quinta-feira, 7 de novembro de 2013

A Aventura do Albanil


Havia outrora um pobre albanil(*) em Granada, Espanha, que guardava religiosamente os dias santos e os de festa — incluindo a “San Lunes” — e que, apesar de sua devoção, ficava cada vez mais pobre e com penosas dificuldades ganhava o pão de cada dia para a sua numerosa família. Uma noite foi despertado de seu primeiro sonho por um forte bater da aldrava da sua porta. Abriu e encontrou-se com um clérigo, alto, magro e de rosto cadavérico.

— Ouve, bom amigo — disse-lhe o desconhecido — observei que és um bom cristão e que se pode confiar em ti. Queres fazer-me um trabalho esta noite?

— Com toda boa vontade, reverendo padre, contanto que me seja razoavelmente pago.

— Serás bem pago, mas tens que deixar que te vendem os olhos.

O albanil não se opôs. Por isso, depois de lhe tapar os olhos, o cura conduziu-o pelas ruas estreitas e tortuosas, até que se detiveram no portal de uma casa. Fazendo uso de uma chave, o cura torceu a lingueta da áspera fechadura de uma porta. Logo que entraram fechou o ferrolhos e conduziu o albanil por um silencioso corredor, e depois por um espaçoso salão no interior do edifício. Ali tirou-lhe a venda dos olhos e passou a um pátio levemente iluminado por uma solitária lâmpada. Ao centro do pátio havia a taça sem água de uma antiga fonte mourisca, sobre a qual o cura lhe ordenou fazer uma pequena cava, pondo-lhe à disposição para esse fim ladrilhos e massa. O albanil trabalhou inteira, mas não pode concluir a obra. Um pouco antes do romper do dia, o cura lhe pôs uma moeda de ouro na mão e, lhe vendando de novo os olhos, conduziu-o à sua casa.

— Concordas — perguntou-lhe — Voltar a concluir o seu trabalho?

— Com todo o prazer, meu padre, contanto que me seja bem pago.

— Bem, pois então amanhã à meia noite virei buscar-te.

Assim fez e concluiu a obra.

— Agora — disse o cura — hás de ajudar-me a trazer os corpos que se hão de enterrar nessa cava.

Ao ouvir essas palavras os cabelos do albanil eriçaram-se. Acompanhou o cura com passos vacilantes até um compartimento afastado da casa esperando ver algum espetáculo horroroso de morte, mas recobrou a ânimo, ao avistar três ou quatro grandes vasos de barro arrumados num canto. Estavam cheios — ao parecia — de dinheiro e com grande trabalho conseguiram ele e o cura transportá-los para a sua tumba. Então, fechou-se a cava, arranjou-se o pavimento e tratou-se de que não ficasse o menor vestígio desse trabalho por ali. Os olhos do albanil foram vendados de novo e ele conduzido por um lugar diferente daquele por onde havia sido introduzido anteriormente.

Depois de haver caminhado muito tempo por um confuso labirinto de vielas e becos, detiveram-se. O cura entregou-lhe duas moedas de ouro e disse-lhe:

— Espera aqui até ouvir os sinos da catedral tocar as matinas. Se tentares tirar a venda antes do tempo, ocorrer-te-á uma tremenda desgraça.

Dizendo isso, afastou-se. O albanil esperou fielmente, contentando-se em comprimir nas mãos as moedas de ouro e fazê-las tinir uma contra a outra. E quando os sinos da catedral deram o toque matinal, descobriu os olhos e encontrou-se na ribeira do Genil, de onde foi para a sua casa o mais depressa possível, passando alegremente com sua família por espaço de meio mês com o produto das duas noites de trabalho e voltando depois a ficar tão pobre como antes.

Continuou trabalhando pouco e rezando muito e guardando os dias santos e de festa todos os anos, enquanto a sua família, fraca, desamparada e consumida na miséria, parecia uma horda de ciganos. Achava-se certa noite sentado à porta de sua casinha, quando eis que dele se aproxima um velho avarento muito conhecido por ser proprietário de numerosos imóveis e pelas mesquinhezas como senhorio.

O rico proprietário ficou mirando fixamente o nosso alarife por pouco tempo, e, franzindo a testa, falou:

— Vejo, amigo, que a pobreza te acabrunha.

— Não há como negar, senhor, pois isso é mais que evidente.

— Creio, então, que te convirá fazer-me um trabalhinho e que me trabalhará barato.

— Mais barato, senhor, que qualquer outro albanil de Granada.

— Pois é isso o que eu desejo; possuo uma casa velha que está a cair e que me gasta mais do que rende, pois a cada momento tenho que concertá-la e depois ninguém a quer alugar. Por isso me proponho a repará-la do modo mais econômico possível e o estritamente necessário para que não venha abaixo.

Levou, com efeito, o albanil a um casarão velho e solitário, que parecia ir esbarrondar. Depois dc atravessar vários salões e apartamentos desertos, o nosso albanil entrou num pátio interior, onde viu uma velha fonte mourisca, em cujo lugar se deteve um momento, pois lhe vinha à memória uma recordação vaga do mesmo.

— Perdoe-me, senhor. Quem habitou esta casa antigamente?

— Maus diabos o levem! — respondeu o proprietário. — Um velho e miserável clérigo que em nada pensava senão em si mesmo. Diziam que era imensamente rico, e, não tendo parentes, acreditou-se que deixaria toda a sua fortuna à igreja. Morreu de repente e os curas e frades vieram em massa, mas nada encontraram além de alguns ducados em uma bolsa de couro. Desde o seu falecimento me coube a sorte pior do mundo, pois o velho continua residindo na minha casa sem pagar aluguel, e não há meios de aplicar a lei a um defunto. O povo afirma que se ouve todas as noites o retinir de moedas no quarto onde dormia o velho clérigo, como se este estivesse contando o seu dinheiro e, algumas vezes, gemido e lamentos pelo pátio. Seja verdade ou mentira esse falatório, o certo é que minha casa adquiriu má fama e ninguém quer alugá-la.

— Então, — disse o albanil resolutamente — deixe-me o senhor que eu viva em sua casa até que se apresente melhor inquilino e eu me comprometo a repará-la e acalmar a alma penada que nela erra. Sou um bom cristão, pobre e não tenho medo do diabo em pessoa, ainda que este se apresente sob a forma de um saco cheio de ouro.

A oferta do honrado albanil foi alegremente aceita; o albanil mudou-se para a casa e deu cumprimento a tudo o que prometeu. Pouco a pouco a devolveu ao seu antigo estado e nunca mais se ouviu o tilintar de moeda de ouro no quarto do cura falecido, mas principiou-se a ouvir, de dia, no bolso do albanil vivo.

Em uma palavra: enriqueceu-se rapidamente com grande admiração de todos os seus vizinhos, chegando a ser um dos homens mais poderosos de Granada, que deu grandes somas à igreja, sem dúvida para tranquilizar a sua consciência, e só na hora da morte revelou à família o segredo da cava, junto à fonte mourisca.

(*) Do espanhol albañil, pedreiro.


Um conto de Washington Irving

Fonte: Conto extraído e atualizado de "A Noite Illustrada", de 31/05/1938 - Desenho de Cavaleiro.

Uma Noite no Mato Seco

As sombras da noite já enegreciam a terra. O céu, também tinha a ameaçar-lhe a beleza, um amontoado de nuvens medonhas pactuando com a noite na sua tarefa sombria. Aquela viagem era de necessidade inadiável. Dela dependia grande soma dos meus interesses. 

Resolvi, mesmo afrontando o mau tempo que se anunciava, empreender aquela caminhada.

Chamei meu ajudante e ordenei-lhe encilhasse os animais. Lucindo, mulato avantajado, atleta espontâneo, desses que os trabalhos brutos costumam nos apresentar, conhecedor, como ninguém, daquelas paragens, por onde nem Deus passou e de que fogem os homens, olhou-me assustado, não acreditando no que ouvira.

Sua atitude — de quem hesita em cumprir uma ordem, ele que nunca esperou que ordem alguma se lhe repetisse, não deixou de sobressaltar-me. Repeti-lhe a ordem: — que encilhasse os animais, e se preparasse para a viagem. Lucindo meneou a cabeça, e se foi, num andar lento, como de quem caminha para um grande perigo.

Pus em ordem meus papéis, e saí para o terreiro. Já àquela hora o Lucindo avisava-me de que tudo aprestara para a viagem. O mulato, meditabundo, olhos baixos, quieto, era o tipo diverso daquele caboclo de olhar franco, sempre satisfeito, falador, à espera de que se lhe apresentasse ocasião para pôr em prova sua grande lealdade, atributo que o valorizava aos meus olhos.

Aquela atitude do meu velho companheiro de viagens pelos sertões de Minas, pôs-me pulga à orelha.

— Que é que põe você assim tão macambuzio, Lucindo?

O caboclo esperava pela pergunta.

— Patrão, vancê intão, tá mesmo arresolvido a botá chão, a estas hora, cum tempo ansim, daqui por Corgo dos Mulato? Vancê isquece que temo qui atravessá o Mato Seco?

E ao pronunciar este nome o Lucindo teve o corpo sacudido por arrepios.

Mato Seco? Ah! Já ouvira, em pequeno, as histórias ali acontecidas, histórias tremendas que o tornaram lugar temido dos homens.

— Fora ali, que diziam haver sido assassinado, sem que se soubesse por que nem por quem, o Claudino, dono do sítio de cima, Aquela cruz de madeira, com uns restos de enfeites de papel e um toco de vela apagada, faz recordar um drama pungentíssimo, e do qual toda gente falava com tremuras na voz:

Realizava-se numa noite fria de Junho, o casamento do Valencio, a voz mais afinada daquelas redondezas, com Ritinha, cabocla boa alma de santa, à porta de quem a Fome era tocada a galope e a Sede mitigada. Naquela noite, a fazenda era um enxame de abelhas barulhentas. Era um barulho festivo, como nunca houvera naqueles sítios.

Às tantas da noite, já o povaréu se impacientava com a ausência do noivo. A Rita dissera que ele viria ao anoitecer, e, até àquela hora, já tarde, nada do Valencio dar a cara. Resolveram, os caboclos mais dispostos, buscar o noivo. Não demorou muito, ouvem-se os tropéis dos cavalos que chegam. São recebidos ao som da indefectível sanfona e aos gritos dos alegres festeiros. O noivo também chega. Vem nos braços dos caboclos. Vem morto, com cinco facadas no peito. Encontraram-no assim, naquele mesmo lugar onde está plantada aquela cruz com resto de enfeites e um toco de vela. A Ritinha, noiva de Valencio, ficara louca, e vagava bestamente de sítio em sítio, numa miséria que dava dó.

Por esses e outros fatos idênticos, diziam até que almas penadas, noite a dentro, assombravam os caminheiros que ousavam atravessar o Mato Seco, em horas da noite.

Nunca acreditei nessas histórias, muito menos em alma do outro mundo, razão porque as histórias tenebrosas do Mato Seco não conseguiram fixar-se fortemente em minha memória. Agora, era o Lucindo, o caboclo mais valente que já vira na minha vida, que trêmulo, mas trazia lembrança, sem contudo, despertar-me grande atenção. Se, em criança, pouco medo me faziam, agora nenhuma importância eu lhes daria.

— Vancê vai fazê bestera, patrão. Brincá co as arma do otro mundo num dá certo... Mecê se lembra do João Guilherme? Pois ele, uma noite...

— Toca a andar, Lucindo, que já estou farto dessas mentiradas. Com a sua idade acreditar em fantasmas? Isso é feio...

Obediente ao extremo, lá se foi o Lucindo, não sem resmungar baixinho.

A noite tornava-se pior, de instante a instante. Se, de fato, fantasmas perambulam cá por baixo, não há noite mais propícia que esta. Lucindo caminhava na frente. Para experimentar o seu grau de superstição, toda vez que precisávamos transpor uma porteira eu lhe gritava, em voz grossa: “abre a porteira, satanás!” O mulato estremecia dos pés à cabeça de tanto pavor, e, quase a chorar, me pedia, por favor, que deixasse daquela brincadeira...

Assim caminhamos até que entramos no Mato. Ao contemplar, em noite tão feia, aquele montão de mato a gemer, fustigado pelo vento, o coração me bateu mais apressado dentro do peito. Uma coisa, dentro de mim, que já não era mais vontade de pilheriar, me fez cismarento. Mas, para não dar a perceber ao Lucindo esse sinal de fraqueza, ao chegarmos à porteira que diz adeus ao Mato Seco, tornei a gritar, desta vez em voz insegura:

— “Abre a porteira, satanás!”

Sem que ninguém tocasse, a porteira, devagarinho, rangeu, numa vozinha fina como se alguma alma sofredora estivesse gemendo. Nossos cavalos, como se tivessem sido castigados cem chicotes de aço, empinaram-se, relinchando. O de Lucindo desapareceu estrada a fora, num galope doido.

O meu pacífico animal, como se o montasse o próprio demônio, disparou pelo mato a dentro. Senti uma pancada horrível na nuca. Perdi as forças. Desmaiei.

***

Era já de manhãzinha, quando Lucindo, de roupas rasgadas e sujas de pó, ainda com os sinais do susto impressos na fisionomia, veio levantar-me do brejo, onde passei a noite, no mais impossível dos sonos.

Ao chegarmos ao Córrego dos Mulatos, a pé e no mais deplorável estado, olheiras profundas, rasgados e sujos, muita gente julgou ver dois fantasmas saídos, naquela madrugada, das entranhas infernais do “Mato Seco”.


Conto de José Fernandes Filho 
Fonte: Revista "O Malho", de 24/10/1935.
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