quarta-feira, 14 de março de 2012

Lendas do diabo

O diabo é o herói de mil tropelias no sertão. Aparece com o aspecto tradicional que lhe deu o catolicismo: chifres, olhos de fogo e pés de pato ou de bode. Também pode surgir como um grande cachorro, um bode, um gato ou um porco negro. Tem muitos apelidos, porque não se deve nunca dizer seu verdadeiro nome, a fim de o não atrair: Cão, Debo, Moleque, Fute, Pé-de-pato, Futrico, Figura, Bode Preto, Porco-Sujo, Sujo, Capa-Verde, Capinha, Gato Preto, Malmo, Sapucaio, Pedro Botelho, Bicho Preto, Rapaz, Tinhoso, Capiroto, Droga, Capeta, Coxo, Maioral, Ele.

Geralmente, o demônio sertanejo, como o de todos os povos, é criado à sua imagem e semelhança. Anda, por isso, encourado como os vaqueiros, monta a cavalo, é especialista em velhacadas de cigano e alquilador, gosta de cachaça, come picadinho de bode com gerimum, dança nos sambas, campeia o gado, faz a corte às moças, e desaparece sempre com um estouro e um fedor terrível de enxofre ou de chifre queimado. Às vezes, se apresenta como um cantor de desafio a quem ninguém vence. De outras, se encarna no couro dos cantadores célebres, ou faz pactos com eles, tornando-os invencíveis. O cantador Manuel do O Bernardo, não podendo vencer num desafio célebre seu rival Rio-Preto, gritou no meio da sala onde se achavam, rodeados de muita gente:

Senhora dona da casa,
Abra a porta, acenda a luz:
Estamos c’o Cão em casa,
Rezemos o credo em cruz!

Outro famoso cantador, Manuel das Cabeceiras, afirmava ter cantado desafio uma vez com o demônio em figura de moleque.

Corre pelo sertão uma versalhada sobre a disputa do diabo com São Miguel a propósito da alma de certo ricaço inimigo dos pobres, que estava sendo julgada no outro mundo. Quando o arcanjo começou a pesar as boas e más obras do morto na sua balança, este pediu a intercessão em seu favor de Nossa Senhora, da qual fora sempre devoto. Satanás esperava com prazer apoderar-se da alma do infeliz. Nossa Senhora, porém, movida da piedade de seu amantíssimo coração, conseguiu salvá-la. Ao avistá-lo, o Fute falou assim:

Lá vem a compadecida!
Mulher com tudo se importa!
Todos fazem seus negócios,
Mas a mim fecham a porta.
No fim de todas as coisas,
Eu é que levo a taboca!

Não foi possível obter os outros versos do poemeto sobre esse milagre da Virgem Mãe.

O suplício mais terrível que existe no inferno para aqueles que cometem impurezas nesta vida é, no dizer dos matutos, o chamado da cama do compadre com a comadre. A decência não permite se faça sua descrição. Para mostrar quanto é terrível, basta a seguinte lenda sertaneja:

Um dia, o diabo coxo revoltou-se contra o maioral do inferno e pintou o sete lá dentro. Quebrou os móveis e deu pancada a torto e a direito. Todos os demônios o cercaram armados de espetos em brasa. Continuou a lutar. O maioral ameaçou-o se não se rendesse, de passá-lo pelas moendas onde se supliciam as almas mais pecadoras. Soltou uma gargalhada. Ameaçou-o com a grande caldeira de azeite fervente. Tornou a zombar. Ameaçou-o com a cama do. compadre com a comadre. O diabo coxo empalideceu, pôs-se a tremer e entregou-se, pedindo perdão.

Na opinião sertaneja, o demônio tem horror aos meninos, porque já o fizeram perder duas vasas. A primeira, numa igreja. Todo vestido de preto, debo estava tomando nota de quem se portava mal durante a missa, quando um menino puxou a saia da mãe.

- Que é isso, menino? disse ela.

- Mamãe, olhe ali aquele homem! Ele tem os pés de pato!

A mulher voltou-se, viu e fez o sinal da cruz. O bicho estourou, fedendo.

A segunda foi numa festa. O diabo, que andava apaixonado por uma moça muito bonita, compareceu a um baile em casa do pai dela, bem vestido e bonito, mas sem poder esconder os pés de pato. Quando mais aceso ia o seu namoro, um menino gritou no meio da sala:

- Aquele homem tem os pés de pato!

Houve grande reboliço. A moça fez o sinal da cruz. Ouviu-se logo o estouro e sentiu-se a fedentina de chifre queimado.

No sertão, o diabo faz pactos ou pautas, como dizem os nordestinos, com indivíduos que o logram a maior parte das vezes. Para mútua segurança nesses contratos, quase sempre realizados alta noite, numa encruzilhada deserta, o homem deve dar ao Maligno em caução alguma gotas de seu sangue.

Conta-se que um fazendeiro fez com o Capeta o seguinte acordo: Este faria tudo quanto aquele mandasse e somente o poderia levar para o inferno, quando tivesse esgotado suas ordens. É quase a condição imposta pelo demônio aos desejos do doutor, no Segundo Fausto de Goethe.

O homem fez o que bem quis com o auxílio do diabo até que um dia já não sabia mais o que ordenar. Ia ser carregado para o inferno, quando lhe ocorreu um ardil salvador: mandou o Tinhoso encher um cesto de água e ele, desesperado, estourou e foi-se.

Tendo morrido numa cidade sertaneja um homem, cuja riqueza era de origem duvidosa, verificou-se que a tinha obtido com um pacto infernal, pois que, no dia do enterro, quando todos os parentes e amigos enchiam a casa do defunto vestidos de preto, nela entrou um vaqueiro alto e moreno, todo encourado, que, sem tirar da cabeça, com escândalo dos presentes, o seu chapeu de couro, deu em silêncio algumas voltas em torno do esquife e foi embora. Quando se abriu o caixão, antes de ser levado para o cemitério, a fim da viúva se despedir de seu marido, verificou-se que estava vazio. O demônio levara o morto em corpo e alma!

Conta, afinal, o sertanejo que o diabo é casado e tem uma filha muito bonita. Por ela se apaixonou um rapaz de grande virtude e valor. Seu anjo da guarda não conseguiu afastá-lo de tão perigosa paixão. A moça não foi indiferente a esse amor, mandou-lhe recados carinhosos, e até falou ao pai em abandonar o inferno e ir morar na fazenda do namorado. O diabo enraiveceu-se com esses desejos e, para evitar que os realizasse, trancafiou-a a sete chaves numa torre de ferro, ao meio de seu reino.

Ao saber disso, o rapaz montou no seu cavalo de campo castanho escuro, fechado ou, melhor, cacete, sem sinal descoberto nem encoberto de espécie alguma, o animal de maior fama da ribeira, e dirigiu-se ao inferno, decidido a tudo. Chegou lá na hora em que os diabos dormiam, abriu as portas da torre com chaves falsas, pôs a moça na garupa e fugiu a todo galope.

Quando acordou e soube, pela mulher, do audacioso rapto, o diabo teve violentíssimo acesso de fúria. Depois, mandou selar um de seus melhores cavalos e lançou-se em perseguição dos fugitivos. A moça, que ia sentada à garupa do namorado e podia voltar-se para trás, avistou ao longe o vulto do pai. Preveniu-o e ele esporeou a cavalgadura, perguntando:

- Em que cavalo vem teu pai?

- Num gáseo.

Ele respondeu, rindo:

- Cavalo gáseo-sarará não presta nem prestará.

As rimas dos rifões sobre os pêlos dos cavalos são simples meios mnemônicos para não esquecê-los. O cavalo gáseo-sarará é o albino, o ruço ou branco de pele rósea. Chama-se comumente só gáseo. Sarará se diz do indivíduo rusalgar. A combinação dos dois termos dá mais força à idéia da cor do animal.

Sentindo escapar-lhe a cobiçada presa, o demônio muda de cavalo e a moça previne ao rapaz, que indaga:

- Em que cavalo vem teu pai?

- Num alazão.

- Trazes o freio na mão, onde deixaste teu alazão?

Seguem-se contínuas mudanças, sempre acompanhadas da pergunta - em que cavalo vem teu pai? - e de respostas que indicam as qualidades ou defeitos atribuídos às cores dos animais.

- Em que cavalo vem teu pai?

- Num bebe-em-branco.

- Quem monta em bebe-em-branco, monta em cavalo manco.

O bebe-em-branco é o cavalo escuro de narinas e queixo brancos.

- Em que cavalo vem teu pai?

- Num cardão rodado.

- Cavalo cardão rodado melhor andando que parado...

O cardão rodado é o tordilho escuro com manchas apatacadas que o francês chama grís pommelé.

- Em que cavalo vem teu pai?

- Num cardão pedrez.

- Cavalo cardão pedrez para carga Deus o fez.

O cardão pedrez é o tordilho pintadinho.

- Em que cavalo vem teu pai?

- Num ruço-pombo.

- Cavalo ruço-pombo traz pisadura no lombo.

- Em que cavalo vem teu pai?

- Num melado-caxito.

- Cavalo melado-caxito tanto é bom como é bonito.

O melado-caxito é o baio dourado de crinas e canos pretos.

A excelência do animal não adiantava mais nada ao demônio, porque os dois amantes chegavam à face da terra e se refugiavam numa igreja, onde casaram. O diabo voltou ao seu reino, aborrecido e fatigado. Ao entrar em casa, sua mulher indagou:

- Alcançou-os?

- Não. Foi impossível!

- Por que?

- Porque montavam um cavalo castanho escuro que pisa no mole e no duro, e leva o dono seguro.

O sertanejo aproveita essa lenda dum Orfeu bárbaro para enumerar seus conceitos sobre as cores dos cavalos, desmentindo o velho aforismo dos maquignons de França; à tout poil bonne bête. Mas, em todos os pêlos, mesmo nos mais desacreditados, há exceções. Essa a verdade.

De todas as lendas sobre o diabo que correm pelos sertões do Nordeste brasileiro parece que esta é a mais peculiar, a mais característica.

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Gustavo Barroso (Gustavo Dodt Barroso), historiador e folclorista, nasceu em Fortaleza, CE, em 29/12/1888, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 3/12/1959. Publicou, entre outras obras, Terra de sol, Rio de Janeiro, 1912; Heróis e bandidos, Rio de Janeiro, 1917; Casa de marimbondos, São Paulo, 1921; Ao som da viola, Rio de Janeiro, 1921 (2 ed. aumentada, Rio de Janeiro, 1949); O sertão e o mundo, Rio de Janeiro, 1923; Através dos folclores, São Paulo, 1927; Almas de lama e de aço, São Paulo, 1930; Mythes, contes et légendes des indiens, Paris, 1930; Aquém da Atlântida, São Paulo, 1931; As colunas do templo, Rio de Janeiro, 1932.

Fonte: Jangada Brasil - (Barroso, Gustavo. Ao som da viola, p.574-579)

A lenda dos índios morcegos

No sertão de São Vicente, que se estende próximo ao Araguaia, existe a montanha Morcego. Nela há uma grande caverna com uma entrada em baixo, enquanto que bem no alto há um espécie de janela. Ali moravam antigamente os kupe-dyep, seres de forma humana, mas com asas de morcego.

Um apinagé flechara um veado perto da rocha do Morcego e acampara ali a noite porque já era tarde. Mas, enquanto ele dormia, os kupe-dyeb vieram voando esmagando seu crânio com seus machados.

Como ele já estivesse há muito tempo ausente, seus parentes seguiram as suas pegadas e acharam seu cadáver. Em torno dele, viram também muitas pegadas, mas nenhum traço da chegada ou partida dos malfeitores.

Por causa disso durante muito tempo os apinagés evitaram passar a noite naquela região, até que um dia dois caçadores e um menino decidiram acampar ao pé da rocha do Morcego. Depois do anoitecer, ouviram cantos vindos de dentro da montanha. Então o menino ficou assustado e se escondeu em uma moita longe do acampamento dos dois homens. Logo após, os morcegos vieram voando e mataram os dois caçadores, mas o menino escapou, e na aldeia contou o que ocorrera.

Então os guerreiros apinagés de todas as quatro aldeias saíram juntos para destruir os kupe-dyep. Quando eles chegaram à rocha do Morcego, imediatamente ocuparam a entrada da caverna, onde amontoaram lenha. Enquanto isso, outros procuravam fazer uma volta para alcançar a janela da caverna. Mas isto era mais difícil do que haviam suposto, e eles ainda não tinham alcançado o seu objetivo, quando aqueles que tomavam conta da entrada puseram fogo à pilha. Assim os kupe-dyep voaram em atropelo pela abertura superior, sem serem feridos pelas setas dos apinagés. Eles voaram pra o sul, e diz-se que ainda estão vivendo em algum lugar por lá.


Quando a fumaça diminuiu, os guerreiros apinagés penetraram na caverna, achando um grande número de machados abandonados pelos kupe-dyeb em sua fuga. Bem no fundo da caverna, escondido por uma pedra, um menino de cerca de seis anos de idade. De início, eles queriam mata-lo, mas um índio decidiu criá-lo e levou-o consigo.

Quando os apinagés em sua viagem fizeram seus leitos de folhas de palmeiras no chão, determinaram também o lugar onde deveria dormir o pequeno kupe-dyeb, mas ele não ficou deitado: chorava e olhava constantemente para o céu. Como não queria deitar-se de modo algum, seu dono teve subitamente uma idéia. Lembrou-se de que na morada dos kupe-dyep não havia camas no chão nem tão pouco postes para dependurar redes, mas havia muitas vigas horizontais. Trouxe um varapau e o colocou horizontamente apoiado nas forquilhas de galhos de duas pequenas árvores vizinhas.

Logo que o menino viu isso, trepou em uma das árvores de tal modo que se dependurou no vara pau pelos joelhos, a cabeça para baixo. Encolheu a cabeça, cobriu o rosto com os braços cruzados, e então dormiu calmamente nesta posição.

Este menino viveu pouco tempo entre os apinagés, pois morreu logo. Um dia eles o observaram deitado no chão cantando. “U-ua Klunã Klocire! Klud pecetire!” Então, ele agarrou o cangote com as mãos. Quando os apinagés perguntaram-lhe sobre isto, disse que seus companheiros de tribo dançavam daquele modo. Os apinagés ainda cantam a canção do kupe-dyeb.

(Conforme recolhido entre os Apinagés por Curt Nimuendaju (1939)
- Traduzido por Alberto da Costa e Silva)
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Conto recolhido entre os Apinagés por Curt Nimuendaju e publicado em seu livro The Apinayé (versão inglesa de Robert H. Lowie, The Catholic University of America Press, Washington, 1939, págs. 179-180).

SILVA, Alberto da Costa e (org). Antologia de Lendas do Índio Brasileiro. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura, 1957, p 215-217.:

Defuntos e Almas do Outro Mundo

São curiosíssimas as superstições populares com relação aos defuntos e almas do outro mundo. O cadáver coloca-se de pés para a rua, e na sua condução para a sepultura vai de pés para a frente, salvo o dos padres, que têm compostura oposta, em virtude de preceitos eclesiásticos.

Se o corpo fica mole, é prenúncio certo de vir a alma do morto buscar proximamente alguém da família, e o mesmo ocorre quando fica de olhos abertos; e para evitar isso alguém os deve fechar, recitando a conhecida fórmula: "Fulano, fecha os olhos para o mundo e abre-os para Deus".

Quando um cadáver é dado à sepultura, envolvido, não se tira a agulha que coseu a fazenda; e para não se ter medo do defunto e não assombrar a gente de casa, beija-se-lhe a sola do sapato.

Ao passar de um féretro, todos se descobrem respeitosamente, e pedem a Deus que lhe dê o céu. As pessoas que conduzem um cadáver ao sair de casa para a sepultura devem também tomá-lo à entrada do cemitério.

Dedo ou mão de anjinho pagão e um pedaço de corda de enforcado dão felicidades a quem os possui.

Quando morremos, o espírito se evola imediatamente, mas não vai para o seu destino, o céu ou o inferno, segundo as suas obras praticadas neste mundo; e, enquanto o cadáver não baixa à sepultura, permanece junto ao mesmo. Os nossos índios, porém, acreditavam que o espírito só se apartava do corpo depois do seu completo estado de decomposição; e enquanto não ia para a lua, lugar destinado à sua morada e descanso eterno, percorria as florestas, assistia às suas conversas, às suas danças, e era testemunha, enfim, de todas as suas ações.

Para outras tribos, apesar de originárias todas de um mesmo tronco, o tupi, — a vida remuneradora dos justos era passada em localidades encantadoras, que se afiguravam no reverso das montanhas azuis, a serra Geral que percorre a vasta extensão da costa austral do Brasil, e cujas montanhas viam a uma certa distância; mas os espíritos infiéis, pusilânimes eram proscritos dessa mansão, como anatematizados e votados a misérias e privações, erravam por desertos estéreis e se acolhiam aos covis das feras.

Segundo a crendice popular, para verificar-se o destino final dos espíritos, é preciso um julgamento prévio.


O espírito, apenas desprendido da matéria, comparece perante o arcanjo São Miguel, e tomando ele a sua balança, coloca em uma concha as obras boas e na outra as obras más, e profere o seu julgamento em face da superioridade do peso de umas sobre as outras.

Quando absolutamente não se nota o concurso de obras más, o espírito vai imediatamente para o céu; quando são elas insignificantes, vai purificar-se no purgatório; e quando não tem em seu favor uma só obra boa sequer, vai irreversivelmente para o inferno, donde só sairá quando se der o julgamento final, no dia de juízo, seguindo-se então a ressurreição da carne.

À morte dos justos e bons, que atravessaram a sua passagem por esse mundo sem pecados, assiste um anjo, invisivelmente, empunhando uma espada flamejante para os defender de satanás, que, ainda mesmo nesse extremo momento da vida, comparece junto ao leito para arrebatar-lhes a alma; e São Pedro, na sua qualidade de porteiro do céu, espera-os nos seus umbrais para dar-lhes ingresso no paraíso.

O recém-nascido que não foi amamentado e morre batizado, não participando, portanto, de coisa alguma deste mundo, é um serafim, anjo da primeira jerarquia celestial, e vai imediatamente para as suas regiões ocupar um lugar entre os seus iguais; o que recebeu amamentação e as águas do batismo é simplesmente um anjo, porém antes de entrar no céu passa pelo purgatório para purificar-se dos vestígios da sua efêmera passagem pela terra, expelindo o leite com que se amamentou; e o que morre pagão fica eternamente privado da luz e glórias celestiais, e vai habitar as sombrias regiões do limbo.

A mulher casada que não teve filhos, quando morre vai vender azeite às portas do inferno, para alimentar o fogo eterno a que são condenados os maus e os perversos, que morreram fora da graça de Deus.

O cadáver dos indivíduos que morrem excomungados pela igreja, fica completamente ressequido, como uma condenação da terra contra os seus pecados, e não consome o nariz dos que têm por hábito cheirar a comida; aos dos parricidas mirra-se-lhe o braço cuja mão praticou o crime; e o dos meninos que dão pancadas nas mães, fica com o braço inteiriçado.

A terra não consome o cadáver dos santos e bem-aventurados; conserva intactos os seus corpos, e deles desprende-se um aroma suave e agradabilíssimo, que transporta a místicos pensamentos; e picando-se os mesmos, deitam sangue. Do corpo de Santo Antônio, a terra consumiu tudo menos a língua.

Sobre este particular prodígio, referem as Memórias do Cabido de Olinda, que, trasladando-se para um carneiro de mármore o corpo do bispo dom Matias de Figueiredo e Melo, falecido em 1694, encontrou-se sem corrupção alguma, deitando sangue um dedo casualmente ferido quando se abriu a sua primitiva sepultura; e a quem ainda hoje visita a velha, mas belíssima catedral olindense, indica-se-lhe em respeito o sepulcro do bispo santo, como o consagra a veneração popular e o diz o epitáfio inscrito sobre o monumento.

Frei Francisco de Assunção, religioso franciscano do convento de Serinhaém, falecido em 1710, foi um homem de santa vida. Pelas suas grandes virtudes, predisse com precisão o dia da sua morte, e no seu cadáver observou-se admirável prodígio — "porque, como refere Jaboatão, ficou tratável e brando, dando estalos os dedos, se os moviam, parecendo estar vivo e sem os comuns efeitos da corrução".

Os homens santos caminham suspensos do solo, em altura conveniente, e os seus passos são tão firmes e seguros como se andassem sobre a própria terra. Desses fatos estão cheias as nossas legendas religiosas, e o povo os repete com uma inabalável firmeza de crença.

O nosso cronista Jaboatão, escrevendo detalhadamente a vida de frei Cosme de São Damião, notável franciscano do convento de Olinda, onde professou em 1597, refere que, sendo ele empregado em sua mocidade, antes de abraçar a vida religiosa, no Engenho Velho, do Cabo; e entrando em uma ocasião na casa de purgar, o seu proprietário, o velho fidalgo João Paes Barreto, para falar ao moço Cosme, o foi achar a um canto, posto de joelhos sobre as tábuas dos andaimes em que assentam as fôrmas de açúcar, em oração, e não só todo absorto nela, mas levantando no ar bastantemente".

O mesmo escritor, referindo-se ao falecimento de frei Cosme, ocorrido na Bahia em 1659, consigna um documento firmado pelos doutores em medicina Antônio Rodrigues e Francisco Vaz Cabral, os quais, em termos de fé e juramento aos Santos Evangelhos, declaram que "estando para ser dado à sepultura o corpo do dito padre, e tocando-lhe o nariz, boca, orelhas, cabelos e os emunctórios do seu corpo, não acharam sinal algum de mau cheiro, ou corrução, o que julgavam ser coisa mais que natural, em razão de serem passadas mais de vinte e sete horas depois que faleceu, e ser tempo de maior calor (novembro), sendo acessório a esse acidente, o que faziam as muitas luzes e grande tumulto de gente, de que sempre o corpo esteve cercado..."

Nos nossos dias, quando se trata do virtuoso padre Arsênio Vuillemain, natural da França, pertencente à Congregação da Missão, fundador da Sociedade de São Vicente de Paulo, e falecido nesta capital no dia 3 de junho de 1899, com 64 anos de idade, refere-se que, por várias vezes, fora visto ele caminhar suspenso, e assim estar em suas orações.

Sobre esse prodígio observado no padre Vuillemain, particularizamos o seguinte fato, que nos referiu uma respeitável pessoa, assegurando-nos a sua notoriedade:

"Caminhava ele apressadamente, como costumava, por certa rua desta capital, quando ao aproximar-se de uma casa, grita para dentro uma criança que estava à janela: — Venham ver um padre andando suspenso. Vuillemain dirige-se logo para a criança, e com um sorriso angélico e bondoso bate-lhe carinhosamente nos lábios com a mão dizendo-lhe: — Cala a boca, minha filha, — e prossegue no seu caminho.

A criança, porém, nédia, viva e de perfeita saúde, adoece imediatamente, sem causa conhecida, e falece dentro de poucos dias. Era um anjinho predestinado e tocado da graça divina; o seu lugar não era na terra: foi para o céu."

No lugar de uma estrada em que se pratica um homicídio, coloca-se uma cruz, perante a qual pairam os viandantes respeitosamente, descobrem-se e rezam em intenção do morto; e depois, colhem um ramo verde e deitam-no aos pés da cruz.

As almas do outro mundo aparecem, e falam mesmo, mas com voz estranha, anasalada, horrível, crença esta que é geral entre todos os povos, cultos ou não, e que entre nós mesmos remonta-se aos próprios indígenas, que apesar do estado de barbaria em que viviam tinham uma vaga noção do ente supremo, a que chamavam Tupã, criam em gênios bons e maus, e supersticiosos como eram, acreditavam em almas penadas ou pecadoras, a que na língua geral, ou tupi, dava-se o nome angatecô, e às almas do outro mundo o de angoeira.

Firme o povo nessa crença, implantada desde a sua infância, e mantida por uma corrente de indestrutível tradição, é passivamente arrastado a crer em todas essas fantasmagorias; e revelam-se mesmo fatos extraordinários, narrados e afirmados com uma inabalável convicção, o quais apavoram aos tímidos e enchem as crianças, principalmente, de terror tal, que adormecem amedrontadas vendo ao vivo, em sua imaginação frágil, as horripilantes cenas dos fatos descritos nas íntimas palestras de família.

Fonte: Costa, F. A. Pereira da. Folclore pernambucano; subsídios para a história da poesia popular em Pernambuco. Recife, Arquivo Público Estadual, 1974, p.97-101

A lenda da Morte

A crença na fatalidade da morte produziu no sertão a mesma lenda que existe no Oriente, com pequena diversidade de forma e nenhuma de substância. Onde quer que a alma popular pense do mesmo modo, se manifesta de idêntica maneira e, como ensina Van Gennepp, a qualquer momento em tema lendário bem localizado será achado num ciclo de contos populares em outro extremo do mundo.

Conta Paul de Saint-Vitor que, na Turquia, em certa época, todo o dia que Alá dava ao mundo um dos mais queridos pachás do sultão vinha saudá-lo na Sala do Divã e suplicar-lhe para ser nomeado governador duma cidade distante. Justificava o pedido com uma desculpa qualquer.

O soberano não o queria atender e até já estava se aborrecendo com aquela insistência, quando o velho servidor do trono confessou o verdadeiro motivo do seu desejo de deixar Istambul. Todas as manhãs, ao sair de seus aposentos, encontrava a Morte que lhe cravava olhos de espanto. Já não podia mais com essa obsessão. O sultão tomou a narrativa como caduquice, teve pena do pachá e mandou-o para onde tanto queria ir.

Semanas depois, passeando a noite pelo jardim do palácio, o sultão encontrou a Morte e interpelou-a:

- Porque perseguias o meu velho pachá, fitando-o diariamente com olhos de espanto?

E ela respondeu:

- Porque recebi ordem de matá-lo na cidade para onde foi nomeado governador e me admirava de ainda vê-lo por aqui ...

Esta certeza de que ninguém escapa à morte no dia marcado se consubstancia também numa história sertaneja:

Um caçador armou um mondéu por trás dum cemitério, a fim de pegar um tatu que costumava andar por ali. Numa noite de luar, topou com o maior espanto a Morte presa naquela armadilha, cujo pesado tronco lhe caíra sobre uma das tíbias. O corpo esquelético se estirava no chão, envolto no branco lençol e a foice rolara por uma ribanceira, ficando dependurada numa raiz de angico. Gelado e imobilizado de pavor, o matuto ouviu a Morte chamá-lo:

- Venha cá! Livre-me deste mondéu e o recompensarei.

Cobrou algum ânimo, aproximou-se e, aproveitando o ensejo, pediu-lhe, como recompensa para libertá-la, o direito de viver sadio e forte até avançada idade, que somente diria depois dela lhe revelar quanto teria de vida, se não fosse aquela ocasião de prestar-lhe um favor. Ela respondeu sinceramente que isso não lhe era possível revelar e nem seria preciso para que dissesse quantos anos desejava de existência.

- Cento e vinte! Exigiu o caçador.

A Morte acedeu e ele a libertou. Viveu sempre rijo e feliz, assombrando o sertão e vendo o desfile das gerações, aquele longo período. No dia em que se completava o prazo obtido com o acordo, teve medo de morrer e resolveu enganar a Morte. Raspou completamente barba, bigode, cabelos e até sobrancelhas, de modo a se tornar irreconhecível e se meteu num baile que davam no lugar onde morava.

Perto da meia-noite, que era quando terminava o prazo, a Morte, que o procurava por toda a parte sem o achar, veio ter a festa, perguntando se o tinham visto; mas ninguém lhe dava a menor notícia dele. Aproximava-se a hora fatal. Então, ela examinou um por um os convivas e, ao bater a primeira badalada das doze horas, disse, segurando o nosso caçador pelo braço:

- Como não tenho mais tempo de procurar o velhaco e não quero me retirar de mãos vazias, levo comigo este pelado!...

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Gustavo Barroso (Gustavo Dodt Barroso), historiador e folclorista, nasceu em Fortaleza, CE, em 29/12/1888, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 3/12/1959. Publicou, entre outras obras, Terra de sol, Rio de Janeiro, 1912; Heróis e bandidos, Rio de Janeiro, 1917; Casa de marimbondos, São Paulo, 1921; Ao som da viola, Rio de Janeiro, 1921 (2 ed. aumentada, Rio de Janeiro, 1949); O sertão e o mundo, Rio de Janeiro, 1923; Através dos folclores, São Paulo, 1927; Almas de lama e de aço, São Paulo, 1930; Mythes, contes et légendes des indiens, Paris, 1930; Aquém da Atlântida, São Paulo, 1931; As colunas do templo, Rio de Janeiro, 1932.

Fonte: Jangada Brasil - (Barroso, Gustavo. Ao som da viola; nova edição correta e aumentada. Rio de Janeiro, 1949).

O diabo no folclore do Nordeste

O número de agosto de Brasil Açucareiro foi uma edição quase exclusivamente sobre o folclore do nordeste. Daí a oportunidade de relembrarmos velhas lendas sobre o diabo, ao tempo em que muito se acreditava nas artimanhas do maligno.

São totalmente esquecidas, pois remontam ao tempo do Recife de fora de portas, expressão tão velha e quase desconhecida que preciso explicar aos que não encontram o seu sentido imediato. Relembra ela o tempo das portas nas cidades e das populações que viviam fora delas.

Ou seja: aquilo mesmo que ainda acontece hoje, sem a existência das portas, com as classes mais bem afortunadas morando no centro da cidade e as mais desafortunadas, na periferia, no sertão ou outro nome qualquer que lhe queiram dar.

Nesta primeira lenda sobre o diabo em Pernambuco, ou melhor, no Recife, relato apenas o que ouvi na minha infância, época de vida farta e fácil, em que havia tempo para se cuidar muito da moral e da religião. Era o diabo empregado para efeitos moralistas, às vezes até mesmo sob fórmulas grosseiras. Nesta lenda simplificada, o veremos assim.

 A irmã do padre

Certo padre, recentemente formado, lutou e conseguiu sua nomeação para uma paróquia distante. Tendo como família apenas uma irmã solteira, esta se exasperou tanto com a possível mudança para o longínquo interior do estado que, às vésperas da viagem para a nova residência, foi ao auge da blasfêmia, exclamando: - Eu não vou para o mato e me caso até com o diabo, se ele aparecer esta noite!

Foi para a varanda do prédio onde morava e lá se deixou ficar. Precisamente à hora fatídica dessas coisas, a meia-noite, avistou ela, no princípio da rua, um elegante cavaleiro montado no seu ginete, cujos cascos riscavam fogo nas pedras do calçamento. Ao chegar à sua porta parou, olhou-a bem, desceu do cavalo, subiu as escadas e bateu à porta.

A irmã do padre correu para recebê-lo, vendo no fato a esperança de um casamento que não mais permitiria sua viagem para o interior do estado.

Ao abrir a porta, porém, e fitar o cavaleiro, viu nele os olhos de fogo de Satã e caiu morta.

Vê-se nesta lenda além do moralismo contra as blasfêmias, o Recife da época dos cavalos e dos cavaleiros, e onde os automóveis não eram nem sequer sonhados.

 A marca no braço

Tanto como a primeira esta outra estória remonta também à época de fora de portas. O cenário é que muda: não é mais o diabo montado no seu ginete faiscante. Lembra a época em que não havia estradas de ferro em Pernambuco. É um diabo marítimo, do tempo do apogeu das barcaças e de um Recife praieiro. É um diabo que apavora, que castiga, que rapta crianças, um precursor dos gangsters americanos, para desespero e contenção de mães que blasfemam e sobretudo de um fundo moralista e religioso.

Certa mãe impaciente pelas traquinadas do filho vai ao desespero e exclama: - Tornara que o diabo te carregue!

Dito isto vai à cozinha e ao voltar à sala nota o desaparecimento da criança. Procura pela casa toda e dá o desespero sem achar explicação para o caso.

No outro dia, porém, na hora da chegada das barcaças à rampa do cais, velhos barcaceiros que voltavam de alto mar ao passarem por determinado local ouviram choro de criança e avistaram entre pedras altas o menino desaparecido, apresentando ainda nos braços a marca terrível das unhas do diabo que o havia carregado como blasfemara a mãe ignorante de tal perigo.

Credo

Vindo da mesma época que as anteriores, não há nesta estória nenhum fundo moralista, apenas uma demonstração de força da palavra Credo, ou seja do Creio em Deus Padre, etc. Nota-se, porém, um afeito geográfico da época das ronceiras embarcações à vela, em que Maçaió ficava tão distante do Recife que se podia envolvê-la nas lendas.

Em casa de certa família que não primava por bons costumes, improvisaram um baile. E veio a frase do dono da casa: Hoje até o diabo dança aqui!

Altas horas da noite foi reparado que um crioulão alto não perdia um número e já dançava com certa dama há tanto tempo, que esta, não suportando mais o cansaço, indagou:

- O senhor não vai parar? Será que estou dançando com o diabo? Credo!!

A essa palavra a mulher sentiu-se só na sala, sem saber como o crioulo desaparecera. Cai, de espanto, ao tempo que todos sentem um cheiro forte de enxofre.

II

Agora, não mais a lenda, mas a realidade. E o Recife das velhas carroças puxadas a boi, levando açúcar turbina e mascavado da estação de São Francisco para os armazéns da rua do Brum. É o Recife em que a chegada do trem das 5 horas da tarde era uma festa para mim. Assistia da minha janela da rua das Calçadas a passagem dos paus de papagaios que iam para as casas que os vendiam no cais da Lingueta. Dos muitos exemplares raros de orquídeas que seguiam para a Inglaterra, por não valerem nada nas nossas matas, onde eram tratadas como parasitas e implicitamente nocivas às nossas árvores. E Recife de véspera de Natal onde ficava embevecido na minha inocência de criança vendo o desfilar do cortejo das carroças enfeitadas, puxadas por velhos bois magros e ronceiros, com velhas colchas nas costas e galhos de gameleira nas carroças a guisa de grinaldas e de festões.

O diabo de hoje já não tem nenhum efeito moralista. Desmoralisou-se por completo. Aparece, porém, ainda, como uma força que só os corajosos vão procurar, nessa ânsia de resolver o problema econômico da vida. É o diabo de uma outra época.

A ânsia de encontrar o ouro criou a alquirma, ânsia de acertar a milhar no jogo do bicho criou o inesperado: a realidade confundida teimosamente com a lenda.

Procurado, em vão, por todos os recantos e encruzílliadas, um diabo que já não mete medo nem provoca receios, sofre talvez, aí, a sua última desmoralização.

Em Santo Amaro das Salinas, o velho Santo Amato dos Viveiros de peixes e dos mocambos, à meia noite em ponto, numa encruzilhada, está parada uma mulher, rezando, para que o diabo apareça e diga-lhe a milhar do bicho, dando assim solução para todo um mundo de misérias em que vive.

Na ponta da rua, lá ao longe, surge um vulto preto, totalmente preto, onde os olhos brancos se realçam e se destacam. Aproxima-se, aproxima-se, e vai passando sem dizer uma única palavra.

A mulher enche-se mais de coragem, avança até ele e fala:

- Diga a milhar, diga!

E a figura do homem que ela julgava o diabo explica-se, deixando-a desapontada:

- Minha senhora eu não sou o diabo, não! Eu sou é carvoeiro que vem do serviço!

A realidade é confundida grosseiramente com a lenda e há assim a desmoralização completa de todos os diabos que ainda amedrontam tolos e crentes.

Fonte: Jangada Brasil  - (RIBEIRO, Chagas. Em Brasil Açucareiro).
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