quinta-feira, 7 de novembro de 2013

A Aventura do Albanil


Havia outrora um pobre albanil(*) em Granada, Espanha, que guardava religiosamente os dias santos e os de festa — incluindo a “San Lunes” — e que, apesar de sua devoção, ficava cada vez mais pobre e com penosas dificuldades ganhava o pão de cada dia para a sua numerosa família. Uma noite foi despertado de seu primeiro sonho por um forte bater da aldrava da sua porta. Abriu e encontrou-se com um clérigo, alto, magro e de rosto cadavérico.

— Ouve, bom amigo — disse-lhe o desconhecido — observei que és um bom cristão e que se pode confiar em ti. Queres fazer-me um trabalho esta noite?

— Com toda boa vontade, reverendo padre, contanto que me seja razoavelmente pago.

— Serás bem pago, mas tens que deixar que te vendem os olhos.

O albanil não se opôs. Por isso, depois de lhe tapar os olhos, o cura conduziu-o pelas ruas estreitas e tortuosas, até que se detiveram no portal de uma casa. Fazendo uso de uma chave, o cura torceu a lingueta da áspera fechadura de uma porta. Logo que entraram fechou o ferrolhos e conduziu o albanil por um silencioso corredor, e depois por um espaçoso salão no interior do edifício. Ali tirou-lhe a venda dos olhos e passou a um pátio levemente iluminado por uma solitária lâmpada. Ao centro do pátio havia a taça sem água de uma antiga fonte mourisca, sobre a qual o cura lhe ordenou fazer uma pequena cava, pondo-lhe à disposição para esse fim ladrilhos e massa. O albanil trabalhou inteira, mas não pode concluir a obra. Um pouco antes do romper do dia, o cura lhe pôs uma moeda de ouro na mão e, lhe vendando de novo os olhos, conduziu-o à sua casa.

— Concordas — perguntou-lhe — Voltar a concluir o seu trabalho?

— Com todo o prazer, meu padre, contanto que me seja bem pago.

— Bem, pois então amanhã à meia noite virei buscar-te.

Assim fez e concluiu a obra.

— Agora — disse o cura — hás de ajudar-me a trazer os corpos que se hão de enterrar nessa cava.

Ao ouvir essas palavras os cabelos do albanil eriçaram-se. Acompanhou o cura com passos vacilantes até um compartimento afastado da casa esperando ver algum espetáculo horroroso de morte, mas recobrou a ânimo, ao avistar três ou quatro grandes vasos de barro arrumados num canto. Estavam cheios — ao parecia — de dinheiro e com grande trabalho conseguiram ele e o cura transportá-los para a sua tumba. Então, fechou-se a cava, arranjou-se o pavimento e tratou-se de que não ficasse o menor vestígio desse trabalho por ali. Os olhos do albanil foram vendados de novo e ele conduzido por um lugar diferente daquele por onde havia sido introduzido anteriormente.

Depois de haver caminhado muito tempo por um confuso labirinto de vielas e becos, detiveram-se. O cura entregou-lhe duas moedas de ouro e disse-lhe:

— Espera aqui até ouvir os sinos da catedral tocar as matinas. Se tentares tirar a venda antes do tempo, ocorrer-te-á uma tremenda desgraça.

Dizendo isso, afastou-se. O albanil esperou fielmente, contentando-se em comprimir nas mãos as moedas de ouro e fazê-las tinir uma contra a outra. E quando os sinos da catedral deram o toque matinal, descobriu os olhos e encontrou-se na ribeira do Genil, de onde foi para a sua casa o mais depressa possível, passando alegremente com sua família por espaço de meio mês com o produto das duas noites de trabalho e voltando depois a ficar tão pobre como antes.

Continuou trabalhando pouco e rezando muito e guardando os dias santos e de festa todos os anos, enquanto a sua família, fraca, desamparada e consumida na miséria, parecia uma horda de ciganos. Achava-se certa noite sentado à porta de sua casinha, quando eis que dele se aproxima um velho avarento muito conhecido por ser proprietário de numerosos imóveis e pelas mesquinhezas como senhorio.

O rico proprietário ficou mirando fixamente o nosso alarife por pouco tempo, e, franzindo a testa, falou:

— Vejo, amigo, que a pobreza te acabrunha.

— Não há como negar, senhor, pois isso é mais que evidente.

— Creio, então, que te convirá fazer-me um trabalhinho e que me trabalhará barato.

— Mais barato, senhor, que qualquer outro albanil de Granada.

— Pois é isso o que eu desejo; possuo uma casa velha que está a cair e que me gasta mais do que rende, pois a cada momento tenho que concertá-la e depois ninguém a quer alugar. Por isso me proponho a repará-la do modo mais econômico possível e o estritamente necessário para que não venha abaixo.

Levou, com efeito, o albanil a um casarão velho e solitário, que parecia ir esbarrondar. Depois dc atravessar vários salões e apartamentos desertos, o nosso albanil entrou num pátio interior, onde viu uma velha fonte mourisca, em cujo lugar se deteve um momento, pois lhe vinha à memória uma recordação vaga do mesmo.

— Perdoe-me, senhor. Quem habitou esta casa antigamente?

— Maus diabos o levem! — respondeu o proprietário. — Um velho e miserável clérigo que em nada pensava senão em si mesmo. Diziam que era imensamente rico, e, não tendo parentes, acreditou-se que deixaria toda a sua fortuna à igreja. Morreu de repente e os curas e frades vieram em massa, mas nada encontraram além de alguns ducados em uma bolsa de couro. Desde o seu falecimento me coube a sorte pior do mundo, pois o velho continua residindo na minha casa sem pagar aluguel, e não há meios de aplicar a lei a um defunto. O povo afirma que se ouve todas as noites o retinir de moedas no quarto onde dormia o velho clérigo, como se este estivesse contando o seu dinheiro e, algumas vezes, gemido e lamentos pelo pátio. Seja verdade ou mentira esse falatório, o certo é que minha casa adquiriu má fama e ninguém quer alugá-la.

— Então, — disse o albanil resolutamente — deixe-me o senhor que eu viva em sua casa até que se apresente melhor inquilino e eu me comprometo a repará-la e acalmar a alma penada que nela erra. Sou um bom cristão, pobre e não tenho medo do diabo em pessoa, ainda que este se apresente sob a forma de um saco cheio de ouro.

A oferta do honrado albanil foi alegremente aceita; o albanil mudou-se para a casa e deu cumprimento a tudo o que prometeu. Pouco a pouco a devolveu ao seu antigo estado e nunca mais se ouviu o tilintar de moeda de ouro no quarto do cura falecido, mas principiou-se a ouvir, de dia, no bolso do albanil vivo.

Em uma palavra: enriqueceu-se rapidamente com grande admiração de todos os seus vizinhos, chegando a ser um dos homens mais poderosos de Granada, que deu grandes somas à igreja, sem dúvida para tranquilizar a sua consciência, e só na hora da morte revelou à família o segredo da cava, junto à fonte mourisca.

(*) Do espanhol albañil, pedreiro.


Um conto de Washington Irving

Fonte: Conto extraído e atualizado de "A Noite Illustrada", de 31/05/1938 - Desenho de Cavaleiro.

Uma Noite no Mato Seco

As sombras da noite já enegreciam a terra. O céu, também tinha a ameaçar-lhe a beleza, um amontoado de nuvens medonhas pactuando com a noite na sua tarefa sombria. Aquela viagem era de necessidade inadiável. Dela dependia grande soma dos meus interesses. 

Resolvi, mesmo afrontando o mau tempo que se anunciava, empreender aquela caminhada.

Chamei meu ajudante e ordenei-lhe encilhasse os animais. Lucindo, mulato avantajado, atleta espontâneo, desses que os trabalhos brutos costumam nos apresentar, conhecedor, como ninguém, daquelas paragens, por onde nem Deus passou e de que fogem os homens, olhou-me assustado, não acreditando no que ouvira.

Sua atitude — de quem hesita em cumprir uma ordem, ele que nunca esperou que ordem alguma se lhe repetisse, não deixou de sobressaltar-me. Repeti-lhe a ordem: — que encilhasse os animais, e se preparasse para a viagem. Lucindo meneou a cabeça, e se foi, num andar lento, como de quem caminha para um grande perigo.

Pus em ordem meus papéis, e saí para o terreiro. Já àquela hora o Lucindo avisava-me de que tudo aprestara para a viagem. O mulato, meditabundo, olhos baixos, quieto, era o tipo diverso daquele caboclo de olhar franco, sempre satisfeito, falador, à espera de que se lhe apresentasse ocasião para pôr em prova sua grande lealdade, atributo que o valorizava aos meus olhos.

Aquela atitude do meu velho companheiro de viagens pelos sertões de Minas, pôs-me pulga à orelha.

— Que é que põe você assim tão macambuzio, Lucindo?

O caboclo esperava pela pergunta.

— Patrão, vancê intão, tá mesmo arresolvido a botá chão, a estas hora, cum tempo ansim, daqui por Corgo dos Mulato? Vancê isquece que temo qui atravessá o Mato Seco?

E ao pronunciar este nome o Lucindo teve o corpo sacudido por arrepios.

Mato Seco? Ah! Já ouvira, em pequeno, as histórias ali acontecidas, histórias tremendas que o tornaram lugar temido dos homens.

— Fora ali, que diziam haver sido assassinado, sem que se soubesse por que nem por quem, o Claudino, dono do sítio de cima, Aquela cruz de madeira, com uns restos de enfeites de papel e um toco de vela apagada, faz recordar um drama pungentíssimo, e do qual toda gente falava com tremuras na voz:

Realizava-se numa noite fria de Junho, o casamento do Valencio, a voz mais afinada daquelas redondezas, com Ritinha, cabocla boa alma de santa, à porta de quem a Fome era tocada a galope e a Sede mitigada. Naquela noite, a fazenda era um enxame de abelhas barulhentas. Era um barulho festivo, como nunca houvera naqueles sítios.

Às tantas da noite, já o povaréu se impacientava com a ausência do noivo. A Rita dissera que ele viria ao anoitecer, e, até àquela hora, já tarde, nada do Valencio dar a cara. Resolveram, os caboclos mais dispostos, buscar o noivo. Não demorou muito, ouvem-se os tropéis dos cavalos que chegam. São recebidos ao som da indefectível sanfona e aos gritos dos alegres festeiros. O noivo também chega. Vem nos braços dos caboclos. Vem morto, com cinco facadas no peito. Encontraram-no assim, naquele mesmo lugar onde está plantada aquela cruz com resto de enfeites e um toco de vela. A Ritinha, noiva de Valencio, ficara louca, e vagava bestamente de sítio em sítio, numa miséria que dava dó.

Por esses e outros fatos idênticos, diziam até que almas penadas, noite a dentro, assombravam os caminheiros que ousavam atravessar o Mato Seco, em horas da noite.

Nunca acreditei nessas histórias, muito menos em alma do outro mundo, razão porque as histórias tenebrosas do Mato Seco não conseguiram fixar-se fortemente em minha memória. Agora, era o Lucindo, o caboclo mais valente que já vira na minha vida, que trêmulo, mas trazia lembrança, sem contudo, despertar-me grande atenção. Se, em criança, pouco medo me faziam, agora nenhuma importância eu lhes daria.

— Vancê vai fazê bestera, patrão. Brincá co as arma do otro mundo num dá certo... Mecê se lembra do João Guilherme? Pois ele, uma noite...

— Toca a andar, Lucindo, que já estou farto dessas mentiradas. Com a sua idade acreditar em fantasmas? Isso é feio...

Obediente ao extremo, lá se foi o Lucindo, não sem resmungar baixinho.

A noite tornava-se pior, de instante a instante. Se, de fato, fantasmas perambulam cá por baixo, não há noite mais propícia que esta. Lucindo caminhava na frente. Para experimentar o seu grau de superstição, toda vez que precisávamos transpor uma porteira eu lhe gritava, em voz grossa: “abre a porteira, satanás!” O mulato estremecia dos pés à cabeça de tanto pavor, e, quase a chorar, me pedia, por favor, que deixasse daquela brincadeira...

Assim caminhamos até que entramos no Mato. Ao contemplar, em noite tão feia, aquele montão de mato a gemer, fustigado pelo vento, o coração me bateu mais apressado dentro do peito. Uma coisa, dentro de mim, que já não era mais vontade de pilheriar, me fez cismarento. Mas, para não dar a perceber ao Lucindo esse sinal de fraqueza, ao chegarmos à porteira que diz adeus ao Mato Seco, tornei a gritar, desta vez em voz insegura:

— “Abre a porteira, satanás!”

Sem que ninguém tocasse, a porteira, devagarinho, rangeu, numa vozinha fina como se alguma alma sofredora estivesse gemendo. Nossos cavalos, como se tivessem sido castigados cem chicotes de aço, empinaram-se, relinchando. O de Lucindo desapareceu estrada a fora, num galope doido.

O meu pacífico animal, como se o montasse o próprio demônio, disparou pelo mato a dentro. Senti uma pancada horrível na nuca. Perdi as forças. Desmaiei.

***

Era já de manhãzinha, quando Lucindo, de roupas rasgadas e sujas de pó, ainda com os sinais do susto impressos na fisionomia, veio levantar-me do brejo, onde passei a noite, no mais impossível dos sonos.

Ao chegarmos ao Córrego dos Mulatos, a pé e no mais deplorável estado, olheiras profundas, rasgados e sujos, muita gente julgou ver dois fantasmas saídos, naquela madrugada, das entranhas infernais do “Mato Seco”.


Conto de José Fernandes Filho 
Fonte: Revista "O Malho", de 24/10/1935.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Velho da Estrada

Era sábado, dia de mercado, e os caboclos vinham da Pedreira para a venda semanal. Bento montara com os balaios de verduras que as últimas chuvas haviam tornado viçosas. Não tinha pressa. O sol nascera há pouco; o mercado só abria às sete. O jumento feio e magro, trotava pela picada a fora numa cadência monótona que embalava os pensamentos do Bento. Se o fiscal não aparecesse, tudo estaria bem. O lucro seria grande, porque tinha fregueses certos, que não regateavam. Poderia comprar alguma coisa para os meninos e para a mulher, dia após dia, no ribeirão, consumindo-se na lavagem de roupa. Poderia fazer tanta coisa! ...

A neblina ia desaparecendo lentamente, embora não se avistasse ainda a encosta do morro. O jumento prosseguia preguiçoso: tóc, tóc ...

Passaram pelo açude ladeado de amoreiras silvestres.

— Bom dia, dono.

Bento fez parar o animal. Um velho maltrapilho e sórdido descansava sob as árvores.

— Bom dia. Qué garupa?

O mendigo agradeceu.

— Já não posso cavalgá, seu moço. Apenas um favorzinho...

E deu-lhe dinheiro para que comprasse no mercado alguns metros de fazenda (bem resistente), agulha e linha. Bento estranhou a encomenda, e surpreendeu-se ainda mais diante da nota de cem mil réis, novinha, que o ancião lhe confiou. Mas prometeu fazer a compra. Com três lambadas no jumento, partiu, e agora em passo ligeiro, pois o sol já se erguera de todo.

O fiscal não aparecera. Os fregueses como sempre, deram preferência às suas verduras, e o lucro compensou a longa e estafante caminhada. Estava feliz.

Depois do almoço e da sesta tirada na estalagem do Juvêncio juntou os balaios de taquara, prendeu-os à sela do anima1 e preparou-se para a volta. Só então lembrou-se do velho que encontrara sob as amoreiras. Fazenda bem resistente, linha, agulha. Talvez, fosse um pobre diabo sem juízo. Apalpou a nota. Tão novinha! Tão provocante! Cem mil réis dariam para muita coisa! ... Por um momento, a indecisão dominou-o. Mas o velho confiara-lhe o dinheiro; era preciso cumprir o prometido. Ficaria com a consciência tranquila. Comprou a fazenda, o carretel de linha e a agulha.

Rumou para casa, com seu jeitão de caboclo pachorrento, sem pressa montado no jumento magro.

A noite descera, uma clara noite de lua, A estrada alongava-se a sua frente e as sombras das árvores, projetadas no chão, sugeriam os mais absurdos fantasmas. As maravilhas, brancas e escarlates, desprendiam perfume suave. Ah! O luar na mata! O casario da cidade perdia-se ao longe, na base do morro, insignificante no pisca-pisca de suas luzes. Bento voltava contente. Trazia dinheiro. Cachaça, fumo, água de cheiro para as meninas. Esqueceriam, por um pouco, as misérias e as desgraças. A pobreza. A fome. As doenças. A sordidez do barraco. Maria, talvez sorrisse e entrasse a fazer planos. Era sempre assim. Nas noites de luar, sentados no terreiro, ouvindo as violas, imaginavam uma vida diferente. Comprariam fazenda, plantariam eucaliptos, teriam criação... Deixariam a Pedreira, o ribeirão, a vida miserável de beiradeiro.

O luar descia molemente sobre as árvores. Na mata, estalavam galhos secos. Cobras ou espíritos malignos. Persignou-se. Para afugentar o medo, iniciou uma cantiga:

“Meu pai é bom caçadô,
Vai pr’o mato, vai caçá ... “

Velha cantiga que passava de boca em boca. Afasta o coisa ruim, diziam. São inúmeros os mistérios da mata. Bento, como todo caboclo, sabia-os verídicos e temia as almas penadas, o bode preto, o saci...

— De volta, seu moço?

Estava à beira do açude, perto das amoreiras. O velho emergira das sombras, envolto no manto de farrapos, as mãos descamadas erguidas, um sorriso indefinível nos lábios.

— Eu trouxe as coisas, pai. Tá aqui no balaio.

Aflito, nervoso, o mendigo agarrou as encomendas. Desdobrou a peça de pano.

— É bem forte! — disse, falando consigo.

Depois, em tom irônico, perguntou:

— Tu crê em alma penada, moço?

Bento estremeceu. Não soube o que responder. O jumento corcoveava, relinchando. Quis rezar um Padre Nosso. As palavras misturavam-se no cérebro. Os olhos do ancião tornaram-se vermelhos como brasa. E ele ria, um riso malvado e cruel, agitando os andrajos encardidos e o corpo esquelético.

— Nhô Quim! — exclamou o caboclo, apavorado.

Num momento, recordou a história que se espalhara na Pedreira. A alma de nhô Quim, assassinado há muitos anos junto ao açude, só descansaria quando matasse alguém que, por sua livre vontade fosse comprar a própria mortalha. Somente agora, ele atinava com o motivo da encomenda: linha, agulha, fazenda bem resistente. Tentou fugir. Uma estranha força emanava-se dos olhos do espectro, um diabólico fascínio que encantava e endoidecia. Ele foi chegando. Estendeu os braços. Crisparam-se lhe as mãos. E as unhas aduncas entraram na carne do caboclo.

No dia seguinte, encontraram à beira do açude, sob as amoreiras, um corpo enrolado em tiras de pano, fortemente costuradas. Nhô Quim conseguira finalmente o repouso eterno. Pobre Bento!


Conto de José de Oliveira Nunes 

Fonte: Revista "O Malho" — Janeiro de 1951

domingo, 3 de novembro de 2013

A Marquesa de Brinvilliers

"... O corpo e a cabeça de olhos azuis pérfidos, mas agora absolutamente separados foram levados para a fogueira, onde as chamas logo consumiram. Depois a fumaça foi se dispersando, mas o povo sempre imprevisível, curioso, miserável e cheio de superstições foi se aproximando para levar os restos dos ossos calcinados da marquesa como souvenir..."

Marie Madeleine d’Aubray, marquesa de Brinvillier-La-Motte, nasceu em 22 de julho de 1630. Era a mais velha de cinco filhos que teve Antoine Dreux d’Aubray, senhor de  Offémont e de Villiers, Conselheiro de Estado, Preposto e Visconde de Paris e Tenente Civil da mesma cidade. Marie Madeleine recebeu uma boa educação literária mas pouco ou nada religiosa e moral. Perdeu a virgindade aos sete anos coabitando com seus próprios irmãos. Tinha muito amor próprio e uma natureza ardente e apaixonada.

Aos 21 anos se casou com Antoine Cobelin de Brinvilliers, barão de Nocerar, aportando ao matrimônio um dote de 200.000 libras, reunindo entre ambos uma grande fortuna. Amável, fogosa e bela, intrépida, de espírito vivo, de grande sangue frio, imperturbável ante aos imprevistos, resolvida a sofrer ou morrer se fosse necessário, assim a descrevem os que a conheceram vem em sua época. Olhos azuis, cabelos castanhos, de pele muito branca, era no entanto, uma jovem miúda de pequena estatura.

O marquês de Brinvilliers tinha uma boa amizade com um capitão de cavalaria chamado Godin de Sainte Croîx, bastardo de uma boa família de Gascuña. Logo esse capitão se tornou amante de Marie Madeleine, aparentemente, com consentimento do marido, que por sua vez tinha outras amantes. Mas o pai de Marie Madeleine quando soube, se enfureceu e conseguiu que Sainte Croix fosse detido e encarcerado na prisão da Bastilha em 19 de março de 1663.

Foi nessa prisão, ao que parece, que o capitão Sainte Croix aprendeu tudo relativo a preparação de venenos com um tal Exili (ou Eggidi ou Gilles), gentil homem italiano que esteve a serviço da rainha Cristina de Suécia.

Quando foi libertado, ensinou, por sua vez, todos estes conhecimentos a sua amante. Pouco tempo depois Exili foi deportado mas de alguma maneira escapou e regressou à Paris alojando-se precisamente na própria casa de Sainte Croix. Exili havia aprendido por sua vez a química dos venenos de um conhecido químico da época, o suíço Cristophe Glaser, estabelecido em Paris, autor de um célebre "Tratado de Química", boticário do rei, e descobridor do sulfato de potássio que levou seu nome.

Este famoso Glaser era quem provia de substâncias químicas Sainte Croix e Exili. A marquesa Brinvilliers voltou para seu amante logo após este ter saído do cárcere e nela se enraizou um profundo ódio contra seu pai, o responsável pela prisão de Sainte Croix, de tal maneira que resolveu se vingar, acabando com a vida do citado e, por sua vez, apropriar-se assim da fortuna paterna. A marquesa começou a visitar pobres e desvalidos nos hospitais levando-lhes doces, vinhos, frangos e outras iguarias e logo àqueles que presenteava com tanto carinho aparente, morriam. Era uma diversão e ensaio, observando o efeito das substâncias que lhes administrava. Segundo as investigações da polícia da época, ela envenenou também vários de seus criados "para ensaiar".

Quando estava segura da eficácia do que chamava "a receita de Glaser", comprovando a impotência dos médicos em descobrir traços de veneno nos cadáveres, decidiu envenenar seu pai.

Em 13 de junho de 1666, Antoine Dreux d’Aubray, que há vários meses sofria de estranhas moléstias, decidiu visitar suas terras de Offrémont, a escassas léguas de Compiêgne, rogando a sua filha que o acompanhasse e passar com ele e seus netos duas ou três semanas. Desde a chegada da marquesa de Brinvilliers junto a seu pai, o mal deste piorou, tendo vômitos cada vez mais violentos, tendo quer ser transferido a Paris para ser atendido por outros médicos. Sua filha o acompanhou.

Marie Madeleine confessaria mais tarde que havia administrado veneno a seu pai 28 a 30 vezes, com suas próprias mãos e as vezes por intermédio de um lacaio chamadoGascon que Sainte Croix lhe havia enviado como homem de toda sua confiança. Ao que se parece, usava arsênico misturado com outras substâncias.

O envenenamento durou oito meses, ao cabo de quais Antoine Dreux d’Aubray morreu em Paris a 10 de setembro de 1666 aos 66 anos. A autópsia mostrou segundo os médicos que a morte foi por "causas naturais". Mesmo assim correu o rumor de que havia sido envenenado. Sucedeu no cargo de Tenente Civil de Paris, seu filho mais velho de mesmo nome Antoine Dreux d’Aubray, conde de Offémont, Conselheiro do Parlamento e Intendente de Orleans.

Uma vez que se livrou de seu pai que era o crítico de sua conduta licenciosa, Marie Madeleine já não teve freio em suas paixões e teve vários amantes, entre eles um primo seu de quem teve um filho além dos que tinha de seu marido e dos que teve com seu amante Sainte Croix. Logo se apaixonou pelo preceptor de seus filhos, um jovem chamado Briancourt, bacharel em teologia. Seus devaneios não lhe impediam sentir ciúmes de Sainte Croix que andava com outras mulheres e de seu próprio marido que perdia o tempo, especialmente com uma jovem, a Srta. Dufay, a quem a marquesa pensou em apunhalar.

Entretanto, a herança paterna que lhe correspondeu, ela logo dissipou. A seus irmãos tinha ficado a maior parte. Não hesitou em enviar dois capangas que lhe recomendou seu amante para assassinar seu irmão mais velho quando este viajava numa carruagem para Orleans, mas fracassaram em seu intento. Como precisasse de dinheiro com urgência, decidiu ensaiar de novo o veneno. Em 1669, conseguiu que entrasse na casa de seu irmão Antoine, como lacaio, um sujeito de nome La Chaussée. O lacaio usou uma dose tão forte de veneno que o Tenente Civil se deu conta, insultando-o e obrigando-o a beber a poção. Mas La Chaussée hábilmente se excusou dizendo que seriam restos de uma medicina que tomava e rapidamente atirou o líquido ao fogo.

Houve uma segunda tentativa em 6 de abril de 1670, por meio de pastéis de que comeram alguns membros da família se sentindo doentes. Antoine foi quem mais sofreu. Chaussée o atendia solícito e em cada bebida que tomava colocava mais veneno. Os sofrimentos de Antoine eram cada vez maiores.

A marquesa Brinvilliers entretanto confessou ao preceptor de seus filhos e amante de turno, Briancourt, que estava tratando de envenenar seu irmão. O martírio de Antoine durou três meses, vomitando continuamente, emagrecendo, secando pouco a pouco e morrendo por fim em 17 de junho de 1670. O outro irmão (que morava com Antoine) morreu três meses depois e na autópsia realizada pelos cirurgiões Duvaux e Duprès e o farmacêutico Gavart, se pode comprovar que havia sido envenenado. Não somente nada se suspeitou de La Chaussée, como ainda o seu defunto amo lhe deixou em seu testamento "100 escudos por seus leais serviços". Esta inacreditável Madame de Brinvilliers como se saberia mais tarde, intentou envenenar a sua própria filha mais velha porque "lhe parecia imbecil", logo se arrependendo, dando-lhe leite como antídoto. Mas seus cúmplices lhe exigiam cada vez mais dinheiro, tendo que submeter-se a suas chantagens. Sainte Croix tinha guardados em um baú uns frascos de veneno e 34 cartas de Marie Madeleine que a comprometiam nos crimes de seus familiares. Ela, ao ver que seu amante retinha essas cartas comprometedoras, pensou em se suicidar usando os seus mesmos venenos. Mas foi o próprio Sainte Croix quem administrou a ela um veneno, de que ela se deu conta em seguida quando se sentiu mal, tomando uma grande quantidade de leite para neutralizá-lo e assim se salvando, ainda que sofrendo o efeito durante vários meses, se recuperando depois.

Achava-se tão vaidosa de suas façanhas que não podia se calar e uma vez disse a um de seus criados que "tinha em um frasco — que lhe mostrou — algo com que se vingar de seus inimigos e que com aquele frasco havia bastante sucessões". Quando foi submetida ao processo por seus crimes aquela palavra se faria famosa e ao veneno se denominaria "pós da sucessão". Em 1673, cansada de sua dama de companhia, envenenou também Mmlle. de Villeray. Em suas confidências a Briancourt, foi revelando todos os seus crimes e lhe contou como tinha desprezo de seus irmãos e os envenenou também.

Estavam ainda vivas sua irmã Therèse d’Aubray e sua cunhada Marie-Therèse Mangot, a viúva de Antoine, que reprovavam sua conduta viciosa. Briancourt escreveu a ambas lhes alertando que tivessem cuidado pois a marquesa tinha a pretensão de envenená-las.

A marquesa Brinvilliers preparou uma armadilha para Briancourt lhe dando veneno que não produziu o efeito desejado, depois encarregando Sainte Croix de lhe mandar apunhalar, coisa que também fracassou. Uma terceira tentativa se fez quando alguém que ele não pode ver, diz a vítima, disparou dois tiros que não o acertaram.

Entretanto, o marido da marquesa, foi também das "atenções" de sua mulher que em várias ocasiões recebeu várias doses de veneno das mãos da esposa. Mas, arrependida mais tarde, lhe cuidava e lhe administrava o antídoto. Briancourt por sua parte logrou escapar daquele ambiente se retirando a dar lições na casa dos padres do Oratório.

Mas um acontecimento imprevisto teria lugar, o que serviria para descobrir todos esses crimes: a morte de Sainte Croix em seu misterioso laboratório da praça Maubert, onde praticava alquimia tratando de achar a pedra filosofal. O que parece, algumas emanações das substâncias tóxicas que manipulava e que respirou ao se romper a máscara de vidro que utilizava, foram as causadoras de seu final.

Quando Madame de Brinvilliers soube disso, seu primeiro pensamento foi: "O baú em que estão guardadas minhas cartas comprometedoras!" — E tratou por diversos meios de obtê-las sem conseguir. Sainte Croix havia deixado um papel escrito ao que pôs por título "minha confissão".

O comissário Picard se encarregou das investigações em 8 de agosto de 1672 com o sargento Creuillebois. Estes, no registro realizado acharam o baú as cartas comprometedoras do que deduziram toda a horrenda história, todos os crimes, apesar de que Sainte Croix em sua confissão, rogava que o baú selado fosse devolvido a Mme.de Brinvilliers por não conter nada de particular. Mas desobedecendo aquele desejo, o comissário leu as cartas e um documento dele que Mme. de Brinvilliers se comprometia a pagar a Sainte Croix 30.000 libras e os frascos contendo os venenos. Em 22 de agosto o Tenente Civil citou Mme. de Brinvilliers para examinar os escritos achados, mas esta enviou a seu procurador e fugiu para a Inglaterra. Chaussée foi detido. A viúva de Antoine apresentou uma denúncia contra os dois por envenenamento de seu marido. Chaussée submetido a tortura confessou e foi condenado a morte em 24 de maio de 1673. Seus membros, numa roda, foram separados do corpo até sua morte.

Nesse ínterim, a marquesa vivia miseravelmente em Londres. Luís XIV pessoalmente, dada a qualidade da acusada, se tomou de grande interesse pelo processo. Quis que a investigação se levasse adiante até às últimas consequências e que todos os cúmplices da marquesa fossem descobertos e condenados. Solicitou a extradição da marquesa Brindivilliers à Inglaterra e o rei daquele país a concedeu. Mas Marie Madeleine havia fugido para os Países Baixos.

Entretanto seu marido, o desconcertante marquês de Brinvilliers havia se instalado tranquilamente com seus filhos no castelo de seu sogro, do que Luís XIV lhe ordenou sair e deixar a viúva do irmão mais velho assassinado tomasse posse daquela propriedade. Em 25 de março de 1676 a marquesa de Brinvilliers foi por fim detida em Lieja no convento em que se havia refugiado. A detenção é mais um capítulo rocambolesco. O capitão Degrez, disfarçado de abade, conseguiu interessar a Mme. de Brinvilliers em uma cita amorosa, e esta quando esperava mais uma aventura galante, se encontrou com um oficial de polícia, M. Degrez e dois arqueiros que a prenderam poucos momentos antes de que as tropas espanholas entrassem em Lieja.

A marquesa de Brinvilliers levava consigo no momento de ser detida uma confissão escrita de todos seus crimes que seria mais tarde publicada por Armand Fouquier em sua obra sobre as causas célebres, mas o tom da mesma era tão forte que o próprio editor não se atreveu a publicar aquilo, tirando alguns parágrafos e colocando outros para o latim.

Conduzida a Maestricht, foi encarcerada a 29 de maio na prisão da cidade. Tentou se suicidar ingerindo fragmentos de vidro moído de um copo que havia quebrado, e além disso, engoliu broches, mas tudo em vão. Uma terceira tentativa de suicídio foi mais horrível, introduzindo um bastão pela vagina. Recuperada de todas esses feitos, tentou subornar um dos seus guardas para escapar da prisão. Em vão.

Foi transferida para Paris e trancafiada na Conciergeríe em 26 de abril. Nesse local escreveu cartas para seus amigos que um dos seus guardiães prometeu entregar, quando na realidade eram entregues aos magistrados.

O processo contra esta inacreditável mulher começou em 29 de abril de 1676. Ela negou tudo com obstinação, inclusive suas confissões documentadas. Foi acusada de assassinatos, de sodomia e de incesto. Briancourt compareceu ante o tribunal descrevendo um detalhado relato da vida de sua ex-amante. Mme. de Brinvilliers estava perdida. Briancourt entre soluços se dirigiu a ela exclamando: "Adverti muitas vezes a senhora de vossas desordens, de vossa crueldade e que vossos crimes a perderiam", ao que ela respondeu: "Sempre hábil, tens sido um covarde, Briancourt, e agora tampouco tens. Chorais".

Durante todo o processo não se descompôs o rosto de Marie Madeleine. Seguiu negando tudo. Conservou sempre sua mente clara e um olhar duro em seus olhos azuis. Os esforços extraordinários do advogado defensor M. Mivelle foram inúteis. O presidente do Tribunal anunciou que a enviaria uma pessoa de grande virtude que a consolaria em seus últimos momentos e trataria de salvar sua alma, o abade Edmond Pirot, teólogo e professor de Sorbonne, conhecido em toda Europa por suas discussões com Leibnitz.

Em 16 de julho de 1676 foi lida a sentença:

"A Corte declara a dita d’Aubray de Brinvilliers culpada de haver envenenado seu pai M. Dreux d’Aubray e ter mandado envenenar seus irmãos e ter atentado contra a vida de sua irmã (não se fala de mais mortes nem de seus ensaios). Por estes atos a condena a se apresentar na porta principal da igreja de Notre Dame de Paris, com os pés desnudos, a corda ao colo, mantendo em suas mãos uma tocha ardente de 2 libras de peso e declarar que por vingança e para se apoderar de seus bens envenenou seu pai, seus irmãos e atentou contra vida de sua irmã, de todo o qual se arrepende e pede perdão a Deus, ao Rei e à Justiça. E na praça da Grève desta vila lhe cortarão a cabeça no cadafalso levantado na dita praça. Logo seu corpo será queimado e as cinzas espalhadas...".

Depois da leitura da sentença, a levaram à sala de torturas.

Ao entrar disse: "Senhores, é inútil isso. Eu direi tudo sem esquecer um detalhe. Neguei tudo durante o processo porque assim acreditava me defender e não acreditava estar obrigada a confessar nada. Se me tivessem convencido do contrário e soubesse da pessoa que me enviaram faz 24 horas (se refere à Pirot) faria três semanas que saberiam toda a verdade".

Depois, levantando a voz fez uma declaração de todos os seus crimes. Quanto à composição dos venenos que usava, só sabia qee levavam arsênico, vitriolo e veneno de sapo. O único antídoto que ela conhecia era o leite. Como cúmplices só teve Sainte Croix e os lacaios.

Os juízes consideraram que havia falado sinceramente, mas a tortura era exigida pelo regulamento e assim foi submetida a tortura da água, a mais cruel que se aplicava então em Paris. O condenado era obrigado a beber quantidades enormes de água, o que produzia uma grande dilatação do estômago e intestinos e com isso, dores horríveis.

Permaneceu uns instantes ante o altar da capela para seguir logo ao suplício, descalça, com a camisola dos condenados, em uma mão o círio dos penitentes e na outra um crucifixo. Ao sair da Conciergeríe foi subida a uma carreta muita estreita de onde apenas podiam permanecer a condenada, o verdugo e P. Pirot. A carreta avançava desde a praça da Grève. As ruas estavam cheias de gente curiosa que iam presenciar a execução. Um dos presentes, Le Brun, lhe fez um desenho que hoje é exposto no Museu do Louvre de Paris. Se vê nele a silhueta do abade Pirot atrás da condenada.

O povo a insultava ao passo que alguns se compadeciam e subiu ao cadafalso... O abade Pirot cantou o "Salve" e o povo o acompanhou. Deu-lhe a absolvição, pronunciando rapidamente as palavras sacramentais, porque o tempo premia. O rosto de Mme. de Brinvilliers irradiava esperança e alegria, serenidade e a ternura do arrependimento bem diferente daquele do que sentiu quando eliminava seus familiares.


A bruma da tarde caía sobre Paris. O crepúsculo rodeava a catedral de Notre Dâme. O verdugo Guillermo, vendou os olhos da condenada, enquanto ela repetia com o confessor as últimas orações. Soou um golpe surdo. O cutelo fez seu trabalho tão limpamente que por um instante a cabeça parecia que não queria se separar do corpo.

O corpo e a cabeça de olhos azuis pérfidos, mas agora absolutamente espantados foram levados para a fogueira, onde as chamas logo consumiram. Depois a fumaça foi se dispersando, mas o povo sempre imprevisível, curioso, miserável e cheio de superstições foi se aproximando para levar os restos dos ossos calcinados da marquesa como souvenir. Assim terminava o último dia de alguém, que em vida se chamou Marie Madeleine d’Aubray, a marquesa de Brinvilliers.


Fontes: Traduzido de "La Mujer y El Crimen" - http: / /www.latinoseguridad.com / LatinoSeguridad / Criminales / Brinvilliers.shtml

sábado, 2 de novembro de 2013

A mulher vampiro

O conde Hipólito tinha voltado das suas extensas viagens, a fim de tomar posse da rica herança do pai, que morrera pouco tempo antes. O solar da família era situado numa das mais pitorescas regiões, e as rendas do patrimônio permitiam embeleza-lo custosamente. O conde resolveu reproduzir ali tudo o que durante as suas viagens o impressionara vivamente pela magnificência e bom gosto. Chamou uma nuvem de artistas e de operários, que começaram logo a embelezar, ou para melhor dizer, a reconstruir o castelo, rasgando ao mesmo tempo um parque do mais grandioso estilo, onde se encravaram, como dependências, a igreja paroquial e o cemitério.

Possuidor dos conhecimentos necessários, o conde dirigiu em pessoa os trabalhos e entregou-se completamente a esta ocupação.

E assim decorreu um ano, sem que lhe passasse pela idéia ir brilhar, como lhe aconselhava um tio velho, na sociedade da capital, sob os olhares das meninas casadoiras, afim de desposar a melhor, a mais bela e a mais nobre de todas.

Estava, uma manhã, sentado à mesa desenhando o plano duma nova construção, quando lhe anunciaram uma parente de seu pai.

Ao ouvir o nome da baronesa, Hipólito recordou-se logo de que o pai se lhe referia sempre com a mais profunda indignação, de mistura com certo receio. Sem explicar o perigo que havia na convivência, afastara sempre dela as pessoas que lhe eram caras. Se teimavam em pedir-lhe explicações, o conde respondia que havia coisas em que era melhor não falar.

O certo é que na capital circulavam certos boatos a respeito de um processo criminal muito singular, em que a baronesa estivera envolvida e em consequência do qual se havia separado do marido e fora obrigada a retirar-se para o campo. Todavia o príncipe perdoara-lhe.

Hipólito experimentou uma sensação desagradável à aproximação da pessoa detestada pelo pai apesar de desconhecer as razões dessa aversão. Os deveres da hospitalidade, que se respeitam principalmente no campo, impunham-lhe, porém, a necessidade de receber a importuna visita.

A baronesa estava longe de ser feia, mas nunca pessoa alguma produzira no conde repugnância tão manifesta.

Ao entrar, a baronesa cravou no dono da casa um olhar incendido, mas logo baixou os olhos, e pediu-lhe desculpa da sua visita nos termos mais aviltantes de rasteira humildade. Lastimou que o pai do conde, possuído das mais extraordinárias prevenções inspiradas maldosamente pelos seus inimigos, a tivesse odiado de maneira tão acirrada. Apesar de ter caído em profunda miséria, chegando quase a padecer de fome, o conde nunca a socorrera. Ia agora refugiar-se numa cidade da província, tendo acabado de receber inesperadamente uma pequena quantia. Rematou dizendo que não pudera resistir ao desejo de ver o filho do homem, a cujo ódio irreconciliável sempre correspondera com profunda estima.

Estas palavras, pronunciadas com o acento tocante da verdade, conseguiram comover o conde, para o que também muito contribuiu a presença da graciosa e encantadora menina que acompanhava a baronesa. Calou-se esta finalmente, mas o conde pareceu não reparar em tal, e ficou silencioso e contrafeito. A baronesa pediu-lhe então desculpa duma falta em que o embaraço a fizera incorrer e apresentou-lhe a sua filha Aurélia.

Corando como um rapaz dominado por suave embriaguez, o conde suplicou-lhe que lhe permitisse reparar os agravos do pai, devidos certamente a uma inadvertência, oferecendo-lhe hospitalidade no castelo. Ao certificar-lhe as suas boas disposições, pegou-lhe na mão e estremeceu de terror. Sentiu-lhe os dedos gelados, sem vida, ao mesmo tempo que o vulto descarnado da baronesa, que fixava nele uns olhos embaciados, tomava o aspecto dum cadáver vestido de brocado.

— Valha-me Deus! Que contrariedade! E logo nesta ocasião! — exclamou Aurélia.

E com voz terna, que se insinuava na alma explicou que a sua desgraçada mãe tinha às vezes ataques de catalepsia, mas que estas síncopes passavam de pronto sem auxílio de remédios.

O conde retirou com dificuldade a mão que a baronesa apertava nervosamente, e, no arroubamento dum amor nascente, pegou na de Aurélia cobrindo-a de beijos.

Chegara à idade madura, mas experimentava agora pela primeira vez uma forte paixão, tornando-se-lhe impossível dissimular o que sentia, tanto mais que era animado pela graça encantadora com que Aurélia lhe acolhia as amabilidades.

A baronesa voltou a si passados alguns minutos, sem se recordar do que lhe tinha acontecido. Afirmou ao conde que se sentia honrada com aquele convite, e que este procedimento lhe apagava para sempre da lembrança a injusta conduta do pai de Hipólito.

Foi assim que o viver íntimo do fidalgo mudou subitamente. Chegava a crer que um favor especial do destino lhe trouxera a única pessoa que podia, como esposa, dar-lhe a suprema ventura.

A velha observou sempre a mesma conduta. Silenciosa, séria, reservada, deixava a propósito transparecer uma alma cheia de paz e de bons sentimentos. O conde acostumara-se àquele rosto singularmente pálido e enrugado, e aquela aparência de espectro, e atribuía tudo à má saúde da sua hospeda e ao gosto que ela tinha por sombrios passatempos. Com efeito os criados contaram-lhe que a baronesa dava passeios noturnos pelo parque, para os lados do cemitério.

Sentiu-se envergonhado por se ter deixado arrastar, no começo, pelas prevenções do pai, e o tio velho despendeu em vão a inesgotável facúndia, exortando-o a renunciar ao sentimento que o dominava e a relações que um dia poderiam desgraça-lo. Convencido de que Aurélia o amava, pediu-a em casamento. É fácil de imaginar o quanto a baronesa ficou encantada com esta proposta, que a arrancava à miséria e lhe assegurava uma existência feliz.

A palidez desaparecera do rosto de Aurélia anuviado por uma expressão de invencível pesar, e as delícias do amor deram-lhe aos olhos suave brilho e às faces frescura e colorido.

Um acontecimento funesto retardou, porém, o cumprimento dos desejos do conde. Na manhã do dia da boda, encontraram a baronesa estendida e sem movimento no parque, a pouca distância do cemitério, com o rosto contra o chão. O conde acabava de levantar-se e pusera-se à janela, pensando com embriaguez na felicidade que ia gozar, quando trouxeram a baronesa para o castelo. Pensou que se tratava dum ataque cataléptico, como era costume, mas todos os meios empregados para a chamar à vida foram inúteis. Estava morta!

Aurélia não se entregou a violenta angústia. Parecia consternada e atônita por causa deste imprevisto golpe do destino, mas não verteu urna única lágrima.

O conde, temendo melindra-la, observou-lhe, com precaução e delicadeza infinitas, que era necessário pôr de parte as conveniências e apressar o mais possível o casamento não obstante a morte da baronesa, afim de evitar maiores transtornos. Ao ouvi-lo, Aurélia deitou-lhe os braços ao pescoço e, derramando muitas lágrimas, exclamou:

— Sim, pela minha salvação, consinto!

O conde atribuiu esta exaltação à desconsoladora idéia de que, órfã e sem asilo, Aurélia não tinha para onde ir e que o decoro lhe não permitia ficar no castelo. Teve o cuidado de colocar junto de Aurélia, até ao dia fixado para a cerimônia, uma aia, matrona respeitável.

No entanto Aurélia estava numa agitação singular, proveniente mais da angústia cruciante que a perseguia incessantemente, do que do desgosto causado pela morte da mãe.

Um dia, quando conversava amorosamente com o conde, ergueu-se de súbito, pálida, num mortal terror, e banhada em lágrimas refugiou-se-lhe nos braços como se quisesse fugir a um perseguidor invisível. Exclamou:

— Não, nunca, nunca!

Depois do casamento, que não foi perturbado por nenhum contratempo, é que a perturbação e a ansiedade de Aurélia pareceram dissiparem-se.

Como bem se compreende, o conde suspeitou de que no coração de sua esposa existisse alguma causa desconhecida, que a atormentava. Contudo, foi bastante delicado para não a interrogar enquanto a viu aflita, mas depois, com grandes rodeios, perguntou-lhe o que produzira aquela extraordinária disposição de espírito. Aurélia significou-lhe que ia com vivo prazer patentear o coração ao esposo da sua alma. O conde, surpreendido, soube que a perturbação de Aurélia provinha do procedimento criminoso da mãe.

— Há nada mais horrível, perguntou ela, do que vermo-nos obrigados a aborrecer, e odiar a nossa própria mãe?

Provaram estas palavras que o pai e o tio do conde não se haviam enganado, e que a baronesa captara este último por meio de requintada hipocrisia.

O castelão nem tentou ocultar que a morte da baronesa lhe parecia mercê da Providência, mas Aurélia declarou-lhe que fora precisamente a morte da mãe que a enchera de pressentimentos sombrios, e que o receio de que não podera ainda triunfar, lhe dizia que a mãe havia de ressuscitar algum dia, para vir precipita-la num abismo, depois de arranca-la dos braços do seu amado esposo.

E falou das recordações que tinha conservado da sua infância.

Eram estas.

Um dia, ao acordar, achou a casa em completa desordem. Abriam-se e fechavam-se as portas com estrondo, ouviam-se gritos soltados por vozes desconhecidas. Quando o sossego se restabeleceu, a ama de Aurélia pegou-lhe ao colo e levou-a para uma vasta sala onde estava muita gente. Sobre uma grande mesa, no meio da casa, viu estendido um homem, que brincava sempre muito com ela e lhe dava bolos, e a quem a pequena chamava papá. Estendeu-lhe os braços para o beijar, mas aqueles lábios, que tinha conhecido quentes e cheios de vida, estavam gelados. Desatou a chorar sem saber porquê. Dali a ama levou-a para uma casa desconhecida, onde ficou por muitos dias. Passado tempo a mãe foi busca-la de carruagem e levou-a para a capital.

Completava Aurélia dezesseis anos, quando se apresentou em casa da baronesa um homem a quem ela recebeu com alegria e familiaridade, como antigo conhecimento. Multiplicaram-se as visitas e dentro em pouco operou-se considerável mudança na vida da baronesa. Em vez de morar numa água-furtada, de vestir pobremente, de passar mal, foi habitar uma casa esplêndida no melhor bairro da cidade, passou a ter fatos magníficos, e mesa lauta, sendo seu inseparável comensal o desconhecido, e, finalmente, não faltava a nenhum divertimento público.

Só Aurélia não participava da melhoria, que, segundo era fácil de conhecer, provinha do desconhecido. Não vestia melhor do que dantes e estava sempre fechada no quarto, ao passo que a mãe ia às festas com o tal homem.

Este, apesar de já ter ultrapassado os quarenta anos, parecia muito mais novo. Bonito de semblante e esbelto de figura, nem por isso deixava de repugnar a Aurélia, porque às vezes era ordinário e desastrado de maneiras, contradizendo assim as pretensões que tinha a homem amável e afidalgado.

Por este tempo, começou a deitar à rapariguinha certos olhares, que lhe infundiam inexplicável horror.

Até então a mãe nunca lhe falara a respeito dele. Limitara-se a dizer-lhe o seu nome e que o barão era um parente afastado, possuidor de colossal fortuna. Outra vez, gabou-lhe os dotes físicos e perguntou à filha que tal o achava, e, como esta não ocultasse a repugnância que tinha por ele, acoimou-a de tola e dardejou-lhe um olhar de meter medo, mas passou depois a trata-la com agrado, deu-lhe bons vestidos, e levou-a aos divertimentos. O intitulado barão manifestava tanta solicitude e um tal desejo de agradar a Aurélia, que se lhe tornou verdadeiramente insuportável, tanto mais que ela um dia presenciou, cheia de mágoa, uma cena escandalosa, que lhe tirou todas as dúvidas acerca das relações da mãe com o barão. Este, meio ébrio, apertou-a nos braços, mostrando-lhe claramente as suas intenções abomináveis. O desespero deu forças à donzela, que repeliu o miserável com vigor, fazendo-o cair para trás, e correu a fechar-se no quarto.

A baronesa declarou à filha, com frieza e terminantemente, que se deixasse de esquisitices fora de propósito, pois era o titular quem fazia todas as despesas da casa. Como não estava para recair na miséria de outros tempos, aconselhou-a a ceder à vontade do barão, o qual, em caso de recusa, já ameaçara deixa-las. Longe de se impressionar com as lágrimas e queixumes de Aurélia, a velha recebeu-os às gargalhadas e com zombaria provocante. Gabou-lhe impudicamente uma ligação, que lhe ofereceria todas as voluptuosidades mundanas, servindo-se de termos tão abomináveis e desbragados que Aurélia ficou aterrorizada.

Julgando-se perdida, só viu recurso na fuga imediata. Achou meio de apanhar a chave da porta da rua, e à meia noite, depois de fazer uma trouxa com as coisas mais indispensáveis, encaminhou-se para a antecâmara, que se achava debilmente alumiada. Julgava que a mãe estaria dormindo e ia já para sair, quando alguém subiu precipitadamente a escada e empurrou a porta. Soltos os cabelos grisalhos e vestida com uma camisola suja, que deixava a descoberto os braços e o peito, a baronesa entrou na antecâmara e foi cair aos pés de Aurélia. O suposto barão perseguia-a, armado com um bordão nodoso, e bradando:

— Espera, filha maldita de Satanás, bruxa do inferno, espera que já vou dar-te a refeição de núpcias!

E, arrastando-a pelos cabelos para o meio da casa, começou a maltrata-la cruelmente, espancando-a com o bordão.

A baronesa desatou a gritar desapoderadamente, e Aurélia, quase desfalecida, abriu a vidraça e clamou por socorro. Por acaso ia passando uma patrulha policial e acudiu logo.

— Prendam-no! — bradou aos soldados a baronesa, louca de aflição e de raiva. Prendam-no! Olhem-lhe para o ombro, que está a descoberto! É Urian!

Assim que ela pronunciou este nome, o sargento comandante da patrulha soltou um grito e disse:

— Olá! Apanhei-te finalmente!

Os guardas agarraram o desconhecido e levaram-no, a despeito da resistência que empregava para desenvencilhar-se.

Não obstante a violência do que se tinha passado, a baronesa percebeu o que a filha estivera prestes a fazer. Agarrou-a brutalmente por um braço, empurrou-a para o quarto e fechou a porta à chave, sem dizer palavra.

No dia seguinte saiu e só voltou tarde de noite. Entretanto Aurélia, ali encerrada não viu nem ouviu pessoa alguma, e padeceu as torturas da fome e da sede. Nos dias seguintes não recebeu muito melhor tratamento. A mãe deitava-lhe por vezes uns olhos cintilantes de cólera e parecia meditar qualquer projeto sinistro. Afinal recebeu, certa noite, uma carta que pareceu alegra-la, e disse a Aurélia:

— Foste tu, criatura disparatada, a causa de tudo isto, mas agora, felizmente, tudo vai bem e Deus queira que evites o terrível castigo, que o demônio te reservava.

Dali por diante tornou-se mais complacente, e Aurélia, que desde que Urian se fora já não pensava em fugir, passou a gozar de mais ampla liberdade.

Passado tempo, estando sozinha, sentada no seu quarto, ouviu um grande barulho na rua.

A criada de quarto entrou precipitadamente e disse-lhe que a polícia levava preso o filho do carrasco de **. O facínora, acusado do crime de roubo à mão armada, fora, tempos antes marcado a ferro em brasa e era levado para a cadeia quando conseguiu fugir à escolta. Desta vez não lograria escapar, certamente.

Aurélia teve um sinistro pressentimento e correu à janela. Adivinhara. Era o suposto barão que ia passando algemado e amarrado a uma carroça. Transferiam-no para outra prisão, a fim de cumprir a pena a que o tinham condenado. Ao ser alvejada pelo furioso olhar que o malvado ergueu para ela, ao mesmo tempo que lhe fazia um gesto de ameaça, Aurélia sentiu-se esmorecer e foi cair numa poltrona.

A baronesa ficava muito tempo fora de casa e deixava a filha ao abandono, pensando tristemente nas desventuras que ainda lhe estariam iminentes.

A criada de quarto entrara para o serviço depois da cena noturna, e, sabendo que o ladrão tivera relações íntimas com a ama, disse um dia a Aurélia que lastimava sinceramente a senhora baronesa, por ter sido enganada tão indignamente por aquele infame. Aurélia bem sabia o que havia de pensar a este respeito. Parecia-lhe impossível que os guardas, que tinham prendido Urian em casa da baronesa, não ficassem cientes das verdadeiras relações que existiam entre ambos, pois que ela lhes dissera o nome do criminoso e indicara o sinal infamante que ele tinha no ombro.

Segundo dizia a criada nas suas palavras ambíguas, falava-se muito àquele respeito. Andava de boca em boca a atoarda de que a justiça fizera uma severa sindicância e que ameaçara a baronesa com a prisão, porque o filho do carrasco tinha revelado casos verdadeiramente extraordinários.

A pobre Aurélia era obrigada a reconhecer a depravação da mãe, visto que, depois daquele terrível acontecimento ela continuava ainda a residir na capital.

A baronesa viu-se enfim reduzida à necessidade de sair de uma cidade onde estava exposta a infames suspeitas, aliás muito bem fundadas, e de fugir para lugar distante. Durante esta viagem é que tinha ido ter ao castelo do conde.

Aurélia considerava-se sumamente venturosa e ao abrigo de receios, mas qual não foi o seu espanto quando, num dia em que manifestava à mãe a alegria que o céu lhe concedera, esta, com os olhos cintilantes, exclamou desabridamente:

— Foste a causa da minha desgraça, criatura abjeta e maldita; mas ainda que a morte me leve repentinamente, a vingança virá surpreender-te no meio da tua imaginária felicidade. É nestes acessos nervosos, cuja origem remonta ao teu nascimento, que os artifícios de Satanás...

A mulher do conde calou-se de repente, e, abraçando-se ao marido, pediu-lhe que a dispensasse de repetir as palavras que a mãe pronunciara numa crise de furor insensato. Sentia o coração espacelar-se, ao recordar as medonhas ameaças daquela possessa do demônio, ameaças que excediam todos os horrores imagináveis. O conde consolou a esposa o melhor que pôde, sem contudo esquivar-se a ter medo.

Quando sossegou um pouco mais, não deixou de reconhecer que os crimes da baronesa, apesar de ela já ter falecido, haviam lançado uma sombra funesta numa existência que ele futurará cheia de felicidade.

Passado pouco tempo, Aurélia foi mudando sensivelmente. A palidez do rosto e o olhar extinto pareciam indicar doença, mas ao mesmo tempo os seus modos extraordinários e inquietos faziam suspeitar novo mistério. Afastava-se de todos, até do marido; fechava-me no quarto ou buscava os sítios mais solitários do parque; quando aparecia, trazia os olhos vermelhos de chorar, o rosto desfigurado, denunciando o pesar que a devorava.

Em vão o conde se esforçou por indagar as causas que punham a mulher naquele estado. Aurélia caiu em profundo abatimento, de que saiu tão somente depois de consultar uma celebridade médica.

O homem de ciência foi de parecer que a grande irritabilidade nervosa da condessa e os seus incômodos de saúde podiam fazer conceber a esperança de que ia ter fruto aquele casamento venturoso. Um dia, durante o jantar, aludiu ao estado de Aurélia. Esta, a princípio, não deu atenção à conversa do doutor com o conde, mas aplicou depois o ouvido, quando ouviu falar nos singulares caprichos que as mulheres tinham quando grávidas, e a que não podiam resistir sem prejuízo da sua saúde e até da saúde do filho. Fez então ao médico perguntas sobre perguntas, e este não se cansou de lhe citar muitos fatos, alguns altamente burlescos.

— Contudo, acrescentou ele, há também exemplos de desejos desregrados, que levaram diversas mulheres a ações verdadeiramente horríveis. Por exemplo, a mulher dum ferreiro sentia irresistível desejo de comer carne do marido, fez esforços baldados para se dominar, mas um dia em que o viu entrar em casa embriagado, atirou-se a ele com uma faca, e feriu-o tão cruelmente, que o desgraçado expirou poucas horas depois.

Mal o doutor acabava de pronunciar estas palavras, a condessa desmaiou, e as convulsões que se seguiram ao desmaio acalmaram-se com grande dificuldade. O médico reconheceu que andara mal contando semelhante aventura na presença duma senhora tão impressionável.

Pareceu, todavia, que esta crise tivera salutar influência no estado da condessa, dando-lhe algum sossego, mas pouco depois caía ela novamente num acesso de profunda melancolia.

Brilhavam-lhe os olhos com estranho fulgor e o rosto cobria-se-lhe de palidez mortal, sempre crescente. O conde tornou a inquietar-se com a saúde da esposa. Havia no seu estado uma coisa inexplicável: não tomava o mínimo alimento, manifestando invencível horror por todas as iguarias, especialmente pela carne. Quando se servia qualquer prato desta substância, era obrigada a levantar-se da mesa, dando evidentes sinais de nojo.

Foi improfícua toda a ciência do médico, porque Aurélia não quis nunca tocar em remédios, apesar das súplicas do marido.

Passaram-se semanas e meses sem que a condessa tomasse alimento algum. O mistério continuava impenetrável e o médico era de opinião que havia ali qualquer coisa que frustrava o saber humano. Afinal despediu-se, apresentando um vago pretexto, mas o conde percebeu claramente que o estado da esposa parecera muito perigoso e enigmático ao hábil clínico e que ele não quisera tratar por mais tempo duma inexplicável doença, que reputava absolutamente impossível de curar.

Imaginem-se as desagradáveis disposições em que estaria o infeliz. A desgraça, porém, ainda havia de ir mais longe. Um criado velho aproveitou um momento, em que o encontrou sozinho, para o avisar de que a condessa saía todas as noites do castelo e recolhia de madrugada. O conde estremeceu e lembrou-se de que, havia tempos, ao soar a meia noite, se apossava dele uma extraordinária sonolência. Atribuiu-a a qualquer narcótico, que a condessa lhe ministrasse sem ele dar por isso, para poder sair clandestinamente do quarto de cama, que tinham em comum infringindo o estabelecido na sua classe. Aguilhoado pelas mais terríveis suspeitas, Hipólito recordou-se da sogra e do espírito mau de que ela estivera possuída, e que talvez houvesse passado para a filha. Lembrou-se também do filho do carrasco e suspeitou de qualquer ligação adultera.

A noite seguinte ia desvendar-lhe o mistério abominável, causa única do estado singular de Aurélia.

Tinha ela por hábito ir deitar-se depois de fazer o chá, que só o conde bebia. Teve este o cuidado de não o tomar naquela noite, meteu-se na cama, leu como de costume, e não sentiu a sonolência habitual. Ainda assim, deixou cair a cabeça no travesseiro e fingiu que dormia profundamente. A condessa levantou-se então, sem fazer o mínimo ruído, aproximou uma luz do rosto do marido, examinou-o por momentos, e saiu devagarinho do quarto.

Todo a tremer, o conde ergueu-se, embuçou-se numa capa e seguiu a mulher cautelosamente. Esta já ia longe, mas como fazia luar, avistava-se distintamente o seu vestido branco. Atravessou o parque e dirigiu-se para o cemitério, desaparecendo por trás do muro Hipólito segui-a, quase de corrida; achou aberta a porta e entrou.

Viu à claridade do luar um espetáculo medonho.

A curta distância, aparições hediondas acocoravam-se no chão, formando círculo. Eram velhas seminuas, de cabelos desgrenhados, dilacerando com os dentes, como feras, o cadáver dum homem.

E Aurélia estava no meio delas!... Com que pungente angústia e profundo horror o desgraçado fugiu àquela cena infernal! Correu ao acaso pelas alas do parque, e só caiu em si quando, de madrugada, se encontrou em frente da porta do castelo. Subiu rápida e maquinalmente a escadaria, atravessou as salas e entrou no quarto de cama. A condessa parecia dormir serenamente.

Tanto não fora sonho ela sair do castelo, que estava ainda úmida do orvalho a capa. Ainda assim tentou persuadir-se de que tinha sido joguete duma alucinação.

Sem esperar que a esposa despertasse, foi dar um passeio a cavalo. A beleza da manhã, os aromas dos bosques, o gorjeio das aves fizeram-lhe esquecer os fantasmas noturno.

Voltou mais tranquilo ao castelo e sentou-se à mesa com a mulher. Quando, porém, serviam um prato de carne cosida e a condessa quis retirar-se mostrando repugnância, o conde reconheceu a realidade dos fatos de que fora testemunha, e exclamou com violência:

— Ah! Mulher abominável e diabólica! Bem sei de que provém a tua aversão pelo comer dos homens. É nas sepulturas que te vais banquetear!

Mal ouviu estas palavras, Aurélia atirou-se a ele rugindo, e mordeu-o no peito, com a fúria duma hiena. O marido repeliu violentamente a possessa, que expirou no meio de atrozes convulsões.

Veio a enlouquecer o desgraçado.



Fonte: Literatura Internacional: http://planeta.clix.pt/letras/

A Mão

Há cerca de oito meses, um de meus amigos, Louis R..., reunira, uma noite, alguns camaradas de estudo. Bebíamos ponche e fumávamos, conversando sobre literatura, pintura e contando, de tempos em tempos, algumas coisas cabeludas, como acontece em reuniões de rapazes. De repente a porta se escancara e um de meus bons amigos de infância entra como um furacão.

— Adivinhem de onde é que eu venho — exclamou em seguida.

— Aposto por Mabile — responde um.

— Não, tu estás muito alegre. É que tu acabas de conseguir dinheiro emprestado, de enterrar o teu tio, ou de empenhar teu relógio à minha tia — responde um outro.

— Já sei, andaste bebendo por aí — afirma um terceiro — e como farejaste o ponche de Louis, subiste para recomeçar.

— Pois ninguém acertou. Venho chegando de P..., na Normandia, onde fui passar uma semana e de onde trago um grande criminoso amigo meu, que peço a permissão de lhes apresentar.

Dizendo isto, tirou do bolso uma mão de defunto. Era horrível, escura, seca, muito longa e como que crispada; os músculos, de uma força extraordinária, ressaltavam sob a pele apergaminhada; as unhas amarelas, estreitas, tinham ficado presas nas extremidades dos dedos. Tudo aquilo cheirava a celerado.

— Imaginem — disse o meu amigo — que venderam no outro dia os trastes de um velho feiticeiro muito conhecido em toda a região. Ele ia ao sabá todos os sábados, montado num cabo de vassoura, praticava a magia branca e negra, azedava o leite das vacas e as fazia carregarem o rabo como o do companheiro de Santo Antônio. A verdade é que aquele velho alarife era muito afeiçoado a esta mão, que pertencera, dizia ele, a um célebre criminoso supliciado em 1736, por haver lançado de cabeça para baixo, num poço, a sua legítima esposa (coisa que, a meu ver nada tinha de mal) enforcando depois na torre da igreja o padre que os casara. Após essa dupla façanha, saíra a correr mundo; e na sua carreira tão curta quão bem preenchida, conseguira saquear uma dúzia de viajantes, defumar uns vinte monges num convento e transformar em serralho um monastério de freiras.

— Mas, e que vais fazer desse horror? — exclamamos.

— Ora! Vou botá-lo de aldrava à minha porta, para assustar aos credores.

— Meu amigo — disse Henry Smith, um inglês alto e muito calmo — eu creio que essa mão é simplesmente carne conservada por algum processo novo. Eu te aconselho que faças uma sopa com ela.

— Não brinquem — disse com a maior seriedade um estudante de medicina, já bastante ébrio; — uma cousa eu te aconselho, Pierre: manda enterrar cristãmente esse despojo humano, para que o seu proprietário não venha reclamá-lo. E depois, essa mão decerto já adquiriu maus hábitos, pois, como diz o provérbio: quem matou, matará.

— E quem bebeu, beberá — retrucou o anfitrião, servindo ao estudante um grande copo de ponche. O outro o empinou de um só trago e rolou para baixo da mesa. Esse desenlace foi acolhido por formidáveis gargalhadas. E Pierre, erguendo o copo, fez um brinde à mão :

— Eu bebo — disse ele — à próxima visita de teu dono.

Depois falaram de outras cousas e cada qual foi para a sua casa.

No dia seguinte, passando pela casa de Pierre, resolvi visitá-lo. Eram cerca de 2 horas. Encontrei-o a ler e a fumar.

— E então. como vais ? — perguntei-lhe.

— Muito bem.

— E a tua mão?

— A minha mão, tu a deves ter visto em minha campainha, onde a pus ontem de noite, ao entrar. A propósito, imagina tu que um imbecil qualquer, sem dúvida para me pregar uma partida, veio bater-me à porta pela meia-noite. Perguntei quem era. Mas, como ninguém me respondeu, tornei a deitar-me e adormeci.

Nesse momento, bateram. Era o proprietário, personagem grosseiro e muito impertinente. Entrou sem cumprimentar.

— Senhor — disse ele a meu amigo, — peço-lhe que mande retirar imediatamente a coisa que o senhor pendurou na corda de sua campainha. Em caso contrário, eu me verei obrigado a despejá-lo.

— O senhor — retrucou Pierre com a máxima gravidade — está insultando uma mão que não o merece. Pois saiba que ela pertence a um homem muito bem educado.

O proprietário rodou nos calcanhares e saiu como tinha entrado. Pierre o acompanhou, desprendeu a mão e foi atá-la ao cordão da campainha que se achava no seu quarto.

— Assim é melhor — disse ele. — Esta mão, como o Irmão, devemos morrer dos trapistas, me inspirará pensamentos sérios, todas as noites, antes de adormecer.

Ao cabo de uma hora, deixei-o e voltei para casa.

Dormi mal na noite seguinte, estava agitado, nervoso; várias vezes despertei em sobressalto e, em dado momento, cheguei a imaginar que se introduzira um homem na minha casa. Levantei-me para olhar nos meus armários e por baixo da cama. Afinal, pelas seis horas da manhã, mal começava eu a adormecer, quando uma violenta batida à minha porta me faz saltar do leito. Era o criado de meu amigo, quase em trajes menores, pálido e trêmulo.

— Ah, senhor! — exclamou ele, soluçando. — Assassinaram o meu pobre patrão!

Vesti-me às pressas e corri à casa de Pierre. A casa estava cheia de gente. Discutiam, gesticulavam, havia um movimento incessante e cada qual contava e comentava o acontecimento de todas as maneiras. Com grande dificuldade consegui chegar até o quarto, cuja porta estava guardada, mas dei o meu nome e deixaram-me entrar. Quatro agentes de polícia se achavam de pé, no meio da peça, com uma caderneta na mão. Examinavam, falavam baixo de vez em quando e tomavam notas. Dois médicos conversavam junto ao leito, sobre o qual jazia Pierre sem sentidos. Não estava morto, mas tinha um aspecto horrendo. Seus olhos desmesuradamente abertos, suas pupilas dilatadas, pareciam olhar fixamente, com indizível pavor, uma cousa horrível e desconhecida. Seus dedos estavam crispados, e o corpo, a partir do queixo, se achava coberto com um lençol, que eu ergui. O pescoço tinha a marca de cinco dedos, que se haviam enterrado profundamente na carne e algumas gotas de sangue lhe maculavam a camisa. Nesse momento uma cousa me chamou a atenção: olhei por acaso para o cordão da campainha do quarto e notei que a mão do defunto não se achava mais ali. Os médicos tinham sem dúvida mandado retirá-la para não impressionar as pessoas que entrassem no quarto do ferido, pois aquela mão era de fato assustadora. Não me informei do que fora feito dela.

Recorto agora, de um jornal do dia seguinte, a notícia do crime, com todos os pormenores que a polícia pudera conseguir. Ei-la:

“Foi cometido ontem um horrível atentado na pessoa do jovem sr. Pierre B..., estudante de direito e pertencente a uma das melhores famílias da Normandia. O desventurado jovem recolhera-se a seus aposentos às dez da noite, dizendo a seu criado Bonvin que estava cansado e ia deitar-se imediatamente. Pela meia-noite, esse homem foi despertado de súbito pela sineta do quarto de seu patrão, que agitavam com fúria. Ficou com medo, acendeu uma luz e esperou. A campainha parou durante um minuto. Depois recomeçou a bater com tamanha força que o criado, desvairado de terror, precipitou-se fora do quarto e foi chamar o porteiro; este último correu a avisar a polícia e, ao fim de um quarto de hora, era arrombada a porta do quarto.

“Um horrível espetáculo se lhes deparou. Os móveis estavam virados. Tudo indicava que houvera uma terrível luta entre a vítima e o malfeitor. No meio do quarto, caído de costas, com os membros rígidos, a face lívida e os olhos terrivelmente dilatados o jovem Pierre B... jazia sem um movimento; apresentava no pescoço as marcas profundas de cinco dedos. O relatório do dr. Bourdeau, chamado imediatamente, diz que o agressor devia ser dotado de uma força prodigiosa e ter uma mão extraordinariamente magra e nervosa, pois os dedos, que deixaram no pescoço como que cinco orifícios de bala, quase se haviam reunido através das carnes. Nada faz suspeitar o móvel do crime, nem qual possa ter sido o autor”.

Lia-se no dia seguinte no mesmo jornal:

“Pierre B..., a vítima do horrível atentado que ontem relatamos, recuperou os sentidos, após duas horas de assídua assistência do dr. Bourdeau. Sua vida não está em perigo, mas teme-se pela sua razão. Não há nenhum vestígio do criminoso”.

Com efeito, o meu pobre amigo estava louco. Durante sete meses, fui visitá-lo todos os dias no hospício, mas ele não recuperou um vislumbre de razão. No seu delírio, escapavam-lhe palavras estranhas e, como todos os loucos tinha uma idéia fixa. Julgava-se sempre perseguido por um espectro. Um dia foram procurar-me às pressas, dizendo que ele estava pior. Encontrei-o agonizante. Durante duas horas, permaneceu bastante calmo. Depois, de súbito, erguendo-se no leito apesar de nossos esforços, gritou, agitando os braços e como que tomado do maior terror:

— Olhem ali ! Olhem ali ! Socorro ! Ele me estrangula. Socorro! Socorro!

Deu duas voltas pelo quarto, aos gritos. Depois caiu morto, com a face contra o chão.

Como ele não tivesse pai nem mãe, fui encarregado de conduzir seu corpo à aldeia de P..., na Normandia, onde os seus estavam enterrados. Era dessa mesma aldeia que ele regressara, na noite em que nos encontrara a beber em casa de Louis R... e em que nos apresentara a sua mão de defunto. Seu corpo foi encerrado num ataúde de chumbo. E, quatro dias depois, eu passeava tristemente com o velho cura que lhe havia dado as primeiras lições, no pequeno cemitério onde abriam a sua cova. Fazia um tempo magnífico. O céu, todo azul, transbordava de luz, os pássaros cantavam no bosque da encosta onde, tantas vezes, quando meninos, íamos ambos apanhar amoras. Parecia-me vê-lo ainda esgueirar-se ao longo do muro e enfiar-se pela abertura que eu conhecia tanto, além, no fim do terreno onde se enterram os pobres. Depois, voltávamos para casa, com as faces e os lábios negros do suco das amoras. E olhei por cima do muro. As amoreiras estavam carregadas. Maquinalmente apanhei uma amora e levei-a à boca. O cura abrira o seu breviário e resmungava baixo os seus oremus, e eu ouvia, no fim do caminho, a pá dos coveiros que abriam a cova. De repente, eles nos chamaram. O cura fechou o livro e fomos ver o que queriam. Tinham encontrado um esquife. Com um golpe de picareta, fizeram saltar a tampa e nós avistamos um esqueleto desmesuradamente longo, deitado de costas, e que, com as suas órbitas vazias, parecia ainda olhar-nos e desafiar-nos. Senti um mal-estar e, não sei por que, quase cheguei a ter medo.

— Olhem! — exclamou um dos homens. — O sujeito tem um punho cortado. Aqui está a sua mão.

E ele apanhou, ao lado do corpo, uma grande mão dissecada, que nos mostrou.

— Repara — disse o outro a rir — parece que ele te olha e já vai saltar-te ao pescoço, para que lha devolvas a sua mão.

— Vamos, meus amigos — disse o cura. — Deixem os mortos em paz e fechem esse caixão. Abriremos em outra parte a cova do pobre Pierre.

No dia seguinte, estava tudo acabado, e eu voltava a Paris, após haver deixado cinquenta francos ao velho cura, para dizer missa pelo repouso da alma daquele cuja sepultura havíamos violado.


Tradução de Mário Quintana. Porto Alegre: Ed. Globo, 1943.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Morte às Bruxas - Parte Final

A execução de Brigida Bishop


Intermediárias do Demônio — Uma história incrível passada há 300 anos nos tribunais de Massachusetts Dezoito mulheres enforcadas e duzentas pessoas levadas ao cárcere O senado daquele estado norte-americano proclamou, não há muito, a inocência dos mortos e dos martirizados.

O julgamento de Brígida Bishop

Brígida Bishop era uma mulher extraordinariamente formosa. Casada desde muito jovem, enviuvou logo e contraiu novo matrimônio, mas, o segundo marido morreu também, poucos meses depois. A mesma sorte teve o terceiro, anos mais tarde. Para viver, Brígida administrava uma taberna, onde se passavam horas divertidas e se bebia bom vinho.

Aos quarenta anos, Brígida Bishop ainda era muito bonita e se vestia com grande elegância. Gênio folgazão, alma livre. Sentia-se libertada de exageradas exigências. As beatas consideravam uma licenciosidade imperdoável a elegância da formosa mulher, os seus interessantes vestidos. Acusavam-na de ofender o recato das senhoras honestas com seus toletes de cores alegres. Era grave a ofensa às damas de Salem, que se trajavam com decência, de roupas escuras, cinzentas, e quase sempre, de preto.

Ao chegar perante o tribunal e ao ouvir a acusação que lhe faziam a senhora Brígida Bishop ponderou:

— Não sei, ao menos, o que são bruxas...

— Então, não pode a senhora asseverar que não seja uma delas, replicou, triunfante, um dos juízes.

A prova condenatória foi robustecida por William Stacy.

— Essa senhora, — falou ele— deu-me uma moeda em pagamento de certo serviço. Não havia caminhado vinte passos, procurei nos bolsos a moeda e ela havia desaparecido, como por encanto...

É inconcebível acusação mais infantil. Mas, o fato, para o plenário, se apresentava como inconteste. A senhora Bishop tinha por certo, negócios com o Diabo...

Não ficou aí tudo. Foi chamado um tal Samuel Gary. Assegurou ele que há dez anos passados lhe havia aparecido uma bruxa. Dias depois, morria um filho seu, ainda pequenino, enfeitiçado. A bruxa, afirmou, não fora outra senão Brígida Bishop, a qual acabava de reconhecer.

Acusavam-na ainda de ser responsável pela loucura e o suicídio de um seu vizinho, de nome Cristiano Trask.

Outras vítimas — Fim da Era de Terror

Se não estivessem todos os detalhes desta narrativa singular guardados ainda nos arquivos judiciários de Massachusetts, nos Estados Unidos, não seria possível acreditar que tudo assim aconteceu, de tão irreal que parece.

Os demais julgados — falam os autos — não foram diferentes dos que, com minúcias, reproduzimos para ser possível uma ideia completa desses incríveis acontecimentos.

Um caso de maior barbaridade foi aquele de que fizeram vítima o velho Giles Corey, com 80 anos de idade. Para afastar o demônio do seu corpo, o octogenário foi submetido a horrível suplício, em meio do qual faleceu. Fizeram-no deitar-se e sobre ele foram sendo colocadas pesadas pedras, até que desaparecesse sobre elas.

Quando as tiraram de cima do pobre homem, não havia mais nada a fazer senão sepultá-lo. Outro indivíduo, chamado George Jacobs, foi executado porque revoltou-se, publicamente, contra os tribunais. Esse não era bruxo,

Um dos juízes, de nome Stoughton, levantava-se, com frequência, da mesa em que estava e golpeava-se furiosamente com um chicote, nas pernas e nos braços. É que ele temia os bruxados, as bruxas que ia condenar. O meio de espantar os espíritos malignos era seviciar-se.

Antes de iniciado o plenário, constituía-se um grupo de jurados extraordinário que era investido de delicada missão. Os jurados tinham quer ser técnicos no assunto. Cabia a esses jurados o exame corporal dos prisioneiros e a assinalação de marcas que se supunham estigmas de Satã, produzidas pelo seu tridente em fogo. Não poucas vezes aconteceu uma simples cicatriz ser considerada como prova irrefutável do contato com Lúcifer.

As tremendas atrocidades só terminaram quando as pequenas enfeitiçadas da negra Tituba, instigadoras da fúria de morte contra as bruxas, levaram suas denúncias demasiadamente longe. Tiveram a ousadia de acusar a senhora John Hale, esposa de um ministro de Beverly, dama por demais conhecida pela nobreza de seu caráter e bondade. Havia a senhora John Hale externado suas dúvidas sobre a sinceridade das enfeitiçadas. Foi o bastante. Ao mesmo tempo, acusaram ainda de ser bruxa Lady Philips, esposa do próprio procurador de Massachusetts!

Dias depois abriam-se as portas das prisões e eram postas em liberdade duzentas pessoas apontadas como fazedoras de bruxedos. Algumas dessas já haviam também declaradas convictas e estavam sentenciadas a morrer na forca.

Em 1711, o Estado aprovou um crédito de 578 libras esterlinas para indenizar os herdeiros das pessoas que haviam sido executadas e determinou que lhes fossem restituídos os direitos de cidadãos norte-americanos que lhes haviam sido suspenso.

Toda essa história tenebrosa, de 300 anos passados, foi relembrada, já dissemos no começo dessa reportagem, não há muito, quando o Senado de Massachusetts, a requerimento dos descendentes de Ana Pudeator, proclamou a inocência dos mortos e martirizados em Salem, pelos tribunais criados especialmente para julgar e sentenciar as bruxas.

Veja também: Morte às Bruxas - Parte 1 Morte às Bruxas - Parte 2 Morte às Bruxas - Parte 3


Fonte: Artigo adaptado e atualizado de “A Noite Ilustrada”, de 30/07/1946.