quinta-feira, 28 de abril de 2016

Home, o Mestre da Levitação


Daniel Dunglas Home (Currie, 20 de Março de 1833 — 21 de Junho de 1886) foi um espiritualista escocês, famoso por suas alegadas capacidades como médium e por sua relatada habilidade de levitar até várias alturas, esticar-se e manipular fogo e carvões em brasa sem se machucar . 

Ele conduziu centenas de sessões durante um período de 35 anos — às quais compareceram muitos dos mais conhecidos nomes da Era vitoriana — sem ter sido exposto de forma conclusiva ou pública como uma fraude. Home nunca cobrou dinheiro por suas sessões e apresentações espiritualistas, pois ele considerava que havia sido designado espiritualmente com a "missão de demonstrar a imortalidade".

Daniel Home nasceu em Currie, próximo a Edimburgo. Ele alegava que seu pai era filho natural de Alexander Home, 10° Conde de Home, e que sua mãe pertencia a uma família que se acreditava ser dotada de faculdade premonitória. Sobre o primeiro ponto pode haver alguma disputa, pois até que sua carreira florescesse como um médium na Inglaterra, seu sobrenome era sempre escrito como "Hume" e ele teve, na verdade, que negociar com o ministro da paróquia onde se casou o uso do seu sobrenome.

Quando fez nove anos, ele foi levado com sua tia e seu tio para os Estados Unidos. Em 1850 sua mãe morreu e em breve a casa de sua tia começou a ser perturbada com batidas semelhantes às que tinham ocorrido dois anos antes na casa das Irmãs Fox. Sua tia, com medo de o menino ter feito entrar o demônio, expulsou o jovem Home de casa, o que fez com que ele se visse vagando pelo país, parando nas casas dos amigos que queriam ver suas habilidades como médium.

Esse modo de vida iria durar mais de 20 anos, uma vez que ele nunca pediu dinheiro para as suas sessões, apesar de ter sempre vivido muito bem com os presentes, as generosas doações e a hospedagem que recebia de seus muitos admiradores ricos. Há aparentemente duas razões pelas quais Daniel Home se recusava a receber pagamento direto: a primeira é que ele se via como em uma "missão para demonstrar a imortalidade" e a segunda, a que ele queria interagir com seus clientes como entre um cavalheiro e outro e não como um empregado deles (Doyle 1926: volume 1, 186-190).

Em 1855, em uma viagem financiada por espiritualistas estadunidenses, ele foi à Inglaterra. Ele é descrito nessa época como alto e magro, com olhos azuis e cabelo ruivo, vestido displicentemente e com uma séria doença pulmonar. Daniel Home fazia sessões para pessoas notáveis a plena luz do dia e produzia fenômenos tais como mover objetos à distância (Doyle 1926: volume 1, 188-192). Alguns dos primeiros convidados às suas sessões incluíam o cientista David Brewster, os romancistas Edward Bulwer-Lytton e Anthony Trollope, o socialista Robert Owen, e o swedenborgiano James John Garth Wilkinson (Doyle 1926: volume 1, 193-195).


Sua fama cresceu, impulsionada particularmente pelos seus extraordinários feitos de levitação. Sir William Crookes alegou saber de mais de 50 ocasiões nas quais Home tinha levitado, muitas das quais a uma altura de um metro e meio a dois metros do solo e "a plena luz do dia" (Doyle 1926: volume 1, 195-197). Talvez os feitos mais comuns fossem como esse, relatado por Frank Podmore: "Todos o vimos elevar-se do chão até uma altura de um metro e oitenta, ficar lá por cerca de dez segundos e, depois, descer vagarosamente" (Podmore 1902, p. 254).

Nos anos seguintes ele viajou pela Europa continental, sempre como convidado de patrocinadores ricos. Em Paris ele foi convocado às Tulherias para desempenhar uma sessão para Napoleão III. Ele desempenhou para a Rainha Sofia da Holanda que escreveu sobre a experiência:

"Eu o vi quatro vezes … eu senti uma mão tocando a ponta dos meus dedos, vi um sino dourado pesado movendo-se sozinho de uma pessoa para outra, vi meu lenço mover-se sozinho e retornar para mim com um laço … Ele mesmo é um jovem pálido, doentio e bastante bonito mas sem uma aparência ou qualquer coisa que pudesse quer fascinar quer assustar alguém. É maravilhoso. Eu me sinto tão feliz de ter visto isso …"

Em 1866 a Sra. Lyon, uma viúva rica, adotou-o como filho e lhe concedeu £ 60.000, em uma aparente tentativa de obter ingresso na alta sociedade. Descobrindo que a adoção não tinha alterado sua situação social, ela se arrependeu do que havia feito e entrou com uma ação para obter de volta o seu dinheiro sob a alegação de que ele tinha sido obtido por influência espiritual.

Sob a lei britânica, à defesa cabe o peso de provar contra nesses casos e provar contra era impossível por falta de evidências físicas. Concordantemente, o caso foi decidido contra Daniel Home, o dinheiro da Sra. Lyon foi devolvido e a imprensa aproveitou para ridicularizá-lo. É de se notar que os conhecidos de Daniel Home na alta sociedade entenderam que ele se havia comportado como um completo cavalheiro e ele não perdeu um único de seus amigos importantes (Doyle 1926: volume 1, 207-209).

Home encontrou-se com um dos amigos mais próximos em 1867, o jovem Lord Adare (mais tarde Windham Thomas Wyndham-Quin, o Quarto Conde de Dunraven and Mount). Adare ficou fascinado por Home e começou a documentar as sessões que eles fizeram. Uma das levitações mais famosas de Home ocorreu em uma dessas sessões no ano seguinte. Diante de três testemunhas (Adare, o Capitão Wynne, e James Ludovic Lindsay (Lord Lindsay), Home teria levitado para fora de uma janela de um quarto em um terceiro andar e entrado de volta pela janela do quarto ao lado (Doyle 1926: volume 1, 196-197).

Home casou-se duas vezes. Em 1858 ele se casou com Alexandria de Kroll, a filha de 17 anos de uma família nobre russa. Eles tiveram um filho, Gregoire, mas Alexandria adoeceu de tuberculose e morreu em 1862. Em outubro de 1871, Home casou-se pela segunda vez com Julie de Gloumeline, uma rica senhora russa que ele conheceu em São Petersburgo. No correr dos fatos ele converteu-se à fé grega ortodoxa.

Agora, com 38 anos ele se aposentou. Sua saúde estava mal – a tuberculose, da qual ele tinha sofrido pela maior parte de sua vida, estava avançando – e seus poderes, ele afirmava, estavam falhando. Ele morreu em 21 de junho de 1886 e foi enterrado ao lado de sua filha no cemitério de St. Germain-en-Laye. (Lamont, 2005 p. 222-223).

De acordo com o escritor e médico Sir Arthur Conan Doyle, Home era raro pelo fato de possuir poderes em quatro tipos diferentes de mediunidade: voz direta (a habilidade de deixar os espíritos falarem de forma audível); psicofonia (a habilidade de deixar os espíritos falarem através de si); clarividência (a habilidade de se ver coisas que estão fora de vista); e mediunidade de efeitos físicos (mover objetos à distância, levitação, materialização, etc.).

Entre 1870 e 1873, o cientista Sir William Crookes conduziu experimentos para determinar a validade dos fenômenos produzidos por três médiuns: Florence Cook, Kate Fox e D. D. Home. O relatório final de Crookes (1874) concluiu que os fenômenos produzidos pelos três médiuns eram genuínos (Crookes, 1874), um resultado que gerou polêmica entre o "establishment" científico da época. Crookes registrou que em alguns experimentos ele controlou e segurou Home colocando seus pés em cima dos dele (Crookes, 1874).

No Brasil, é comemorado a 16 de dezembro o dia da "Levitação" em homenagem a Home que nesse dia, em 1868, teria levitado passando através da janela da sua casa em Londres para entrar pela janela de um vizinho, a 24 metros de altura. É de notar que este fenômeno foi presenciado pelo visconde Adare, o senhor de Lindsay e o capitão Winne, respeitados e prestigiados membros da sociedade londrina da altura.


Biografia adaptada da Wikipedia

Alongamento Corporal


O mais prolífico realizador de milagres modernos foi, inquestionavelmente, o médium escocês do século 19 Daniel Dunglas Home (1833-86), que, certa vez, chegou a flutuar para fora de uma janela localizada no segundo pavimento de um edifício em plena luz do dia, diante de várias testemunhas.

Entre os feitos miraculosos de Home estavam a capacidade de mover objetos pesados, conversar com espíritos de pessoas falecidas, e esfregar brasas em seu rosto sem sofrer nenhum dano aparente. Um homem de físico frágil, Home também podia alongar seu corpo, acrescentando até 15 centímetros a sua altura normal.

Em uma certa ocasião, esse alongamento corporal foi testemunhado por lorde Adare, filho do terceiro conde de Dunraven. Colocado entre o lorde e um certo sr. Jencken, Home entrou no estado familiar de transe em que muitos de seus milagres foram realizados.

- O espírito guardião é muito alto e forte - concluiu ele.

Sem que ninguém esperasse, Home cresceu mais 15 centímetros, e sua cabeça ultrapassou em altura a dos dois homens atônitos que estavam a seu lado.

Respondendo a suas perguntas, Home declarou:

- Daniel vai mostrar-lhes como é - e desabotoou seu casaco. Ele sempre se referia a si mesmo na terceira pessoa, quando estava em transe.

Lorde Adare notou que o alongamento parecia ter acontecido da cintura para cima, pois 10 centímetros de carne nova apareciam entre o colete e a cintura da calça de Home.

Então, Home voltou ao tamanho original, e disse:

- Daniel vai crescer outra vez.

E, para perplexidade de Lorde Adare, voltou a aumentar de tamanho.

Home começou a caminhar pelo aposento, batendo os pés para mostrar que estavam firmemente plantados no chão, e voltou, lentamente, a sua altura normal. Como acontecia com a maioria de seus feitos fantásticos, Home realizava o "truque" de alongamento corporal com a maior tranquilidade.


Fonte: Livro «O Livro dos Fenômenos Estranhos» de Charles Berlitz

Os OVNIs são Mencionados na Bíblia?

A Crucificação, (1350) - Afresco do monastério Visoki Decani, em Kosovo, onde aparecem objetos voadores.

"Não vos esqueçais da hospitalidade, pela qual alguns, sem o saberem, hospedaram anjos." — Hebreus 13:2

Definição: Existem passagens bíblicas que alguns acreditam descrever seres não humanos e espaçonaves extraterrestres despontando no céu; existem também relatos de atos de Jesus que alguns acreditam ser condizentes com os de um visitante alienígena.

O que os crentes dizem: As passagens bíblicas, tanto do Velho quanto do Novo Testamento, contam histórias (ainda que numa linguagem metafórica) de alienígenas e espaçonaves alienígenas visitando a Terra. Além do mais, muitos dos relatos das façanhas de Jesus poderiam ser facilmente interpretados como uma descrição das ações de um extraterrestre.

O que os céticos dizem: Os céticos com inclinação religiosa dizem que tal especulação é uma blasfêmia e que os relatos da Bíblia sobre manifestações celestes são relatos verdadeiros de aparições divinas. Os agnósticos e ateus dizem que tudo na Bíblia é pura fantasia, tudo gerado pela mente dos escritores. As histórias não provam nem uma interação extraterrestre, nem divina, com a humanidade.

Qualidade das provas existentes: Boa.

Probabilidade de o fenômeno ser paranormal: Inconclusiva.

OVNIs na Bíblia?

Alguns ufólogos acreditam do fundo do coração que a raça humana possui progenitores extraterrestres e que toda a simbologia religiosa é uma prova das tentativas do homem antigo de entender e documentar as visitas alienígenas e a aparição de aeronaves extraterrestres na Terra.

Se partirmos do pressuposto de que a linguagem bíblica é figurativa e imagística, e não literal e realista, então a interpretação "OVNI/alien" é, de certa forma, válida.

Êxodo 13:21-22: "O Senhor ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvens para os guiar pelo caminho, e de noite numa coluna de fogo para os alumiar; de sorte que podiam marchar de dia e de noite. Nunca a coluna de nuvens deixou de preceder o povo durante o dia, nem a coluna de fogo durante a noite."

Interpretação? Um OVNI guiou Moisés e os judeus para fora do Egito. A espaçonave era cinza-escuro durante o dia e iluminada à noite.

Juízes 20:40: "Mas, quando a nuvem de fumo começou a subir da cidade, os benjamitas olharam para trás e viram o incêndio de Gibeá subir até o céu."

Interpretação? Uma espaçonave levantou voo de Gibeá, e sua fumaça e chamas puderam ser vistas a distância.

Neemias 9:11-12: "Fendestes o mar diante deles e passaram a pé enxuto; mas precipitastes nos abismos todos os que os perseguiam, como uma pedra é atirada às profundezas das águas. Vós os guiastes durante o dia por uma coluna de nuvem, e à noite por uma coluna de fogo, para iluminar o caminho que deviam seguir."

Interpretação? O OVNI que guiou os judeus para fora do Egito abriu o mar Vermelho do alto, provavelmente usando algum tipo de feixe de energia que dividiu as águas e abriu caminho para os israelitas.

Jesus era um extraterrestre? Jesus foi um extraterrestre enviado à Terra como um escoteiro disfarçado? Seria possível que este alien não tivesse a intenção de que toda uma religião fosse criada à sua volta? Eis aqui um olhar sobre algumas das interpretações mais convincentes de que Jesus era um extraterrestre:

Jesus era o Filho de Deus: Jesus nasceu de uma virgem.

Jesus era um ET: Jesus era um ser geneticamente modificado que foi implantado numa mulher humana a fim de nascer na Terra.

Filho de Deus: o anjo Gabriel visitou Maria para lhe contar que ela ficaria grávida do Espírito Santo.

ET: um emissário alienígena visitou Maria para informá-la do implante.

Filho de Deus: a estrela de Belém guiou os três Reis Magos até o local do nascimento de Jesus.

ET: uma nave alienígena atravessou o céu bem à vista de três sentinelas alienígenas cuja missão era monitorar o nascimento do alien/humano.

Filho de Deus: no Evangelho segundo São Mateus 3:16-17, Jesus sobe aos céus nos braços de Deus Pai após ser batizado.

ET: Jesus, o ET, foi teleportado da água por um raio antigravidade, que incidiu sobre ele de uma aeronave alienígena.

Filho de Deus: Jesus caminhou sobre a água.

ET: Jesus, o ET, possuía algum tipo de aparelho antigravitacional que permitiu a ele passar a ideia de estar caminhando sobre a água.

Filho de Deus: Jesus ressuscitou Lázaro dos mortos.

ET: Jesus, o ET, possuía habilidades médicas avançadas que lhe permitiram reviver Lázaro, o qual provavelmente não estava morto, apenas num coma profundo.

Filho de Deus: no Evangelho segundo São João 8:23, Jesus disse a seus seguidores: "Vós sois cá de baixo, eu sou lá de cima. Vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo."

ET: "Vocês são terráqueos, eu sou um extraterrestre."

Filho de Deus: Jesus transformou a água em vinho.

ET: Jesus, o ET, possuía algum tipo de aparelho que podia transmutar em nível subatômico as moléculas da água em moléculas de vinho.

Filho de Deus: Jesus multiplicou miraculosamente os pães e peixes.

ET: Jesus, o ET, tinha alguma espécie de aparelho sintetizador de comida de tecnologia avançada que "lia" o original e então era capaz de duplicá-lo completamente tantas vezes quanto alguém desejasse.

Filho de Deus: Jesus passou 40 dias e 40 noites no deserto.

ET: Jesus, o ET, passou 40 dias e 40 noites na nave-mãe relatando suas descobertas terrenas e obtendo um merecido descanso.

Filho de Deus: Jesus ressuscitou dos mortos.

ET: na hora em que os observadores viram Jesus "entregando seu espírito" a seu Pai celeste, seus parceiros alienígenas, que o sobrevoavam da nave-mãe, puseram-no num estado de animação suspensa e depois o "reativaram" quando ele se encontrava deitado na tumba.

Filho de Deus: Jesus ascendeu fisicamente ao céu.

ET: Jesus, o ET, foi "teleportado" para a nave-mãe enquanto seus seguidores observavam. (Esta também foi a forma como sua mãe, Maria, "subiu aos céus".)

Filho de Deus: Jesus falou com Paulo enquanto ele viajava pela estrada para Damasco, e Paulo converteu-se imediatamente ao cristianismo.

ET: Jesus, o ET, falou com Paulo de uma nave espacial, aterrorizando-o e intimidando-o de tal forma que ele concordou de boa vontade em fazer o que quer que a voz mandasse. 


Fonte: Os 100 Maiores Mistérios do Mundo - Stephen J. Spugnesi - Difel 2004

Chuvas Estranhas

Chuva de peixes em Singapura (16/02/1861).

Chuvas de animais, carne ou sangue, são fenômenos aparentemente lendários, relativamente raros, que aconteceram em algumas cidades ao longo da história. Os animais que costumavam cair do céu eram peixes e sapos, e por vezes pássaros. Em certas ocasiões os animais sobreviviam à queda, principalmente os peixes.

Em muitos casos, no entanto, os animais morriam congelados e caiam completamente encerrados em blocos de gelo. Isto demonstra que foram transportados a grandes altitudes, onde as temperaturas são negativas. A violência deste fenômeno é palpável quando caem apenas pedaços de carne, e não animais inteiros.

Na literatura antiga abundam os testemunhos de chuva de animais, ou de chuvas de diversos objetos, alguns deles orgânicos.

Poder-se-ia remontar ao Antigo Egito se se der crédito ao papiro egípcio de Alberto Tulli (cuja própria existência é controversa) e do qual se diz que registraria fenômenos estranhos, como o surgimento daquilo que a literatura sobre fenômenos paranormais interpreta como um OVNI. De modo particular, registra-se também a queda de peixes e pássaros do céu.

Na Bíblia narra-se como Josué e o seu exército foram auxiliados por uma chuva de pedras que cai sobre o exército amorita. A Bíblia evoca outras intervenções celestiais deste tipo, como o surgimento de rãs, numa das dez pragas do Egito (Êxodo 8:5,6).

No século IV a.C., o autor grego Ateneu menciona uma chuva de peixes que durou três dias na região de Queronea, no Peloponeso. No século I, o escritor e naturalista Plínio, o Velho descreveu a chuva de pedaços de carne, sangue e outras partes animais como rã. Finalmente, na Idade Média, a frequência do fenômeno em certas regiões levou as pessoas a crer que os peixes nasciam já adultos nos céus, e em seguida caíam no mar.

Graças à imprensa escrita, na época moderna produziam-se muitos testemunhos, proferidos por um número cada vez maior de pessoas, o que lhes aumenta sua plausibilidade. Indicamos alguns exemplos:

Em 1578, grandes ratos amarelos caíram sobre a cidade norueguesa de Bergen.

Segundo um tal John Collinges, uma chuva de sapos fustigou a aldeia inglesa de Acle, em Norfolk. O taverneiro do lugar retirou-os às centenas.

Numa cidade do Essex, Inglaterra, aconteceu uma chuva de peixes como salmões, arenques e pescadas. Os peixes foram vendidos pelos comerciantes locais.

Em 11 de Julho de 1836, um professor de Cahors enviou uma carta à Academia de Ciências Francesa, que dizia:

"Esta nuvem trovejou sobre o caminho, a umas sessenta toesas de onde estávamos. Dois cavalheiros que vinham de Toulouse, nosso destino, e que estiveram expostos à tormenta, viram-se obrigados a usar os seus abrigos; mas a tormenta os surpreendeu e os assustou, já que se viram vítimas de uma chuva de sapos! Aceleraram a sua marcha e apressaram-se; ao encontrar a diligência contaram-nos o que lhes acabava de acontecer. Vi então que a sacudir seus abrigos diante de nós, caíram pequenos sapos." — Fragmento da carta de M. Pontus, professor de Cahors, dirigida a M. Arago.

A 16 de fevereiro de 1861, a cidade de Singapura sofreu um sismo, seguido de três dias de abundantes chuvas. Após o final das chuvas, nos charcos havia milhares de peixes. Alguns afirmaram tê-los visto cair do céu, embora outros se mostrassem mais reservados ao dar o seu testemunho. Quando as águas se retiraram, se encontraram outros peixes nos charcos que tinham secado, notavelmente em lugares que não tinham sofrido inundações.

A revista “Scientific American” registra um aguaceiro de serpentes que chegavam às 18 polegadas de comprimento (cerca de 45 cm) em Memphis, em 15 de janeiro de 1877.

Nos Estados Unidos, se registraram mais de quinze eventos de chuvas de animais, apenas no século XIX.

Em junho de 1880 abateu-se uma chuva de codornas sobre Valência.

Em 7 de setembro de 1953, milhares de rãs caíram do céu sobre Leicester, em Massachusetts, Estados Unidos.

Em Birmingham ocorreu uma chuva de sapos em 1954.

Em 1968, os diários brasileiros registraram uma chuva de carne e sangue, numa área relativamente grande.

Canários mortos caíram na cidade de St. Mary's City em Maryland, Estados Unidos, Janeiro de 1969. Segundo o diário Washington Post de 26 de janeiro desse ano, o voo dos canários interrompeu-se subitamente, como se tivesse acontecido uma explosão, que ninguém viu nem escutou.

Em 1978, choveram caranguejos na Nova Gales do Sul, na Austrália.

Em 2002, choveram peixes numa aldeia nas montanhas do interior da Grécia. O diário "Le Monde" escreveu:

"Atenas não é sempre bela, e menos ainda o são as montanhas no norte de Grécia. Mas as tormentas têm às vezes o bom gosto de ajudar a sorrir e a sonhar. Na terça-feira choveram centenas de pequenos peixes na aldeia de Korona, nas altas montanhas" — Georges, Pierre. Poissons volent. Le Monde, 13 de dezembro de 2002

Em 2007, choveram pequenas rãs em El Rebolledo (província de Alicante, Espanha).

Em 2010, choveram pequenos peixes brancos, muitos deles ainda vivos, em Lajamanu, localidade de 669 habitantes, no norte da Austrália.

Na noite de passagem de ano de 2010 para 2011, mais de três mil aves da espécie tordo-sargento caíram mortas em Beebe, no Arkansas, possivelmente devido ao pânico que o fogo-de-artifício causou nos animais.

Teorias científicas

Um tornado pode ser o responsável pela captura de animais e a posterior queda a grandes distâncias do seu lugar de origem.

Contrariamente à generalidade dos seus colegas contemporâneos, o físico francês André-Marie Ampère considerou que os testemunhos de chuva de animais eram verdadeiros. Ampère tentou explicar as chuvas de sapos com uma hipótese que depois foi aceita e refinada pelos cientistas. Perante a Sociedade de Ciências Naturais, Ampère afirmou que em certas épocas os sapos e as rãs vagabundeiam pelos campos em grande número, e que a ação dos ventos violentos pode capturá-los e dispersá-los a grandes distâncias.

Mais recentemente, surgiu uma explicação científica do fenômeno, que envolve trombas marinhas. Os ventos que se acumulam são capazes de capturar objetos e animais, graças a uma combinação de depressão na tromba, e da força exercida pelos ventos dirigidos no seu sentido.

Em consequência, estas trombas, ou mesmo tornados, poderão transportar animais a alturas relativamente grandes, percorrendo grandes distâncias. Os ventos são capazes de recolher animais presentes numa área relativamente extensa, e deixam-nos cair, em massa e de maneira concentrada, sobre pontos localizados.

Mais especificamente, alguns tornados e trombas poderiam secar completamente um pequeno lago, para deixar cair mais longe a água e a fauna contida nesta, na forma de chuva de animais.

Esta hipótese aparece reafirmada pela natureza dos animais destas chuvas: pequenos e leves, geralmente surgidos do meio aquático, como batráquios e peixes. Também é significativo o fato de que, com frequência, a chuva de animais seja precedida por uma tempestade. No entanto, há alguns pormenores que não puderam ser explicados. Por exemplo, que os animais por vezes estejam vivos mesmo depois da queda, e alguns em perfeito estado. Outro aspecto é o de que normalmente cada chuva de animais se manifeste com uma só espécie de cada vez, quase nunca as misturando nem incluindo algas ou outras plantas. Como nota William R. Corliss:

"... o mecanismo de transporte, qualquer que seja a sua natureza, prefere selecionar uma só espécie de peixe ou rã, ou aquele animal que esteja no menu do dia."

Em alguns casos, certas explicações científicas negam a existência de chuvas de peixes. Por exemplo, no caso da chuva de peixes em Singapura de 1861, o naturalista francês Francis de Laporte de Castelnau explica que o aguaceiro ocorreu durante uma migração de peixes-gato, e que estes animais são capazes de se arrastar sobre a terra, para ir de um charco a outro; como as enguias, que podem percorrer vários quilómetros nos prados úmidos, ou os lúcios que vão reproduzir-se nos campos inundados. Além disso, explica que o fato de ter visto os peixes no solo imediatamente após a chuva não é mais que uma coincidência, já que normalmente estes animais se deslocam sobre o solo úmido rastejando, depois de uma chuvada ou de uma inundação.

Rãs e sapos se deslocam pulando, em meio a um tornado esse comportamento pode tornar mais fácil a "captura" destes animais pelos fortes ventos, o que não ocorreria por exemplo com mamíferos que se escondem das tempestades em tocas. Quanto ao fato das chuvas serem sempre restritas a uma determinada espécie de animal e de não ser acompanhada pela queda de outros organismos aquáticos, dois fatores devem ser levados em consideração.

O primeiro que muitas espécies de uma mesma família taxonômica (ranidae por exemplo) competem entre si, não habitando uma mesma área, onde porventura ocorreria a captura. O segundo que animais de espécies muito diferentes teriam densidades e aerodinâmicas também muito diferentes o que faria com que, caso fossem capturadas juntas por fortes ventos ou trombas d’água, seria grande a possibilidade de que caíssem sobre a terra em pontos diferentes.

Pluie de poissons, gravure d'O. Magnus, 1555

Explicações antigas

Desde há muito tempo, a ciência tem descartado muitas das explicações que são dadas; são consideradas exageradas, pouco viáveis ou não comprováveis.

Em 1859, um testemunho de uma chuva de peixes na aldeia de Mountain Ash, em Gales, enviou uma espécie ao Jardim Zoológico de Londres. J. E. Gray, diretor do Museu Britânico, declarou que "a luz dos fatos, o mais provável é que se trate de uma partida: um dos empregados de Mr. Nixon lhe esvaziou em cima um balde cheio de peixes, e este último pensou que caíam do céu".

Logicamente, as chuvas de animais estiveram sem explicação científica durante muito tempo, enquanto se desenvolviam hipóteses que iam desde as tentativas lógicas de explicar o fenômeno, até às mais absurdas. No século IV a.C., o filósofo grego Teofrasto negou a existência de chuvas de sapos, explicando simplesmente que os sapos não caem durante a chuva, mas esta última os faz sair da terra.

No século XVI, Reginald Scot aventurou-se a dar uma hipótese. Segundo ele, "é certo que algumas criaturas são geradas de maneira espontânea, e não necessitam de pais. Por exemplo, (....) estas rãs não vinham de nenhuma parte, foram transportadas pela chuva. Estas criaturas nascem dos aguaceiros…".

No século XIX pensava-se que a evaporação da água levava os ovos de rã para as nuvens, onde eclodiam e caíam à terra num aguaceiro.

Chuva de cães, gatos e garfos. Caricatura inglesa do séc. XIX

Explicações contemporâneas alternativas

Entre as explicações não científicas do fenômeno, se encontram as interpretações sobrenaturais. Ainda assim persistem as que alegam intervenções de seres extraterrestres. Nas hipóteses sobrenaturais, que podem ser de natureza religiosa, dependendo do tipo de objeto ou animal que cai na terra, o fenômeno é perceptível e seria um castigo, como o caso das pedras que caíram sobre o exército amorita no Antigo Testamento, ou como um sinal providencial de bondade divina, quando se trata de animais comestíveis.

Algumas das hipóteses, impossíveis de provar, são sobre a intervenção de entes extraterrestres, e descrevem estes visitantes reconhecendo grandes quantidades de animais como lastro, para depois os deixar cair antes de abandonar o nosso planeta. As chuvas de sangue e carne estariam vinculadas a uma seleção feita pelos visitantes, para aligeirar os seus armazéns.

Igualmente esotéricas, há hipóteses baseadas na existência de várias dimensões e planos espaço-temporais. Estas hipóteses aceitam a priori a possibilidade do teletransporte, para tentar explicar o porquê dos animais se encontrarem ali onde não deveriam estar. O jornalista Charles Hoy Fort propôs algumas destas hipóteses.

Segundo Fort, existiu no passado uma força capaz de transportar os objetos de modo instantâneo, que já não se manifesta senão em ações desordenadas, como as chuvas de peixes. Outra hipótese com força tem por base a suposta existência de um "mar superior dos Sargaços", uma espécie de reservatório celestial que aspira e esculpe os objetos terrestres.

Referências a chuvas de animais na linguagem e arte

A referência mais conhecida do fenômeno é a expressão em língua inglesa "it's raining cats and dogs" (chove gatos e cães) que se encontra pela primeira vez na forma escrita na obra de Jonathan Swift, "A Complete Collection of Polite and Ingenious Conversation", publicada em 1738, mas cuja origem permanece incerta. Uma explicação será dada pelo francês arcaico "catadoupe" (queda de água, cascata). Outra explicação será a de que na Idade Média, as fortes chuvas varriam os corpos de gatos e cães mortos no cimo dos telhados, fazendo-os cair na rua...

Muitas línguas possuem igualmente expressões deste tipo, mas nada prova que estas expressões sejam inspiradas na realidade. Mesmo assim, o galês tem uma expressão que se pode traduzir por chovem velhas e paus, em alemão há chuva de cachorros e em polaco de rãs.

Literatura e cinema

A documentação mais completa de chuvas de animais deve-se ao jornalista Charles Hoy Fort (natural dos Estados Unidos) que consagrou a sua vida de jornalista aos fenômenos inexplicados. A Biblioteca nacional de Nova Iorque conserva mais de 60 000 fichas feitas por este autor, das quais muitas sobre casos de chuva de animais.

No cinema, Paul Thomas Anderson levou a tela uma chuva de sapos no seu filme "Magnolia". Assiste-se igualmente a uma chuva de peixes no primeiro longa-metragem do realizador francês Luc Besson, "Le Dernier Combat", e na adaptação cinematográfica de "Chapeau melon et bottes de cuir" de Jeremiah Chechik.

No seu livro "Sido", a romancista Colette conta-nos uma chuva de rãs, esquentadas:

"Ao passarem as nuvens, tomei um banho sentada, Antoine molhado, e a capa cheia de água, uma água quente, uma água a dezoito ou vinte graus. E quando Antoine quis virar a capa, o que encontramos? Rãs minúsculas, vivas, pelo menos trinta trazidas pelos ares por um capricho do Sul, por uma tromba de água quente, um desses tornados que em espiral reúne e leva a cem lugares um penacho de areia, sementes, insetos …".

Em "Le Capitaine Pamphile" de Alexandre Dumas, a evocação da chuva de sapos nos jornais suscita um delírio imaginativo de uma das personagens:

"... lembrava-se de ter lido, alguns dias antes, sobre o episódio de Valenciennes, que esta cidade fora local de um fenômeno fortemente singular: uma chuva de sapos caíra com trovoada e relâmpagos, e em tal quantidade, que as ruas da cidade e os tetos das casas estavam cobertos. Imediatamente depois, o céu, que duas horas antes era cor de cinza, era agora azul índigo. O contratado do Constitutionnel olha para cima, e, vendo o céu negro como tinta e Tom no seu jardim, sem saber o modo como ele tinha entrado, começou a acreditar que um fenômeno parecido com o de Valenciennes estava a ponto de se repetir, com a única diferença de que em vez de sapos, choveria ursos. Um não era mais surpreendente que outro; o granizo era mais grosso e perigoso: e é tudo." — Alexandre Dumas, Le Capitaine Pamphile, cap. VIII.




Texto extraído e adaptado do link Wikipédia - Chuva de Animais, onde se encontra toda a referência bibliográfica sobre o assunto.

Arca da Aliança - Análise


"Abriu-se o templo de Deus no céu e apareceu, no seu templo, a arca do seu testamento. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e forte tempestade."

Definição: Segundo o Velho Testamento, a Arca da Aliança era um baú que continha os Dez Mandamentos escritos em tábuas de pedra e oferecidos a Moisés por Deus. A Arca era carregada pelos hebreus durante suas andanças pelo deserto.

O que os crentes dizem: A Arca da Aliança era real, os Dez Mandamentos encontravam-se dentro dela e ela podia ou não conter o sangue de Cristo em sua tampa.

O que os céticos dizem: A Arca da Aliança é uma lenda bíblica, a probabilidade de sua existência é bem pequena.

Qualidade das provas existentes: Inconclusiva.

Probabilidade de o fenômeno ser paranormal: Inconclusiva.

A primeira menção à Arca da Aliança na Bíblia ocorre no Livro do Êxodo, quando Deus deu a Moisés as instruções e dimensões específicas para a construção da Arca:

Farão uma arca de madeira de acácia. Seu comprimento será de dois côvados e meio, sua largura, de um côvado e meio, e sua altura, de um côvado e meio.

Tu a recobrirás de ouro puro por dentro, e farás por fora, em volta dela, uma bordadura de ouro.

Fundirás para a arca quatro argolas de ouro, que porás nos seus quatro pés, duas de um lado e duas de outro.

Farás dois varais de madeira de acácia, revestidos de ouro.

Passarás os varais nas argolas fixadas aos lados da arca, para se poder transportá-la.

Uma vez passados os varais nas argolas, delas não serão mais removidos.

Porás na arca o testemunho que eu te der.

Uma caixa de madeira, revestida de ouro e carregada por varais inseridos através de argolas.

Deus então continuou suas instruções, detalhando a tampa e os dois anjos que guardariam a Arca:

Farás também uma tampa de ouro puro, cujo comprimento será de um côvado e meio, e a largura, de um côvado e meio.

Farás dois querubins de ouro; e os farás de ouro batido, nas duas extremidades da tampa, um de um lado e outro de outro, fixando-os de modo a formar uma só peça com as extremidades da tampa.

Terão estes querubins suas asas estendidas para o alto, e protegerão com elas a tampa, sobre a qual terão a face inclinada.

Colocarás a tampa sobre a arca e porás dentro da arca o testemunho que eu te der.

Ali virei ter contigo, e é de cima da tampa, do meio dos querubins que estão sobre a arca da aliança, que te darei todas as minhas ordens para os israelitas.

As pessoas que acreditam na Bíblia dizem que estas passagens confirmam a construção e, portanto, a existência da Arca da Aliança. Muitos historiadores garantem que a Arca provavelmente existiu, mas que deve ter sido destruída quando os babilônios atacaram Jerusalém em 587 a.C. e destruíram o Templo.

E quanto às afirmações de que a Arca era um "capacitor espiritual" que canalizava os poderes de Deus e podia ser usada pelos fiéis para derrotarem seus inimigos? Essa foi a premissa usada por Steven Spielberg em seu filme de 1981 "Os Caçadores da Arca Perdida". Não há como confirmar tal teoria, uma vez que a localização atual da Arca, se é que ela na verdade existiu, é desconhecida.

No entanto, segundo a Bíblia, a Arca já não se encontra mais na Terra. Ela está no paraíso (veja a epígrafe), e se isso for verdade, as tentativas arqueológicas de encontrá-la são um exercício inútil.

Todavia, a importância teológica da Arca que contém as tábuas de pedra dadas a Moisés por Deus é incalculável e, por conseguinte, a busca continua.

De várias formas.


Fonte: Os 100 Maiores Mistérios do Mundo - Stephen J. Spugnesi - Difel 2004

O Teste

Cena do filme "No Mundo de 2020" (Soylent Green, 1973).

Na noite anterior ao teste, Les ajudou o pai a estudar na sala de jantar. Jim e Tommy dormiam no andar de cima e Terry estava costurando na sala de estar, o rosto inexpressivo enquanto a agulha se movia rápida e ritmicamente para dentro e para fora do pano.

Tom Parker estava sentado com o corpo ereto, as mãos ossudas e entrecortadas por veias cruzadas em cima da mesa, enquanto os olhos azuis-claros olhavam fixamente para os lábios do filho, como se acreditasse que isso o ajudaria a compreender melhor.

Tinha oitenta anos e esse era o seu quarto teste.

— Bem — disse Les, lendo o modelo de questionário que o Dr. Trask havia fornecido —, repita as seguintes séries de números.

— Séries de números — murmurou Tom, tentando assimilar as palavras à medida que chegavam até ele. Mas as palavras já não eram assimiladas rapidamente; pareciam se demorar nas dobras de seu cérebro, como insetos sobre um animal preguiçoso.

Mentalmente, repetiu as palavras: séries de números... séries de números. Já tinha entendido. Ele olhou para o filho e esperou.

— Então? — disse impaciente, depois de um momento de silêncio.

— Papai, eu já disse a primeira — observou Les.

— Bem... — seu pai tentava encontrar as palavras certas. — Por gentileza, diga-me... Faça-me a gentileza de...

Les suspirou desanimado.

— Oito, cinco, onze, seis — disse ele.

Os velhos lábios se mexeram, as antigas engrenagens da mente de Tom puseram-se em marcha laboriosamente.

— Oito... c-cinco... — os olhos claros piscavam lentamente — onze, seis — concluiu Tom de um só fôlego; então, endireitou as costas, orgulhoso.

Sim, bom, pensou, muito bom. Não iriam fazê-lo de tolo no dia seguinte; derrotara sua lei assassina. Tinha os lábios apertados e as mãos fortemente cruzadas sobre a alva toalha de mesa.

— O quê? — disse ele, piscando os olhos enquanto Les dizia-lhe alguma coisa. — Fale mais alto — disse, irritado.

— Eu já lhe dei outra sequência de números — disse Les sem perder a calma. — Preste atenção, vou lê-la de novo.

Tom se inclinou um pouco, puxando as orelhas.

— Nove, dois, dezesseis, sete, três — disse Les.

Tom pigarreou alto.

— Fale mais devagar — disse ao filho.

Ainda não havia compreendido o significado de tudo isso. Como podiam esperar que alguém guardasse uma sequência de números tão absurdamente longa?

— O quê? O quê? — perguntou raivosamente, enquanto Les lia os números de novo.

— Papai, o examinador fará a leitura das questões ainda mais rapidamente do que eu. Você...

— Compreendo muito bem — disse o pai, interrompendo-o impaciente. — Muito bem. Deixe-me lembrá-lo de que... entretanto, isso não é... não é um teste. Isso é para estudo. E tolice ir tão rápido. Tolice. Tenho de aprender esse... esse teste — terminou ele zangado, com seu filho e com a maneira com que as palavras desejadas se escondiam em sua mente.

Les encolheu os ombros e baixou o olhar novamente para o questionário:

— Nove, dois, dezesseis, sete, três — leu devagar.

— Nove, dois, seis, sete...

— Dezesseis, sete, pai. — Foi o que eu disse.

— Você disse seis, pai.

— Você acha que eu não sei o que disse!

Les fechou os olhos por um instante.

— Tudo bem, pai — disse ele.

— Então, você vai lê-los novamente ou não? — Tom perguntou incisivo.

Les leu os números novamente e, enquanto escutava o pai repetindo a sequência com dificuldade, olhou para Terry na sala de estar.

Ela estava lá sentada, feições imóveis, costurando. Desligara o rádio e Les sabia que ela podia ouvir o seu pai tropeçando nos números.

Ok, disse Les para si mesmo, como se estivesse falando com sua esposa, Ok, eu sei que ele é velho e inútil. Você quer que eu diga isso na cara dele e o apunhale pelas costas? Sei tanto quanto você que ele não vai passar no teste. Permita-me, pelo menos, essa breve hipocrisia. Amanhã, a sentença será dada. Não me obrigue a dizer esta noite e partir o coração desse pobre velho.

— Está certo, creio eu — Les ouviu a voz cheia de dignidade de seu pai dizer e encarou novamente a face magra e enrugada.

— Sim, está certo — apressou-se em confirmar.

Sentiu-se um traidor quando um leve sorriso cintilou no canto da boca de seu pai. Eu o estou enganando, pensou.

— Vamos passar para outra coisa — ele escutou o pai dizer e baixou os olhos rapidamente para as folhas de papel.

O que seria fácil para ele? , pensou, desprezando a si mesmo por tal pensamento.

— Bem, vamos, Leslie — disse o pai com voz tensa. — Não podemos perder tempo.

Tom olhou seu filho folhear as páginas do questionário e cerrou os punhos. No dia seguinte, sua vida estaria em jogo e seu filho simplesmente folheava o teste como se nada de importante fosse acontecer.

— Vamos, vamos — disse ele, com voz chorosa.

Les pegou um lápis com uma corda amarrada e desenhou um círculo pequeno em uma folha de papel em branco. Entregou o lápis ao pai.

— Mantenha a ponta do lápis suspensa sobre o círculo por três minutos — disse ele, subitamente com medo de ter escolhido a questão errada. Já vira as mãos do pai tremerem na hora das refeições, ou se atrapalhando com botões ou zíperes de suas roupas.

Les engoliu em seco, nervosamente, pegou o cronometro, deu a partida e acenou para o pai.

Tom respirou fundo, hesitante, inclinou-se sobre a folha de papel e tentou segurar o lápis por cima do círculo, oscilando ligeiramente. Les o viu apoiar-se sobre o cotovelo, coisa que não seria permitida durante o teste; mas nada disse.

Ficou sentado ali olhando o pai. O colorido da face de seu pai estava desbotando e Les podia ver claramente as pequenas linhas vermelhas de veias estouradas sob a pele de suas bochechas. Olhou a pele ressecada, enrugada salpicada por manchas escuras.

Oitenta anos, pensou. Como se sente um homem quando chega aos 80 anos?

Olhou para Terry de novo. Por um instante, seus olhos se encontraram e nenhum dos dois sorriu ou disse alguma coisa. Então, Terry voltou à costura.

— Acho que os três minutos já se passaram — disse Tom com a voz tensa.

Les consultou o cronômetro.

— Um minuto e meio, pai — disse ele, imaginando se não deveria ter sido melhor ter mentido novamente.

— Bem, então fique de olho no cronômetro — disse-lhe o pai, agitado, o lápis balançando completamente fora do círculo. — Isso deveria ser um teste, não uma.... festa.

Les manteve seus olhos na ponta oscilante do lápis, experimentando um sentimento de completa inutilidade, quando percebeu que estava apenas fingindo e que nada que fizesse poderia salvar a vida do pai.

Pelo menos, pensou, os testes não eram administrados pelos filhos e filhas que votaram a favor daquela lei. Pelo menos, ele não teria de carimbar em letras negras a palavra INADEQUADO sobre o teste de seu pai, decidindo, assim, sua sentença.

O lápis balançou novamente para fora da margem do círculo e voltou ao centro quando Tom deslocou seu braço ligeiramente sobre a mesa, um movimento que o desqualificaria imediatamente nessa questão.

— Esse cronômetro é lento demais! — Tom disse num súbito acesso de raiva.

Les prendeu a respiração e olhou para o cronômetro. Dois minutos e meio.

— Três minutos — disse ele, pressionando o botão.

Tom bateu o lápis irritado:

— Pronto — disse ele. — E um teste idiota esse — assumiu um tom aborrecido.

— Isso não prova nada. Absolutamente nada.

— Você quer responder algumas perguntas sobre dinheiro, pai?

— São as próximas questões do teste? — Tom perguntou, esticando o pescoço para conferir por si próprio, desconfiado.

— Sim — mentiu Les, sabendo que a visão de seu pai estava fraca demais, embora Tom sempre se recusasse a admitir que precisasse de óculos.

— Oh, espere um momento, há outra antes — ele acrescentou, julgando que seria mais fácil para o seu pai. — Eles vão lhe pedir para dizer as horas.

— Que pergunta estúpida — murmurou Tom. — Que diabos...

Estendeu a mão sobre a mesa, apanhou o relógio e o consultou.

— Dez e quinze — disse com ar de desdém.

Les deixou escapar antes que pudesse se conter:

— Mas são onze e quinze, pai.

Seu pai o olhou por um instante como se tivesse sido golpeado. Então, apanhou o relógio novamente e o olhou, torcendo os lábios, e Les teve a terrível premonição de que Tom ia insistir que eram realmente dez e quinze.

— Bem, foi o que eu quis dizer — disse Tom, abruptamente. — Eu me enganei. É claro que são onze e quinze, qualquer idiota saberia disso. Onze e quinze. Esse relógio não vale nada. Os números são muito próximos. Deve ser jogado fora. Agora...

Tom mexeu no bolso e puxou um relógio de ouro.

— Isto é um relógio! — disse ele, orgulhoso. — Vem marcando as horas perfeitamente há 60 anos! Isso sim é um relógio. Não isso aí.

Com desprezo, atirou longe o relógio de Les, que caiu com o mostrador para baixo, quebrando o vidro.

— Veja só — disse Tom rapidamente, para esconder o seu embaraço. Esse relógio não aguenta nada.

Ele evitava o olhar de Les concentrando-se em seu próprio relógio de ouro. Seus lábios se apertaram quando ele abriu a parte de trás do relógio e viu a fotografia de Mary.

Ela, na casa dos 30 anos, com os cabelos louros, encantadora.

Graças a Deus ela não tinha de se submeter a esses testes, pensou. Pelo menos foi poupada disso. Tom nunca pensou que pudesse considerar a morte acidental de Mary, aos 57 anos, uma sorte, mas isso foi antes dos testes.

Ele fechou o relógio e o pôs de lado.

— E só deixar o relógio comigo esta noite — disse ele, num tom mal-humorado. — Vou providenciar um... um vidro decente amanhã.

— Está tudo bem, pai. É só um relógio velho.

— Está tudo bem — disse Tom. — Está tudo bem, é só deixá-lo comigo. Vou providenciar um vidro... decente. Vou conseguir um para você que não quebre, um que não vá quebrar. E só deixá-lo comigo.

Então, Tom respondeu às questões relativas a dinheiro, do tipo: Quantos quartos têm numa nota de cinco dólares? e Se eu tirar 36 centavos de um dólar, quanto de troco você receberá?

Havia questões discursivas e Les ficou ali marcando tempo para o pai.

A casa estava aquecida e silenciosa.

O resultado parecia bastante normal e previsível. Os dois sentados à mesa e Terry costurando na sala de estar. Nisso consistia o horror.

A vida transcorria como de costume. Não se falava em morte. O governo enviava cartas e administrava os testes e aqueles que falhavam eram convocados a comparecer ao centro governamental para receber a injeção.

A lei funcionava, a taxa de mortalidade mantinha-se estável, o problema de superpopulação estava controlado: tudo oficialmente impessoal, sem gritos ou comoções. Ainda assim, eram entes queridos os que estavam sendo assassinados.

— Não se preocupe em ficar marcando o tempo — disse o pai. — Posso responder a essas questões sem que você fique consultando o tempo todo esse relógio.

— Pai, os examinadores vão consultar o relógio.

— Os examinadores são os examinadores — retrucou Tom. — Você não é um examinador.

— Pai, estou tentando ajudá-lo...

— Bem, então, ajude-me, ajude-me. Não fique aí sentado olhando para esse relógio.

— Esse teste é seu, pai, e não meu — começou Les, sentindo as faces queimarem de raiva.

— Se...

— Meu teste, sim, meu teste! — disse o pai de repente, furioso. — Vocês todos esperam por isso, não é? Esperam... que...

As palavras lhe faltaram novamente, pensamentos raivosos se atropelavam em sua mente.

— Você não precisa gritar, pai.

— Eu não estou gritando!

— Pai, os meninos estão dormindo! — Terry subitamente interveio.

— Não me importo se... — Tom interrompeu no meio a frase e recostou-se em sua cadeira, deixando o lápis cair de sua mão, sem perceber, e rolar sobre a toalha de mesa. Ficou ali sentado, tremendo, o peito magro subindo e descendo convulso e as mãos se torcendo descontroladamente sobre o seu colo.

— Você quer continuar, pai? — perguntou Les, contendo sua raiva e nervosismo.

— Eu não peço muito — Tom balbuciou. — Não peço muito da vida.

— Pai, podemos continuar?

O pai se retesou.

— Se você dispuser de tempo — disse ele, com um tom de orgulho, indignado. — Se você dispuser de tempo.

Les olhou o questionário, seus dedos apertando firme as folhas de papel grampeadas.

Questões psicológicas? Não, não podia fazê-las. Como você pode perguntar a um pai de 80 anos o que ele pensa sobre sexo? Um pai carrancudo, para quem o comentário mais inocente é "obsceno"?

— E então? — perguntou o pai, elevando a voz.

— Parece que não tem mais nada — disse Les. — Já estamos nisso quase quatro horas.

— E todas essas páginas que você pulou?

— A maioria delas é relativa à parte física...

Ele viu o pai apertar os lábios e sentiu medo de que Tom dissesse ai sobre isso de novo. Mas tudo o que ele disse foi:

— Que belo amigo.

— Pai, você...

Les não pôde continuar a frase. Era inútil discutir. Tom sabia perfeitamente que o Dr. Trask não poderia emitir outro atestado médico para ele evitar esse teste, como acontecera com os três anteriores.

Les sabia o quão assustado e ultrajado o velho homem se sentia porque teria de tirar as roupas e se expor aos médicos, que lhe fariam perguntas ofensivas, além de sondá-lo e auscultá-lo. Sabia como Tom tinha receio do fato de que, ao vestir novamente as roupas, estaria sendo observado secretamente e alguém marcaria numa tabela como ele se vestia sozinho. Sabia como seu pai estava assustado por saber que, quando fosse comer na cafeteria governamental, no intervalo de um dia inteiro de exames, estaria sendo observado novamente na expectativa de deixar cair um garfo ou uma colher, ou derrubar um copo de água, ou deixar respingar molho em sua camisa.

— Pedirão que você assine seu nome e escreva seu endereço — disse Les, desejando que o pai se esquecesse da parte física e sabendo como Tom se sentia orgulhoso de sua caligrafia.

Fingindo ainda estar irritado, o velho homem pegou o lápis e começou a escrever. Eu os enganarei a todos, pensou, enquanto o lápis se movia pela página com movimentos fortes e seguros.

"Sr. Thomas Parker", escreveu, "Brighton Street, 2.719, Blairtown, Nova York".

— E a data — disse Les.

O pai escreveu "17 de janeiro de 2003" e sentiu um calafrio. O teste estava marcado para o dia seguinte.

Estavam deitados lado a lado, ambos despertos. Mal haviam falado um com o outro, enquanto se despiam, quando Les havia se inclinado sobre ela para lhe dar um beijo de boanoite e ela havia murmurado algo que ele não havia conseguido escutar.

Agora, ele se virou para o lado dela com um suspiro profundo e a encarou. No escuro, ela abriu os olhos e o olhou.

— Está dormindo? — ela perguntou baixinho.

— Não.

Ele nada mais disse. Esperou que ela começasse.

Mas ela não começou e, após alguns instantes, ele disse:

— Bem, eu acho que é... o fim — concluiu debilmente porque não gostara da frase; soara ridiculamente melodramática.

Terry não respondeu de pronto. Então, como se pensasse alto, disse:

— Você acha que há alguma chance de...

Les se encolheu ao escutar tais palavras, porque sabia o que ela ia dizer.

— Não — disse ele. — Ele não tem chance alguma de passar.

Escutou-a engolir em seco. Não diga isso, pensou ele implorando. Não me fale que vem dizendo a mesma coisa há quinze anos. Sei disso. Disse porque achava que era verdade.

De repente, desejou que houvesse assinado anos antes o "Pedido de Remoção".

Precisavam se ver livres de Tom desesperadamente, pelo bem dos filhos e de si próprios, mas como verbalizar essa necessidade sem se sentir um assassino? Não se pode dizer: espero que o velho homem fracasse, espero que o matem. Embora qualquer outra coisa que se diga seja apenas um substituto hipócrita para aquelas palavras, porque é assim que você se sente exatamente.

Termos médicos, pensou ele — gráficos sobre o declínio de produção de alimentos e diminuição de condições de vida, a fome no mundo e o nível de deterioração da saúde —, usaram todos esses argumentos para fazerem com que a lei fosse aprovada. Bem, eram mentiras, mentiras óbvias e sem fundamento. A lei foi aprovada porque as pessoas desejavam ficar livres de problemas e viver suas próprias vidas.

— Les, e se ele passar? — Terry disse.

Ele sentiu suas mãos se apertarem contra o colchão.

— Les.

— Não sei, querida — respondeu ele.

A voz dela soou firme na escuridão. Era uma voz no limite da paciência!

— Você tem de saber — disse ela.

Ele revolveu a cabeça no travesseiro.

— Querida, não me pressione – ele implorou , – por favor.

— Les, se ele passar no teste, serão mais cinco anos. Mais cinco, Les. Já pensou o que isso significa?

— Querida, ele não tem condições de passar no teste.

— Mas... e se passar?

— Terry, ele errou três quartos das perguntas que lhe fiz hoje à noite, quase não escuta, sua vista é ruim, seu coração é fraco, tem artrite...

Les bateu o punho impotente na cama:

— Ele não passa sequer pelo teste físico — disse ele, odiando-se por dentro por assegurar à esposa que Tom estava condenado.

Se ao menos ele pudesse esquecer o passado e levar em conta apenas o que o pai era agora: um velho inútil com a mente cansada, que estava arruinando suas vidas. Mas era difícil esquecer como havia amado e respeitado seu pai, as caminhadas pelo campo, as pescarias, as longas conversas à noite e todas as coisas que seu pai e ele haviam compartilhado.

Por tudo isso, nunca tivera força para assinar o "Pedido de Remoção".

Era um simples formulário a ser preenchido. Muito mais simples do que esperar pelos testes a cada cinco anos. Mas isso significava descartar a vida do próprio pai com uma simples assinatura, requisitando ao governo dispor dele como se fosse lixo a ser removido.

No entanto, agora seu pai tinha 80 anos e, apesar de toda a sua criação moral a despeito de seus princípios cristãos de toda uma vida, Terry e ele estavam terrivelmente receosos de que o velho Tom pudesse passar no teste, e viver mais cinco anos com eles... mais cinco anos zanzando pela casa, contradizendo as ordens dadas aos garotos, quebrando coisas, querendo ajudar, mas só atrapalhando, e transformando a vida numa agonia enervante.

— É melhor você dormir — disse Terry.

Ele tentou, mas não conseguiu. Ficou deitado com os olhos fixos no teto escuro, tentando descobrir uma solução, mas em vão.

O despertador tocou às seis da manhã. Les não precisava se levantar até as oito, mas desejava ver o pai sair. Saiu da cama e se vestiu silenciosamente para não despertar Terry.

Ela acordou mesmo assim e olhou para ele do seu travesseiro. Após um instante, ergueu-se sobre o cotovelo e olhou-o sonolenta.

— Vou levantar e lhe preparar um café da manhã.

— Não há necessidade — disse Les. — Fique na cama.

— Você não quer que eu me levante?

— Não se incomode, querida — disse ele. — Quero que você descanse.

Ela voltou a se deitar e virou-se para que Les não visse seu rosto. Não sabia o motivo, mas começara a chorar silenciosamente, se era por Les não querer que ela visse seu pai ou por causa do teste. Mas ela não conseguia parar. Tudo que podia fazer era se segurar até ouvir a porta do quarto se fechar.

Então, seus ombros estremeceram e um soluço transpôs a barreira que ela havia imposto a si mesma.

A porta do quarto de seu pai estava aberta e Les entrou. Deu uma espiada lá dentro e viu Tom sentado na cama inclinado, amarrando os sapatos escuros. Observou os dedos enrugados e trêmulos lidarem com os cadarços.

— Tudo bem, pai? — perguntou Les.

O pai levantou os olhos, surpreso:

— O que está fazendo acordado a esta hora? — perguntou.

— Pensei em tomar o café da manhã com você — Les disse a ele.

Por um instante, olharam-se em silêncio. Então, o pai inclinou-se sobre os sapatos novamente.

— Não há necessidade — ouviu a voz do velho homem lhe dizer.

— Bem, de qualquer maneira, vou preparar — disse ele e virou-se para que seu pai não pudesse contestá-lo.

— Oh... Leslie.

Les se virou.

— Espero que você não tenha se esquecido de deixar o relógio — disse seu pai. — Pretendo levá-lo à joalheria hoje e mandar colocar um... vidro decente nele, um que não quebre.

— Pai, é apenas um relógio velho — disse Les. — Não vale a pena.

O pai assentiu lentamente, gesticulando com a mão como se estivesse encerrando a discussão:

— Mesmo assim — ele afirmou, calmamente — pretendo...

— Está bem, pai. Está bem. Vou deixá-lo sobre a mesa da cozinha.

O pai parou de falar e olhou para ele por um instante, com o rosto sem expressão.

Então, como por impulso e não por um desejo adiado, ele se inclinou para os sapatos novamente.

Les ficou parado um instante olhando para os cabelos grisalhos do pai, seus dedos magros e trémulos. Então, virou-se e foi embora.

O relógio ainda estava sobre a mesa de jantar. Les o apanhou e o levou para a mesa da cozinha. O velho homem deve ter ficado a noite toda se forçando a lembrar do relógio, pensou ele. De outro modo, não teria conseguido se lembrar.

Encheu a cafeteira de água e pôs no fogo duas porções de bacon e ovos. Então, encheu dois copos com suco de laranja e sentou-se à mesa.

Cerca de quinze minutos mais tarde, seu pai desceu trajando seu terno azul-marinho, os sapatos cuidadosamente polidos, as unhas impecáveis, o cabelo gomalinado e penteado. Parecia bem asseado e bastante velho, enquanto caminhava até a cafeteira.

— Sente-se, pai — disse Les. — Deixe que eu sirvo o senhor.

— Não sou imprestável — disse o pai. — Fique onde está.

Les tentou sorrir.

— Estou preparando bacon e ovos para nós — disse ele.

— Não estou com fome — respondeu o pai.

— E melhor você tomar um bom café da manhã, pai.

— Nunca fui de comer muito no café da manhã — disse o pai, ereto, ainda parado na frente do fogão. — Acho que não faz bem para o estômago.

Les fechou os olhos um instante, por seu rosto passou uma expressão de desamparo e desespero. Por que me dei ao trabalho de sair da cama?, ele se perguntou, desanimado. Tudo que fazemos é discutir. Não. Endureceu. Não, não vou lhe dar esse gostinho.

— Dormiu bem, pai? — perguntou.

— Claro que dormi bem — respondeu o pai. — Sempre durmo bem.

— Muito bem.

— Você acha que eu não dormiria bem por causa de um... — interrompeu-se de repente e se virou com ar acusador para Les. — Onde está o relógio ?— quis saber.

Les suspirou cansado e lhe entregou o relógio. Seu pai deslocou-se desajeitadamente pelo piso de linóleo, tirou-o das mãos dele e o examinou um instante, com os velhos lábios franzidos.

— Péssima qualidade — disse ele. — Péssima — meteu cuidadosamente no bolso lateral.

— Vou conseguir um vidro decente — murmurou. — Um que não quebre.

Les concordou.

— Será ótimo, pai.

Então, o café ficou pronto e Tom encheu as duas xícaras. Les se levantou e desligou o fogão. Já não tinha vontade de comer bacon e ovos. Sentou-se diante da face severa de seu pai e sentiu o café quente descer queimando sua garganta. Tinha um gosto horrível, mas sabia que nada no mundo teria um bom sabor para ele naquela manhã.

— A que horas você tem de estar lá, pai? — perguntou para quebrar o silêncio.

— Às nove horas — disse Tom.

— Tem certeza de que não quer que eu o leve de carro?

— Não precisa. Não precisa — disse o pai como se estivesse falando pacientemente com uma criança insistente e irritante. — O metrô é ótimo. Vou chegar lá mais do que a tempo.

— Está certo, pai — disse Les, e ficou ali sentado olhando para o seu café.

Devia haver algo que pudesse dizer, mas não conseguiu atinar nada.

O silêncio pairou sobre eles por longos minutos, enquanto Tom bebia o seu café preto em goles vagarosos e metódicos.

Les molhou os lábios nervosamente e, percebendo que tremiam, escondeu-os por trás da xícara. Conversa, conversa, pensou ele, sobre idas de carro e metro, e horário do teste, ambos sabiam que Tom poderia ser condenado à morte naquele mesmo dia.

Lamentou-se por ter se levantado. Teria sido melhor acordar e descobrir que seu pai já havia saído. Desejou que tivesse sido assim para sempre.

Desejou que pudesse acordar certa manhã e encontrar o quarto de seu pai vazio; descobrir que os dois ternos haviam desaparecido, bem como os sapatos escuros, as roupas de trabalho, os lenços, as meias, os suspensórios, os apetrechos de barbear... todas essas evidências silenciosas de uma vida.

Mas não seria assim. Depois que Tom fracassasse no teste, levaria várias semanas antes que a carta com a convocação derradeira chegasse e, após isso, outra semana, mais ou menos, para a execução propriamente dita.

Seria um processo terrivelmente longo de preparativos, de encaixotar as coisas dele e escolher o que conservar e o que jogar fora, uma série infindável de refeições juntos, de conversas, o último jantar com ele, a longa viagem até o centro governamental, a subida silenciosa pelo elevador onde só se ouviria o ruído do mecanismo em ação...

Meu Deus!

Pôs-se a tremer, incapaz de se conter e, por um momento, temeu cair em prantos.

Então, olhou para cima, chocado, quando seu pai se levantou.

— Devo ir agora — disse Tom.

Os olhos de Les buscaram o relógio na parede.

— Mas ainda são quinze para as sete — observou ele, tenso. — Não demora todo esse tempo para...

— Gosto de fazer as coisas sem pressa — disse o pai, decidido. — Nunca gostei de chegar atrasado aos compromissos.

— Mas, meu Deus, pai, só leva uma hora para chegar à cidade — disse ele, sentindo um terrível aperto no estômago.

Seu pai balançou a cabeça e Les sabia que não tinha ouvido.

— É cedo, pai — disse mais alto, a voz ligeiramente trêmula.

— Não faz mal — disse o pai.

— Mas você não comeu nada.

— Nunca como muito no café da manhã — Tom começou. — Não me faz, bem...

Les não ouviu o resto da frase, as palavras sobre os hábitos de toda uma vida, sua dificuldade em digerir e tudo o que seu pai sempre repetia.

Sentiu que era castigado por ondas implacáveis de terror, e quis saltar e envolver o velho nos braços, dizendo-lhe para não se preocupar com o exame porque não importava, porque o amavam e cuidariam dele.

Mas não foi capaz. Ficou ali sentado, paralisado pelo medo, olhando para o pai. Sequer conseguiu falar quando Tom se virou na porta da cozinha e disse, com a voz desprovida de emoção, porque lhe custava toda a energia restante para fazê-lo:

— Vejo você à noite, Leslie.

A porta vaivém se fechou e a brisa que atingiu o rosto de Les lhe congelou a alma.

De repente, levantou-se com um gemido de terror e correu pelo piso de linóleo. Ao empurrar a porta, viu que o pai estava quase chegando à porta da frente.

— Pai!

Tom parou e olhou para trás, surpreso, enquanto Les atravessava a sala de estar contando mentalmente os passos: um, dois, três, quatro, cinco.

Parou diante do pai e esforçou-se por sorrir.

— Boa sorte, pai — disse ele. — Eu... o vejo à noite.

Esteve prestes a dizer: Vou torcer por você, mas não conseguiu.

Seu pai assentiu com a cabeça uma vez, apenas um aceno rápido, como um cavalheiro reconhecendo outro.

— Obrigado — disse ele, e se virou.

Quando a porta se fechou, era como se, de repente, ela houvesse se transformado em um muro impenetrável que seu pai nunca mais poderia atravessar.

Les foi até a janela e acompanhou o velho homem com os olhos, enquanto atravessava o jardim lentamente até chegar à calçada e virar à esquerda. Viu-o seguir pela rua, endireitar o corpo, colocar os ombros para trás e caminhar ereto e vigorosamente na névoa da manhã.

A princípio, Les achou que estava chovendo, mas percebeu que a umidade que lhe atrapalhava a vista não era da vidraça.

Não teve coragem de ir trabalhar. Telefonou avisando que estava doente e ficou em casa. Terry acordou os filhos para a escola e, depois que terminaram de tomar o café da manhã, Les a ajudou a limpar os pratos e colocá-los na máquina. Terry não se pronunciou sobre o fato de ele não ter ido trabalhar.

Comportou-se como se fosse normal ele ficar em casa em um dia de semana.

Les passou a manhã e a tarde na garagem, começando sete projetos diferentes e logo perdendo o interesse por todos.

Por volta das cinco da tarde, foi até a cozinha e abriu uma lata de cerveja enquanto Terry preparava o jantar. Nada disse. Ficou andando de um lado para o outro na sala de estar, parando ocasionalmente para olhar o céu nublado pela janela e, então, começar de novo.

— Gostaria de saber onde ele está que ainda não voltou — falou, finalmente, voltando para a cozinha.

— Ele vai voltar — disse a esposa, e Les retesou-se por um instante, julgando ter percebido um tom de desgosto na voz de Terry. Então, relaxou, ao perceber que fora apenas sua imaginação.

Quando se vestia, após tomar um banho, eram cinco e quarenta da tarde. Os meninos já haviam voltado para casa depois de brincar lá fora, e estavam sentados à mesa para jantar. Les reparou que Terry havia colocado a mesa para o seu pai e se perguntou se fizera aquilo apenas em consideração ao marido.

Não conseguiu comer nada. Continuava a cortar a carne em partes cada vez menores e a passar manteiga na batata assada, sem provar nenhuma das duas.

— O quê? — perguntou quando percebeu que Jim falara com ele.

— Papai, se o vovô não passar no exame, ele terá ainda um mês, certo?

— Les sentiu os músculos do estômago se contraírem, enquanto olhava fixamente para o filho mais velho. Terá ainda um mês, certo? – o final da pergunta de Jim continuava ecoando em seu cérebro.

— Do que você está falando? — disse Les.

— No meu livro de educação cívica, está escrito que dão às pessoas velhas que não passaram no exame um mês de vida. E verdade, não é?

— Não, não é verdade — interveio Tommy. — A avó de Harry Senker recebeu a carta após duas semanas apenas.

— E como você sabe? — perguntou Jim ao irmão de nove anos. — Você viu?

— Basta — disse Les.

— Não precisava ver — contestou Tommy. — Harry me disse que...

— Basta!

Na mesma hora, os dois filhos olharam para o pai, brancos como papel.

— Não falemos mais sobre isso — disse ele.

— Mas o que...

— Jimmy — disse Terry, com severidade.

Jimmy olhou para a mãe e, depois de um momento, voltou a se concentrar em seu prato, e todos comeram em silêncio.

A morte do avô não significava nada para eles, pensou amargamente Les... nada.

Engoliu em seco e tentou relaxar a tensão do corpo. Bem, por que deveria significar alguma coisa?, perguntou para si mesmo. Para eles, ainda não chegara o momento de se preocupar. Por que forçá-los a fazer isso agora? Em breve, chegaria a hora.

Quando a porta da frente abriu e fechou às seis e dez, Les se levantou tão abruptamente, que derrubou um copo vazio.

— Les, não! — Terry disse, de repente, e ele soube imediatamente que tinha razão. Seu pai não gostaria de vê-lo sair correndo da cozinha e enchê-lo de perguntas.

Sentou-se e olhou para a comida que mal tocara, com o coração acelerado.

Ao erguer o garfo com os dedos rígidos, ouviu o velho atravessar o tapete da sala e subir as escadas. Olhou para Terry, que se limitou a engolir.

Não conseguia comer. Sentou-se ofegante, remexendo a comida.

Ouviu a porta do quarto do pai se fechar lá em cima.

Quando Terry colocou a torta na mesa, Les balbuciou uma desculpa e se levantou.

No começo da escada, escutou a porta da cozinha se abrir. Ouviu-a chamar seu nome, com urgência.

Parou e permaneceu em silêncio enquanto a mulher se aproximava.

— Não é melhor deixá-lo sozinho? — perguntou ela.

— Mas, querida, eu...

— Les, se ele tivesse sido aprovado no exame, teria entrado na cozinha para nos dizer.

— Querida, não é possível saber se...

— Ele saberia se houvesse passado, você sabe disso. Ele nos disse isso das duas últimas vezes. Se tivesse passado, já teria...

Não terminou a frase. Estremeceu com a maneira com que Les a olhou. No silêncio opressivo, tudo o que ouviu foi o estrondo repentino da chuva, que começou a bater nas vidraças.

Encararam-se um longo tempo. Então, Les disse:

— Vou subir.

— Les — murmurou Terry.

— Não direi coisa alguma que possa perturbá-lo — disse. — Eu vou...

Ficaram se encarando um tempo ainda maior. Então, Les se virou e subiu a escada ruidosamente. Terry o observou com ar triste e desanimado.

Les parou por um minuto diante da porta fechada, tentando criar coragem. Não quero incomodá-lo, disse a si mesmo, Não quero...

Bateu na porta suavemente, perguntando-se, no mesmo segundo, se estaria cometendo um engano.

Talvez devesse deixá-lo sozinho, pensou deprimido.

Lá de dentro, percebeu um movimento vindo da cama e, em seguida, o som dos pés de seu pai no chão.

— Quem é? — ouviu Tom perguntar.

Les engasgou.

— Sou eu, pai — disse ele.

— O que você quer?

— Posso vê-lo?

Silêncio do outro lado.

— Bem... — ouviu e, em seguida, a voz se calou.

Les o escutou se levantando novamente, colocando os pés no chão. Ouviu o som de uma folha de papel sendo amassada e uma gaveta que se fechava com cuidado.

Afinal, a porta se abriu.

Tom vestira o velho roupão vermelho por cima de suas roupas, tirara os sapatos e calçara os chinelos.

— Posso entrar, pai? — Les perguntou baixinho.

O pai hesitou um instante e, então, disse "entre", mas não foi um convite. Era mais como se dissesse: "Esta é a sua casa, não posso impedi-lo de entrar neste quarto".

Les estava prestes a lhe dizer que não queria incomodá-lo, mas não conseguiu. Foi até o centro do aposento e esperou.

— Sente-se — disse o pai, e Les se sentou na cadeira de encosto reto na qual o pai pendurava as roupas durante a noite. Tom esperou até que Les estivesse acomodado e, depois, afundou-se na cama com um grunhido.

Por um longo tempo, olharam um para o outro sem dizerem nada, como dois estranhos, cada qual esperando que o outro começasse a falar. Como foi o teste? A questão continuava girando na mente de Les. Como foi o teste? Como foi o teste? Não podia formulá-la. Como foi...

— Suponho que você queira saber o que... aconteceu — disse, então, o pai, visivelmente tentando se controlar.

— Sim — disse Les. — Eu... — tomou fôlego. — Sim — repetiu e esperou.

O velho Tom baixou os olhos para o chão, por um momento. Então, levantou-se bruscamente e olhou para o filho com um ar de desafio.

– Não fui até lá — disse ele.

Les sentiu como se, de repente, toda sua energia tivesse sido sugada pelo chão. Ficou sentado ali, imóvel, olhando fixamente para o pai.

— Não tinha intenção alguma de ir lá — apressou-se em acrescentar Tom. — Nenhuma intenção de me submeter a todo esse absurdo. Testes físicos, testes m-mentais, empilhar c-cubos de madeira em um tabuleiro e... sabe Deus mais o quê! Não tinha a menor intenção de ir.

Parou e olhou para o filho com fúria nos olhos, como se a desafiá-lo a dizer que estava errado. Mas Les não conseguia dizer coisa alguma. Passou-se um longo tempo. Les engoliu em seco e conseguiu organizar as palavras:

— O que você vai... fazer?

— Não se preocupe, não se preocupe — disse Tom, quase grato pela pergunta. — Não se preocupe com o seu pai. Seu pai sabe se cuidar.

E, de repente, Les ouviu novamente a gaveta da escrivaninha se fechar e o farfalhar de um saco de papel. Ele quase olhou para o móvel, para ver se o saco ainda estava lá.

Entretanto, conseguiu controlar o impulso.

— B-bem — balbuciou, sem se dar conta de como a expressão em seu rosto deixava transparecer quão assustado e desorientado estava.

— Agora, não se preocupe com isso — disse o pai, baixinho, quase gentilmente. — Não é problema seu. Não é mesmo.

Mas, Les se ouviu gritar por dentro, mas nada disse. Algo em seu pai o deteve; uma espécie de orgulho, de energia, uma dignidade firme com a qual sabia que não devia interferir.

— Gostaria de descansar agora — ouviu Tom dizer.

Teve a sensação de ter acabado de receber um soco no estômago. Gostaria de descansar agora... as palavras ecoaram pelo labirinto do seu cérebro, enquanto se levantava. Descansar agora, descansar agora...

Viu-se caminhando para a porta e, lá, virou-se e olhou para o pai.

Adeus. A palavra doeu nele.

Então, Tom sorriu e disse:

— Boa noite, Leslie.

— Pai.

Sentiu a mão do velho homem na sua, mais forte que a sua, mais firme, acalmando-o, tranquilizando-o. Sentiu a mão esquerda do pai apertar seu ombro.

— Boa noite, filho — disse o pai.

Quando ainda estavam próximos, Les viu, por cima do ombro do pai, o saco da farmácia amassado no canto do quarto, como se houvesse sido jogado lá para que ninguém o visse.

Em seguida, estava no corredor, em pânico, incapaz de pronunciar uma palavra, ouvindo o clique da porta se fechando e percebendo que, mesmo que seu pai não houvesse trancado a porta, não poderia entrar em seu quarto.

Permaneceu um longo tempo olhando para a porta fechada, tremendo incontrolavelmente.

Em seguida, virou-se e foi embora.

Terry estava à sua espera ao pé da escada, rosto esgotado. Questionou-o com os olhos, enquanto Les descia em sua direção.

— Ele... não foi — disse apenas isso.

Terry deixou escapar um débil som de surpresa.

— Mas...

— Ele foi à farmácia — acrescentou Les. — Eu... vi o saco num canto do quarto. Ele o jogou ali para que eu não o visse, mas... eu vi.

Por um instante, parecia que ela estava prestes a subir as escadas, mas foi apenas um reflexo momentâneo.

— Deve ter mostrado ao farmacêutico a carta de convocação para o exame — disse Les.

— E, provavelmente, o... farmacêutico lhe deu... pílulas. Como todos fazem.

Ficaram em silêncio na sala de estar, enquanto a chuva tamborilava nas janelas.

— O que devemos fazer? — perguntou Terry, de forma quase inaudível.

— Nada — murmurou ele. Sua garganta movia-se convulsivamente, a respiração era difícil. – Nada.

Depois, ele voltou para a cozinha atordoado e sentiu o braço de sua esposa o envolvendo bem apertado, como se para transmitir o seu amor através do toque, pois não conseguiria falar em amor.

Ficaram sentados na cozinha. Depois que Terry colocou as crianças na cama, voltou e ficaram ali tomando café e falando num tom de voz baixo e sem ânimo.

Por volta da meia-noite, deixaram a cozinha e, pouco antes de subirem, Les parou ao lado da mesa da sala de jantar e lá encontrou o seu relógio, com um vidro reluzente, novinho em folha. Sequer conseguiu tocá-lo.

Subiram as escadas, passando pelo quarto de Tom. Não ouviram som algum.

Despiram-se e foram para a cama juntos, Terry ajustou o despertador como fazia todas as noites. Após algumas horas, conseguiram adormecer.

E, durante toda a noite, houve silêncio no quarto do velho. E no dia seguinte.


"O Incrível Homem que Encolheu: e Outras Histórias" - Richard Matheson - Osasco, SP - Novo Século Editora, 2010.

terça-feira, 26 de abril de 2016

O Livro Mágico da Era Vitoriana


Imagens selecionadas a partir de um livro inglês de 1897, bem volumoso, intitulado simplesmente "Mágico", subintitulado como "Stage Illusions and Scientific Diversions, including Trick Photography", que inclui truques de fotografia (na verdade, fotografias misturadas com ilustrações), compilado e editado por Albert A. Hopkins.

Há uma excursão completa através de truques de mágica populares e ilusões do dia-a-dia daquelas diversões teatrais ou circenses bem estranhas da época da Rainha Vitória, incluindo ao longo do caminho muitos diagramas deliciosamente surreais e ilustrações bem fora do contexto, como truques "fotográficos" de decapitações.

Agora eu entendo o +Caveira Carlos, porque ele é dessa época bizarra ... ehehehe ... por isso "viaja na maionese" ainda, contando histórias e ficções de um tempo glorioso, para deleite e risos do leitor do século 21 que gosta desse tipo de curiosidade.

Coloquei aqui somente algumas imagens. Se quiserem ver todas, acessem o endereço abaixo.








Fonte: Illustrations from a Victorian book on Magic (1897).

Homem dos Feriados


Você vai chegar atrasado, disse ela. Ele se recostou na cadeira, cansado.

— Eu sei — respondeu ele.

Estavam na cozinha tomando café da manhã. David não havia comido muito. Na maior parte do tempo, bebera café preto e olhara para a toalha da mesa. Era estampada com linhas que lhe pareciam rodovias que se cruzavam. — E então? — disse ela.

Ele estremeceu e tirou os olhos da mesa.

— Sim — disse ele. — Está bem.

Ele continuou sentado.

— David – disse ela.

— Eu sei, eu sei — disse ele. — Vou me atrasar.

Não estava zangado. Não havia um pingo de ressentimento nele.

— É claro que vai — disse ela, passando manteiga em sua torrada. Espalhou também a consistente geleia de framboesa, mordeu um pedaço, e mastigou-o ruidosamente.

David se levantou e atravessou a cozinha. Na porta, parou e se virou. Olhou para a nuca da esposa.

— Por que não posso? — perguntou de novo.

— Porque não pode e pronto — disse ela.

— Mas por quê?

— Porque eles precisam de você — disse ela. — Porque pagam bem e você não poderia fazer outra coisa. Não é óbvio?

— Eles poderiam encontrar outra pessoa.

— Ah, pare com isso — disse ela. — Você sabe que não poderiam.

Ele cerrou os punhos.

— Por que devo ser o único? — perguntou ele.

Ela não respondeu. Ficou ali sentada, comendo sua torrada.

— Jean?

— Não há mais nada a dizer — respondeu, mastigando. Ela se virou.

— Agora, quer fazer o favor de ir? — disse. — Não deveria se atrasar hoje.

David sentiu um calafrio.

— Não — disse ele —, não hoje.

Saiu da cozinha e subiu a escada. Lá em cima, escovou os dentes, poliu os sapatos e colocou uma gravata. Antes das oito da manhã, estava novamente lá embaixo.

Entrou na cozinha.

— Até logo — disse.

Ela lhe ofereceu a face e ele a beijou.

— Tchau, querido — disse ela. — Tenha um... — parou abruptamente. — ... bom dia? — ele terminou a frase por ela.

— Obrigado — ele se virou —, terei um ótimo dia.

Há muito tempo parara de dirigir. Todas as manhãs, ia a pé até a estação ferroviária. Sequer gostava de pegar carona com alguém ou ir de ônibus. Na estação, ficava do lado de fora, na plataforma, esperando o trem. Não levava um jornal consigo. Nunca mais comprara um. Não gostava de ler os jornais.

— Bom dia, Garret.

Ele se virou e viu Henry Coulter, que também trabalhava na cidade. Coulter lhe deu uns tapinhas nas costas.

— Bom dia — disse David.

— Como vai? — perguntou Coulter.

— Bem. Obrigado.

— Que bom. Ansioso pelo 4 de julho?

David engoliu em seco.

— Bem... — começou ele.

— Quanto a mim, estou levando a família para o campo — disse Coulter.

— Nada de fogos de artifício mixurucas para nós. Meter todo mundo no carro e rodar até não vermos sinal algum do foguetório.

— Vai dirigindo? — perguntou David.

— Sim, senhor — respondeu Coulter. — Para o mais longe que pudermos.

Aquilo começou por si só. Não, pensou ele, agora não. Forçou-o a voltar para a escuridão. — ... negócio de publicidade — Coulter terminava a frase.

— O quê? — perguntou.

— Disse que acredito que as coisas vão bem no ramo da publicidade.

David pigarreou.

— Oh, sim — disse ele. — Muito bem.

Sempre se esquecia da mentira que contara a Coulter.

Quando o trem chegou, sentou-se no vagão de não fumantes, sabendo que Coulter sempre fumava um charuto no caminho. Não queria se sentar com Coulter. Não agora. Durante todo o trajeto para a cidade, ficou olhando pela janela. Principalmente, para a estrada e o tráfego. Mas, por um momento, enquanto o trem sacudia sobre uma ponte, olhou para a superfície do lago, lisa como um espelho. Quando voltou a erguer a cabeça, olhou para o sol.

Estava prestes a entrar no elevador quando parou.

— Sobe? — disse o homem com o uniforme grená. Ele olhou para David insistentemente.

— Sobe? — disse. Então, fechou as portas.

David ficou imóvel. As pessoas começaram a se agrupar em torno dele.

Num instante, ele se virou e abriu caminho entre elas, passando pela porta giratória. O calor abafado de julho o envolveu. Caminhou ao longo da calçada como um sonâmbulo.

No quarteirão seguinte, entrou em um bar. Lá dentro estava frio e escuro. Não havia clientes. Nem mesmo o barman estava visível. David afundou-se num compartimento reservado e tirou o chapéu. Inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos. Não conseguiria fazer. Simplesmente, não podia ir até seu escritório. Não importa o que Jean diga, não importa o que qualquer um diga. Apertou as mãos na beirada da mesa e espremeu-as até que os dedos perderem a cor. Simplesmente, não podia.

— Posso ajudá-lo? — uma voz perguntou.

David abriu os olhos. O barman estava no compartimento reservado, olhando para ele.

— Sim, humm... uma cerveja — disse ele.

Detestava cerveja, mas sabia que tinha de comprar algo para ter o privilégio de se sentar naquele lugar fresco e silencioso, sem ser perturbado. Não quis beber.

O barman trouxe a cerveja e David pagou por ela. Então, quando o homem foi embora, começou a girar lentamente o copo sobre o tampo da mesa.

Enquanto fazia isso, aquilo começou de novo. Com um choque, interrompeu-o.

— Não! — disse ele, brutalmente.

Num instante, levantou-se e deixou o bar. Passava das dez. E claro que isso não importava. Sabiam que ele sempre se atrasava. Sabiam que ele sempre tentava escapar daquilo e nunca conseguia.

Seu escritório ficava na parte de trás do conjunto, um pequeno cubículo mobiliado apenas com um tapete, um sofá e uma mesa pequena, sobre a qual havia lápis e papel branco. Era tudo que precisava. Já tivera uma secretária, mas não gostara da ideia de ela ficar sentada do lado de fora, ouvindo-o gritar.

Ninguém o viu entrar. Entrou por uma porta reservada. Uma vez lá dentro, trancou novamente a porta e, em seguida, tirou o paletó e largou-o sobre a mesa. O escritório estava abafado e ele o atravessou e abriu a janela.

Lá embaixo, a cidade em movimento. Contemplou-a. Quantos deles?, pensou.

Suspirando pesadamente, ele se virou. Bem, estava ali. Não havia sentido hesitar mais tempo. Já estava comprometido. O melhor a fazer era acabar logo com aquilo e ficar livre.

Baixou a persiana, caminhou até o sofá e se deitou. Irritou-se um pouco por não encontrar uma boa posição para a almofada na qual apoiou a cabeça, mas, depois, esticou-se e ficou quieto. Quase imediatamente, sentiu suas pernas ficando dormentes.

Começou.

Desta vez, não cortou. Corria por seu cérebro como gelo derretido. Avassalador como o vento invernal. Girava como redemoinhos de neve. Saltou, correu, cresceu e explodiu; sua mente foi tomada. Enrijeceu o corpo e começou a arfar, seu peito sacudido pela respiração, o coração violentamente disparado. Suas mãos se contraíram como garras brancas, apertando e arranhando o sofá. Tremia, gemia, se contorcia. Finalmente, ele gritou. E gritou por um longo tempo.

Quando acabou, permaneceu deitado no sofá, lânguido e imóvel, olhos vidrados como bolas de cristal, congelado. Quando teve condições, ergueu o braço e consultou o relógio de pulso. Quase duas da tarde.

Esforçou-se para ficar de pé. Seus ossos pesavam como chumbo, mas conseguiu se arrastar até sua mesa e sentar-se. Ali, pôs-se a escrever em uma folha de papel e, quando terminou, desabou sobre a mesa.

Completamente exaurido, mergulhou em um sono profundo.

Mais tarde, acordou e levou a folha de papel ao seu superior, que, examinando-a, assentiu.

— Quatrocentos e oitenta e seis, certo? — disse o superior. — Você tem certeza?

— Tenho certeza — disse David, calmamente. — Assisti a cada um.

Não mencionou que Coulter e sua família estavam entre eles.

— Tudo bem — disse o seu superior. — Agora, vejamos. Quatrocentos e cinquenta e dois em acidentes de carro, dezoito por afogamento, sete de insolação, três por causa dos fogos de artifício, e seis de causas diversas.

Como a garotinha queimada até a morte, David pensou. Como o menino que tomaria formicida. Como a mulher eletrocutada; ou o homem picado por uma cobra.

— Bem — disse o superior —, vamos dizer que foram... deixe-me ver, quatrocentos e cinquenta. Sempre é impressionante quando morrem mais pessoas do que prevemos.

— Claro — disse David.

A estatística saiu na primeira página de todos os jornais da tarde.

Enquanto David voltava para casa, o homem em frente a ele se virou para o vizinho e disse:

— O que eu gostaria de saber é como eles calculam isso?

David se levantou e foi sentar no final do vagão. Durante todo o percurso até sua estação, ficou concentrado no som das rodas do trem, pensando no próximo feriado.


"O Incrível Homem que Encolheu: e Outras Histórias" - Richard Matheson - Osasco, SP - Novo Século Editora, 2010.

As Profecias de São Malaquias


Um dos mais obscuros profetas da Idade Média, São Malaquias, um monge irlandês que se tornou arcebispo de Armagh e primaz da Irlanda por volta de 1132, morreu em 1148. Mas suas profecias, encontradas na forma de anotações, foram recolhidas e publicadas pelo Vaticano em 1595.

As profecias de São Malaquias foram colocadas na forma de um registro papal, projetado a partir do século 12, com um comentário sobre cada um dos novos papas ou o caráter de seu papado. Muitas das profecias foram consideradas surpreendentemente pertinentes. O registro termina com "Pedro, o Romano", em um tempo que, segundo os cálculos, deverá coincidir com o final deste século, ou com a chegada do terceiro milênio.

Entre Pedro e alguém que parece ser o papa Pio XI, haverá seis outros chefes do Vaticano. Durante o papado de Pedro, "a cidade das Sete Colinas será destruída, e o Respeitável Juiz julgará seu próprio povo".

A história profética do papado sempre foi muito comentada entre teólogos católicos. Seu conhecimento pode ter contribuído para a visão reportada pelo papa Pio X em 1909. Saindo de um transe, ele disse:

- O que vejo é terrível. Serei eu mesmo... ou meu sucessor... o papa sairá de Roma e, depois de ter deixado o Vaticano, terá de caminhar sobre os cadáveres de seus padres.

O tempo, naturalmente, dirá se as terríveis profecias de São Malaquias serão realizadas.


Fonte: Livro «O Livro dos Fenômenos Estranhos» de Charles Berlitz
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