segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O julgamento do cadáver

Papa Estêvão VII (à esquerda) no Sínodo Cadavérico de Formoso (Jean-Paul Laurens, 1870).


O "Sínodo do Cadáver", também conhecido como Julgamento do Cadáver ou ainda, em latim Synodus Horrenda é o nome pelo qual ficou conhecido o episódio do julgamento póstumo do Papa Formoso que se deu na Basílica de São João de Latrão, Roma, em janeiro de 897. O corpo de Formoso (morto nove meses antes) foi exumado, vestido com insígnias e ornamentos e posto num trono e então, Estevão VI, seu sucessor, pode imputar ao cadáver as acusações, lendo-as diante do inerte corpo. O Sínodo do Cadáver é lembrado como um dos episódios mais bizarros da história do papado medieval.

Esse e outros eventos relacionados ocorreram durante um período de instabilidade política na Itália. Esse período, que durou de meados do século IX até meados do século X, foi marcado por uma rápida sucessão de pontífices. No ano em torno do Sínodo do Cadáver (872-965) houve 24 papas. Freqüentemente, estes breves reinados papais foram o resultado das maquinações políticas de facções locais romanas, sobre as quais poucas fontes sobrevivem.

Formoso foi bispo de Porto em 864 durante o pontificado de Nicolau I. Promoveu missões entre os búlgaros e teve sucesso, tanto que foi solicitado a ser o bispo dos novos convertidos. Não houve permissão de Nicolau I para tanto, já que para ser bispo na Bulgária teria Formoso que deixar sua sé de Porto e o 15°Cânon do Segundo Concílio de Nicéia proíbe um bispo de deixar a sua própria sede para administrar outra.

Em 875, logo após a coroação de Carlos, o Calvo, Formoso fugiu de Roma com medo do então Papa João VIII. Alguns meses depois, em 876, no concílio de Santa Maria Rotunda, João VIII trouxe uma série de acusações contra Formoso, acusou-o de ter influenciado negativamente os búlgaros a ponto destes não mais aceitarem o bispo enviado pela Sé de Roma; que Formoso conspirava para tomar o papado de João VIII e, por fim, que ele havia abandonado sua sede de Porto e conspirava contra Carlos. Formoso foi excomungado. 

Após a morte de João VIII em dezembro de 882, Formoso reassumiu o bispado de Porto onde permaneceu até ser eleito papa em 6 de outubro de 891. No entanto, essas antigas disputas com João VIII formaram o libelo acusatório do Sínodo do Cadáver. De acordo com o historiador do século X Liutprand de Cremona, Estevão VII perguntou ao cadáver por que ele desejou apoderar-se da sede da Igreja Universal (Roma) com tanta ambição após a morte de João VIII (de acordo com o papa João, Formoso tentou apoderar-se do papado quando João ainda vivia). Mais duas acusações foram feitas ainda: de ter cometido perjúrio e de ter exercido o ofício de bispo quando leigo, o que guarda relação com o referido juramento do concílio de Troyes.

Ao que tudo indica o Sínodo do Cadáver teve uma motivação política. Formoso coroou Lamberto de Espoleto co-regente do Sacro Império Romano-Germânico em 892. O pai de Lamberto, Guido III de Espoleto, havia sido coroado por João VIII. Em 893 Formoso, preocupado com as possíveis agressões de Guido III, convidou o carolíngio Arnolfo de Caríntia a invadir a Itália e receber a coroa imperial. A invasão de Arnolfo falhou e Guido III morre logo depois.

Em 895 Formoso convida novamente Arnolfo a invadir Roma e, no ano seguinte, Arnolfo cruza os Alpes e chega a Roma onde é coroado por Formoso como imperador do Sacro Império Romano, com isso o exército franco parte e Formoso e Arnolfo morrem logo depois em 896. Formoso foi sucedido por Bonifácio VI, que morreu semanas depois. Lamberto e sua mãe, a imperatriz Ageltrudes entram em Roma mais ou menos na mesma época em que Estevão VI é coroado papa. E aí tem lugar o Sínodo do Cadáver.

Provavelmente em torno de janeiro de 897, Estevão (VI) VII ordenou que o cadáver do seu antecessor Formoso fosse removido de seu túmulo e levado para a corte papal, para julgamento.

Formoso foi acusado de transmigração em violação do direito canônico, de falso testemunho, e de servir como um bispo, enquanto na verdade, um leigo. Liutprand e outras fontes dizem que Estevão tinha despojado do cadáver de suas vestes papais, cortou seus três dedos da mão direita usados para bênçãos, e declarou todos os seus atos e ordenações inválidas. O corpo foi finalmente sepultado em um cemitério para estrangeiros, apenas para ser desenterrado mais uma vez, ligado a pesos, e lançado no rio Tibre.

O espetáculo macabro fez a opinião pública em Roma voltar-se contra Estevão. Circularam rumores de que o corpo de Formoso tinha começado a fazer milagres em pessoas depois de estas se lavarem nas margens do rio Tibre. A revolta do público levou Estevão a ser deposto e encarcerado. Enquanto estava na prisão, em julho ou agosto de 897, ele foi estrangulado.

Em novembro de 897, o Papa Teodoro II (897) convocou um sínodo que anulou o Sínodo do Cadáver, reabilitou Formoso, e ordenou que seu corpo, que havia sido recuperado do Tibre, fosse enterrado na Basílica de São Pedro em paramentos pontifícios. Em 898, João IX (898-900) também anulou o Sínodo do Cadáver, e convoca dois sínodos (um em Roma e outro em Ravena), que confirmaram as conclusões do Sínodo de Teodoro II, ordenou que a ata do Sínodo do Cadáver fosse destruída, e proibiu qualquer julgamento futuro de uma pessoa morta.


Fonte: Wikipédia.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Necrofilia


A necrofilia é uma atração erótica por cadáveres e essa atividade é diagnosticada como “parafilia não especificada”, embora muitos auto-professos necrófilos rejeitam tal abordagem superficial do que eles sentem e fazem. Segundo o Dr. Jonathan Rosman e Dr. Phillip Resnick, existem três tipos básicos de “verdadeira” necrofilia: necrofilia-homicídio, que é o assassinato para obter um cadáver; necrofilia-comum, que é o uso de corpos já mortos para o prazer sexual; e fantasia-necrófila, prevendo os atos, mas não agindo sobre eles.

Casos de necrofilia remontam aos tempos bíblicos, mas já aparece em uma lenda lá por 37 a.C., quando do reinado de Herodes. Foram os romanos que o colocaram no trono (um "laranja") e, no entanto, ele era estrangeiro; seu pai era edomita e sua mãe, uma princesa árabe. Não possuía títulos, nem direito de assumir o trono judaico. Em conseqüência disso, sua posição era muito instável, e ele vivia aterrorizado por seus rivais. Quando identificava um, tratava de liquidá-lo de imediato, numa paranóia total.

Ele se casou com Mariane, uma princesa hasmoniana, neta do sumo-sacerdote Hircano II. Em um acesso de ciúmes Herodes a matou (além de mandar degolar dois de seus filhos, acusando-os de participarem de uma suposta conspiração), e a lenda diz que continuou a ter relações sexuais com o cadáver da esposa por sete anos.

A História oferece outras lendas sobre essa atividade, incluindo o medo de que os antigos egípcios expressavam de que embalsamadores violassem suas esposas falecidas, e por isso, eles as mantinham em casa até que a decomposição fosse evidente.

Outro famoso caso é o de Sir John Price (circa 1502-1555). Após a morte da sua mulher, ele logo se casou novamente. Sua falecida esposa foi embalsamada e mantida na mesma cama em que ele e sua nova noiva gozavam as núpcias. Depois que sua segunda esposa morreu, ele também a embalsamou e a acrescentou para a sua coleção macabra, dormindo ao lado desses cadáveres. Diz-se que ele continuou com esse comportamento até sua morte.

O popularíssimo escritor francês e libertino, Marquês de Sade, escrevia contos eróticos, misturando sexo, tortura, dor e morte e o assunto necrofilia em seus livros.Não podia faltar, não é?

Os casos mais comuns relatados aconteceram e ainda acontecem com os trabalhadores (com o distúrbio) do setor funerário, como, por exemplo, serventes de hospital, atendentes de necrotérios, auxiliares de funerárias, os clérigos e funcionários de cemitérios.

Já houve casos de homens sendo presos por estuprar mortos. O francês Henri Blot foi preso por estuprar uma série de cadáveres exumados em 1886 . Era coveiro e explicou que não tinha ninguém, nem sequer uma esposa para satisfazê-lo sexualmente, para o que sentiu que não estava prejudicando ninguém quando se divertia com os cadáveres em sua solidão...

Em um artigo, o Dr. Paul J. Rio documenta o caso de um coveiro italiano que começou a se masturbar enquanto trabalhava, sempre que tinha que enterrar uma jovem mulher bonita. Para ajudá-lo a atingir o clímax, ele ia tocar o cadáver. Com o tempo, começou a ter relações sexuais com os mortos, quando ninguém estava por perto. Quando apanhado com a boca na região genital de uma mulher falecida, admitiu ter violado centenas de cadáveres. Dr. Rio o diagnostica (e todos os necrófilos) como um psicopata.

Ele cita outro caso de um trabalhador mortuário que tocava seu pênis contra as coxas de cadáveres, enquanto trabalhava com eles. Logo ele foi fazendo sexo com quatro ou cinco corpos a cada semana. Com uma adolescente, ele chupou o sangue e urina dela, e queria muito mastigar partes de seu corpo. Em vez disso, mordeu as nádegas e, em seguida a sodomizou.

Supostamente (se é possível julgar o tal segredo uma atividade), necrófilos são principalmente do sexo masculino (cerca de 90%), mas uma aprendiz de embalsamador,  afirmou que durante os primeiros quatro meses do seu emprego, teve relações sexuais com um número de cadáveres. Ela admitiu que não poderia alcançar a satisfação com a vida, em parte porque tinha sido molestada uma vez e depois estuprada. Ela poderia se expressar sem medo de cadáveres.

Finalmente, na arte cinematográfica temos a visão antecipada do nosso mestre do terror José Mojica Marins, em "O Estranho Mundo de Zé do Caixão", de 1968, filme que inclui a necrofilia. O Zé teve que mudar o final para a censura aprovar naquela época. ___________________________________________________________________________ Fontes: Eu Quero o Seu Corpo - Necrofilia; Love After Death - True Tales Of Necrophilia; A Fúria de Herodes - John Stott; Wikipédia; Revista Superinteressante

A boneca de Von Cosel


Em 1931 em Key West, na Flórida, o radiologista Carl Von Cosel, 54 anos, tornou-se obcecado por um dos pacientes com tuberculose no sanatório onde ele trabalhava. Seu nome era Elena Milagros Hoyos, e ela tinha 22 anos, uma mulher bonita. Apaixonado, von Cosel esperava se casar com ela, mas antes que pudesse levar avante esse projeto, a garota enfraqueceu e morreu.

Ele pediu à família para não enterrá-la. Temendo a contaminação de seu corpo com águas subterrâneas, ele construiu um mausoléu para ela no cemitério, conservava-a em formol.

Em segredo, ele sentava-se e tinha “conversas” com o cadáver. Ele até deixou um telefone no mausoléu, para que ele pudesse falar com ela enquanto estivesse fora. Este homem era claramente obcecado. Um dia ele simplesmente decidiu ilegalmente remover o cadáver dela e levá-lo para sua casa.


Para mantê-la em boa forma, trouxe um fornecimento regular de conservantes e perfumes, mas um dia, o cadáver de Elena finalmente começou a se deteriorar. Usando cordas de piano para manter seus ossos juntos, substituindo seus olhos podres por olhos de vidro e cobrindo sua pele decomposta com uma mistura de cera e seda, ele recriou o corpo do cadáver, o transformou em uma espécie de “boneca”.

Boneca macabra de Von Cosel
Como o cabelo do cadáver havia caído, ele o usou para fazer uma peruca para colocar em sua cabeça. Encheu o corpo dela com trapos para mantê-la inteira e vesti-la em um vestido de noiva, ele a manteve ao seu lado na cama. Ele havia inserido um tubo no corpo decrépito para servir como uma vagina, para fazer sexo.

Passaram sete anos e os rumores e a crescente introversão de von Cosel levantaram as suspeitas de seus vizinhos. Nana, a irmã de Elena, odiada por Carl por ser uma “cópia em carrara” da irmã e que sempre foi hostil com ele, se propôs a pesquisar as fofocas dos vizinhos.

Elena em 1926.
Uma certa noite espiou Carl através de sua janela observando o ritual diário de tanatopraxia; assustada saiu correndo para denunciar o falso cunhado para as autoridades.

Foi detido por profanação, mas o prazo prescricional se esgotou no seu crime do roubo de sepulturas, e assim que foi posto em liberdade, Elena foi enterrada em uma área secreta e sem marcação.

Von Cosel se mudou para a Flórida. Mesmo assim ele não conseguia esquecer sua “boneca”. Quando ele finalmente morreu em 1952, ele foi encontrado em uma sala com uma boneca grande em seus braços, que usava máscara de morte de Elena.
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Fontes: O Mistério do Túmulo de Elena; A História Carl Von Cosel e Elena Hoyos.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Simões Lopes Neto

A obra do escritor Simões Lopes Neto retrata as tradições campestres gaúchas. Seu talento maior reside no uso que faz da linguagem popular local, o que faz de sua prosa uma das mais sugestivas da literatura brasileira.

João Simões Lopes Neto nasceu em Pelotas RS, em 9 de março de 1865. Passou a infância no campo e fez os primeiros estudos no Rio de Janeiro RJ, onde mais tarde cursou a faculdade de medicina, que abandonou no terceiro ano. Voltou à cidade natal em 1882 e exerceu profissões diversas, em constante instabilidade financeira.

Em 1895, passou a trabalhar na imprensa local. Escreveu peças de teatro e poemas, mas destacou-se principalmente com Contos gauchescos (1912) e Lendas do sul (1913), coletâneas de histórias regionalistas.

Em 1914, tornou-se diretor do Correio Mercantil, em que publicou as histórias de um caçador mentiroso, reunidas postumamente na coletânea Casos do Romualdo (1952).

Simões Lopes Neto morreu em Pelotas, em 14 de junho de 1916. Após um período de esquecimento, sua obra foi reabilitada graças, sobretudo, aos estudos críticos que lhe dedicaram Lúcia Miguel-Pereira, Augusto Meyer e Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Em 1955, surgiu o volume Terra gaúcha.

Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

Superstições populares


Do latim "superstitione", o Dicionário Aurélio define superstição da seguinte maneira: a) sentimento religioso baseado no temor ou na ignorância, e que induz ao conhecimento de falsos deveres, ao receio de coisas fantásticas e à confiança em coisas ineficazes; crendice; b) crença em presságios tirados de fatos puramente fortuitos; c) apego exagerado ou infundado a qualquer coisa. Veja a seguir algumas das mais conhecidas superstições populares com prováveis explicações para seu surgimento:

Gato preto

Durante a Idade Média, imaginava-se que os gatos eram na verdade bruxas transformadas, ou que eles tinham alguma relação com o diabo. Com isso, muitos felinos foram caçados e mortos. Durante a Inquisição, quando se queimava alguém acusado de bruxaria, era normal também queimar os gatos da pessoa. Por outro lado, existem tradições pagãs onde o gato preto (ou de qualquer cor) é considerado benéfico, trazendo prosperidade e protegendo a casa dos maus espíritos.

Passar sob uma escada

Nada mais antigo e obvio: uma escada colocada em algum lugar supõe que alguém tenha subido nela para fazer alguma coisa. Essa ‘alguma coisa’ pode cair na cabeça de quem passar por baixo. Isso sem mencionar que uma pessoa pode bater na escada sem querer e derrubar quem está no alto.

Coçar a mão

Se for a direita, significa dinheiro. Se for a esquerda, dívidas. Não se sabe ao certo quando surgiu essa superstição, mas, por via de dúvida, quando a mão direita coçar, coloque- a no bolso. Segundo dizem, isso atrairá ainda mais dinheiro.

Espelho quebrado sete anos de azar.

Se hoje o espelho é algo comum, em épocas remotas, era um artigo de luxo ao qual só os nobres tinham acesso. Para evitar o descuido dos criados, criou-se a superstição. E a partir dessa surgiram outras: quem olhar um espelho à luz de velas, poderá ver como irá morrer.

Vassoura

Vassoura atrás da porta faz as visitas indesejáveis irem embora logo (essa é antiga e, segundo consta, funciona mesmo). Outra superstição diz que, se uma mulher passar por cima de uma vassoura caída, ela engravidará logo. Também dizem que varrer os pés de alguém com uma vassoura faz a pessoa ficar solteira. A vassoura sempre foi considerada um elemento mágico por natureza. A wicca e outras religiões de natureza pagã a consideram um símbolo um símbolo e ferramenta de poder, de modo que essa pode ser a origem das superstições.

O número 13

Algumas pessoas o consideram um número de muito azar. Em alguns prédios nos EUA o 13º andar nem mesmo aparece nos números dos elevadores. Outras pessoas vêem o13 como número de sorte em virtude de coincidências felizes. Quem será que tem razão?

Bater na madeira

Além das superstições que dão azar, existem as usadas para atrair a sorte. Na maior parte, podemos traçar a origem dessa crendice nos cultos pagãos da antiga Europa e nos escravos trazidos da África. Com o avanço do cristianismo, as religiões de muitos lugares acabaram sendo absorvidas e seus ensinamentos se transformaram em lendas, que tinham por objetivo atrair sorte para quem as seguisse.

Bater 3 vezes na madeira

Esse costume nasceu da idéia de que demônios e duendes malignos ficavam sobre a mesa escutando a conversa dos humanos e preparando possíveis maldades. Quando alguém falava de algo importante que estava para acontecer, batia na madeira para afastar as criaturas e garantir o sucesso.

Sal

O sal é considerado sagrado para várias religiões, sendo inclusive utilizado como pagamento para os mercenários no antigo Império Romano (de onde surgiu o nome salário). Acredita-se que em sua forma bruta ou não-refinada ele afaste o azar, traga boa sorte a quem o carrega consigo e permite exorcizar os maus espíritos.

Entrar com o pé direito

Esse costume surgiu porque a Igreja Católica acreditava que os canhotos tinham ligação com as forças demoníacas. Assim, o lado direito representaria o certo, o divino. Ao entrar com o pé direito, a pessoa atrairia as forças divinas e a sorte, afastando os espíritos malignos de seu caminho. Os canhotos discordam.

Alho

O alho é visto como uma planta extremamente forte do ponto de vista mágico. É considerado eficaz contra o mau-olhado vampiros e todo tipo de forças malignas. Ter alho em casa afasta as forças negativas e atrai os bons espíritos.

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Fonte: Matéria retirada da revista 'Sexto Sentido' - Ano 2 - nº 13 - Por Alex Alprim. Mythos Editora. (www.mythoseditora.com.br)

Abraxas

Abraxas é um termo místico muito usado entre os gnósticos. Suas origens remontam a Basílio de Alexandria, que o usou no segundo século de nossa era como um título de divindade. Na numeração grega, as sete letras da palavra denotam o número 365, os dias do ano solar, representando um ciclo completo da ação divina. Além disso, supunha-se que 365 era a soma total dos espíritos que emanaram diretamente de Deus. 

Quando gravada em pedras ou gemas preciosas e usada como amuleto, a palavra protege a pessoa contra doenças e ferimentos. Existem muitos tipos desses amuletos: os que têm cabeça de galo, leão, ou de homem; os que consistem em letras hebraicas.

A palavra é encontrada no Evangelho Copta dos Egípcios e nos Papiros Mágicos Gregos. Ela também era gravada em algumas gemas por isso chamadas de Pedras de Abraxas, que eram usadas como amuletos. Abraxas pode também estar relacionada a Abracadabra, embora outras explicações existam.

Há diversas similaridades e diferenças entre estas gravuras em reportes sobre os ensinamentos de Basílio, antigos textos gnósticos, as grandes tradições mágicas greco-romanas e os modernos escritos mágicos e esotéricos. Opiniões não faltam sobre Abraxas, que em séculos recentes foi entendido como um deus egípcio e um demônio. O psicólogo suíço Jung escreveu um breve tratado gnóstico em 1916 chamado os Sete Sermões aos Mortos, que tinha Abraxas como um deus acima do Deus Cristão e o Diabo, que combinaria todos os opostos num único Ser.

No sistema descrito por Ireneu, o "Pai não-nascido" é o progenitor do Nous, e dele Nous Logos, de Logos Phronesis, de Pronesis Sophia e Dynamis. Destes, principados, poderes e anjos, o último dos quais criam o "primeiro céu".

Estes, por sua vez, originam uma segunda série, criando um segundo céu. O processo continua de maneira similar até que 365 céus existam, sendo os anjos deste último (o céu visível) os criadores do nosso mundo. o "governante" [principem, ou ton archonta] dos 365 céus "é Abraxas e, por isso, ele contém em si mesmo 365 números".

Hipólito fala sobre Abraxas na Refutação de todas as heresias, que parece ter seguido a Exegetica de Basilides. Após descrever a manifestação do Evangelho na Ogdóade e na Septóade, ele acrescenta que os Basilidianos têm um longo relato sobre as inúmeras criações e poderes nos diversos 'estágios' do mundo superior (diastemata), no qual relatam sobre os 365 céus e argumentam que "seu grande arconte" é Abrasax, pois seu nome contém o número 365, o número de dias do ano. Ou seja, a soma dos números representados pelas letras gregas em ΑΒΡΑΣΑΞ é 365:

    Α = 1, Β = 2, Ρ = 100, Α = 1, Σ = 200, Α = 1, Ξ = 60

Como um deus

Epifânio de Salamis parece seguir parcialmente Ireneu e parcialmente o "Compêndio de Hipólito", agora perdido. Ele conceitua Abraxas ou Abrasax distintamente como o "poder acima de tudo e o primeiro princípio", "a causa e o primeiro arquétipo" de todas as coisas e menciona que os seguidores de Basilides se referiram ao número 365 como sendo o número de partes no corpo humano além do número de dias no ano.

O autor do apêndice do livro "Prescrição contra heréticos", de Tertuliano, que também devem ter seguido o Compêndio de Hipólito acrescentam algumas particularidades: que 'Abraxas' deu à luz Mente (Nous), o primeiro numa série de poderes enumerados por Ireneu e Epifânio; que o mundo, assim como os 365 céus, foi criado em homenagem a 'Abraxas'; e que Cristo foi enviado não pelo Criador do mundo, mas por 'Abraxas'.

Nada pode ser inferido das vagas alusões de Jerônimo, que afirmava que 'Abraxas' significava "O Deus maior" para Basílio, "Deus Todo-Poderoso" e "O Senhor Criador" (Comentários sobre Amós, cap. III.9, e sobre Naum, I.11, respectivamente). As aparições em Teodoreto ("Haereticarum fabularum compendium", I.4) e Agostinho de Hipona (Haer IV e Praedestinatus I.3) não tem valor como fontes independentes.

Como um Aeon

Mesmo com a disponibilidade de fontes primárias, como as da Biblioteca de Nag Hammadi, a identidade de Abrasax ainda permanece obscura. O Livro Sagrado do Grande Espírito Invisível, por exemplo, se refere a Abrasax como o Aeon vivendo com Sophia e os demais Aeons do Pleroma na luz do luminar Eleleth. Em diversos textos, Eleleth é o último dos luminares (Luzes espirituais) de destaque e é o Aeon Sophia, associado a ele, que encontra a escuridão e acaba envolvida na cadeia de eventos que levam ao reinado do Demiurgo neste mundo e à tentativa de salvação que se segue.

Assim, o papel de Aeon de Eleleth, e também de Abrasax, Sophia e outros, é característico da camada exterior do Pleroma, a que toca a ignorância do mundo da Vontade, e que reage para corrigir o erro da ignorância no mundo das coisas materiais.
As Pedras de Abrasax

Um grande número de pedras gravadas existem, as há muito chamadas de "Pedras de Abrasax". Um exemplo particularmente bom foi encontrado dentre os artefatos do Tesouro de Thetford, do século IV dC, encontrado em Norfolk, UK. Os personagens são mitológicos, majoritariamente grotescos, com várias inscrições, dentre as quais ΑΒΡΑΣΑΞ frequentemente é encontrada, sozinha ou acompanhada de outras palavras.

Algumas vezes, todo o espaço é tomado com a escrição. Em certos textos mágicos obscuros de origem egípcia, ἀβραξάς ou ἀβρασάξ é encontrado associado com outros nomes frequentemente dados à gemas; e é também encontrado no metal grego tesseræ entre outras palavras místicas. O significado destas lendas raramente pode ser compreendido, apesar das gemas serem tidas como amuletos.

Fontes: Dicionário Mágico; Wikipédia.

Abstinência


Ritual mágico que requer cuidadosa preparação. Para convocar o demônio, o mago prepara-se, em primeiro lugar, através da abstinência, ou por outros meios destinados a incrementar seus poderes.

Eliphas Levi recomenda, antes de se proceder a um ritual ou operação mágica, um mínimo de sono e abstinência de sexo, bebidas tóxicas e carne.

Fonte: Dicionário Mágico.

Eliphas Levi

Eliphas Levi, nome de batismo Alphonse Louis Constant, (08 de fevereiro de 1810 - 31 de Maio de 1875) foi um escritor e ocultista francês. O seu pseudônimo "Eliphas Levi," sob o qual ele publicava seus livros, resultou de pretender ter neles um pseudônimo de origem hebraica associando-o mais facilmente a outros cabalistas famosos.

O maior ocultista do século XIX, como muitos o consideram, era filho de um modesto sapateiro. Tinha uma irmã, Paulina-Louise, quatro anos mais velha que este. Desde sua infância demonstrava um grande caráter de seu talento para o desenho, seus pais introduziram-no para o ensinamento religioso.

Depois disso, aos dez anos de idade ingressou na comunidade do presbitério da Igreja de Saint-Louis em Lille, onde aprendeu o catecismo com o seu primeiro mestre, o abade Hubault, que fazia seleções dos garotos mais inteligentes. Eliphas Levi foi encaminhado por Hubault ao seminário de Saint-Nicolas Du Chardonnet, para concluir seus estudos preparatórios. A vida familiar para ele havia acabado neste momento. No seminário, teve a oportunidade de aprofundar-se nos estudos da filologia, e quando completara seus dezoito anos já era apto para ler a Bíblia no seu contexto original.

No ano de 1830, foi transferido para o seminário de Issy para estudar filosofia. Dois anos depois, ingressou em Saint-Sulpice para estudar teologia. Foi nesse tempo que esteve em Issy que escreveu seu primeiro drama bíblico, Nemrod. No seminário de Saint-Sulpice criou seus primeiros poemas religiosos, considerados de demasiada beleza.

Eliphas Levi foi ordenado diácono em 19 de dezembro de 1835. Em maio de 1836, teria sido ordenado sacerdote, se não tivesse confessado ao seu superior o amor por Adelle Allenbach, cuja primeira comunhão com ele havia realizado. Suas convicções receberam um choque tão grande, que Levi sentiu-se jogado fora da carreira eclesiástica.

Por resultado de uma publicação de uns escritos de sua Bíblia da liberdade foi posto preso durante oito meses, incluindo 300 francos de multa, acusado de profanar o santuário da religião, de atentar contras as bases que sustentam a sociedade, de espalhar ódio e a insubordinação.

Depois de tanto constrangimento e de tantos parênteses na sua vida, enquanto esteve preso, teve contato com os estudos de Swedenborg. Segundo Eliphas mesmo afirmava, que, tais escritos não contêm toda a verdade, mas conduzem os neófitos com segurança em uma suposta senda esotérica.

Começo da carreira no ocultismo

Deixando a prisão, realizou pequenos trabalhos, principalmente pinturas de quadros, murais nas igrejas da região e colaborações jornalísticas. Mesmo com esses contratempos da sua vida (que os considerava materiais), não deixou jamais de enriquecer seus conhecimentos e aperfeiçoar sua erudição.

Em Swedenborg, encontrou os grandes magos e alquimistas da Idade Média que o introduziram no esotérico, entre eles foram Guillaume Postel, Raymond Lulle e Henry Corneille Agrippa.

Não obstante, em 1845, aos trinta e cinco anos de idade, escreveu sua primeira obra ocultista de nomeada: “O livro das Lágrimas ou Cristo Consolador”.

Assim como terá desenhado, em 1854, no seu livro “Dogma e Ritual da Alta Magia”, aquela que é a representação mais conhecida de um suposto Baphomet atribuído como ídolo dos cavaleiros Templários.

Obras

Dogma e Ritual da Alta Magia
História da Magia
A Chave dos Grandes Mistérios
A Ciência dos Espíritos
As Origens da Cabala
Os Mistérios da Cabala
Curso de Filosofia Oculta
Fábulas e Símbolos
O Livro dos Sábios
O Grande Arcano
Os paradoxos da Sabedoria Oculta
O livro das Lágrimas ou Cristo Consolador


Fonte: Wikipédia.

Washington Irving

Com uma obra às vezes satírica, às vezes onírica, Washington Irving foi o primeiro escritor americano a ganhar fama internacional. 

Washington Irving nasceu em Nova York, em 3 de abril de 1783. Estudou direito e viajou pela Europa. Iniciou a carreira literária com Salmagundi (1807-1808), coletânea de sátiras sobre a sociedade nova-iorquina, e History of New York from the Beginning of the World to the End of the Dutch Dinasty by Diedrich Knickerbocker (1809; História de Nova York do começo do mundo até o fim da dinastia holandesa por Diedrich Knickerbocker), sátira aos colonos holandeses.

Em 1815 viajou novamente à Europa, onde morou 17 anos, e escreveu o livro que o tornou famoso: The Sketch Book of Geoffrey Crayon  (1819-1820; O livro de esboços de Geoffrey Crayon), fruto de sua amizade com Sir Walter Scott. Alguns contos dessa obra se tornaram populares, entre eles "Rip Van Winkle".

Escreveu A Chronicle of the Conquest of Granada (1829; Crônica da conquista de Granada) e The Alhambra (1832; Contos da Alhambra), inspirados na pitoresca tradição árabe da Andaluzia, que conheceu quando viveu na Espanha como embaixador. Vieram depois Columbus (1828) e The Companions of Columbus (1831; Os companheiros de Colombo).

Depois de 17 anos de ausência, em 1832 voltou aos Estados Unidos, onde foi recebido com entusiasmo. Viajou então pelo país e escreveu A Tour of the Prairies (1835; Um passeio pelas pradarias), Astoria (1836) e The Adventures of Captain Bonneville (1837; As aventuras do capitão Bonneville).

Irving morreu em sua propriedade de Sunnyside, na cidade de Tarrytown, Nova York, em 28 de novembro de 1859.

Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O mastro de navio da casa de Ponte d’Uchoa

Recife: nossa Veneza americana
Acostumaram-se os recifenses moradores da linha que outrora se chamou a “Principal” — a do trem que ia dos sobrados do centro às matas suburbanas de Dois Irmãos — a ver diante do casarão gótico de Ponte d’Uchoa — casarão gótico que, reformado, é hoje o palacete do médico e milionário luso-pernambucano Manuel Batista da Silva — um alto mastro de antigo navio a vela.

Durante longos anos aí esteve o mastro misterioso.

Do casarão se diz que o levantou velho comandante inglês de navio, enriquecido no comércio uns dizem que de bacalhau, outros que de farinha de trigo. Sentimental como todo bom inglês, quando resolveu residir no Recife — cidade que sempre teve seu it  para ingleses, um dos quais deixou-a, há pouco, choroso como um desesperado que deixasse sua Pasárgada — não foi capaz de separar-se do mastro do navio a vela. O mastro do navio que durante anos comandara por mares do Norte e águas do Sul.

De modo que diante da casa bizarramente gótica — tão bizarra que os cronistas do meado do século XIX registraram com espanto o seu aparecimento no meio do arvoredo caboclo — ergueu o inglês aquele mastro, como se ali houvesse encalhado para sempre seu navio: navio bom e romântico do tempo da navegação a vela.

E ali ficou o mastro até que o transferiram para o Country Club, onde ainda está.

Contou-me há anos velho “inglês” — inglês já de água doce, pois, nascido no Brasil e casado com brasileira, falava inglês com sotaque pernambucano — que, por algum tempo, o mastro teve fama de mal-assombrado. Quem passasse tarde da noite pelo casarão ermo via no alto do mastro angulosa figura que alguns supunham de marinheiro. E sendo de marinheiro, devia ser de marinheiro inglês, pois inglês fora o navio de que a saudade do antigo comandante arrancara o mastro.

Na mesma área do Recife onde se ergueu durante anos esse mastro de navio velho, no qual mais de um recifense antigo cuidou ver, noite de escuro, fantasma de inglês saudoso do seu barco, apareceu, anos depois, a uma meninota brasileira chamada Lurdinha, um vulto esbranquiçado que lhe pareceu fantasma; e fantasma também de inglês, todo de dólmã branco, sapatos como os dos ingleses jogarem tênis. Fantasma de um mister B., que se soube depois ter morado na casa onde morava a família de Maria de Lurdes.

O fantasma que a moça garantiu à família ter visto com olhos de pessoa acordada era, com efeito, britanicamente correto. 

Desapareceu logo que descobriu estar assombrando uma simples menina. Não pediu missa: mesmo porque parece que Mr. B. fora em vida protestante. Não apontou para móvel ou parede alguma: nem era natural que o fizesse, pois devia ter suas economias em banco solidamente inglês. Não fez um gesto. Não fez um ruído. 

Simplesmente apareceu à menina chamada Lurdes. Ali nessa mesma casa, a outra família, a família F. L. — dizem ter aparecido um fantasma de bebezinho brincalhão. Talvez inglês como Mr. B.

Só fazia brincar. Não assustava ninguém. Espécie de irmão do fantasmazinho de menino feliz de outra casa de Boa Vista do qual mais adiante se falará.
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Fonte: Assombrações do Recife Velho - Gilberto Freyre. — Rio de Janeiro:  Record, 1987.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O rastro de Charles Ashmore

Ambrose Bierce
A família de Christian Ashmore consistia em sua mulher, sua mãe, duas filhas crescidas e um filho de dezesseis anos. Moravam todos em Troy, Nova York, eram pessoas de bom nível, respeitadas, e tinham muitos amigos, alguns dos quais, lendo estas linhas, ouvirão falar pela primeira vez da história extraordinária ocorrida com o rapaz. 

Os Ashmores se mudaram de Troy para Richmond, Indiana, em 1871 ou 1872, seguindo, um ou dois anos depois, para os arredores de Quincy, Illinois, onde o Sr. Ashmore comprou uma fazenda e se instalou. A pouca distância da sede da fazenda havia uma fonte de água limpa e fresca, que a família usava para suprir suas necessidades durante o ano inteiro.

Na noite de 9 de novembro de 1878, lá pelas nove horas, o jovem Charles Ashmore deixou a família reunida em casa e, levando uma pequena jarra, saiu em direção à fonte. Como demorava a voltar, a família ficou inquieta, e o pai, indo até a porta por onde o rapaz saíra, chamou por ele sem obter resposta. Acendeu então uma lanterna e, junto com a filha mais velha, Martha, que insistiu em acompanhá-lo, saiu à procura.

Naquela noite havia caído um pouco de neve, que cobria o caminho mas deixava evidente a trilha feita pelo rapaz. Cada pegada era perfeitamente visível. Quando eles já haviam percorrido pouco mais do que a metade do caminho — cerca de sessenta metros —, o pai, que ia na frente, estacou e, erguendo a lanterna, ficou espiando a escuridão à sua frente.

"O que houve, pai?", perguntou a moça.

O que havia era o seguinte: a trilha do jovem terminava de repente e dali para a frente a neve fofa estava intocada. As últimas pegadas eram tão visíveis quanto as anteriores, sendo possível mesmo distinguir a marca da ponta dos dedos. O Sr. Ashmore olhou para cima, usando o chapéu de anteparo para que a luz da lanterna não o ofuscasse. As estrelas brilhavam.

Ficou assim afastada a hipótese que chegara a lhe ocorrer, por mais improvável que fosse, de que houvesse caído neve outra vez, e só dentro de um limite tão bem definido. Seguindo um caminho maior e rodeando o local onde estavam as últimas pegadas, de forma a deixá-las intocadas para voltar a examiná-las mais tarde, ele foi até a fonte, enquanto a moça seguia atrás, sentindo-se fraca e apavorada. Nenhum dos dois disse uma só palavra sobre o que tinham visto. A fonte estava coberta de gelo, obviamente endurecido havia muitas horas.

Voltando para casa, observaram a neve de ambos os lados, ao longo de todo o caminho. Não havia qualquer marca de pegadas afastando-se da trilha.

A luz do dia não trouxe qualquer nova evidência. Por toda parte havia neve, não muito profunda. E sempre macia, sem marcas, intocada.

Quatro dias depois, a mãe, arrasada, foi até a fonte em busca de água. Ao voltar, contou que, quando passava pelo local onde tinham sido vistas as últimas pegadas, ouvira a voz do filho e saíra, desesperada, chamando por ele, andando a esmo pelo lugar, já que a cada momento tinha a impressão de ouvir a voz vindo de uma diferente direção. Até que não agüentara mais, vencida pelo cansaço e pela emoção.

Quando lhe perguntaram o que a voz falava, não conseguiu dizer, embora asseverasse que as palavras eram perfeitamente audíveis. Imediatamente, toda a família foi até o local, mas ninguém ouviu nada e a conclusão foi a de que tudo não passara de uma alucinação causada pela ansiedade da mãe e por seus nervos destroçados.

Acontece que nos meses seguintes, com intervalos irregulares de alguns dias, a voz foi ouvida por todos os membros da família, e também por outras pessoas. Todos declararam estar absolutamente certos de que era a voz de Charles Ashmore, e todos concordaram que o som parecia vir de muito longe, fraco, mas articulado de forma perfeitamente audível. E, contudo, ninguém foi capaz de precisar de que direção vinha o som ou de repetir as palavras ditas. Os intervalos de silêncio foram aos poucos tornando-se mais longos, e a voz ficando mais fraca e distante, até que, no verão, parou de ser ouvida.

Se alguém conhece o destino de Charles Ashmore, esse alguém provavelmente é sua mãe. Ela está morta.





Ambrose Bierce nasceu em Ohio, EUA, a 24 Junho de 1842. Depois da Guerra Civil Americana, em que participou do lado da União, Bierce partiu para a Califórnia, onde se tornou jornalista. Na Inglaterra a partir de 1872, trabalhou para revistas humorísticas como a «Figaro» e a «Fun». Regressou aos Estados Unidos em 1875, iniciando um longo período de colaboração com vários jornais. Tornar-se-ia um dos jornalistas e escritores mais conhecidos do seu tempo, não deixando ninguém indiferente ao seu sentido acutilantemente crítico e satírico da humanidade. Com humor insolente, atacou todos os quadrantes da sociedade: as religiões, a política, a economia, o sentimentalismo... Em 1913, aos setenta e um anos, Bierce partiu ao encontro da Revolução Mexicana, sem deixar rastro. A sua morte permanece um mistério, mas acredita-se que possa ter acontecido durante a Batalha de Ojinaga, em Janeiro de 1914.

Lendas do rio São Francisco


Contam que em Manga havia um pescador com o nome de Simão Corneta. Muito pobre, casado e com muitos filhos, que ficavam em casa famintos por muitos dias. Certo dia saiu para pescar. Em cima do rancho apanhou o remo e as linhas; encheu a cumbuca de isca, benzeu-se antes de entrar na canoa e remou rio abaixo ouvindo os barulhos das aves. Para espantar as moscas acendeu o seu cachimbo de barro.

Chegando na barra do Rio Verde Grande encontrou outros pescadores que esperavam pegar surubins de 70 quilos para cima. Iam dias, vinham noites e nada de peixes. Depois de quatro dias de tentativas resolveu entrar no rancho de um velho pescador que ele chamava de tio Ciríaco. Deitou-se no banco da sala e adormeceu profundamente.

Mais tarde Ciríaco e sua velha mulher passaram a observar o pobre pescador que fingia dormir. A mulher perguntou ao velho qual seria a razão do insucesso de Simão Corneta. Ciríaco respondeu que Simão não conhecia os segredos do Rio São Francisco. A velha pediu a Ciríaco que revelasse ao pobre pescador os segredos o que recusou dizendo ser perigoso para Simão Corneta que sendo jovem e belo não resistiria os tentadores encantos da Mãe-d'água. Revelou apenas que a Mãe d'água gostava de aparecer à meia-noite sobre uma pedra lisa e que era preciso ter coragem, jogar fumo para trás e correr para ela não pegar.

Simão achou que o velho Ciriáco era bem sucedido nas suas pescarias por causa das graças da Mãe-dágua e que já tinha posse do segredo. Acabou com o fingimento de sono e levantou-se. Depois de comer peixe com pirão, despediu-se do casal de velhos e pôs-se a remar rio acima. O velho Ciríaco ficou preocupado vendo Simão Corneta, sem o segredo, cada vez mais distante e a noite cada vez mais próxima.

A lua clareou o rio que parecia uma avenida de prata e era meia-noite; um vento soprou forte; um galo cantou; vozes humanas e rumores de animais aproximavam e Simão nada compreendia. De repente apareceu em cima dágua uma casa branca como o algodão. Seu telhado era de escamas de peixe; as janelas de ouro e as paredes de prata. Daquele palacete saiu a Mãe-dágua. Assentou-se na pedra lisa penteando seus longos cabelos com um pente de ouro.

Simão ficou ali contemplando aquela maravilha até que a Mãe-dágua se adormeceu deixando o pente de lado. Corneta pensou, então, levar o pente com ele e foi como um gato até a pedra lisa. Quando conseguiu colocar a mão no pente a Mãe-dágua deu grito agudo, muito alto e desapareceu levando Simão em seu palacete.

Mais lendas do São Francisco

Tudo o que a terra tem, o rio São Francisco também tem e não é só em terra que há cavalo. Existe no rio o cavalo d'água. Nos dias em que ele relincha demoradamente, é sinal de que vai fazer bom tempo. Conta-se que certos pescadores já montaram no cavalo d'água, mas para esta façanha tem de se submeter a duras provas e pedir licença ao caboclo d'água, que é dono do cavalo d'água. O cavalo misterioso e aquático do rio São Francisco cavalga quase sempre ao amanhecer e ao cair do sol.

Registra o professor Saul Martins a crença de pescadores e barqueiros do São Francisco, na existência de homens encantados que habitam o fundo do rio em cidades fantásticas. Contam longos casos de aparições e de ações malfazejas de um ou de outro caboclo d'água.

Diz Afrânio Teixeira Bastos que o São Francisco é um rio de contrastes que parece obrigá-lo a ostentar um absolutismo sobre o vale. Ao mesmo tempo é fator de riqueza e de miséria, de vida e de morte, de progresso e de atraso, de integração e de dissociação políticas. Age como um déspota insatisfeito, apenas interessado numa individual e cruel exibição de força. (SANTOS, A T. 1960)

Esta é também a concepção do povo que vive em suas margens. Tudo de bem e de mal é atribuído ao rio. Concordamos que o rio seja uma força natural, mas não concordamos que os males sejam atribuídos a fatores geográficos porque são tipicamente sociais. Esta evidência demonstra a lenda. O pescador Simão Corneta foi vítima do competitismo, antes de sair para pescar, na pobreza de seu rancho, de sua insegura canoa, na falta de provisão e na sua solidão. Foi vítima do competitismo durante o tempo de pescaria, pois não recebeu ajuda e nem solidariedade de outros pescadores; Ciríaco foi hospitaleiro mas não foi solidário com Simão, negando-lhe a necessária orientação.

Os mitos "Cavalos D'água", e "Caboclo D'água", revelam o tipo social do pescador, da região de Januária, na figura do barranqueiro, que vive a tradição da pesca. A sua grande paixão é o rio, do qual tira o sustento e para o qual dedica toda a energia. O cavalo d'água fa z a ligação entre o mundo exterior próximo do barranqueiro e o mundo interior, traduzido no amor pelas coisas do rio. O caboclo d'água representa os perigos escondidos nas águas do grande rio.

Fonte: velhochico.net

A mulher de sete metros

Onde hoje se localiza o Forúm da cidade de Patos de Minas (MG), situou-se o primeiro cemitério. Dali, segundo a tradição, sai uma mulher de sete metros de altura e vai até perto do monumento do Presidente Olegário Maciel. É a alma penada de Lavi Lopes, fazendeira bastante rica e possuidora de muitos escravos, que viajava muito, indo constantemente ao Rio de Janeiro, onde gozava dos encantos da cidade.

Era de grande perversidade, sobretudo para com seus escravos. Jogava gordura fervendo nas negras, queimando-as porque elas não realizavam os trabalhos de acordo com seu exigentíssimo gosto. Isto só para martirizá-las.

Umas das escravas tentou jogar a malvada dentro da cisterna. A sua maldade era tão grande que, quando usava sapatos de salto alto, pisava nos braços dos filhos dos escravos quando estes engatinhavam, quebrando-lhes os braços e não permitia tratamento e nenhum cuidado aos inocentes machucados.

Em razão disso, foi ficando isolada de todos e de tudo. Ninguém desejava a sua companhia, e fugiam dela.

Viveu muitos anos, tristemente, morrendo já bastante idosa, abandonada e pobre. A sua figura, quando morta, inspirava terror, pois não fechou os olhos, nem a boca, ficando com a língua para fora. As crianças tinham pavor dela, e de seu aspecto. Em sua antiga casa, ouviam-se, até há pouco tempo, arrastar de correntes, ganidos e gritos de dor.

Nesse mito, podemos dimensionar a percepção popular as arbitrariedades e dos abusos no sistema de escravidão. Aponta uma sabedoria do povo em defesa dos direitos humanos.

Fonte: http://velhochico.net (Lendas das Gerais).

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Coisas bizarras da era vitoriana

10 - Vinhetas

A classe vitoriana superior (e mais tarde classe média) não tinha rádios, televisores ou Internet (e nem carnaval!) para entretê-los. Mas não tinha teatro? Bem, uma das formas mais populares de entretenimento para os amigos e familiares, naquela época, foi o de se vestir em trajes ultrajantes e posar. Isto soa inocente - mas pense bem: você conseguiria imaginar sua avó fantasiada de ninfa grega subindo em uma mesa na sala de estar enquanto todos aplaudem? Mas, para os vitorianos, ingleses tão conservadores, isto era assustadoramente normal e divertido.

09 - Asilos

Os asilos eram instalações administradas pelo governo onde os pobres, enfermos, ou mentalmente doentes podiam viver. Eram pacientes geralmente imundos, mendigos e/ou excluídos pela sociedade. Na época, a pobreza era vista como um estado desonroso, de pessoas com falta da virtude moral da diligência. Muitas destas que viviam nos asilos eram obrigadas a trabalhar para contribuir para a manutenção destas instituições e não era incomum que famílias inteiras vivessem juntas com outras neste ambiente.  

08 - Nevoeiros

Londres, durante a era vitoriana ficou famosa pelas pea soupers - nevoeiros tão espessos que mal se podia ver através deles. As pea soupers eram causadas por uma combinação de nevoeiros do Rio Tâmisa e fumaça dos fogos de carvão que eram uma parte essencial da vida vitoriana. Curiosamente Londres sofreu com estes nevoeiros por séculos - em 1306, o rei Eduardo I proibiu fogos de carvão por causa da poluição.

Em 1952, 12 mil londrinos morreram devido à poluição atmosférica obrigando o governo a aprovar a Lei do Ar Limpo. A atmosfera vitoriana (em literatura e no cinema moderno) é bastante reforçada pela espessa fumaça e neste ambiente assustador Jack agia calmamente, estripando suas vítimas.

07 - Alimentação

Os nossos ingleses vitorianos amavam as miudezas e comiam praticamente todas as partes de um animal. Isto não é totalmente assustador se você também gosta, mas para pessoas comuns, a idéia de cear em uma tigela contendo miolo de cérebro ou coração não é atraente. Outro prato famoso da era vitoriana era a sopa de tartaruga. A tartaruga foi valorizada acima de tudo por sua gordura que foi usada para dar sabor a esse prato, junto com a carne cozida do pegajoso quelônio. Devido ao perigo de sua extinção, as tartarugas são raramente comidas hoje em dia, mas é possível comprá-los em alguns estados dos EUA, onde elas são abundantes. 

Creio que o problema dessa época seria a falta de higiene. Falando em miudezas, particularmente adoro uma dobradinha...

06 - Cirurgia


A partir do momento em que cada um de quatro pacientes morria após uma cirurgia, as pessoas daqueles tempos davam graças aos céus por não sofrer de nenhum mal ou rezavam por um bom médico. Não havia anestesia, nem analgésicos e nenhum equipamento elétrico para reduzir a duração de uma operação. A cirurgia vitoriana não era simplesmente assustadora, era completamente horripilante!

Aqui está uma descrição de uma cirurgia da época:

Uma multidão de ansiosos estudantes de medicina, antes de assistirem ao “procedimento”, verificam seus relógios de bolso, assim como os dois assistentes do Dr. Liston, que imobilizam o espavorido paciente. O homem totalmente consciente, atormentado pela dor de sua perna quebrada ao cair entre um trem e a plataforma, olha totalmente apavorado para a coleção de facas, serras e agulhas que estão ao lado dele.

Dr. Liston, com sua mão esquerda, pega a sua faca favorita e em um rápido movimento faz uma incisão na coxa do paciente. Aperta o local com um torniquete para estancar o sangue. Em seguida, com o paciente urrando de dor, o nosso doutor larga sua faca e pega a serra, não sem antes, com a ajuda de um assistente, expor o osso. Começa a cortar. Com um estremecimento ele deixa o membro amputado em uma caixa com serragem.

A castração também foi ainda amplamente praticada junto com outras cirurgias revoltantes como a lobotomia, que foi utilizada pela primeira vez na era vitoriana.

05 - Romance gótico

Como não incluir o romance gótico (um gênero de literatura que combina elementos de horror e romance) em uma lista como esta? Foi o período vitoriano que nos deu grandes obras de terror como "Drácula" e "O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde".  Até os americanos tiveram no ato de Edgar Allan Poe a produção de muitos contos góticos, rivalizando com os ingleses, o que de melhor existe em literatura gótica desse tempo.

Os vitorianos sabiam como assustar e eles sabiam como fazê-lo em grande estilo. Estas obras ainda formam a base do horror moderno e muito do seu poder envolvente não diminuiu, no mínimo.

04 - Jack, o Estripador

No final da era vitoriana, Londres foi aterrorizada pelo monstro conhecido como Jack, o Estripador. Usando o nevoeiro londrino como uma capa, o Estripador, em última análise, assassinou cinco ou mais prostitutas que trabalhavam no East End.

Os jornais, cuja circulação foi crescendo durante esta época, concederem uma duradoura notoriedade sobre esse assassino por causa da selvageria dos ataques e ao fracasso da polícia em capturá-lo. Como sua identidade nunca foi confirmada, as lendas que cercam os assassinatos tornaram-se uma combinação de pesquisa histórica genuína, folclore e pseudo-história. Muitos autores, historiadores e detetives amadores propuseram teorias sobre a identidade do assassino e de suas vítimas.

03 - Show de horrores

O “show de horrores” era a exposição de raridades ou aberrações da natureza - como seres humanos excepcionalmente altos ou baixos, pessoas com características sexuais secundárias de macho ou fêmea ou outras com doenças e condições extraordinárias - e performances que esperavam ser chocantes para os espectadores.

Provavelmente, o membro mais famoso da um show de horrores é o Homem Elefante (foto ao lado). Joseph Carey Merrick (05 de agosto de 1862 - 11 de abril de 1890) era um inglês que ficou conhecido como "O Homem Elefante" por causa de sua aparência física causada por um distúrbio congênito. Seu lado esquerdo estava inchado, distorcido levando-o a usar uma máscara durante a maior parte de sua vida. Não há dúvida de que os “freak shows” vitorianos foram um dos mais arrepiantes aspectos da sociedade da época.

02 - Memento mori

Memento mori é uma expressão latina que significa "lembre-se que você vai morrer". Na era vitoriana, a fotografia era uma arte ainda jovem e extremamente cara. Quando um ente querido morria, seus parentes, às vezes, tiravam sua foto e, muitas vezes, posando com os membros da sua família.

Para a grande maioria dos vitorianos nunca fotografados em vida, esta era a primeira e derradeira vez...

Nestas fotos post-mortem, o efeito de vida foi, por vezes, valorizado sustentado os olhos do ente querido com as pupilas abertas ou pintando depois sobre as impressões fotográficas e inclusive, muitas dessas imagens têm uma tonalidade rosada adicionada às faces do cadáver.

Os adultos eram comumente colocados em cadeiras ou mesmo apoiados em alguma coisa para serem desenhados em quadros. As flores também eram usadas como adereço comum no post-mortem de fotografia de todos os tipos.

Na foto à esquerda, o fato de que os pais ao lado de sua menina morta não consigam conter um leve movimento, faz com que fiquem um pouco turvos devido ao longo tempo de exposição. Com a menina não acontece esse problema. Isso é assustador, é triste, é mórbido!  

 01 - Rainha Vitória

A rainha Vitória tem a posição número um em nossa lista, porque a época é derivada de seu nome e, francamente, ela também era assustadora. Quando seu marido Albert morreu em 1861, ela entrou em luto - vestindo túnicas negras até sua própria morte depois de muitos anos - e esperava que toda nação também a fizesse. Ela evitou aparições públicas e raramente pôs os pés em Londres nos anos seguintes. Sua reclusão lhe rendeu o nome de "Viúva de Windsor." Seu reinado sombrio lançou uma mortalha escura na Grã-Bretanha e sua influência foi tão grande que todo o período foi repleto de bizarrices.

Ironicamente, uma vez que Vitória não gostava de funerais negros, quando de sua morte, Londres foi enfeitada em roxo e branco.

Fonte: http://www.smashinglists.com

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A canela do defunto

Muitos dos contos ou das lendas populares que a tradição oral vai passando adiante, modificados ou alterados na sua forma primitiva, na sua tessitura íntima, mas conservado o sentido original, vieram de outras plagas longínquas, de além-mar. São contos ou histórias da península na maior parte. 

Portugal foi a tal respeito o nosso maior celeiro. Mandou-nos inúmeros deles que aqui se perpetuaram e se incorporaram definitivamente ao nosso folclore. O conto, de que a seguir reproduzo uma variante, está nesse caso. Proveio da boa cepa portuguesa.

Teófilo Braga apresenta em seus Contos tradicionais do povo português, uma versão do Algarve sob o título de A mulher curiosa, e Barros Ferreira inclui também, nas suas Lendas da Península, uma outra versão lusitana, tida como real, dando-lhe o nome de O fêmur do defunto. Lindolfo Gomes, consagrado folclorista e autor de várias obras consideradas de subido valor, na sua rica coletânea de contos populares consigna uma variante brasileira colhida em São João del Rei, Minas Gerais.

Leio, porém, em Contos tradicionais do Brasil, de Luís da Câmara Cascudo, que a "tradição é comum a Portugal e Espanha, onde os episódios são incontáveis". O insigne mestre professor Aurélio Espinosa possui duas versões recolhidas em terras de Espanha - La calle de la pierna (em Córdoba) e La averiguarana (em Ciudad Real).

Nas versões peninsulares, como na versão brasileira, a narração se prende a uma procissão das almas-do-outro-mundo ou das almas penadas do Purgatório, noite alta, percorrendo invisivelmente as ruas tranqüilas e desertas. Afirma a tradição que a criatura que a presencia morre nesse mesmo ano, não dura seis meses. Há também a suposição de que quem a vê fica pateta, amalucado, ou só pode avistá-la "quem tem uma palavra a menos no latim do batismo". O conto refere sempre a uma moça ou a uma velha curiosa, bisbilhotando o que se passa na rua, à meia-noite, e recebe como castigo um círio aceso que se transforma em osso de defunto ou num esqueleto.

A variante que recolhi é a seguinte: "A canela do defunto".


Havia em certo lugar uma velha muito beata e curiosa, que, às horas caladas da noite, se deixava ficar postada à janela da sala, vendo e ouvindo o que se passava na rua. Era um hábito que conservava de longa data. Certa vez, viu um cortejo fúnebre, que outro não era senão a procissão das almas penadas do Purgatório conduzindo um caixão de defunto, ao clarão de velas acesas. Aguçou-se-lhe mais a curiosidade e não se contentou de olhar apenas, através do vidro da janela ou das venezianas, a lúgubre jornada das almas-do-outro-mundo, vestidas nas suas mortalhas. Quis vê-las mais de perto. Abriu de par em par a janela. Aconteceu-lhe, entretanto, um fato estranho. Viu, estarrecida, deslocar-se do cortejo e encaminhar-se rapidamente para ela uma das almas, cujos segredos tentava desvendar na sua bisbilhotice. E antes que pudesse fechar a janela, o vulto entregou-lhe um círio aceso dizendo-lhe na sua voz fanhosa, como só devem possuir as almas-do-outro-mundo: - Amanhã, virei buscá-lo, às mesmas horas. Guarde-o bem guardado.

Mal pôde recobrar o ânimo, qual não foi o seu espanto quando notou que sustentava nas mãos ainda trêmulas e gélidas, uma canela de defunto. Entre horrorizada e arrependida, correu a colocá-lo no santuário, rezando o credo. Na noite seguinte, transida de medo, devolveu-lh’a com duas velas bentas, ao que lhe retrucou, na sua voz de falsete, ao recebê-la, a alma-penada: - Foi o que te valeu. Que te sirva esta de lição.

(Recolhida em Maceió)
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(DUARTE, Abelardo. Em Boletim alagoano de folclore) - Fonte: Jangada Brasil

Num lençol manchado de sangue

Barão de Escada - Belmiro da
Silveira Lins - assassinado em
eleição senatorial em Vitória.
Estava uma senhora de família pernambucana no interior do estado em visita a parentes do Recife. Feitas as compras nas lojas do centro, foi a sinhá descansar tranqüilamente, sossegada de seu, numa das cadeiras de balanço da casa, depois de desoprimida do espartilho que lhe apertava o busto e das botinas de duraque que lhe apertavam os pés pequenos para torná-los ainda menores.

O corpo à vontade na matinée solta e os pés, ainda mais à vontade, nos chinelos moles. Isto aconteceu nos fins do século passado, que ninguém sabe ao certo nem na Europa nem no Brasil, quando acabou. O Kaiser é que, aconselhado decerto pelos doutores das universidades alemãs, não teve dúvida em considerar o primeiro de janeiro de 1900 o começo do novo século. E assim foi ele principalmente comemorado na Europa e no Brasil.

Não era aquela sinhá do fim do século XIX, como a baronesa de L., apreciadora de um charutinho forte; nem como a mulher do conselheiro J. ou a ilustre Albuquerque, esposa do dr. C, de um bom cigarro de palha, ainda mais forte que os charutos de qualidade, fumados pelos homens. Não fumava ela nos seus vagares ou nos seus ócios. 

Estava simplesmente repousando na cadeira de balanço, sem fumar nem ler nem cochilar, sem ninar menino nem rezar o terço no rosário de madrepérola. Sem que alguma mucama lhe desse cafunés. Simplesmente repousando.

De repente, deu um grito que assustou a casa inteira. Um grito de terror tão grande que até na rua se ouviu a voz da sinhá ilustre.

Acudiram os parentes, cada qual mais aflito ou assustado.  Vieram com suas mãos macias de enfermeiras, de doceiras e catadoras de piolho nos vastos cabelos soltos das senhoras nobres, as mucamas da casa. 

Mandou-se chamar o médico da família, pois a boa sinhá desmaiara. Que viesse a toda pressa, no seu carro de cavalo. No seu ligeiro cabriolé inglês que aos olhos da gente da época parecia voar e não apenas rodar pelas ruas do Recife.

Não tardou, porém, a explicação: à dona acabara de aparecer a figura do tio barão envolvida num largo lençol branco todo manchado de sangue.

Horas depois chegavam ao Recife notícias de Vitória: tiroteio na igreja durante as eleições.  Conflito sangrento.  O barão de Escada fora assassinado.
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Fonte: Assombrações do Recife Velho - "Barão de Escada, num lençol manchado de sangue" - Gilberto Freyre. — Rio de Janeiro:  Record, 1987.

Luzinhas misteriosas nos morros do Arraial

Isso de haver luzes misteriosas nos morros onde houve guerra aprendi que é crença entre os celtas com o grande poeta irlandês William Butler Yeats. Homem — esse poeta — como raros europeus de seu tempo, entendido em assuntos de ocultismo, de magia e de sobrenatural e que eu, ainda estudante, conheci pouco tempo antes de ter ele, para meu espanto, se tornado doge ou senador da República irlandesa — ele que tinha uma voz quase de moça e mãos que pareciam plumas, incapazes de esmurrar tribunas e ameaçar tiranos.

Entre algumas populações européias mais rústicas se encontra, ainda hoje — disse-me Yeats há muitos anos — a crença de aparecerem luzinhas misteriosas em antigos campos de batalha. Ou nas suas imediações. Luzinhas esquisitas que aparecem e desaparecem como fachos que se avistassem a mais de légua, do tamanho de lanternas de carro de cavalo. Que mudam de lugar.  Que podem ser vistas a grandes distâncias, como as luzes naturais não podem.

Descobri crença semelhante entre velhos moradores de Casa-Forte e das imediações do morro do Arraial, no Recife, quando, há anos, vivi em íntimo contacto com aquela boa gente de mucambo e de casa de barro. Também entre eles — entre os mais velhos — é crença de que aparecem luzinhas misteriosas nos morros onde se travaram encontros da gente luso-brasileira com a  flamenga; ou onde a gente luso-brasileira teve seu arraial.

Ignoro se continuam a aparecer tais luzinhas. Dizia Josefina Minha-Fé, velha moradora da Casa-Forte e da Casa Amarela, que estava farta de vê-las nas noites de escuro; que  eram almas de soldados que haviam morrido lutando; que eram espíritos de guerreiros  ali mesmo tombados.  Zumbis de campo e não de interior de casa.

Yeats acreditava que no Brasil houvesse muita sobrevivência celta. Perguntou-me se alguém já estudara o assunto. Respondi- lhe que não. Será a crença nessas aparições de luzes misteriosas, em antigos campos de batalha, sobrevivência celta?
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Fonte: Assombrações do Recife Velho - Gilberto Freyre. — Rio de Janeiro:  Record, 1987.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Bermudas do passado

A Estrada de Bimini é uma estrutura submarina que se estende por quase um quilômetro perto de Bimini Island. É formada por blocos de calcário retangulares que se parecem muito com uma antiga estrada ou uma parede.

Hoje podemos saber que faz aproximadamente doze mil anos que algumas zonas pelo Mediterrâneo foram terra firme continental, que existiam pontes terrestres entre Gibraltar e a África e entre a Sicília e a Itália; que submergiu uma grande extensão do mar do Norte, igual as plataformas continentais que estão frente às costas da Irlanda, França, a península Ibérica e África; as planícies submersas ao redor das ilhas Açores, as Canárias e Madeira; a cordilheira Açores-Gibraltar e as plataformas continentais das Américas do Norte e Sul, especialmente os enormes bancos das Bahamas, que se estendem ao longo de milhões de quilômetros quadrados.


Recentes investigações realizadas nesta zona e ao redor das ilhas Açores deram provas aos pesquisadores para afirmar que estes fundos marinhos foram há doze mil anos, aproximadamente, parte da superfície terrestre, ou seja, que em uma época anterior ao levantamento do mar, o patamar submarino das Bahamas formava uma grande ilha ou conjunto de ilhas habitadas por uma civilização muito complexa.

Importantes achados em Bimini

O mais célebre dos descobrimentos feitos nas Bahamas é, sem dúvida, o "Caminho" ou "Muralha" de Bimini, descoberto pelo doutor J. Manson Valentine em 1968.

Esta enorme construção é composta por gigantescos blocos de pedras dispostas a modo de caminho, plataformas ou muralhas. Em palavras de seu próprio descobridor: "E um extenso pavimento de pedras lisas, retangulares e poligonais de diversos tamanhos e espessuras que haviam sido alinhadas e desenhadas para formar uma estrutura harmoniosa.

Era óbvio que estas pedras haviam permanecido submersas durante um longo período, a julgar pelas bordas das maiores, que haviam sido alisadas e davam uma aparência de almofadões ou pedaços de pão gigantescos. Algumas eram absolutamente retangulares e algumas vezes formavam quadrados perfeitos (nas formações naturais a linha reta não é jamais conseguida).

As peças maiores, que tinham um comprimento de três a cinco metros pelo menos, estavam colocadas freqüentemente à largura das avenidas situadas em forma paralela, enquanto que as menores formavam pavimentos tipo mosaicos e cobriam áreas mais amplas... As avenidas compostas pelas pedras, aparentemente calçadas, são paralelas e de bordas retas; a mais larga está constituída por uma série dupla, firmada nos extremos por peças verticais. O extremo sul-oriental desta grande estrada termina em uma esquina perfeitamente curva; os três pequenos diques, construídos com grandes pedras cuidadosamente alinhadas têm uma largura uniforme e terminam em pedras angulares.

 Alicerces submersos

Também foram encontrados nesta zona restos do que poderiam ter sido pirâmides ou alicerce de edifícios. Nas Birmini uma destas formações mede 55 por 42 metros e parece ser a metade superior de uma grande pirâmide ou plataforma de um templo.

Igualmente foram localizadas no México, frente às costas de Yucatán, algumas vias terrestres que partindo da praia, em linha reta, submergiam no mar para localidades submarinas desconhecidas. Também nas águas cubanas existe um complexo em "ruínas" ainda sem explorar. Próximo de Rocha Lobos foi localizado e fotografado um caminho ou muralha que corre ao longo dos cumes de uma escarpa, muito similares aos encontrados frente as costas da Flórida, Geórgia e Carolina do Sul.

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Fonte: Esoterikha.com

O mar dos barcos perdidos


A primeira referência do "Triângulo das Bermudas" teve efeito em 5 de dezembro de 1945, em conseqüência do desaparecimento de seis aviões da marinha norte-americana e seus respectivos tripulantes.


Muitos séculos antes de serem produzidos os incidentes aéreos e marítimos da década de quarenta e até a atualidade, esta região, e além do cabo Hatteras, as costas da Carolina do Norte e do Sul e o estreito da Flórida, já eram conhecidas com outros nomes fatídicos, como o "Cemitério dos Barcos" e "Mar dos barcos perdidos".

Durante cento e cinqüenta anos, e ainda antes de existirem casos arquivados, haviam sido verificadas estranhas desaparições e até desintegrações de aparelhos. No entanto, foi a partir de 1945, como conseqüência das perdas massivas que começaram a ser produzidas, quando os pesquisadores começaram a dar importância à zona e a estudar as características das misteriosas desaparições.

A história começou há quinhentos anos

Quase todas as desaparições de barcos dentro do Triângulo das Bermudas, desde que temos notícias, vem sendo produzidas em uma região do oceano Atlântico ocidental chamado, há muitos anos, Mar dos Sargaços ou, como já dissemos, o "Mar dos barcos perdidos". Descoberto pelos primeiros marinheiros espanhóis e portugueses que atravessaram o oceano há quinhentos anos, deriva seu nome da alga marinha Sargassum.

A característica mais notável desta região é a imobilidade de suas águas e presença de uma alga, a sargassum, que marca os limites deste mar dentro do oceano, flutuando em grandes massas.

Se trata de um mar quase estancado e desprovido de correntes, exceto em seus limites com a corrente do golfo. Se estende uns 320 km. ao norte das Grandes Antilhas até a Flórida e a costa atlântica. Permanece a uns 300 km. de distância da terra e se desloca para o cabo Hatteras, seguindo logo uma direção para África e a península Ibérica, para regressar finalmente para América.

Um mar legendário, o dos sargaços

Ao longo de muitos séculos, as lendas sobre o mar dos Sargaços vem sendo acumuladas. Talvez as primeiras foram criadas por navegantes fenícios e cartagineses que o cruzaram, chegando a terras americanas, como o demonstram as inúmeras inscrições em pedras encontradas no Brasil e Estados Unidos, os tesouros de moedas fenícias e cartaginesas descobertas nas ilhas Açores e Venezuela e certas amostras pictóricas do México.

Assim podemos conhecer o informe do navegante cartaginês Himilco, escrito quinhentos anos antes de Cristo, sobre o mar dos Sargaços, um tanto sensacionalista e exagerado, mas muito gráfico: "Não é notada brisa que move o barco, tão morto está o perigoso vento deste mar quieto... ; tem tantas algas sobre as ondas, que parecem conter o navio, como se fossem arbustos... ; o mar não tem grande profundidade, a superfície da terra está coberta por muito pouca água... ; os monstros marinhos se movem continuamente em todas as direções e existem bestas ferozes que nadam entre os barcos que se arrastam lentos e preguiçosos".

Bruscas mudanças atmosféricas?

Em geral, os oceanógrafos e os meteorologistas atribuem as causas destas supostas desaparições a súbitas mudanças atmosféricas, explicando a ausência de restos e de manchas de óleo nas embarcações pela corrente do golfo do México, que atua para o norte, entre a Flórida e as Bahamas, a uma velocidade de 1,5 a quatro nós.

No entanto, a ciência oficial continua sem dar explicações convincentes aos acontecimentos do Triângulo das Bermudas, negando ao mesmo tempo as teorias mais ou menos fantásticas que já circulam por todos os continentes.
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Fonte: Esoterikha.com

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Um lobisomem doutor

Contou-me há quase trinta anos, Josefina Minha-Fé, que conheci negra velha, mas ainda bonita — tão bonita que, segundo me confessou ela um dia em voz de segredo, certo ilustre poeta brasileiro, de passagem pelo Recife, tentara conquistá-la sem o menor rodeio lírico, dominado pela mais repentina das paixões, sendo já Josefina mulher cinqüentona e um tanto descadeirada, os quartos meio caídos e os peitos começando a enlanguescer e não mais a vênus hotentotemente culatrona e de busto sólido que  fora no verão da vida e no esplendor do sexo — ter conhecido ainda meninota, no Poço da Panela, um lobisomem. 

“Era um horror, menino!” dizia-me ela na sua voz meio rouca de mulher um tanto homem na fala e em certos modos, mas não nas formas e nos dengos.

“Tomava forma de cão danado, mas tinha alguma coisa de porco. Toda noite de sexta-feira estava nos ermos de Caldereiro, do Monteiro, do Poço da Panela, cumprindo seu fado nas encruzilhadas. Espojando-se na areia, na lama, no monturo. Correndo como um desesperado. Atacando com o furor dos danados a mulher, o menino e mesmo o homem que encontrasse sozinho e incauto, em lugar deserto. Chegando atrevidamente até perto da casa de José Mariano para espantar Ioiô e o irmão, meninotes brancos.”

Até que um dia atacou o lube a própria Josefina, que era então negrota gorda e redonda de seus 13 anos. E não se chamava ainda Minha-Fé.  Ao contrário: havia quem a chamasse “Meu Amor” e até “Meus Pecados” — Josefina Meus Pecados — arranhando com a malícia das palavras sua virgindade de moleca de mucambo. 

E quem assim a chamava não se pense que era homem à-toa, porém mais de um doutor.  José Mariano, este às vezes vinha à porta da casa senhoril, de chambre e chinelo, olhar rio e conversar com os vizinhos.  E quando Josefina passava, perguntava-lhe, brincalhão, se ia jogar no bicho.  Ou qualquer coisa assim.

Saíra Josefina para comprar na venda do português azeite de lamparina para os santos.  Não é que os santos estavam naquela noite sem azeite para sua luz?

Não se lembrou a negrota descuidada de que era noite de sexta-feira e noite escura. Chuvosa, até. José Mariano devia estar dentro de casa, lendo os jornais. Dona Olegarinha, costurando. Os meninos, estudando.

Tão despreocupada foi Josefina, caminhando da casa, que era um mucambo de beira de rio, para a venda, ao pé dos sobrados dos lordes, que nem pensou em lobisomem a se espojar em encruzilhadas, batendo as orelhas grandes como se fossem matracas em procissão de Senhor Morto.

Lobisomem era assombração. E assombração parecia a Josefina, já menina-moça, conversa de negra velha e feia, de que negra nova e bonita não devia fazer caso.

E Josefina sabia que era bonita além de negra em flor. Só pensava em ir a festa, fandango, pastoril, pagode. Em dançar de contramestra e vestida de encarnado no pastoril do Poço que era então um dos melhores do Recife. A mãe é que não deixava.

Nada de filha sua em pastoril de rua ou vestida de encarnado. A mãe de Josefina fora escrava dos Baltar, era católica, apostólica e romana e tinha horror a Exu. A Exu e a encarnado vivo.

Ouvira Josefina falar no lobisomem do Poço que vinha assustando até homens valentes.   Que correra atrás de um canoeiro até o rapaz jogar-se desesperado no rio gritando pela mãe e pelo padrinho. Desesperado e vencido pela catinga do Amarelo.
 
Mas quem sabe se o canoeiro não estava um tanto encachaçado e correra de um boi pensando que corria de lobisomem?

Seguia assim Josefina para a venda, quase sem medo de lobisomem nem de fantasma, quando, no meio do caminho, sentiu de repente que junto dela parava um não-sei-quê alvacento ou amarelento, levantando areia e espadanando terra; um não-sei-quê horrível; alguma coisa de que não pôde ver a forma; nem se tinha olhos de gente ou de bicho.  Só viu que era uma mancha amarelenta; que fedia; que começava a se agarrar como um grude nojento ao seu corpo. Mas um grude com dentes duros e pontudos de lobo.  Um lobo com a gula de comer viva e nua a meninota inteira depois de estraçalhar-lhe o vestido.

Foi o que fez o tal lube: estraçalhou o vestido da negrota, que, felizmente, era azul, enquanto ela gritava de desespero. Que a acudissem, pelo amor de Deus. Que a socorresse sua Madrinha, Nossa Senhora da Saúde, que era sua fé! 

“Minha Madrinha!” “Minha Madrinha! Minha Fé! Minha Fé!”

Foi o que salvou Josefina: foi ter gritado pela Senhora da Saúde, da qual o lobisomem, amarelo de todas as doenças e podre de todas as mazelas, tinha mais medo do que do próprio Nosso Senhor.

Aos gritos da negrota, acudiram os homens que estavam à porta da venda. Inclusive, o português que, não acreditando em bruxas, passou a acreditar em lobisomem.

A negra foi encontrada com o vestido azul-celeste em pedaços. Metade do corpo de fora. Os peitos de menina-moça arranhados. Afilhada de Nossa Senhora, só vestia azul. Azul-claro, azul-celeste, azul-marinho, azul-escuro, mas só e sempre azul. 

Nada de encarnado que, para sua mãe, era cor de vestido de mulher da vida. Pois havia então muito quem pensasse ser o vermelho cor do pecado; e como tal era evitado pelas mães nos vestidos das filhas virgens ou moças.  

Isto também ouvi de Josefina Minha-Fé — que desde a aventura com o lobisomem  passou a ser conhecida por Minha-Fé; e, anos depois, de barcaceiros, pescadores e jangadeiros de litoral de Pernambuco e de Alagoas, cujas crenças procurei estudar. 

Explica essa crença dos homens do mar (crença de origem talvez moura e talvez trazida ao Brasil por algarvios) — a de ser o azul cor agradável a Nossa Senhora e o encarnado, desagradável —, tanta barcaça pintada de azul ou de verde: homenagem à Virgem e resguardo dos homens não contra os lobisomens amarelentos, que estes são todos da terra e não vão às águas de mar, mas contra as sereias que povoam os mares e temem, segundo alguns, o azul, mas não o encarnado. Não o vermelho. Nem mesmo o amarelo.

Mas esta não é a história inteira. Falta ainda um trecho que para Josefina era o ponto mais importante da sua aventura. E é que, chamada sua mãe, dias depois, para encarregar-se de lavar a roupa de certo doutor de sobrado do Poço da Panela, um bacharelzinho pálido e de pince-nez que não gostava de José Mariano e dizia ter mais raiva de negro do que de macaco, descobriu que no meio da roupa suja do branco estava mais de um pedaço do vestidinho azul da filha. 

E reparando bem, viu a preta velha que o doutor branco, em vez de branco ou apenas pálido, era homem quase sem cor: de um amarelo de cadáver velho. Soube depois que vivia tomando remédio — ferro e mais ferro — para ganhar sangue e cor de gente viva. Remédio de botica e remédio do mato, feito por mandingueiro ou caboclo.

Que estava morando no Poço justamente por isto: para tratar-se com os banhos que tinham fama de milagrosos e atraíam romeiros de quase Pernambuco todo para a sombra de Nossa Senhora da Saúde do Poço da Panela.

Não sei se o doutor branco conseguiu curar-se de seu mal; se Nossa Senhora da Saúde foi boa ou clemente para o bacharel infeliz; se acabou com o seu fado de toda sexta-feira “virar lobisomem” e correr atrás de mulheres, de meninos e até de  homens. Especialmente atrás de mulheres virgens.

O que sei é que para Josefina Minha-Fé não havia dúvida. O lobisomem que lhe atacara o corpo virgem de afilhada de Nossa Senhora fora o tal doutor de cartola e croisé. Cartola, croisé, pince-nez e rubi no dedo magro. O lobisomem era ele: pecador terrível  que, para cumprir seu fado, tomava toda noite de sexta-feira aquela forma hedionda e saía a correr pelos matos, pelos caminhos desertos, pelos ermos, estraçalhando quem encontrasse sozinho. Principalmente mulher e menino. Mulher virgem. Menina-moça como Minha-Fé. 

E tanto como o Cabeleira (que talvez tenha sido também lobisomem e não simples bandido), o Cabeleira do

Fecha porta, Rosa
Cabeleira eh-vem  
Pegando mulheres  
Meninos também,  
      

o bacharel pálido do Poço tornou-se, por algum tempo, o terror da gente pobre, moradora nos mucambos daquelas margens do Capibaribe, de águas protegidas por Nossa Senhora da Saúde e por algum tempo alegradas pela presença de outro bacharel, este muito amigo do povo miúdo: José Mariano.
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Fonte: Assombrações do Recife Velho - Gilberto Freyre. — Rio de Janeiro:  Record, 1987.

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