quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Poltergeist

Esse nome pode assustar (e muito) a maioria das pessoas que já ouviram falar ou assistiram Poltergeist, O Fenômeno de Steven Spielberg. Muitos associam os poltergeists a manifestações de espíritos demoníacos, fantasmas ou outras entidades do gênero.

No entanto, eles parecem mais relacionados com as próprias pessoas mais do que com qualquer coisa sobrenatural. E o filme não mostra realmente a verdadeira causa desse fenômeno, muitas vezes observado (de fato) em alguns locais específicos. No entanto, não são raros os casos que extrapolam os limites de uma casa ou prédio.

A palavra “poltergeist” vem do alemão (geist = espírito; poltern = ruidoso). De fato, os primeiros casos são oriundos da Alemanha. No início acreditava-se (como já fora dito) que eles eram relacionados a espíritos, e que esses "espíritos" eram imunes ao exorcismo.

Os casos na sua maioria são semelhantes, apesar de algumas variações: em uma casa, pratos, louças ou objetos começam a "voar" inexplicavelmente, saem do lugar onde estão sem qualquer intervenção humana ou então são lançados em paredes ou sobre pessoas. São muito mais raros os casos em que objetos muito grandes são movidos (como mesas, cadeiras, etc.) ou que pessoas são atingidas e machucadas.

Devemos diferenciar esse tipo de fenômeno daquele que chamamos de assombração (a crença de que o espírito de uma pessoa morta permaneceu no seu habitat terrestre, ou a ele retornou). Normalmente as assombrações não são relacionadas com ninguém em especial, mas sim com um local (como uma "casa mal-assombrada"). Além do mais, com relação a assombrações são percebidos sons de passos e os referidos espíritos podem ser vistos (não é impossível que vários casos de visões de assombrações possam ser alucinações de uma ou várias pessoas). Nos poltergeists, não se vê o agente que causa os distúrbios. Com relação à duração dos fenômenos, as assombrações aparentam "durar mais" que os poltergeists (às vezes vários anos, contra alguns poucos meses deste último).

A explicação mais racional para tal fenômeno, que provém da observação dos vários casos já observados através dos tempos, também se assemelha: os fenômenos ocorrem normalmente em torno de um jovem ou adolescente (de ambos os sexos), que por alguma razão possui grandes traumas ou ódio dentro de si, e a ocorrência dos poltergeists (que são uma espécie de psicocinese involuntária realizada por essas pessoas) são uma forma de canalizar esse sentimento para o exterior. Foi observado, em algumas pesquisas com essas pessoas, que elas podem influenciar o lance de dados sem nenhum contato direto (o que prova um claro domínio da mente sobre a matéria). Da mesma forma foi visto que, quanto maior era a distância dessas pessoas em relação à casa em que ocorriam os fenômenos, mais raros eram esses acontecimentos.

Sauchie, Escócia, 1960

Este foi um caso interessante, pois difere daquilo que foi dito anteriormente (que os fenômenos poltergeists são normalmente observados em um determinado local). Virgínia Campbell, uma menina de onze anos, era o centro das ocorrências em sua casa. No entanto, para Virgínia as ocorrências a acompanhavam até a escola. Várias vezes sua professora observou a tampa da carteira dela mover-se para cima e para baixo, enquanto a menina estava com os braços apoiados sobre a mesma, a fim de segurá-la. Num outro dia, uma carteira atrás da menina saiu do alinhamento espontaneamente. E em outra ocasião, o apontador do quadro-negro, que estava sobre a mesa, moveu-se até a borda e caiu. Depois, a própria mesa começou a girar no sentido horário, enquanto a menina chorava e dizia que não era ela que estava fazendo isso.

Em casos mais singulares de poltergeists, via-se que objetos eram capazes de entrar e sair de quartos fechados. Com relação ao referido fenômeno, este tipo de acontecimento é o que mais interessa e desafia a física que conhecemos. Uma hipótese que se sugere para tal fato leva em conta uma possível existência de um "espaço superior", que permitiria a "quádrupla liberdade de movimento", o que explicaria (em termos) essa aparente passagem da matéria pela matéria.

Indianápolis, Estados Unidos, 1962

Esse foi um caso muito interessante, ocorrido no estado de Indiana, EUA. Além dos distúrbios comuns, a família era atacada por dentadas ou outros ferimentos por várias partes do corpo. Aqui, o centro das ocorrências não era a filha de 13 anos, mas a mãe. Junto com elas vivia também a avó. Normalmente as dentadas ocorriam na avó, somente uma vez foi vista uma na filha. Várias séries de pancadas e ruídos ocorriam na casa, mas foi comprovado (através da observação dos próprios cientistas em algumas ocasiões) que nenhuma delas era responsável pelos ruídos (pelo menos não fisicamente).

Anhangá


Um dos mitos mais antigos do Brasil, o Anhangá é um personagem do folclore dos índios da Amazônia. Protetor da natureza, ele persegue e castiga as pessoas que caçam filhotes de animais, ou as mães desses filhotes que estejam amamentando.

O Anhangá é uma alma errante, que pode tomar a forma que quiser. E, de acordo com a forma, ele passa a ter vários nomes: mira-anhangá (forma de gente) , suaçu-anhangá (forma de veado), tatu-anhangá (forma de tatu), tapira-anhangá (forma de boi) ou pirarucu-anhangá (forma do peixe pirarucu). Mas o mais comum é o Anhangá aparecer em forma de um veado branco, com uma grande galhada e com olhos de fogo.

Os registros de sua presença aparecem em cartas de José de Anchieta, Manuel da Nóbrega e Fernão Cardim no século XVI. Seus relatos tratam Anhangá como um espírito mau, temido pelos povos indígenas. Outros relatos, como o do alemão Hans Staden, comentam do medo dos indígenas ao sair à noite:

"Os indígenas não gostam de sair das cabanas sem luz, tanto medo têm do Diabo, a quem chamam Ingange, o qual freqüentemente lhes aparece."

Já para os jesuítas que chegaram aqui no Brasil, Anhangá era considerada uma figura maligna, comparado demônio da teologia cristã.

Anhangá é muito citado na obra As Aventuras de Tibicurea, de Érico Veríssimo:

"Aos cinco anos fiz minha primeira caçada de tucanos. Mas não me meti fundo no mato, porque tinha medo de encontrar Anhangá, Curupira e os outros espíritos maus."

"O mato todo riu com ele. Riu de mim. Depois o diabo virou três cambalhotas no ar e começou a dançar com toda a velocidade em meu redor. Senti que meus olhos escureciam. Eu mal e mal ouvia a voz de Anhangá, berrando:

— Ninguém pode comigo! Ninguém me vence, nem Tupã!"


Foi dessa figura mitológica que surgiu o nome "rio Anhangabaú" para um ribeirão que corta o estado de São Paulo.

Inicialmente conhecido como Rio das Almas, o rio Anhangabaú era muito temido pelos indígenas da região. Os índios acreditavam que suas águas traziam doenças ao corpo e ao espírito. Essa crença leva a suspeita de que suas águas não eram potáveis.

Teodoro Sampaio, historiador brasileiro, escreveu em uma de suas publicações que o rio era considerado pelos índios como "bebedouro das assombrações".

Dizem que você pode ver um Anhangá se andar pela Floresta Amazônica em noite de lua cheia, se você passar por algum lugar mal-assombrado...

Fontes: Apocalipse 2000 - Anhanguá, o protetor das florestas; Minguau Digital

O Templo

(Manuscrito encontrado na costa de Yucatan)

No dia 20 de agosto de 1917, eu, Karl Heinrich, Graf von Altberg-Ehrenstein, tenente-comandante da Marinha Imperial Alemã e no comando do submarino U-29, deposito esta garrafa e este registro no Oceano Atlântico, numa localização que me é desconhecida, mas provavelmente próxima de 20 graus de Latitude Norte e 35 graus de Longitude Oeste, onde minha embarcação repousa avariada no leito do oceano.

Assim faço movido pelo desejo de narrar certos fatos incomuns ao público, coisa que, com toda probabilidade, não poderei fazer pessoalmente, porque as circunstâncias que me cercam são tão ameaçadoras quanto extraor-dinárias, envolvendo não só o inelutável paralisação do U-29, mas também a desastrosa fragilização de minha vontade de ferro germânica.

Na tarde de 18 de junho, tal como foi transmitido por telé¬grafo ao U-61, rumando para Kiel, torpedeamos o cargueiro britânico Victory que ia de Nova York para Liverpool, em 45 graus e 16 minutos de Latitude N. e 28 graus e 38 minutos de Longitude O., permitindo que a tripulação saísse em barcos para recolher uma boa imagem em filme para os arquivos do almirantado.

O navio afundou espetacularmente, primeiro de proa com a popa erguendo-se bem alto acima da água, e depois o casco mergulhou, na vertical, para o fundo do mar. Nossa câmera pegou tudo e lamento que uma rolo de filme tão bom jamais chegue a Berlim. Depois, afundamos os barcos salva-vidas com os canhões e submergimos.

Quando subimos à superfície, ao entardecer, achamos o corpo de um marinheiro no tombadilho com as mãos agarradas de maneira estranha no parapeito. O infeliz era jovem, de pele bem morena e muito bonito, provavelmente italiano ou grego, e, com toda certeza, pertencera à tripulação do Victory.

Ele claramente havia procurado refúgio na própria embarcação que fora obrigada a destruir a sua — mais uma vítima da injusta guerra de agressão que os porcos ingleses estão travando contra nossa Pátria. Nossos homens o revistaram para pegar lembranças e descobriam, no bolso de seu capote, um curioso pedaço de marfim entalhado representando uma cabeça de jovem coroada com um laurel. Meu colega oficial, o tenente Klenze, achou que o objeto era muito antigo e tinha grande valor artístico, por isso o requisitou para si. Como ele havia chegado às mãos de um marinheiro comum nem ele nem eu pudemos imaginar.

Quando o morto foi atirado pela borda, dois incidentes deixaram os homens muito perturbados. Os olhos do rapaz estavam fechados, mas, quando ele foi arrastado para a amurada, eles abriam-se e muitos tiveram a estranha ilusão de que os olhos fitavam zombeteiramente Schmidt e Zimmer, que estavam debruçados sobre o cadáver.

O contramestre Müller, um homem mais velho que seria mais esperto se não fosse um porco alsaciano supersticioso, impressionou-se de tal forma com essa sensação, que ficou observando o corpo na água e jurou que, depois de afundar um pouco, ele estirou os membros em posição de nado e afastou-se rapidamente para o sul, por baixo das vagas. Klenze e eu não gostamos dessas exibições de ignorância campesina e repreendemos severamente os homens, Müller em especial.

No dia seguinte, criou-se uma situação muito incômoda com a indisposição de alguns membros da tripulação. Eles certamente estavam tensos em virtude de nossa longa viagem e haviam tido maus sonhos. Muitos pareciam atônitos e apavorados e, depois de me certificar de que não estavam apenas disfarçando sua fraqueza, dispensei-os de suas obrigações. O mar estava muito bravio, obrigando-nos a descer para uma profundidade onde as ondas davam menos trabalho.

Ali ficamos relativamente mais tran-qüilos, apesar de uma curiosa corrente para o sul que não conseguimos identificar nas cartas oceanográficas. Os gemidos dos doentes eram decididamente incômodos, mas, como não pareciam desmoralizar o resto da tripulação, não foi preciso recorrer a medidas extremas. Nosso plano era permanecermos naquele lugar e interceptar o vapor de carreira Dacia mencionado em informações de agentes em Nova York.

Ao anoitecer, subimos à superfície notando que o mar estava menos revolto. A fumaça de um couraçado apareceu no horizonte setentrional, mas nossa distância e capacidade de submergir nos salvaram. O que mais nos preocupava era o palavreado do contramestre Müller, que foi ficando mais e mais confuso no transcorrer da noite. Ele estava num estado de puerilidade deplorável, balbuciando algo sobre a visão de corpos mortos passando pelas vigias submersas, corpos que olhavam intensamente para ele e que ele reconheceu, apesar de inchados, como pertencentes a pessoas que vira morrer em nossas façanhas vitoriosas.

Dizia ele também que o jovem que havíamos encontrado e atirado pela borda era seu líder. Isso tudo era muito repulsivo e anormal, por isso metemos Müller a ferros e mandamos açoitá-lo com rigor. Os homens não gostaram dessa punição, mas era preciso manter a disciplina. Também negamos o pedido de uma comissão encabeçada pelo marujo Zimmer para que a curiosa cabeça entalhada em marfim fosse atirada ao mar.

No dia 20 de junho, os marujos Bohm e Schmidt, que haviam passado mal no dia anterior, enfureceram-se. Lamentei não termos um médico em nosso corpo de oficiais, já que as vidas alemãs são preciosas, mas os delírios cons-tantes dos dois a respeito de uma terrível maldição subvertiam gravemente a disciplina, obrigando-nos a tomar medidas drásticas.

A tripulação aceitou o fato de má vontade, mas aquilo pareceu acalmar Müller, que, daquele momento em diante, não nos causou nenhum problema. A noite, nós o soltamos e ele retomou suas obrigações em silêncio.

Na semana seguinte, estávamos todos nervosos à espera do Dacia. A tensão foi agravada pelo desaparecimento de Müller e Zimmer, que seguramente se suicidaram em conseqüência dos pavores que pareciam assediá-los, embora ninguém os houvesse visto saltar pela borda. Fiquei muito satisfeito por me livrar de Müller, pois mesmo seu silêncio perturbava a tripulação. Todos pareciam inclinados ao silêncio então, como que tomados por um terror secreto. Muitos estavam doentes, mas ninguém provocou distúrbios.

O tenente Klenze, agastado pela tensão, irritava-se com bagatelas — como o grupo de golfinhos que se aglomerava em números crescentes em volta do U-29 e a intensidade crescente da corrente para o sul que não constava de nosso mapa.

Com o tempo, ficou evidente que perdêramos completamente o Dacia. Esses malogros não são incomuns e ficamos mais satisfeitos que desapontados, já que nossa ordem era voltarmos nesta circunstância para Wilhelmshaven. Ao meio-dia de 28 de junho, viramos para Nordeste e, apesar de alguns embaraços cômicos com a multidão incomum de golfinhos, logo estávamos a caminho.

A explosão na sala das máquinas às duas da madrugada nos pegou de surpresa. Não havia sido observado nenhum defeito nas máquinas ou descuido dos homens, mas, ainda assim, sem nenhum aviso, a embarcação foi sacudida, de ponta a ponta, por um abalo colossal. O tenente Klenze correu para a sala das máquinas, descobrindo o tanque de combustível e a maior parte do mecanismo despedaçados e os engenheiros Raabe e Schneider mortos. Nossa situação havia ficado realmente grave, pois, ainda que os regeneradores químicos do ar estivessem intactos e pudéssemos usar os dispositivos para elevar e submergir o barco e abrir as escotilhas enquanto o ar comprido e a carga das baterias conservassem-se, não estávamos em condições de impelir ou guiar o submarino.

Procurar salvação nos barcos salva-vidas nos poria nas mãos de inimigos irracionalmente enfurecidos com a grande nação alemã e, desde o incidente do Victory, não conseguíramos entrar em contato com nenhum submarino amigo da Marinha Imperial pelo telégrafo.

Do momento do acidente até 2 de julho, andamos continuamente à deriva para o sul, quase sem planos e sem encontrar nenhum barco. Os golfinhos ainda rodeavam o U-29, circuns¬tância notável considerando-se a distância que havíamos percorrido. Na manhã de 2 de julho, avistamos um couraçado com as cores americanas e os homens ficaram muito agitados, querendo render-se. O tenente Klenze acabou tendo de disparar num marinheiro de nome Traube, que exigia este ato anti-germânico com especial insistência. Isto acalmou a tripulação por algum tempo e submergimos para fora de vista.

Na tarde seguinte, um bando compacto de aves marinhas surgiu vindo do sul e o oceano começou a ficar ameaçador. Fechando as escotilhas, aguardamos os acontecimentos até perceber que, se não submergíssemos, seríamos inundados pelas ondas que se avolumavam. A pressão do ar e a eletricidade estavam diminuindo e queríamos evitar todo uso desnecessário de nossos parcos recursos mecânicos, mas, neste caso, não havia escolha. Não descemos até muito fundo e, depois da algumas horas, quando o mar ficou mais calmo, decidimos retornar à superfície. Neste momento, porém, um novo problema impôs-se: o barco não respondia a nossos comandos apesar de usarmos todos os recursos mecânicos.

A medida que os homens iam ficando mais apavorados com aquela prisão submarina, alguns deles começaram a resmungar novamente contra a estatueta de marfim do tenente Klenze, mas a vista de uma pistola automática os acalmou. Mantivemos os pobres diabos ocupados ao máximo com as máquinas mesmo sabendo da inutilidade daquilo.

Klenze e eu geralmente dormíamos em horários diferentes e foi durante meu período de sono, em torno das cinco da madrugada do dia 4 de julho, que o motim alastrou-se. Os seis malditos marinheiros restantes, suspeitando que estávamos perdidos e estando enfurecidos por não nos termos rendido ao couraçado ianque dois dias antes, num desvario de pragas e destruição, rugiam, como animais que eram, quebrando instrumentos e móveis aleatoriamente e gritando alguma besteira sobre a maldição do ícone de marfim e o jovem morto que olhara para eles e saíra nadando. O tenente Klenze ficou paralisado e incapaz de agir, como era de se esperar de um renano frouxo e efeminado. Atirei nos seis, pois era preciso, e cuidei que nenhum ficasse vivo.

Expelimos os corpos pelas comportas duplas e ficamos sozinhos no U-29. Klenze parecia muito nervoso e bebia pesadamente. Decidimos ficar vivos o máximo possível usan¬do o grande estoque de provisões e o suprimento de oxigênio que não haviam sofrido com as sandices daqueles malditos marinheiros. Bússolas, sondas e outros instrumentos delicados estavam todos arruinados e nosso único recurso para o cálculo da posição do barco seriam as conjeturas com base em observações, o calendário e nossa deriva visível avaliada por qualquer objeto que pudéssemos avistar através das vigias ou do alto da torre.

Felizmente tínhamos baterias em estoque para muito tempo, tanto para a iluminação interna quando para o holofote. Freqüentemente corríamos o facho de luz ao redor do barco, mas só conseguíamos enxergar os golfinhos nadando em paralelo ao curso de nossa deriva. Eu fiquei cientificamen¬te interessado naqueles golfinhos, pois, embora o Delphinus delphis comum seja um mamífero cetáceo incapaz de sobreviver sem ar, observei atentamente um deles por duas horas e não o vi alterar sua condição de submersão.

Com o passar do tempo, Klenze e eu concordamos em que a deriva ainda era na direção do sul enquanto mergulhávamos cada vez mais fundo. Observávamos a fauna e a flora marinhas e líamos muito sobre o tema nos livros que eu trouxera para os momentos de folga. Não pude deixar de observar, porém, o tanto que o conhecimento científico de meu companheiro era inferior ao meu.

Sua cabeça não era nem um pouco prussiana, entregando-se a fantasias e especulações sem o menor valor. A proximidade da morte afetava-o de maneira estranha e ele rezava muito, roído de remorso pelos homens, mulheres e crianças que havíamos afundado, esquecendo-se de que todas as coisas são nobres quando são feitas a serviço do Estado alemão.

Com o passar do tempo, ele foi ficando visivelmente desequilibrado, parando para olhar, durante horas, seu ícone de marfim e tecendo histórias fantasiosas sobre coisas esquecidas e abandonadas no fundo do mar. As vezes, à guisa de experimento psicológico, eu provocava seus devaneios e ficava ouvindo as intermináveis citações e histórias poéticas sobre navios afundados. Senti muito por ele, pois não me agrada ver um alemão sofrer, mas ele não era uma boa companhia para se morrer. Quando a mim, eu me sentia orgulhoso, sabendo que a Pátria reverenciaria minha memória e ensinaria meus filhos a serem homens como eu.

No dia 9 de agosto, avistamos o leito do oceano e corremos sobre ele o facho potente do holofote. Era uma planície ondulada quase toda coberta de algas, com as conchas de pequenos moluscos espalhadas por toda parte. Viam-se aqui e ali objetos de formato estranho, cobertos de limo e de algas e encrustados de cracas, que, na constatação de Klenze, deviam ser antigos navios repousando em seus túmulos.

Ele pareceu intrigado com uma coisa: um pico de matéria sólida projetando-se do leito do oceano até quase doze metros de altura, com uns sessenta centímetros de espessura, faces planas e as superfícies superiores lisas encontrando-se num ângulo muito aberto. Imaginei que se tratava de um afloramento de rocha, mas Klenze pensava ter visto entalhes no objeto.

Um momento depois, ele começou a tremer e desviou o olhar da cena com ar apavorado, mas não conseguiu dar nenhuma explicação, exceto a de estar extasiado com a enormidade, a escuridão, a ancestralidade e o mistério dos abismos oceânicos. Ele estava mentalmente extenuado, mas eu, sempre um alemão, fui rápido em notar duas coisas: que o U-29 estava suportando perfeitamente a pressão da profundidade oceânica e que os estranhos golfinhos ainda nos acompanhavam, mesmo naquela profundidade, onde a existência de organismos altamente organizados é considerada impossível pela maioria dos naturalistas.

Eu tinha certeza de que havia superestimado nossa profundidade antes, mas ainda assim devíamos estar numa profundidade suficiente para tornar esses fenômenos admiráveis. A velocidade para o sul, medida pelo leito do oceano, estava próxima da que eu havia calculado pelos organismos observados nos níveis superiores.

Foi às 3hl5min da tarde de 12 de agosto que o pobre Klenze enlouqueceu de vez. Ele estava na torre de observação usando o holofote quando o vi rumar para o compartimento da biblioteca onde eu estava lendo, e seu rosto imediatamente o traiu. Repetirei aqui o que ele disse, destacando as palavras que enfatizou: “Ele está chamando! Ele está chamando! Posso ouvi-lo! Devemos ir!”.

Enquanto falava, pegou o ícone de marfim da mesa, colocou-o no bolso e segurou meu braço, tentando arrastar-me pela escada para o tombadilho. Num instante, percebi que ele pretendia abrir a escotilha e mergulhar comigo na água, um delírio maníaco suicida e homicida para o qual eu não estava preparado. Quando me esquivei e tentei acalmá-lo, ele ficou ainda mais violento, dizendo: “Venha já, depois será tarde demais; é melhor se arrepender e ser perdoado do que desafiar e ser condenado”.

Tentei então fazer o oposto da tentativa de acalmá-lo, dizendo que ele estava louco, lastimavelmente insano. Mas ele não se abalou, gritando: “Se estou louco, é uma misericórdia! Possam os deuses apiedar-se do homem que, por sua indiferença, consiga ficar são ante o fim hediondo! Venha e seja louco enquanto ele ainda chama com clemência!”.

Essa explosão pareceu aliviar uma pressão em sua cabeça, pois, quando terminou, ele ficou mais calmo, pedindo-me para deixá-lo partir sozinho já que não queria acompanhá-lo. Logo ficou clara a postura que eu devia adotar. Ele era um alemão, com certeza, mas apenas um renano simplório, e agora se havia transformado num louco potencialmente perigoso. Concordando com seu pedido suicida, eu poderia livrar-me de alguém que não era mais um companheiro e sim uma ameaça.

Pedi que me entregasse a imagem de marfim antes de partir, mas isto lhe provocou uma risada tão sinistra, que não insisti. Depois perguntei se ele não queria deixar alguma lembrança ou uma mecha de cabelo para a sua família na Alemanha, para o caso de eu conseguir salvar-me, mas ele tornou a soltar aquela risada misteriosa. Assim, enquanto ele subia a escada, eu fui para os comandos e, esperando os intervalos de tempo necessários, operei o mecanismo que o enviou para a morte. Quando percebi que ele já não estava no barco, corri o facho do holofote pela água tentando avistá-lo, querendo verificar se a pressão da água o teria esmagado, como teoricamente devia acontecer, ou se o cadáver não teria sido afetado, como acontecia com os extraordinários golfinhos. Mas não consegui avistar meu antigo companheiro, pois os golfinhos, formando um grupo compacto em volta da torre, obscureciam a visão.

Naquela noite, lamentei não ter tirado a imagem de marfim do bolso do pobre Klenze sem ele perceber quando partiu, pois a lembrança dela me fascinava. Não conseguia esquecer a cabeça jovem e bela com sua coroa de folhas, embora eu não seja, por natureza, um artista. Lamentava, também, não ter ninguém com quem conversar. Klenze, mesmo espiritualmente inferior, era melhor do que ninguém. Minhas chances de salvação eram, com toda certeza, irrisórias.

No dia seguinte, subi à torre e reiniciei minhas costumeiras investigações com o holofote. Para o norte, a vista era exatamente igual à de quatro dias antes quando avistáramos o fundo, mas pude notar que a deriva do U-29 era menos veloz. Quando desviei o facho para o sul, observei que o leito do oceano à frente descia num declive acentuado, exibindo blocos de pedra curiosamente irregulares organizados conforme padrões definidos em certos locais.

O barco não desceu de imediato acompanhando a profundidade maior do oceano, obrigando-me a regular o holofote e apontar o facho para baixo. Na virada brusca, um fio soltou-se, exigindo uma demora de muitos minutos para os reparos, mas a luz tornou a brilhar inundando o vale marinho abaixo.

Não sou de extravasar emoções, mas tive um enorme espanto quando enxerguei o que a luz elétrica revelava. Entretanto, escolado que era na melhor Kultur da Prússia, eu não deveria espantar-me, pois a geologia e a tradição nos falam de grandes transposições em áreas oceânicas e continentais. O que vi foi um extenso e elaborado alinhamento de construções em ruínas, todas de uma arquitetura imponente, mas inclassificável, e em vários estágios de conservação. A maioria delas parecia ser de mármore, reluzindo vivamente sob o facho do holofote, e o plano geral correspondia ao de uma grande cidade no fundo de um vale estreito com numerosos templos e vilas isolados nas encostas íngremes acima. Os telhados haviam caído e as colunas estavam partidas, mas persistia em tudo a atmosfera de um esplendor imemorialmente antigo que nada poderia apagar.

Confrontado, enfim, com a Atlantis que eu até então considerara um mito, tornei-me o mais impetuoso dos exploradores. No fundo daquele vale, correra um rio algum dia, pois, examinando melhor a cena, avistei restos de molhes e de pontes de pedra e mármore, além de terraços e aterros antes verdejantes e belos. O entusiasmo me deixou quase tão pasmado e sentimental quanto o pobre Klenze e demorei para notar que a correnteza para o sul havia enfim terminado, permitindo que o U-29 pousasse mansamente sobre a cidade submersa como um avião pousa sobre uma cidade na superfície da Terra. Também demorei para perceber que o bando de curiosos golfinhos havia desaparecido.

Duas horas mais tarde, o barco repousava numa praça pavimentada perto do paredão rochoso do vale. De um lado, eu podia ver a cidade inteira descendo da praça para a antiga margem do rio; do outro, com chocante proximidade, estava a fachada ricamente ornamentada e bem preservada de um grande edifício, evidentemente um templo, escavado na rocha maciça. Só posso fazer conjeturas sobre a arte construtiva original dessa coisa titânica.

A fachada, de uma extensão prodigiosa, cobre aparentemente um recesso vazio contínuo, pois tem muitas janelas amplamente distribuídas. No centro, escancara-se uma grande passagem aberta que pode ser alcançada por um impressionante lance de degraus e é rodeada por esculturas curiosas parecendo figuras de Bacanais em relevo. Na frente de tudo, ficam as grandes colunas e frisas decoradas com esculturas de uma beleza inexprimível retratando, obviamente, cenas pastorais idealizadas e procissões de sacerdotes e sacerdotisas carregando estranhos objetos cerimoniais para a adoração de um deus radiante. A qualidade artística do conjunto é fenomenal, em grande medida helênica, mas curiosamente diferenciada. Dá uma impressão de espantosa antigüidade, como se fosse mais antiga que as ancestrais imediatas da arte grega. Não posso duvidar, também, de que cada detalhe dessa obra maciça foi talhado na pedra virgem de nosso planeta.

Trata-se, claramente, do paredão do vale, embora não consiga imaginar até que profundidade seu interior terá sido escavado. Talvez se tenha aproveitado de uma caverna ou de um conjunto de cavernas. Nem o tempo nem a submersão conseguiram destruir a grandeza primitiva desse magnífico santuário — pois santuário deve ser — que ainda hoje, milhares de anos depois, permanece imaculado e puro na escuridão silenciosa e eterna de um abismo oceânico.

Não consigo calcular o número de horas que gastei observando a cidade submersa com seus edifícios, arcos, estátuas e pontes, e o templo colossal com sua beleza e seu mistério. Mesmo sabendo que a morte estava próxima, a curiosidade me arrebatava, e eu corria o facho do holofote pelas cercanias do barco numa busca frenética. O luz me permitiu compreender muitos detalhes, mas não conseguiu mostrar nada para dentro daquela passagem escancarada do templo cavado na rocha, e, depois de algum tempo, para economizar energia, desliguei a corrente.

Os raios de luz estavam agora perceptivelmente mais fracos do que nas semanas de deriva e meu desejo de explorar os segredos aquáticos, como que aguçado pela iminente privação da luz, crescia. Eu, um alemão, haveria de ser o primeiro a palmilhar aqueles caminhos imemoriais perdidos!

Idealizei um escafandro de metal para águas profundas e fiz testes com a lanterna portátil e o regenerador de ar. Embora a manobra da dupla escotilha fosse-me causar alguma dificuldade, acreditei que poderia superar todos os obstáculos com minha habilidade científica e caminhar em pessoa pela cidade morta.

No dia 16 de agosto, saí do U-29 e avancei com dificuldade pelas ruas arruinadas e cobertas de lama na direção do antigo rio. Não encontrei esqueletos nem outros restos humanos, mas recolhi uma fortuna em conhecimento arqueológico das esculturas e moedas. Sobre isto, tudo que posso fazer é expressar minha admiração por uma cultura que estava em pleno apogeu de sua glória quando moradores de cavernas perambulavam pela Europa e o Nilo fluía despercebido para o mar.

Guiados por este manuscrito, se algum dia ele for encontrado, outros poderão desvendar os mistérios que eu só posso sugerir. Voltei ao barco quando minhas baterias enfraqueceram decidido a explorar, no dia seguinte, o templo escavado na rocha.

No dia 17, quando minha gana de desvendar o mistério do templo ficou ainda mais insistente, tive a desilusão de descobrir que os materiais necessários para recarregar a lanterna portátil haviam sido destruídos no motim daqueles porcos, em julho. Fiquei possesso de raiva, mas minha natureza germânica impediu que eu me aventurasse sem estar preparado nas entranhas completamente escuras que poderiam abrigar algum monstro marinho indescritível ou um labirinto de passagens em cujos meandros eu poderia perder-me para sempre.

Tudo que me restava fazer era acender o enfraquecido holofote do U-29 e, com sua ajuda, subir os degraus do templo e analisar as esculturas externas. O facho de luz penetrava pela porta de baixo para cima e eu tentei vislumbrar alguma coisa em seu interior, mas nada consegui. Nem mesmo o teto era visível. Embora arriscasse um passo ou dois em seu interior depois de testar a solidez do piso com um bastão, não ousei ir mais longe. Além do mais, pela primeira vez em minha vida, eu experimentava a sensação do pavor. Comecei a entender como haviam surgido certas atitudes do pobre Klenze, pois, quanto mais o templo me atraía, mais eu temia seus abismos aquáticos com um terror cego e crescente. Voltando ao submarino, apaguei as luzes e sentei-me, pensativo, no escuro. A eletricidade precisava ser poupada para emergências.

Passei todo o dia 18, um sábado, envolvo na mais negra escuridão, atormentado por pensamentos e lembranças que ameaçavam vencer minha vontade germânica. Klenze havia enlouquecido e morrido antes de alcançar aquela sinistra ruína de um passado terrivelmente remoto e me aconselhara a ir com ele. Não teria o destino poupado minha razão só para me arrastar inelutavelmente para um fim tão pavoroso, que homem nenhum jamais sonhara? Meus nervos estavam dolorosamente tensos e eu precisava livrar-me daquelas sensações de homens fracos.

Não consegui dormir durante a noite de sábado e acendi as luzes sem me importar com o futuro. Era irritante saber que a eletricidade não duraria tanto quanto o ar e as provisões. Retomei minha idéia de eutanásia e examinei a pistola automática. Perto do amanhecer, devo ter caído no sono com as luzes acesas, pois despertei no escuro, já na tarde de ontem, e descobri que as baterias estavam descarregadas. Acendi vários fósforos em seguida e lamentei profundamente a imprevidência com que havíamos gasto as poucas velas que possuíamos.

Depois de se extinguir o último fósforo que eu ousei gastar, fiquei sentado, em silêncio, na mais absoluta escuridão. Enquanto meditava no fim inevitável, minha mente percorreu os acontecimentos precedentes e desenvolveu uma sensação até então adormecida que teria feito estremecer alguém mais fraco e mais supersticioso. A cabeça do deus radiante nas esculturas sobre o templo de pedra é a mesma daquele pedaço de marfim entalhado que o marinheiro morto trouxera do mar e que o pobre Klenze levara de volta às águas.

Essa coincidência me deixou um pouco atônito, mas não aterrorizado. Só um pensador ordinário apressa-se em explicar o singular e o complexo pelo atalho primitivo do sobrenatural. A coincidência era curiosa, mas eu era um pensador sólido o bastante para não associar circunstâncias que não admitem nenhuma conexão lógica ou associar, por algum mecanismo extraordinário, os acontecimentos desastrosos que se sucederam do caso do Victory às minhas aflições presentes.

Sentindo que precisava descansar mais, tomei um sedativo. A situação de meus nervos refletiu-se nos meus sonhos, pois tive a sensação de ouvir gritos de pessoas afogando-se e ver faces mortas espremendo-se contra as vigias do barco. E, entre as faces mortas, estava o rosto lívido e zombeteiro do jovem com a imagem de marfim.

Preciso ser cuidadoso na maneira como vou descrever meu despertar hoje, pois estou exausto e necessariamente haverá muitas alucinações misturadas com os fatos. Do ponto de vista psicológico, meu caso é dos mais interessantes, e lamento que não possa ser analisado cientificamente por alguma autoridade alemã competente.

Ao abrir os olhos, minha primeira sensação foi um desejo incontrolável de visitar o templo escavado na rocha, um desejo que crescia a cada instante, mas ao qual eu tentava instintivamente resistir movido por uma sensação de medo que agia no sentido contrário. Depois, veio-me a impressão de luz em meio à escuridão das baterias descarregadas e me pareceu ver uma espécie de brilho fosforescente na água em torno da vigia que estava de frente para o templo. Isto despertou minha curiosidade, visto que eu não conhecia nenhum organismo marinho capaz de emitir semelhante luminosidade.

Antes que eu pudesse investigar, porém, tive uma terceira impressão, que, por sua irracionalidade, me fez duvidar da objetividade de tudo que meus sentidos pudessem registrar. Foi uma ilusão de aura, a sensação de um som melódico, ritmado, que parecia provir de um hino coral ou entoado, agreste mas belo, atravessando o casco absolutamente à prova de som do U-29.

Convencido da anomalia de minhas condições psicológicas e nervosas, acendi alguns fósforos e servi uma dose concentrada de solução de brometo de sódio, que pareceu acalmar-me o suficiente para desfazer a ilusão sonora. Mas a fosforescência persistia, e eu tive dificuldade de represar o impulso pueril de ir até a vigia e procurar sua origem. Ela era terrivelmente real, e não demorou para eu poder distinguir, com a sua ajuda, os objetos familiares que me cercavam, inclusive o copo de brometo de sódio vazio do qual eu não tivera nenhuma impressão visual no local onde ele agora se encontrava.

Essa última circunstância me fez meditar e cruzei o recinto até o copo e o toquei. Ele estava realmente onde eu o havia visto. Agora eu sabia que a luz, se não era real, fazia parte de alguma alucinação tão fixa e consistente, que eu não poderia descartá-la; por isso, deixando de parte toda resistência, subi na torre de observação para observar a origem da luz. Não seria, talvez, algum outro submarino da série U trazendo uma esperança de salvação?

Aconselho o leitor a não aceitar nada do que se segue, como verdade objetiva, pois, como os acontecimentos transcendem à lei natural, eles são, necessariamente, criações fictícias e subjeti-vas de minha mente. Quando alcancei a torre, descobri que o mar em geral estava bem menos iluminado do que eu esperava. Não havia nenhum animal ou planta fosforescente por ali, e a cidade que acompanhava o declive da encosta até o rio era invisível na escuridão. O que eu vi não foi espetacular, nem grotesco, nem terrificante, mas eliminou o último vestígio de confiança que eu tinha na própria consciência. Isto porque a porta e as janelas do templo submerso escavado na colina rochosa brilhavam vivamente com uma radiância bruxuleante, como se a poderosa chama de um altar ardesse, à distância, em seu interior.

Os incidentes posteriores são caóticos. Olhando para a porta e as janelas iluminadas, fiquei exposto a visões das mais extravagantes — visões tão extraordinárias, que não consigo sequer as relacionar. Imaginei discernir objetos no templo, alguns parados, outros em movimento, e tive a impressão de ouvir de novo o canto irreal que fluíra até mim quando havia despertado. E, por cima de tudo, surgiram pensamentos e pavores centrados no jovem que viera do mar e o ícone de marfim cuja imagem estava reproduzida na frisa e nas colunas do templo à minha frente.

Pensei no pobre Klenze e fiquei imaginando onde estaria seu corpo com a imagem que ele havia levado de volta para o mar. Ele me advertira sobre algo e eu não lhe dera atenção — mas ele era um renano estúpido que enlouquecera em face de problemas que um prussiano poderia facilmente suportar.

O resto é muito simples. Meu primeiro impulso de entrar no templo havia-se transformado numa ordem imperiosa e inexplicável. Minha vontade germânica já não conseguia controlar meus atos, e o arbítrio só foi possível em questões me¬nores daquele momento em diante. Fora uma loucura assim que conduzira Klenze à morte, com a cabeça descoberta e desprotegida, no oceano, mas eu sou prussiano e homem de juízo e usarei até o fim o pouco que dele me resta. Quando percebi, pela primeira vez, que devia ir, preparei o traje de mergulho, o capacete e o regenerador de ar e imediatamente comecei a escrever esta crônica apressada na esperança de que ela possa algum dia chegar ao mundo. Encerrarei o manuscrito numa garrafa e a confiarei ao mar quando deixar o U-29 para sempre.

Não estou com medo, nem mesmo das profecias do enlouquecido Klenze. O que vi não pode ser verdade, e sei que este transtorno de minha vontade irá, quando muito, levar-me à sufocação quando o ar esgotar-se. A luz no templo é pura ilusão e eu morrerei calmamente, como um alemão, nas profundezas escuras e perdidas.

Este riso demoníaco que ouço enquanto escrevo vem apenas de meu próprio cérebro enfraquecido. Agora eu vestirei com cuidado o traje de mergulho e subirei corajosamente os degraus para entrar naquele templo primitivo, naquele segredo silente de insondáveis águas e incontáveis anos.


por H. P. Lovecraft

J. R. R. Tolkien

A trilogia épica de J. R. R. Tolkien, ambientada num passado mítico, narra as lutas entre vários reinos bons e maus pela posse do anel mágico que podia alterar o equilíbrio de poder no mundo.

A obra tornou-se verdadeiro fenômeno sociocultural na década de 1960, pela atração que exerceu sobre os jovens.

John Ronald Reuel Tolkien nasceu em Bloemfontein, África do Sul, em 3 de janeiro de 1892. Levado para a Inglaterra aos quatro anos de idade, serviu na primeira guerra mundial e graduou-se em Oxford em 1919.

Professor de inglês e literatura inglesa, publicou em 1925 seu primeiro livro, Sir Gawain and the Green Knight (Sir Gawain e o cavaleiro verde), a que se seguiu Beowulf: The Monsters and the Critics (1936; Beowulf: os monstros e os críticos).

Em 1937, quando já trabalhava na trilogia, escreveu para seus filhos The Hobbit, que serviria de introdução à série.

A trilogia The Lord of the Rings (1954-1955; O senhor dos anéis), consta de The Fellowship of the Ring (A irmandade do anel), The Two Towers (As duas torres) e The Return of the King (O retorno do rei).

John Ronald Reuel Tolkien morreu em Bournemouth, Hampshire, Inglaterra, em 2 de setembro de 1973.

Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

Charles Perrault

Famoso pela compilação em linguagem simples de antigos contos folclóricos europeus, Perrault também se celebrizou por questionar a superioridade dos autores da antiguidade sobre os modernos, um dos dogmas do classicismo no século XVII.

Charles Perrault nasceu em Paris, França, em 12 de janeiro de 1628. Advogado, começou sua vida literária com obras de natureza bem diferente daquelas que o imortalizaram, como uma paródia do livro VI da Eneida e poemas de amor. Em 1670 tornou-se membro da Academia Francesa.

No dia 27 de janeiro de 1687, com o intuito de comemorar a convalescença do rei, leu, em sessão da academia, um poema intitulado "Le Siècle de Louis le Grand" ("O século de Luís o Grande"), em que colocava escritores modernos como Molière e François de Malherbe acima de autores clássicos gregos e romanos. Assim surgiu a "querela dos antigos e modernos", polêmica que durou vários anos.

Perrault sustentava que a literatura acompanha o progresso da civilização e que, portanto, a obra literária antiga seria inevitavelmente mais grosseira do que a moderna. Em oposição a essas idéias, levantou-se o grande teórico da época, Nicolas Boileau-Despréaux, cuja posição prevaleceu sobre a de seu adversário, mas pela primeira vez fora questionado o dogma sobre o qual se fundava a estética do classicismo.

Em 1697 Perrault publicou seus contos da carochinha (Contes de ma mère l'Oye), escritos para divertir seus filhos. O grande mérito do autor foi o de fixar, em forma simples e elegante, contos tradicionais e anônimos da memória popular, como "A Bela Adormecida no bosque", "O Chapeuzinho Vermelho", "A Gata Borralheira", "Pele de Asno", "O Barba Azul", "O Pequeno Polegar" e muitos outros.

Neles, como reflexo das concepções romanescas do século XVII, o real e o maravilhoso harmonizam-se de maneira a criar um novo gênero literário, no qual poucos autores chegaram a atingir tal perfeição e qualidade.

Charles Perrault morreu em Paris, em 16 de maio de 1703.

Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Peter Lorre


Peter Lorre (László Löwenstein) nasceu em 26 de junho de 1904 em Ružomberok, Império Austro-Húngaro (atual Eslováquia), e faleceu em 23 de março de 1964, em Hollywood, Estados Unidos.

Bancário e ator desconhecido de teatro, foi visto por Fritz Lang e escalado para fazer o papel do grotesco assassino de crianças em M., o Vampiro de Düsseldorf (1931).

Tornou-se um astro. Feio, baixo e de olhos saltados, Lorre provocava nas telas sentimentos de repulsa. Na maioria das vezes fazia papel de vilão.

Depois de fugir da Alemanha nazista para a Inglaterra em 1933, trabalhou com Alfred Hitchcock em O Homem que Sabia Demais (1934).

Em Hollywood, fez alguns tipos inesquecíveis, mas, desiludido com a falta de bons papéis, foi para a Alemanha para dirigir, escrever e atuar em Der Verlorene (1951), que se tornou um fracasso comercial. Voltou para Hollywood e fez seu último filme, O Corvo, em 1963.


Vincente Price e Peter Lorre

Feio, baixo e de olhos saltados

Após atuar em várias peças em seu país natal e obter certo reconhecimento, começou uma carreira nômade em países como Alemanha, Suíça, França, Inglaterra e Estados Unidos, participando de diversos filmes.

Foi apresentado ao lendário Fritz Lang que viu nele a figura perfeita para fazer o papel do grotesco assassino de crianças em M., o Vampiro de Düsseldorf (1931).

Este filme criou o psicopata assassino que dominou o cinema até os dias de hoje. Em vez de um monstro furioso e poderoso, um sujeito tímido e reprimido. Pequeno e vulnerável, é tão desprezível quase causa pena.

Peter Lorre encarna a primeira aparição deste personagem no cinema de forma tão intensa e emocional que até hoje ainda é imitado (e, nunca superado). Soa inacreditável que depois de passar o dia todo filmando como o matador pedófilo de forma tão apaixonada, quando dava sete horas Lorre saía e ia para o teatro onde fazia uma comédia.


Em volta dessa soberba atuação, Fritz Lang, em sua primeira fita sonora, revoluciona o cenário cinematográfico assim como em Metrópolis - as vozes da multidão discutindo, o grito da mãe da primeira vítima e, é claro, o assovio que identifica o criminoso, de quem nunca se via o rosto, outro recurso copiado até hoje.

O filme retrata uma ambientação urbana contemporânea, recheada de criminosos e policiais, Acreditam os estudiosos da sétima arte que Fritz Lang também dá a colaboração significativa para o que seria o filme noir americano.

Peter Lorre em seu papel como o assassino Hans Beckert, marcou época na história do cinema. Tornou-se um astro. Embora não pudesse ser comparado ao charmosos atores de sua época pois era feio, baixo e de olhos saltados, Lorre tinha o talento de provocar nas platéia sentimentos dos mais diversos.

Na maioria das vezes fazia papel de vilão. Depois de fugir da Alemanha nazista para a Inglaterra em 1933, trabalhou com Hitchcock em O Homem que Sabia Demais (1934). Também atuou, como coadjuvante,nos filmes Agente Secreto (1936), de Hitchcock, Crime e Castigo (1935), de Sternberg, e Esse Mundo É um Hospício (1944), de Capra.

Atuou em clássicos como O Falcão Maltês (41), de Huston, e Casablanca (42), de Curtiz. Em Hollywood, fez alguns tipos inesquecíveis, mas, desiludido com a falta de bons papéis, foi para a Alemanha para dirigir, escrever e atuar em Der Verlorene (1951), que se tornou um fracasso comercial.

Apesar de seu enorme talento, Peter Lorre não obteve, em vida, o reconhecimento.

Filmografia

1931: M, o Vampiro de Dusseldorf (M)
1934: O Homem que Sabia Demais (The Man Who Knew Too Much)
1935: Crime e Castigo (Crime and Punishment)
1936: O Agente Secreto (Secret Agent)
1937: O Lanceiro Espião (Lancer Spy)
1937: Nancy Steel Desapareceu (Nancy Steel is Missing)
1938: Mendigo Milionário (I'll Give a Million)
1940: Almas Rebeldes (Strange Cargo)
1941: Relíquia Macabra/ O Falcão Maltês (The Maltese Falcon)
1942: Balas Contra a Gestapo (All Through the Night)
1942: Agente Invisível Contra a Gestapo (Invisible Agent)
1942: Casablanca (idem)
1942: Um Cientista Distraído (The Boogie Man Will Get You)
1943: O Expresso Bagdá-Istambul (Background to Danger)
1943: A Cruz de Lorena (The Cross of Lorraine)
1943: De Amor Também se Morre (The Constant Nymph)
1944: A Máscara de Dimitrios (The Mask of Dimitrios)
1944: Esse Mundo É um Hospício (Arsenic & Old Lace)
1944: Passagem para Marselha (Passage to Marseille)
1945: Quando os Destinos se Cruzam (Confidential Agent)
1945: Hotel Berlim (Hotel Berlin)
1946: Justiça Tardia (The Verdict)
1946: Os Três Estranhos (Three Strangers)
1947: Os Dedos da Morte (The Beast with Five Fingers)
1947: Minha Morena Linda (My Favorite Brunette)
1948: Casbah (idem, com Yvonne De Carlo)
1949: Zona Proibida (Rope of Sand)
1954: 20.000 Léguas Submarinas (20,000 Leagues Under the Sea)
1954: O Diabo Riu Por Último (Beat the Devil)
1956: Refúgio dos Proscritos (Congo Crossing)
1957: Meias de Seda (Silk Stockings)
1957: O Palhaço que Não Ri (The Buster Keaton Story)
1957: O Bamba do Regimento (The Sad Sack)
1959: O Grande Circo (The Big Circus)
1961: Viagem ao Fundo do Mar (Voyage to the Bottom of the Sea)
1962: Muralhas do Pavor (Tales of Terror)
1962: Cinco Semanas num Balão (Five Weeks in a Balloon)
1963: O Corvo (The Raven)
1964: Farsa Trágica (The Comedy of Terrors)
1964: O Otário (The Patsy)
1966: Caçada Humana (The Chase)

Fontes: O Vampiro de Düsseldorf e os filmes de TV que ninguém conhece; Wikipédia, a enciclopédia livre; Peter Lorre.

A Pequena Loja de Horrores

A Pequena Loja de Horrores (The Little Shop of Horrors, 1960, EUA) é uma das primeiras e melhores comédias de humor negro já feitas e tornou-se um clássico do cinema. Dirigida pelo famoso cineasta Roger Corman (o rei dos filmes "B" americanos) tornou-se um "cult".

O filme conta a história de Seymour Krelboin (Jonathan Haze) que trabalha na floricultura, localizada nos arredores de Skid Row, e está apaixonado por Audrey (Jackie Joseph), que está saindo com o sádico dentista Orin Scrivello.

Orin, por sua vez, trata de um paciente que está sofrendo de amor, encenado pelo irrefreável Jack Nicholson. Seymour adquire uma nova planta e dá a ela o nome de Audrey II, depois do amor de sua vida.

Só que a planta precisa de carne e sangue humano para sobreviver - ela também fala - constantemente gritando Alimente-me! Alimeeeeeeeeeeente-me! Seymour está desesperado na sua busca frenética para encontrar comida para Audrey II. ...

Mas quando a planta floresce, para o horror de Seymour, as flores têm a cara de suas vítimas, o que é a prova das "refeições humanas" que ela comeu.



Ficha Técnica

Título: A Pequena Loja Dos Horrores
Título Original: The Little Shop of Horrors
País de Origem: EUA
Gênero: Terror
Tempo de Duração: 71 minutos
Ano de Lançamento: 1960
Estúdio/Distrib.: SPECTRA
Direção: Roger Corman

Elenco

Jonathan Haze ... Seymour Krelboyne
Jackie Joseph ... Audrey Fulquard
Mel Welles ... Gravis Mushnik
Dick Miller ... Burson Fouch
Myrtle Vail ... Winifred Krelboyne
Tammy Windsor ... Teenage girl
Toby Michaels ... Teenage girl
Leola Wendorff ... Siddie Shiva
Lynn Storey ... Mrs. Hortense Feuchtwanger
Wally Campo ... Det. Sgt .Joe Fink/Narrator
Jack Warford ... Det. Frank Stoolie
Meri Welles ... Leonora Clyde
John Herman Shaner ... Dr. Phoebus Farb
Jack Nicholson ... Wilbur Force
Dodie Drake ... Waitress

Sinopse

A floricultura do mesquinho Gravis Mushnick (Mel Welles) está falindo. E ele está prestes a despedir Seymour Krelbonid (Jonathan Haze), seu atrapalhado funcionário quando este lhe mostra uma planta criada por ele. Audrey Jr. É seu nome em homenagem a Audrey (Jackie Joseph) a outra assistente de Gravis, a quem ele secretamente está apaixonado.

O oportunista Gravis usa a planta como um grande e último trunfo para tentar recuperar seu negócio. Entretanto, logo a planta começa a murchar e morrer. Mas, acidentalmente Seymour deixa cair algumas gostas de sangue na planta e, logo após, ela se recupera forte e sadia. Na medida em que ela cresce, se faz necessário cada vez mais sangue, e Seymour tem que sair para conseguir mais corpos humanos para saciar seu apetite.

Fontes: letras de filmes: Filme A Pequena Loja de Horrores (1960);
interfilmes: A Pequena Loja de Horrores (The Little Shop of Horrors - 1960)

Roger Corman

Roger Corman, cineasta, nasceu em cinco de abril de 1926, em Detroit, Michigan. É produtor, realizador, argumentista e, de vez em quando, ator. Estudou engenharia industrial na Universidade de Stanford, mas a paixão pela Sétima Arte o desviou para o cinema em 1953, tornando-se o diretor apelidado de "o rei da série B" do cinema americano.

Transformou-se numa celebridade no mundo do entretenimento, em sua freqüência incomum dirigindo e produzindo filmes em larga escala, chegando a produzir sete películas em um ano.

Fez filmes em dois dias e uma noite, com orçamentos de meia dúzia de dólares, um punhado de atores e um só cenário; é um dos nomes independentes históricos de Hollywood; assinou nos anos 60 uma série de adaptações de culto de contos de Edgar Allan Poe interpretadas por atores como Vincent Price, Peter Lorre, Boris Karloff e um novato chamado Jack Nicholson; e lançou as carreiras de nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Peter Bogdanovich, James Cameron, Joe Dante, Jonathan Demme ou Ron Howard.

Entre 1954 e o presente ano, Roger Corman já produziu e realizou mais de 400 filmes, gabando-se de ter perdido dinheiro apenas com um, The Intruder (1962), uma história anti-racista com William Shatner.

Formado em engenharia pela Universidade de Stanford e ex-aluno de Literatura Inglesa em Oxford, Corman já tocou praticamente em todos os gêneros, com particular ênfase no terror, na ficção científica, no filme de ação e de gangsteres e no policial. Em 1990, Roger, publicou as suas memórias, apropriadamente intituladas How I Made a Hundred Movies in Hollywood and Never Lost a Dime.

Filmografia

The Beast With a Million Eyes (1956, não creditado)
The Day the World Ended (1956)
It Conquered the World (1956)
O Emissário de Outro Mundo (Not of This Earth, 1957)
Attack of the Crab Monsters (1957)
The Undead (1957)
Teenage Caveman (1958)
War of the Satellites (1958)
A Bucket of Blood (1959)
A Mulher Vespa (The Wasp Woman, 1959)
O Solar Maldito (The Fall of the House of Usher, 1960)
A Pequena Loja dos Horrores (The Little Shop of Horrors, 1960)
The Last Woman on Earth (1960)
A Mansão do Terror (The Pit and the Pendulum, 1961)
Creature from the Haunted Sea (1961)
A Torre de Londres (Tower of London, 1962)
The Premature Burial (1962)
Muralhas do Pavor (Tales of Terror, 1962)
Terror no Castelo (The Terror, 1963)
O Corvo (The Raven, 1963)
O Homem dos Olhos de Raio-X (X, The Man With the X-Ray Eyes, 1963)
O Castelo Assombrado (The Haunted Palace, 1963)
A Máscara Mortal (The Masque of the Red Death, 1964)
O Túmulo Sinistro (The Tomb of Ligeia, 1964)
Bloody Mama (1970)
Ga-s-s-s! Or it became necessary to destroy the world in order to save it (1970)
Deathsport (1978, não creditado)
Frankenstein, o Monstro das Trevas (Frankenstein Unbound, 1990)

Fontes: Biografia curta de Roger Corman; nostalgia: Roger Corman; Wikipédia.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Terence Fisher

Terence Fisher, cineasta britânico, que atuou principalmente regendo filmes da Hammer Films, nasceu em 23 de fevereiro de 1904 em Maida Vale (Londres) e faleceu em 18 de Junho de 1980 em Twickenham. Seu pai morreu quando ele tinha quatro anos de idade, ficando sua educação a cargo de sua mãe e avós.

Seus avôs de férreas tradições vitorianas o matriculam, contra sua vontade, em uma escola militar. Porém se alista na marinha mercante, como aprendiz a bordo do H. M. S. Conway, onde percorrerá o mundo durante cinco anos. Após regressar a Londres trabalha como empregado numa loja de tecidos.

Para se distrair começa a freqüentar os cines. Maravilhado com o que vê na tela, decide trabalhar na indústria cinematográfica a qualquer custo.

Em 1930 foi trabalhar na Shepard’s Bush Studios como editor, mas apenas iria dirigir seu primeiro filme em 1948, A Song for Tomorrow. Mas foi na Hammer Films que o diretor conseguiria seus mais importantes filmes. Já trabalhara para a Hammer Films em 1933 nos primeiros filmes de ficção-científica da produtora, Four-Sided Triangle e Spaceways.

Em 1957 juntou-se ao roteirista Jimmy Sangster e aos atores Peter Cushing e Christopher Lee para refilmar Frankenstein, o clássico da Universal Pictures. Tendo Cushing como o doutor Frankenstein e Lee como a criatura (totalmente deformada, pois a produção não pode contar com as formas da criatura imortalizadas por Boris Karloff, cuja patente pertencia à Universal Pictures), o filme foi um enorme sucesso.

A mesma equipe foi reunida outra vez para, no ano seguinte, filmar O Vampiro da Noite, que superou todas as expectativas e seu estupendo sucesso colocou os filmes de terror outra vez no cenário cinematográfico mundial, tendo a Hammer Films como sucessora da Universal Pictures neste terreno – tanto que esta última, em acordo, cedeu os copyrights de seus monstros para que a Hammer produzisse seus filmes.

Estas duas obras dirigidas por Fisher praticamente definiram as produções de terror até a década de 70. Além da introdução das cores neste tipo de filme, a sensualidade era também mais destacada, com a constante presença de lindas mulheres com decotes bastante provocantes e, quase sempre, com seios grandes.

Os monstros também eram apresentados de maneira direta, diferentemente do que acontecia nos filmes da Universal Pictures, sempre envolvidos com problemas com a censura e com a distribuição. Mesmo assim, Fisher impunha um rígido código moral nas suas obras: o mal era sempre derrotado no final. Fisher aproveitou-se das novas condições morais menos rígidas e das novas tecnologias cinematográficas para renovar o universo de terror.

Fisher foi, sem dúvida, um dos diretores de filmes de terror mais influentes da segunda metade do século XX. Primeiro a imprimir o estilo gótico com a tecnologia a cores da Technicolor, com ênfase no sangue, na sensualidade e horror explícito que, se hoje parecem moderados, foram uma inovação em seu tempo.

Apesar de sua temática ser sombria e escatológica, seus filmes foram comercialmente bem sucedidos, mesmo que a crítica sempre o desdenhasse, ao longo de sua carreira. Somente após sua morte é que houve um justo reconhecimento por seus trabalhos.

Seu estilo pode ser definido como próprio, uma mistura de contos de fadas, mitos e sensualidade. Ao longo disso, uma temática cristã está fortemente presente, onde as forças do mal são derrotadas por um herói através da combinação da fé em Deus com a razão, em contraste com outras personagens que ou são bastante supersticiosos ou céticos, como observou o crítico Paul Leggett (in: Terence Fisher: Horror, Myth and Religion, 2001).

Uma completa análise de seus trabalhos foi feita na obra "The Charm of Evil: The Films of Terence Fisher" de Wheeler Winston Dixon (Londres, Scarecrow Press, 1991).

Principais filmes
1947 - Colonel Bogey
1948 - To the Public Danger
1948 - Song for Tomorrow
1948 - Portrait From Life
1949 - Marry Me!
1949 - The Astonished Heart (co.)
1950 - So Long at the Fair (co.)
1951 - Home to Danger
1952 - The Last Page
1952 - Wings of Danger
1952 - Stolen Face
1952 - Distant Trumpet
1953 - Four Sided Triangle
1953 - Mantrap
1953 - Spaceways
1953 - Blood Orange
1953 - Three's Company (co.)
1954 - Face the Music
1954 - The Stranger Came Home
1954 - Mask of Dust
1954 - Final Appointment
1954 - Children Galore
1955 - Murder By Proxy
1955 - The Flaw
1955 - Stolen Assignment
1956 - The Last Man to Hang?
1957 - Kill Me Tomorrow
1957 - he Curse of Frankenstein
1958 - Horror of Dracula
1958 - The Revenge of Frankenstein
1959 - The Hound of the Baskervilles
1959 - The Man Who Could Cheat Death
1959 - The Mummy
1959 - The Stranglers of Bombay
1960 - The Two Faces of Doctor Jeckyll
1960 - The Brides of Dracula
1960 - The Sword of Sherwood Forest
1961 - The Curse of the Werewolf
1962 - The Phantom of the Opera
1962 - Sherlock Homes und das Halsband des Todes
1964 - The Horror of It All
1964 - The Gorgon
1964 - The Earth Dies Screaming
1966 - Dracula - Prince of Darkness
1966 - Island of Terror
1967 - Frankenstein Created Woman
1967 - Night of the Big Heat
1968 - The Devil Rides Out
1969 - Frankenstein Must Be Destroyed
1974 - Frankenstein and the Monster from Hell

Fontes: Terence Fisher; Wikipédia; e traduzido da"Biografía de Terence Fisher"
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