros espíritos que não fossem os recobertos de carne e osso. Os seus conhecimentos eram puramente humanos; e o saber humano, conseguiu convencer-me, nunca chegaria a dominar as leis da natureza até o ponto de poder encerrar a alma para sempre na sua morada carnal. Cornelius elaborara uma bebida que restabelecia o espirito, uma bebida mais embriagadora que vinho e mais doce e olorosa que nenhuma fruta, e que provavelmente tinha poderes medicinais: proporcionava alegria ao coração e vigor aos membros. Porém os seus efeitos acabariam desaparecendo, no meu corpo já começavam a minguar. Considerava-me um tipo afortunado porque o meu mestre me obsequiara com boa saúde e alegria e quiçá uma longa vida. Porém a minha boa fortuna acabava ai, a longevidade era bem diferente da imortalidade.

Segui abrigando esta crença durante muitos anos, ainda que às vezes me passava uma idéia pela cabeça: estava realmente equivocado o alquimista? Mas, em geral, seguia a crer que chegaria a minha hora como a qualquer cristão, talvez um pouco tarde porém, a uma idade normal. Mas não havia dúvida que tinha uma aparência extraordinariamente juvenil. As pessoas riam de minha vaidade por olhar-me no espelho com tanta freqüência. Porém era tudo debalde, já que na minha fronte não se via uma ruga; as madeixas, os olhos, tudo eu seguia tão jovem como aos vinte anos.

Estava desconcertado, olhava a mirrada beleza de Bertha, e parecia mais a minha mãe. Pouco a pouco, os vizinhos começaram a fazer comentários deste tipo e finalmente, descobri que me chamavam "o rapaz amigado". Mesmo Bertha começou a inquietar-se, tornou-se zelosa e irritável e, com o tempo, começou a fazer perguntas. Não tínhamos filhos, estávamos completamente sós; porém, assim como tudo, ao ir envelhecendo, o seu caráter leve e esperto acabou por aquietar-se, e a sua beleza começou a murchar. Contudo, eu apreciava-a como a amante que adorara na juventude e a esposa que conquistara com tanta dedicação.

A final, a situação tornou-se insuportável. Bertha tinha cinqüenta anos e eu vinte. Envergonhado, adotei costumes de velho: nos bailes já não me juntava com moços, ainda que o meu coração brincava com eles e tinha que conter os pés para não dançar; fazia uma figura ridícula entre os homens maduros da vila. Porém as coisas já começaram a mudar antes de tudo isso. Rejeitavam-nos todos porque acreditavam que fizéramos, pelo menos eu, um pacto diabólico com algum dos supostos aliados do meu antigo mestre. De mim tinham medo e aborreciam, e a pobre Bertha, ainda que lhe tinham mágoa, abandonaram-na à sua sorte.

Que podíamos fazer? Ficar sentados a frente do lume vendo como a pobreza entrava na nossa casa, já que ninguém queria comprar os produtos da minha granja. Amiúde tinha que fazer vinte milhas de viagem para poder vendê-los em local onde não me conhecessem. Menos mal que tínhamos algo guardado por virem maus tempos.

Ficávamos sós, o moço avelhentado e a sua antiquada mulher sentados diante do fogo. Bertha seguia insistindo em saber a verdade, juntava tudo o que escutara sobre mim e tirava as suas próprias conclusões. Chegou a suplicar-me que desfizesse aquela magia. Tentou convencer-me de quanto mais formosas eram as cãs que meus cabelos castanhos, elogiava o respeito e a veneração que inspira a velhice, comparados com a escassa consideração que se tem com os jovens. Como podem imaginar que o desprezável dom da juventude e a beleza seria mais forte que ódio, o desprezo e a vergonha? Acabariam queimando-me por praticar magia negra, e a Bertha ?a que não fora capaz de transmitir nem sequer uma pequena parte da minha boa fortuna? poderiam dilapidá-la por ser a minha cúmplice. Por último, chegou a insinuar que devia compartilhar meu segredo com ela para que pudesse gozar dos mesmos benefícios, se não queria que me denunciasse, e depois começou a chorar.

Vi-me tão encurralado que pensei que o melhor era dizer-lhe a verdade. Contei com todo o tato que pude, e não lhe falei de imortalidade, senão duma longa vida, que era também o que melhor encaixava com a idéia que eu tinha do assunto. Quando rematei o relato, pus-me de pé e disse-lhe:

?E agora, Bertha, ainda queres denunciar o teu amante de juventude? Sei que não o farás, porém seria injusto que ui, a minha querida esposa, sofresse as conseqüências da minha má sorte e das artes malditas de Cornelius. Devo-me ir. A ti fica o bastante para viver; e, quando eu partir, voltarão os velhos amigos para dar-te uma mão. Ainda pareço novo e sou forte, posso trabalhar e ganhar o pão onde ninguém me conheça nem suspeite de mim. Amei-te de moço e ponho a Deus por testemunha de que não te abandonaria na velhice, se não fosse pela tua própria segurança e felicidade.

Vesti o casaco e dirigi-me à porta; porém em seguida senti que os braços de Bertha rodeavam o meu pescoço e os seus lábios bicavam os meus. "Não, meu queridinho, meu Winzy", disse,"não te irás só, leva-me contigo; deixaremos este lugar e, como ti disseste, entre desconhecidos estaremos seguros e livres de qualquer suspeita. Ainda não sou tão velha para envergonhar-te. Seguramente há de desaparecer logo o feitiço e, por Deus, envelhecerás como deves. Por favor, não te vás sem mim!"

Abracei-a forte contra o meu peito e disse-lhe: "Não temas, não te deixarei, não o pensara nem por um momento. Seguirei sendo o teu maridinho fiel e cuidarei de ti até que Deus te chame a seu lado".

No dia seguinte preparamo-nos em segredo para a partida. Teríamos que renunciar a muitas coisas, era inevitável. Reunimos a soma de dinheiro necessária para manter-nos pelo menos enquanto Bertha vivesse e, sem dizer adeus a ninguém, deixamos nossa terra natal para refugiar-nos num lugar remoto do oeste de França.

Foi cruel afastar a pobre Bertha da sua vila natal e os seus amigos de juventude e levá-la a um país com outra língua e outros costumes. Para mim, a partida era algo sem demasiada importância devido ao segredo do meu insólito destino. Compadecia-me profundamente dela e alegrava-me comprovar que encontrava consolo para as suas desgraças em pequenas casualidades ridículas. Longe de todos os conhecidos, ela tentava ocultar a evidente diferença de idade que nos separava mediante milhares de truques femininos: punha carmim nos lábios, usava roupa juvenil e comportava-se coma uma mocinha. Não podia aborrecer-me com ela, não levava eu também uma máscara? Por que havia de discutir com ela se os seus truques não funcionavam tão bem como os meus? Uma tristeza infinita assolava o meu coração quando lembrava que essa era a minha Bertha, a que eu amara tão apaixonadamente, a que tanto me custara conquistar. Aquela garota de cabelos mouros e olhos escuros, com sorriso pícaro e cativador, que saltitava como uma corça, convertera-se nessa velha mexeriqueira e zelosa. Deveria venerar as suas cãs e rugas! Sabia que era o meu dever.

Porém esse tipo de decadência não era o que me aborrecia nela. A sua desconfiança não tinha limite. A sua principal ocupação era descobrir que, apesar da aparência externa, eu também estava a envelhecer. Creio que, no fundo, a pobre amava-me de verdade; mas nunca conheci uma mulher com forma tão opressiva de mostrar o seu carinho. Descobria rugas no meu rosto e debilidade no meu andar, enquanto eu brincava com vitalidade juvenil e parecia o mais novo dos moços do lugar. Nunca se me ocorreria falar a outra mulher; porém, numa ocasião, ela, crendo que a beleza da vila me via com bons olhos, comprou-me uma peruca cinza. O tema habitual de conversação com suas amizades era que, ainda que parecesse tão novo, o meu corpo estava a deteriorar-se e o pior sintoma, afirmava, era essa aparente saúde. Dizia que a minha juventude era uma enfermidade e que devia estar preparado, se não para uma morte repentina e horrível, quando menos para espertar uma manhã com o cabelo todo branco, cuvado e com todos os achaques da velhice. Deixava-a falar e amiúde mesmo corroborava as suas conjecturas, que concordavam com minhas eternas especulações sobre o meu estado. Até cheguei a tomar um sério ainda que doloroso interesse por escutar tudo o que o seu rápido engenho e a sua imaginação exaltada podiam discorrer sobre o tema.

Para que estender em mais detalhes? Ainda vivemos juntos muitos anos. Bertha ficou paralítica e prostrada numa cama. Cuidei dela como uma mãe cuidaria um filho. Com o tempo, tornou-se ainda mais raivosa e obsessiva, sempre cismando sobre quanto tempo eu ia sobreviver. Consola-me saber que cumpri escrupulosamente o meu dever para com ela. Foi a minha companhia na juventude e foi também na velhice e, afinal, quando enterrei o seu corpo, chorei desconsolado pela perda do único elo que realmente me unia a este mundo.

Desde então, quantas foram as minhas preocupações e pesares e que poucas e vãs as alegrias! Vou deixar a minha historia neste ponto, não paga a pena seguir. Um marinheiro sem temor nem compaixão, sacudido por um mar tormentoso; um viajante perdido num monte imenso, sem luzes nem estrelas que o guiem: isso é o que eu sou e estou mais perdido e desesperado que nenhum deles. Um barco próximo ou a luz d?alguma casa ao longe poderiam salvá-los, porém para mim não há outro farol que a esperança da morte.

Morte! misteriosa dama de escuro rosto que alentas os pobres mortais! Por que, entre todos eles, tivestes que me privar a mim do teu abraço protetor? Oh, a paz, o profundo silêncio da tumba! Se o meu cérebro se detivesse e o meu coração deixasse de sentir emoções que só variam em novas formas de tristeza!

Então, sou imortal? Volto com a primeira pergunta. Em primeiro lugar, nao é mais provável que a poção não concedesse a vida eterna, senao uma longa vida? Isso é o que eu espero. Ademais, só tomei a metade da poção, não teria que bebê-la toda para completar o feitiço? Portanto, tomar a metade do Elixir da Imortalidade só suporia ser semi-imortal e assim, a minha eternidade ficaria truncada e invalidada.

Ora, de todo o modo, quem poderia saber quantos anos são a metade da eternidade? Amiúde, trato de adivinhar segundo que regra se pode dividir o infinito. Às vezes imagino que me acho velho. já encontrei uma cã. Porém sou um tolo!! ainda me lamento? Sim, invade-me com freqüência o medo da velhice e morte; e, ainda que aborreço a vida, quanto mais vivo mais me aterra a morte. Ai, o ser humano é um mistério! Nascemos para perecer e teimamos em lutar, como faço eu, contra as leis que regem a nossa natureza.

Maldita contradição, estou certo de que algum dia hei morrer. A poção do alquimista não poderá mais que o fogo, uma espada ou as profundas águas dum rio. Já me tenho visto mais duma vez nas azuis profundidades de um plácido lago ou nos tumultos rápidos dum imenso rio, pensando que a paz reside nas suas águas. Porém, assim mesmo, sempre dei volta para seguir vivendo outro dia mais. Pergunto eu se o suicídio será um pecado para alguém que não tem outra forma de cruzar as portas do outro mundo. Fiz de tudo, exceto apresentar-me voluntário para o exército ou um duelo, porque desta maneira não só destruiria a mim mesmo, não, senão também outros mortais, por isso dei para trás. Os mortais não são os meus iguais. A inesgotável força vital que habita o meu corpo e a sua existência efêmera nos faz tão opostos como os pólos. Por isso, eu não seria quem ergueria uma mão nem contra o mais débil nem o mais forte deles.

Assim vivi durante todos estes anos, só e aborrecido de mim mesmo, desejando morrer porém ainda vivo: um mortal imortal. não tenho ambições nem sou cobiçoso, e esse ardente amor que me rói o coração ?esse que não voltará nunca, porque nunca encontrei um igual a quem possa entregá-lo? perdura só para atormentar-me.

Precisamente hoje, ideei um projeto com o qual poderei acabar com tudo sem ter que suicidar-me nem fazer doutro homem um Caim: uma expedição a que nenhum mortal, nem sequer alguém novo e forte como eu, havia sobreviver. Desta maneira, porei à prova a minha imortalidade e descansarei para sempre ou voltarei para converter-me num prodígio da natureza e um benfeitor da humanidade.

Mais antes de partir, a vaidade levou-me a escrever estas páginas. Não quero morrer sem deixar pegada. Já passaram três séculos desde o funesto dia em que bebi aquela poção e não há de passar outro ano antes de que, enfrentando enormes perigos, lutando contra as forças do céu no seu próprio terreno, açoitado pelo temporal, a fome e a fatiga, abandone a ação da chuva e o vento este corpo que se converteu numa gaiola demasiado resistente para uma alma tão sedenta de liberdade. Porém se sobrevivo, o meu nome será lembrado como um dos mais célebres entre os mortais. E, daquela, hei empregar métodos mais contundentes para dispersar e aniquilar todos os átomos que compõem o meu corpo e liberar a vida encadeada dentro, a que tão cruelmente se lhe impediu ascender deste mundo de trevas a uma esfera mais adequada á sua essência imortal."

por Mary Shelley - tradução : Jô Andrada

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Poltergeist

Esse nome pode assustar (e muito) a maioria das pessoas que já ouviram falar ou assistiram Poltergeist, O Fenômeno de Steven Spielberg. Muitos associam os poltergeists a manifestações de espíritos demoníacos, fantasmas ou outras entidades do gênero.

No entanto, eles parecem mais relacionados com as próprias pessoas mais do que com qualquer coisa sobrenatural. E o filme não mostra realmente a verdadeira causa desse fenômeno, muitas vezes observado (de fato) em alguns locais específicos. No entanto, não são raros os casos que extrapolam os limites de uma casa ou prédio.

A palavra “poltergeist” vem do alemão (geist = espírito; poltern = ruidoso). De fato, os primeiros casos são oriundos da Alemanha. No início acreditava-se (como já fora dito) que eles eram relacionados a espíritos, e que esses "espíritos" eram imunes ao exorcismo.

Os casos na sua maioria são semelhantes, apesar de algumas variações: em uma casa, pratos, louças ou objetos começam a "voar" inexplicavelmente, saem do lugar onde estão sem qualquer intervenção humana ou então são lançados em paredes ou sobre pessoas. São muito mais raros os casos em que objetos muito grandes são movidos (como mesas, cadeiras, etc.) ou que pessoas são atingidas e machucadas.

Devemos diferenciar esse tipo de fenômeno daquele que chamamos de assombração (a crença de que o espírito de uma pessoa morta permaneceu no seu habitat terrestre, ou a ele retornou). Normalmente as assombrações não são relacionadas com ninguém em especial, mas sim com um local (como uma "casa mal-assombrada"). Além do mais, com relação a assombrações são percebidos sons de passos e os referidos espíritos podem ser vistos (não é impossível que vários casos de visões de assombrações possam ser alucinações de uma ou várias pessoas). Nos poltergeists, não se vê o agente que causa os distúrbios. Com relação à duração dos fenômenos, as assombrações aparentam "durar mais" que os poltergeists (às vezes vários anos, contra alguns poucos meses deste último).

A explicação mais racional para tal fenômeno, que provém da observação dos vários casos já observados através dos tempos, também se assemelha: os fenômenos ocorrem normalmente em torno de um jovem ou adolescente (de ambos os sexos), que por alguma razão possui grandes traumas ou ódio dentro de si, e a ocorrência dos poltergeists (que são uma espécie de psicocinese involuntária realizada por essas pessoas) são uma forma de canalizar esse sentimento para o exterior. Foi observado, em algumas pesquisas com essas pessoas, que elas podem influenciar o lance de dados sem nenhum contato direto (o que prova um claro domínio da mente sobre a matéria). Da mesma forma foi visto que, quanto maior era a distância dessas pessoas em relação à casa em que ocorriam os fenômenos, mais raros eram esses acontecimentos.

Sauchie, Escócia, 1960

Este foi um caso interessante, pois difere daquilo que foi dito anteriormente (que os fenômenos poltergeists são normalmente observados em um determinado local). Virgínia Campbell, uma menina de onze anos, era o centro das ocorrências em sua casa. No entanto, para Virgínia as ocorrências a acompanhavam até a escola. Várias vezes sua professora observou a tampa da carteira dela mover-se para cima e para baixo, enquanto a menina estava com os braços apoiados sobre a mesma, a fim de segurá-la. Num outro dia, uma carteira atrás da menina saiu do alinhamento espontaneamente. E em outra ocasião, o apontador do quadro-negro, que estava sobre a mesa, moveu-se até a borda e caiu. Depois, a própria mesa começou a girar no sentido horário, enquanto a menina chorava e dizia que não era ela que estava fazendo isso.

Em casos mais singulares de poltergeists, via-se que objetos eram capazes de entrar e sair de quartos fechados. Com relação ao referido fenômeno, este tipo de acontecimento é o que mais interessa e desafia a física que conhecemos. Uma hipótese que se sugere para tal fato leva em conta uma possível existência de um "espaço superior", que permitiria a "quádrupla liberdade de movimento", o que explicaria (em termos) essa aparente passagem da matéria pela matéria.

Indianápolis, Estados Unidos, 1962

Esse foi um caso muito interessante, ocorrido no estado de Indiana, EUA. Além dos distúrbios comuns, a família era atacada por dentadas ou outros ferimentos por várias partes do corpo. Aqui, o centro das ocorrências não era a filha de 13 anos, mas a mãe. Junto com elas vivia também a avó. Normalmente as dentadas ocorriam na avó, somente uma vez foi vista uma na filha. Várias séries de pancadas e ruídos ocorriam na casa, mas foi comprovado (através da observação dos próprios cientistas em algumas ocasiões) que nenhuma delas era responsável pelos ruídos (pelo menos não fisicamente).

Anhangá


Um dos mitos mais antigos do Brasil, o Anhangá é um personagem do folclore dos índios da Amazônia. Protetor da natureza, ele persegue e castiga as pessoas que caçam filhotes de animais, ou as mães desses filhotes que estejam amamentando.

O Anhangá é uma alma errante, que pode tomar a forma que quiser. E, de acordo com a forma, ele passa a ter vários nomes: mira-anhangá (forma de gente) , suaçu-anhangá (forma de veado), tatu-anhangá (forma de tatu), tapira-anhangá (forma de boi) ou pirarucu-anhangá (forma do peixe pirarucu). Mas o mais comum é o Anhangá aparecer em forma de um veado branco, com uma grande galhada e com olhos de fogo.

Os registros de sua presença aparecem em cartas de José de Anchieta, Manuel da Nóbrega e Fernão Cardim no século XVI. Seus relatos tratam Anhangá como um espírito mau, temido pelos povos indígenas. Outros relatos, como o do alemão Hans Staden, comentam do medo dos indígenas ao sair à noite:

"Os indígenas não gostam de sair das cabanas sem luz, tanto medo têm do Diabo, a quem chamam Ingange, o qual freqüentemente lhes aparece."

Já para os jesuítas que chegaram aqui no Brasil, Anhangá era considerada uma figura maligna, comparado demônio da teologia cristã.

Anhangá é muito citado na obra As Aventuras de Tibicurea, de Érico Veríssimo:

"Aos cinco anos fiz minha primeira caçada de tucanos. Mas não me meti fundo no mato, porque tinha medo de encontrar Anhangá, Curupira e os outros espíritos maus."

"O mato todo riu com ele. Riu de mim. Depois o diabo virou três cambalhotas no ar e começou a dançar com toda a velocidade em meu redor. Senti que meus olhos escureciam. Eu mal e mal ouvia a voz de Anhangá, berrando:

— Ninguém pode comigo! Ninguém me vence, nem Tupã!"


Foi dessa figura mitológica que surgiu o nome "rio Anhangabaú" para um ribeirão que corta o estado de São Paulo.

Inicialmente conhecido como Rio das Almas, o rio Anhangabaú era muito temido pelos indígenas da região. Os índios acreditavam que suas águas traziam doenças ao corpo e ao espírito. Essa crença leva a suspeita de que suas águas não eram potáveis.

Teodoro Sampaio, historiador brasileiro, escreveu em uma de suas publicações que o rio era considerado pelos índios como "bebedouro das assombrações".

Dizem que você pode ver um Anhangá se andar pela Floresta Amazônica em noite de lua cheia, se você passar por algum lugar mal-assombrado...

Fontes: Apocalipse 2000 - Anhanguá, o protetor das florestas; Minguau Digital

O Templo

(Manuscrito encontrado na costa de Yucatan)

No dia 20 de agosto de 1917, eu, Karl Heinrich, Graf von Altberg-Ehrenstein, tenente-comandante da Marinha Imperial Alemã e no comando do submarino U-29, deposito esta garrafa e este registro no Oceano Atlântico, numa localização que me é desconhecida, mas provavelmente próxima de 20 graus de Latitude Norte e 35 graus de Longitude Oeste, onde minha embarcação repousa avariada no leito do oceano.

Assim faço movido pelo desejo de narrar certos fatos incomuns ao público, coisa que, com toda probabilidade, não poderei fazer pessoalmente, porque as circunstâncias que me cercam são tão ameaçadoras quanto extraor-dinárias, envolvendo não só o inelutável paralisação do U-29, mas também a desastrosa fragilização de minha vontade de ferro germânica.

Na tarde de 18 de junho, tal como foi transmitido por telé¬grafo ao U-61, rumando para Kiel, torpedeamos o cargueiro britânico Victory que ia de Nova York para Liverpool, em 45 graus e 16 minutos de Latitude N. e 28 graus e 38 minutos de Longitude O., permitindo que a tripulação saísse em barcos para recolher uma boa imagem em filme para os arquivos do almirantado.

O navio afundou espetacularmente, primeiro de proa com a popa erguendo-se bem alto acima da água, e depois o casco mergulhou, na vertical, para o fundo do mar. Nossa câmera pegou tudo e lamento que uma rolo de filme tão bom jamais chegue a Berlim. Depois, afundamos os barcos salva-vidas com os canhões e submergimos.

Quando subimos à superfície, ao entardecer, achamos o corpo de um marinheiro no tombadilho com as mãos agarradas de maneira estranha no parapeito. O infeliz era jovem, de pele bem morena e muito bonito, provavelmente italiano ou grego, e, com toda certeza, pertencera à tripulação do Victory.

Ele claramente havia procurado refúgio na própria embarcação que fora obrigada a destruir a sua — mais uma vítima da injusta guerra de agressão que os porcos ingleses estão travando contra nossa Pátria. Nossos homens o revistaram para pegar lembranças e descobriam, no bolso de seu capote, um curioso pedaço de marfim entalhado representando uma cabeça de jovem coroada com um laurel. Meu colega oficial, o tenente Klenze, achou que o objeto era muito antigo e tinha grande valor artístico, por isso o requisitou para si. Como ele havia chegado às mãos de um marinheiro comum nem ele nem eu pudemos imaginar.

Quando o morto foi atirado pela borda, dois incidentes deixaram os homens muito perturbados. Os olhos do rapaz estavam fechados, mas, quando ele foi arrastado para a amurada, eles abriam-se e muitos tiveram a estranha ilusão de que os olhos fitavam zombeteiramente Schmidt e Zimmer, que estavam debruçados sobre o cadáver.

O contramestre Müller, um homem mais velho que seria mais esperto se não fosse um porco alsaciano supersticioso, impressionou-se de tal forma com essa sensação, que ficou observando o corpo na água e jurou que, depois de afundar um pouco, ele estirou os membros em posição de nado e afastou-se rapidamente para o sul, por baixo das vagas. Klenze e eu não gostamos dessas exibições de ignorância campesina e repreendemos severamente os homens, Müller em especial.

No dia seguinte, criou-se uma situação muito incômoda com a indisposição de alguns membros da tripulação. Eles certamente estavam tensos em virtude de nossa longa viagem e haviam tido maus sonhos. Muitos pareciam atônitos e apavorados e, depois de me certificar de que não estavam apenas disfarçando sua fraqueza, dispensei-os de suas obrigações. O mar estava muito bravio, obrigando-nos a descer para uma profundidade onde as ondas davam menos trabalho.

Ali ficamos relativamente mais tran-qüilos, apesar de uma curiosa corrente para o sul que não conseguimos identificar nas cartas oceanográficas. Os gemidos dos doentes eram decididamente incômodos, mas, como não pareciam desmoralizar o resto da tripulação, não foi preciso recorrer a medidas extremas. Nosso plano era permanecermos naquele lugar e interceptar o vapor de carreira Dacia mencionado em informações de agentes em Nova York.

Ao anoitecer, subimos à superfície notando que o mar estava menos revolto. A fumaça de um couraçado apareceu no horizonte setentrional, mas nossa distância e capacidade de submergir nos salvaram. O que mais nos preocupava era o palavreado do contramestre Müller, que foi ficando mais e mais confuso no transcorrer da noite. Ele estava num estado de puerilidade deplorável, balbuciando algo sobre a visão de corpos mortos passando pelas vigias submersas, corpos que olhavam intensamente para ele e que ele reconheceu, apesar de inchados, como pertencentes a pessoas que vira morrer em nossas façanhas vitoriosas.

Dizia ele também que o jovem que havíamos encontrado e atirado pela borda era seu líder. Isso tudo era muito repulsivo e anormal, por isso metemos Müller a ferros e mandamos açoitá-lo com rigor. Os homens não gostaram dessa punição, mas era preciso manter a disciplina. Também negamos o pedido de uma comissão encabeçada pelo marujo Zimmer para que a curiosa cabeça entalhada em marfim fosse atirada ao mar.

No dia 20 de junho, os marujos Bohm e Schmidt, que haviam passado mal no dia anterior, enfureceram-se. Lamentei não termos um médico em nosso corpo de oficiais, já que as vidas alemãs são preciosas, mas os delírios cons-tantes dos dois a respeito de uma terrível maldição subvertiam gravemente a disciplina, obrigando-nos a tomar medidas drásticas.

A tripulação aceitou o fato de má vontade, mas aquilo pareceu acalmar Müller, que, daquele momento em diante, não nos causou nenhum problema. A noite, nós o soltamos e ele retomou suas obrigações em silêncio.

Na semana seguinte, estávamos todos nervosos à espera do Dacia. A tensão foi agravada pelo desaparecimento de Müller e Zimmer, que seguramente se suicidaram em conseqüência dos pavores que pareciam assediá-los, embora ninguém os houvesse visto saltar pela borda. Fiquei muito satisfeito por me livrar de Müller, pois mesmo seu silêncio perturbava a tripulação. Todos pareciam inclinados ao silêncio então, como que tomados por um terror secreto. Muitos estavam doentes, mas ninguém provocou distúrbios.

O tenente Klenze, agastado pela tensão, irritava-se com bagatelas — como o grupo de golfinhos que se aglomerava em números crescentes em volta do U-29 e a intensidade crescente da corrente para o sul que não constava de nosso mapa.

Com o tempo, ficou evidente que perdêramos completamente o Dacia. Esses malogros não são incomuns e ficamos mais satisfeitos que desapontados, já que nossa ordem era voltarmos nesta circunstância para Wilhelmshaven. Ao meio-dia de 28 de junho, viramos para Nordeste e, apesar de alguns embaraços cômicos com a multidão incomum de golfinhos, logo estávamos a caminho.

A explosão na sala das máquinas às duas da madrugada nos pegou de surpresa. Não havia sido observado nenhum defeito nas máquinas ou descuido dos homens, mas, ainda assim, sem nenhum aviso, a embarcação foi sacudida, de ponta a ponta, por um abalo colossal. O tenente Klenze correu para a sala das máquinas, descobrindo o tanque de combustível e a maior parte do mecanismo despedaçados e os engenheiros Raabe e Schneider mortos. Nossa situação havia ficado realmente grave, pois, ainda que os regeneradores químicos do ar estivessem intactos e pudéssemos usar os dispositivos para elevar e submergir o barco e abrir as escotilhas enquanto o ar comprido e a carga das baterias conservassem-se, não estávamos em condições de impelir ou guiar o submarino.

Procurar salvação nos barcos salva-vidas nos poria nas mãos de inimigos irracionalmente enfurecidos com a grande nação alemã e, desde o incidente do Victory, não conseguíramos entrar em contato com nenhum submarino amigo da Marinha Imperial pelo telégrafo.

Do momento do acidente até 2 de julho, andamos continuamente à deriva para o sul, quase sem planos e sem encontrar nenhum barco. Os golfinhos ainda rodeavam o U-29, circuns¬tância notável considerando-se a distância que havíamos percorrido. Na manhã de 2 de julho, avistamos um couraçado com as cores americanas e os homens ficaram muito agitados, querendo render-se. O tenente Klenze acabou tendo de disparar num marinheiro de nome Traube, que exigia este ato anti-germânico com especial insistência. Isto acalmou a tripulação por algum tempo e submergimos para fora de vista.

Na tarde seguinte, um bando compacto de aves marinhas surgiu vindo do sul e o oceano começou a ficar ameaçador. Fechando as escotilhas, aguardamos os acontecimentos até perceber que, se não submergíssemos, seríamos inundados pelas ondas que se avolumavam. A pressão do ar e a eletricidade estavam diminuindo e queríamos evitar todo uso desnecessário de nossos parcos recursos mecânicos, mas, neste caso, não havia escolha. Não descemos até muito fundo e, depois da algumas horas, quando o mar ficou mais calmo, decidimos retornar à superfície. Neste momento, porém, um novo problema impôs-se: o barco não respondia a nossos comandos apesar de usarmos todos os recursos mecânicos.

A medida que os homens iam ficando mais apavorados com aquela prisão submarina, alguns deles começaram a resmungar novamente contra a estatueta de marfim do tenente Klenze, mas a vista de uma pistola automática os acalmou. Mantivemos os pobres diabos ocupados ao máximo com as máquinas mesmo sabendo da inutilidade daquilo.

Klenze e eu geralmente dormíamos em horários diferentes e foi durante meu período de sono, em torno das cinco da madrugada do dia 4 de julho, que o motim alastrou-se. Os seis malditos marinheiros restantes, suspeitando que estávamos perdidos e estando enfurecidos por não nos termos rendido ao couraçado ianque dois dias antes, num desvario de pragas e destruição, rugiam, como animais que eram, quebrando instrumentos e móveis aleatoriamente e gritando alguma besteira sobre a maldição do ícone de marfim e o jovem morto que olhara para eles e saíra nadando. O tenente Klenze ficou paralisado e incapaz de agir, como era de se esperar de um renano frouxo e efeminado. Atirei nos seis, pois era preciso, e cuidei que nenhum ficasse vivo.

Expelimos os corpos pelas comportas duplas e ficamos sozinhos no U-29. Klenze parecia muito nervoso e bebia pesadamente. Decidimos ficar vivos o máximo possível usan¬do o grande estoque de provisões e o suprimento de oxigênio que não haviam sofrido com as sandices daqueles malditos marinheiros. Bússolas, sondas e outros instrumentos delicados estavam todos arruinados e nosso único recurso para o cálculo da posição do barco seriam as conjeturas com base em observações, o calendário e nossa deriva visível avaliada por qualquer objeto que pudéssemos avistar através das vigias ou do alto da torre.

Felizmente tínhamos baterias em estoque para muito tempo, tanto para a iluminação interna quando para o holofote. Freqüentemente corríamos o facho de luz ao redor do barco, mas só conseguíamos enxergar os golfinhos nadando em paralelo ao curso de nossa deriva. Eu fiquei cientificamen¬te interessado naqueles golfinhos, pois, embora o Delphinus delphis comum seja um mamífero cetáceo incapaz de sobreviver sem ar, observei atentamente um deles por duas horas e não o vi alterar sua condição de submersão.

Com o passar do tempo, Klenze e eu concordamos em que a deriva ainda era na direção do sul enquanto mergulhávamos cada vez mais fundo. Observávamos a fauna e a flora marinhas e líamos muito sobre o tema nos livros que eu trouxera para os momentos de folga. Não pude deixar de observar, porém, o tanto que o conhecimento científico de meu companheiro era inferior ao meu.

Sua cabeça não era nem um pouco prussiana, entregando-se a fantasias e especulações sem o menor valor. A proximidade da morte afetava-o de maneira estranha e ele rezava muito, roído de remorso pelos homens, mulheres e crianças que havíamos afundado, esquecendo-se de que todas as coisas são nobres quando são feitas a serviço do Estado alemão.

Com o passar do tempo, ele foi ficando visivelmente desequilibrado, parando para olhar, durante horas, seu ícone de marfim e tecendo histórias fantasiosas sobre coisas esquecidas e abandonadas no fundo do mar. As vezes, à guisa de experimento psicológico, eu provocava seus devaneios e ficava ouvindo as intermináveis citações e histórias poéticas sobre navios afundados. Senti muito por ele, pois não me agrada ver um alemão sofrer, mas ele não era uma boa companhia para se morrer. Quando a mim, eu me sentia orgulhoso, sabendo que a Pátria reverenciaria minha memória e ensinaria meus filhos a serem homens como eu.

No dia 9 de agosto, avistamos o leito do oceano e corremos sobre ele o facho potente do holofote. Era uma planície ondulada quase toda coberta de algas, com as conchas de pequenos moluscos espalhadas por toda parte. Viam-se aqui e ali objetos de formato estranho, cobertos de limo e de algas e encrustados de cracas, que, na constatação de Klenze, deviam ser antigos navios repousando em seus túmulos.

Ele pareceu intrigado com uma coisa: um pico de matéria sólida projetando-se do leito do oceano até quase doze metros de altura, com uns sessenta centímetros de espessura, faces planas e as superfícies superiores lisas encontrando-se num ângulo muito aberto. Imaginei que se tratava de um afloramento de rocha, mas Klenze pensava ter visto entalhes no objeto.

Um momento depois, ele começou a tremer e desviou o olhar da cena com ar apavorado, mas não conseguiu dar nenhuma explicação, exceto a de estar extasiado com a enormidade, a escuridão, a ancestralidade e o mistério dos abismos oceânicos. Ele estava mentalmente extenuado, mas eu, sempre um alemão, fui rápido em notar duas coisas: que o U-29 estava suportando perfeitamente a pressão da profundidade oceânica e que os estranhos golfinhos ainda nos acompanhavam, mesmo naquela profundidade, onde a existência de organismos altamente organizados é considerada impossível pela maioria dos naturalistas.

Eu tinha certeza de que havia superestimado nossa profundidade antes, mas ainda assim devíamos estar numa profundidade suficiente para tornar esses fenômenos admiráveis. A velocidade para o sul, medida pelo leito do oceano, estava próxima da que eu havia calculado pelos organismos observados nos níveis superiores.

Foi às 3hl5min da tarde de 12 de agosto que o pobre Klenze enlouqueceu de vez. Ele estava na torre de observação usando o holofote quando o vi rumar para o compartimento da biblioteca onde eu estava lendo, e seu rosto imediatamente o traiu. Repetirei aqui o que ele disse, destacando as palavras que enfatizou: “Ele está chamando! Ele está chamando! Posso ouvi-lo! Devemos ir!”.

Enquanto falava, pegou o ícone de marfim da mesa, colocou-o no bolso e segurou meu braço, tentando arrastar-me pela escada para o tombadilho. Num instante, percebi que ele pretendia abrir a escotilha e mergulhar comigo na água, um delírio maníaco suicida e homicida para o qual eu não estava preparado. Quando me esquivei e tentei acalmá-lo, ele ficou ainda mais violento, dizendo: “Venha já, depois será tarde demais; é melhor se arrepender e ser perdoado do que desafiar e ser condenado”.

Tentei então fazer o oposto da tentativa de acalmá-lo, dizendo que ele estava louco, lastimavelmente insano. Mas ele não se abalou, gritando: “Se estou louco, é uma misericórdia! Possam os deuses apiedar-se do homem que, por sua indiferença, consiga ficar são ante o fim hediondo! Venha e seja louco enquanto ele ainda chama com clemência!”.

Essa explosão pareceu aliviar uma pressão em sua cabeça, pois, quando terminou, ele ficou mais calmo, pedindo-me para deixá-lo partir sozinho já que não queria acompanhá-lo. Logo ficou clara a postura que eu devia adotar. Ele era um alemão, com certeza, mas apenas um renano simplório, e agora se havia transformado num louco potencialmente perigoso. Concordando com seu pedido suicida, eu poderia livrar-me de alguém que não era mais um companheiro e sim uma ameaça.

Pedi que me entregasse a imagem de marfim antes de partir, mas isto lhe provocou uma risada tão sinistra, que não insisti. Depois perguntei se ele não queria deixar alguma lembrança ou uma mecha de cabelo para a sua família na Alemanha, para o caso de eu conseguir salvar-me, mas ele tornou a soltar aquela risada misteriosa. Assim, enquanto ele subia a escada, eu fui para os comandos e, esperando os intervalos de tempo necessários, operei o mecanismo que o enviou para a morte. Quando percebi que ele já não estava no barco, corri o facho do holofote pela água tentando avistá-lo, querendo verificar se a pressão da água o teria esmagado, como teoricamente devia acontecer, ou se o cadáver não teria sido afetado, como acontecia com os extraordinários golfinhos. Mas não consegui avistar meu antigo companheiro, pois os golfinhos, formando um grupo compacto em volta da torre, obscureciam a visão.

Naquela noite, lamentei não ter tirado a imagem de marfim do bolso do pobre Klenze sem ele perceber quando partiu, pois a lembrança dela me fascinava. Não conseguia esquecer a cabeça jovem e bela com sua coroa de folhas, embora eu não seja, por natureza, um artista. Lamentava, também, não ter ninguém com quem conversar. Klenze, mesmo espiritualmente inferior, era melhor do que ninguém. Minhas chances de salvação eram, com toda certeza, irrisórias.

No dia seguinte, subi à torre e reiniciei minhas costumeiras investigações com o holofote. Para o norte, a vista era exatamente igual à de quatro dias antes quando avistáramos o fundo, mas pude notar que a deriva do U-29 era menos veloz. Quando desviei o facho para o sul, observei que o leito do oceano à frente descia num declive acentuado, exibindo blocos de pedra curiosamente irregulares organizados conforme padrões definidos em certos locais.

O barco não desceu de imediato acompanhando a profundidade maior do oceano, obrigando-me a regular o holofote e apontar o facho para baixo. Na virada brusca, um fio soltou-se, exigindo uma demora de muitos minutos para os reparos, mas a luz tornou a brilhar inundando o vale marinho abaixo.

Não sou de extravasar emoções, mas tive um enorme espanto quando enxerguei o que a luz elétrica revelava. Entretanto, escolado que era na melhor Kultur da Prússia, eu não deveria espantar-me, pois a geologia e a tradição nos falam de grandes transposições em áreas oceânicas e continentais. O que vi foi um extenso e elaborado alinhamento de construções em ruínas, todas de uma arquitetura imponente, mas inclassificável, e em vários estágios de conservação. A maioria delas parecia ser de mármore, reluzindo vivamente sob o facho do holofote, e o plano geral correspondia ao de uma grande cidade no fundo de um vale estreito com numerosos templos e vilas isolados nas encostas íngremes acima. Os telhados haviam caído e as colunas estavam partidas, mas persistia em tudo a atmosfera de um esplendor imemorialmente antigo que nada poderia apagar.

Confrontado, enfim, com a Atlantis que eu até então considerara um mito, tornei-me o mais impetuoso dos exploradores. No fundo daquele vale, correra um rio algum dia, pois, examinando melhor a cena, avistei restos de molhes e de pontes de pedra e mármore, além de terraços e aterros antes verdejantes e belos. O entusiasmo me deixou quase tão pasmado e sentimental quanto o pobre Klenze e demorei para notar que a correnteza para o sul havia enfim terminado, permitindo que o U-29 pousasse mansamente sobre a cidade submersa como um avião pousa sobre uma cidade na superfície da Terra. Também demorei para perceber que o bando de curiosos golfinhos havia desaparecido.

Duas horas mais tarde, o barco repousava numa praça pavimentada perto do paredão rochoso do vale. De um lado, eu podia ver a cidade inteira descendo da praça para a antiga margem do rio; do outro, com chocante proximidade, estava a fachada ricamente ornamentada e bem preservada de um grande edifício, evidentemente um templo, escavado na rocha maciça. Só posso fazer conjeturas sobre a arte construtiva original dessa coisa titânica.

A fachada, de uma extensão prodigiosa, cobre aparentemente um recesso vazio contínuo, pois tem muitas janelas amplamente distribuídas. No centro, escancara-se uma grande passagem aberta que pode ser alcançada por um impressionante lance de degraus e é rodeada por esculturas curiosas parecendo figuras de Bacanais em relevo. Na frente de tudo, ficam as grandes colunas e frisas decoradas com esculturas de uma beleza inexprimível retratando, obviamente, cenas pastorais idealizadas e procissões de sacerdotes e sacerdotisas carregando estranhos objetos cerimoniais para a adoração de um deus radiante. A qualidade artística do conjunto é fenomenal, em grande medida helênica, mas curiosamente diferenciada. Dá uma impressão de espantosa antigüidade, como se fosse mais antiga que as ancestrais imediatas da arte grega. Não posso duvidar, também, de que cada detalhe dessa obra maciça foi talhado na pedra virgem de nosso planeta.

Trata-se, claramente, do paredão do vale, embora não consiga imaginar até que profundidade seu interior terá sido escavado. Talvez se tenha aproveitado de uma caverna ou de um conjunto de cavernas. Nem o tempo nem a submersão conseguiram destruir a grandeza primitiva desse magnífico santuário — pois santuário deve ser — que ainda hoje, milhares de anos depois, permanece imaculado e puro na escuridão silenciosa e eterna de um abismo oceânico.

Não consigo calcular o número de horas que gastei observando a cidade submersa com seus edifícios, arcos, estátuas e pontes, e o templo colossal com sua beleza e seu mistério. Mesmo sabendo que a morte estava próxima, a curiosidade me arrebatava, e eu corria o facho do holofote pelas cercanias do barco numa busca frenética. O luz me permitiu compreender muitos detalhes, mas não conseguiu mostrar nada para dentro daquela passagem escancarada do templo cavado na rocha, e, depois de algum tempo, para economizar energia, desliguei a corrente.

Os raios de luz estavam agora perceptivelmente mais fracos do que nas semanas de deriva e meu desejo de explorar os segredos aquáticos, como que aguçado pela iminente privação da luz, crescia. Eu, um alemão, haveria de ser o primeiro a palmilhar aqueles caminhos imemoriais perdidos!

Idealizei um escafandro de metal para águas profundas e fiz testes com a lanterna portátil e o regenerador de ar. Embora a manobra da dupla escotilha fosse-me causar alguma dificuldade, acreditei que poderia superar todos os obstáculos com minha habilidade científica e caminhar em pessoa pela cidade morta.

No dia 16 de agosto, saí do U-29 e avancei com dificuldade pelas ruas arruinadas e cobertas de lama na direção do antigo rio. Não encontrei esqueletos nem outros restos humanos, mas recolhi uma fortuna em conhecimento arqueológico das esculturas e moedas. Sobre isto, tudo que posso fazer é expressar minha admiração por uma cultura que estava em pleno apogeu de sua glória quando moradores de cavernas perambulavam pela Europa e o Nilo fluía despercebido para o mar.

Guiados por este manuscrito, se algum dia ele for encontrado, outros poderão desvendar os mistérios que eu só posso sugerir. Voltei ao barco quando minhas baterias enfraqueceram decidido a explorar, no dia seguinte, o templo escavado na rocha.

No dia 17, quando minha gana de desvendar o mistério do templo ficou ainda mais insistente, tive a desilusão de descobrir que os materiais necessários para recarregar a lanterna portátil haviam sido destruídos no motim daqueles porcos, em julho. Fiquei possesso de raiva, mas minha natureza germânica impediu que eu me aventurasse sem estar preparado nas entranhas completamente escuras que poderiam abrigar algum monstro marinho indescritível ou um labirinto de passagens em cujos meandros eu poderia perder-me para sempre.

Tudo que me restava fazer era acender o enfraquecido holofote do U-29 e, com sua ajuda, subir os degraus do templo e analisar as esculturas externas. O facho de luz penetrava pela porta de baixo para cima e eu tentei vislumbrar alguma coisa em seu interior, mas nada consegui. Nem mesmo o teto era visível. Embora arriscasse um passo ou dois em seu interior depois de testar a solidez do piso com um bastão, não ousei ir mais longe. Além do mais, pela primeira vez em minha vida, eu experimentava a sensação do pavor. Comecei a entender como haviam surgido certas atitudes do pobre Klenze, pois, quanto mais o templo me atraía, mais eu temia seus abismos aquáticos com um terror cego e crescente. Voltando ao submarino, apaguei as luzes e sentei-me, pensativo, no escuro. A eletricidade precisava ser poupada para emergências.

Passei todo o dia 18, um sábado, envolvo na mais negra escuridão, atormentado por pensamentos e lembranças que ameaçavam vencer minha vontade germânica. Klenze havia enlouquecido e morrido antes de alcançar aquela sinistra ruína de um passado terrivelmente remoto e me aconselhara a ir com ele. Não teria o destino poupado minha razão só para me arrastar inelutavelmente para um fim tão pavoroso, que homem nenhum jamais sonhara? Meus nervos estavam dolorosamente tensos e eu precisava livrar-me daquelas sensações de homens fracos.

Não consegui dormir durante a noite de sábado e acendi as luzes sem me importar com o futuro. Era irritante saber que a eletricidade não duraria tanto quanto o ar e as provisões. Retomei minha idéia de eutanásia e examinei a pistola automática. Perto do amanhecer, devo ter caído no sono com as luzes acesas, pois despertei no escuro, já na tarde de ontem, e descobri que as baterias estavam descarregadas. Acendi vários fósforos em seguida e lamentei profundamente a imprevidência com que havíamos gasto as poucas velas que possuíamos.

Depois de se extinguir o último fósforo que eu ousei gastar, fiquei sentado, em silêncio, na mais absoluta escuridão. Enquanto meditava no fim inevitável, minha mente percorreu os acontecimentos precedentes e desenvolveu uma sensação até então adormecida que teria feito estremecer alguém mais fraco e mais supersticioso. A cabeça do deus radiante nas esculturas sobre o templo de pedra é a mesma daquele pedaço de marfim entalhado que o marinheiro morto trouxera do mar e que o pobre Klenze levara de volta às águas.

Essa coincidência me deixou um pouco atônito, mas não aterrorizado. Só um pensador ordinário apressa-se em explicar o singular e o complexo pelo atalho primitivo do sobrenatural. A coincidência era curiosa, mas eu era um pensador sólido o bastante para não associar circunstâncias que não admitem nenhuma conexão lógica ou associar, por algum mecanismo extraordinário, os acontecimentos desastrosos que se sucederam do caso do Victory às minhas aflições presentes.

Sentindo que precisava descansar mais, tomei um sedativo. A situação de meus nervos refletiu-se nos meus sonhos, pois tive a sensação de ouvir gritos de pessoas afogando-se e ver faces mortas espremendo-se contra as vigias do barco. E, entre as faces mortas, estava o rosto lívido e zombeteiro do jovem com a imagem de marfim.

Preciso ser cuidadoso na maneira como vou descrever meu despertar hoje, pois estou exausto e necessariamente haverá muitas alucinações misturadas com os fatos. Do ponto de vista psicológico, meu caso é dos mais interessantes, e lamento que não possa ser analisado cientificamente por alguma autoridade alemã competente.

Ao abrir os olhos, minha primeira sensação foi um desejo incontrolável de visitar o templo escavado na rocha, um desejo que crescia a cada instante, mas ao qual eu tentava instintivamente resistir movido por uma sensação de medo que agia no sentido contrário. Depois, veio-me a impressão de luz em meio à escuridão das baterias descarregadas e me pareceu ver uma espécie de brilho fosforescente na água em torno da vigia que estava de frente para o templo. Isto despertou minha curiosidade, visto que eu não conhecia nenhum organismo marinho capaz de emitir semelhante luminosidade.

Antes que eu pudesse investigar, porém, tive uma terceira impressão, que, por sua irracionalidade, me fez duvidar da objetividade de tudo que meus sentidos pudessem registrar. Foi uma ilusão de aura, a sensação de um som melódico, ritmado, que parecia provir de um hino coral ou entoado, agreste mas belo, atravessando o casco absolutamente à prova de som do U-29.

Convencido da anomalia de minhas condições psicológicas e nervosas, acendi alguns fósforos e servi uma dose concentrada de solução de brometo de sódio, que pareceu acalmar-me o suficiente para desfazer a ilusão sonora. Mas a fosforescência persistia, e eu tive dificuldade de represar o impulso pueril de ir até a vigia e procurar sua origem. Ela era terrivelmente real, e não demorou para eu poder distinguir, com a sua ajuda, os objetos familiares que me cercavam, inclusive o copo de brometo de sódio vazio do qual eu não tivera nenhuma impressão visual no local onde ele agora se encontrava.

Essa última circunstância me fez meditar e cruzei o recinto até o copo e o toquei. Ele estava realmente onde eu o havia visto. Agora eu sabia que a luz, se não era real, fazia parte de alguma alucinação tão fixa e consistente, que eu não poderia descartá-la; por isso, deixando de parte toda resistência, subi na torre de observação para observar a origem da luz. Não seria, talvez, algum outro submarino da série U trazendo uma esperança de salvação?

Aconselho o leitor a não aceitar nada do que se segue, como verdade objetiva, pois, como os acontecimentos transcendem à lei natural, eles são, necessariamente, criações fictícias e subjeti-vas de minha mente. Quando alcancei a torre, descobri que o mar em geral estava bem menos iluminado do que eu esperava. Não havia nenhum animal ou planta fosforescente por ali, e a cidade que acompanhava o declive da encosta até o rio era invisível na escuridão. O que eu vi não foi espetacular, nem grotesco, nem terrificante, mas eliminou o último vestígio de confiança que eu tinha na própria consciência. Isto porque a porta e as janelas do templo submerso escavado na colina rochosa brilhavam vivamente com uma radiância bruxuleante, como se a poderosa chama de um altar ardesse, à distância, em seu interior.

Os incidentes posteriores são caóticos. Olhando para a porta e as janelas iluminadas, fiquei exposto a visões das mais extravagantes — visões tão extraordinárias, que não consigo sequer as relacionar. Imaginei discernir objetos no templo, alguns parados, outros em movimento, e tive a impressão de ouvir de novo o canto irreal que fluíra até mim quando havia despertado. E, por cima de tudo, surgiram pensamentos e pavores centrados no jovem que viera do mar e o ícone de marfim cuja imagem estava reproduzida na frisa e nas colunas do templo à minha frente.

Pensei no pobre Klenze e fiquei imaginando onde estaria seu corpo com a imagem que ele havia levado de volta para o mar. Ele me advertira sobre algo e eu não lhe dera atenção — mas ele era um renano estúpido que enlouquecera em face de problemas que um prussiano poderia facilmente suportar.

O resto é muito simples. Meu primeiro impulso de entrar no templo havia-se transformado numa ordem imperiosa e inexplicável. Minha vontade germânica já não conseguia controlar meus atos, e o arbítrio só foi possível em questões me¬nores daquele momento em diante. Fora uma loucura assim que conduzira Klenze à morte, com a cabeça descoberta e desprotegida, no oceano, mas eu sou prussiano e homem de juízo e usarei até o fim o pouco que dele me resta. Quando percebi, pela primeira vez, que devia ir, preparei o traje de mergulho, o capacete e o regenerador de ar e imediatamente comecei a escrever esta crônica apressada na esperança de que ela possa algum dia chegar ao mundo. Encerrarei o manuscrito numa garrafa e a confiarei ao mar quando deixar o U-29 para sempre.

Não estou com medo, nem mesmo das profecias do enlouquecido Klenze. O que vi não pode ser verdade, e sei que este transtorno de minha vontade irá, quando muito, levar-me à sufocação quando o ar esgotar-se. A luz no templo é pura ilusão e eu morrerei calmamente, como um alemão, nas profundezas escuras e perdidas.

Este riso demoníaco que ouço enquanto escrevo vem apenas de meu próprio cérebro enfraquecido. Agora eu vestirei com cuidado o traje de mergulho e subirei corajosamente os degraus para entrar naquele templo primitivo, naquele segredo silente de insondáveis águas e incontáveis anos.


por H. P. Lovecraft

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