quarta-feira, 18 de maio de 2016

O Homem dos Ratos

“Seu amor – ou, antes, seu ódio – era, em verdade, subjugador; foram precisamente eles que criaram os pensamentos obsessivos, cuja origem ele não era capaz de compreender e contra os quais lutou em vão para se defender.” – Sigmund Freud

Não vou contar a história de Carlos desde o princípio. Apesar de alguns especialistas dizerem que reside nos primórdios da sua vida o núcleo de todos os problemas futuros, não vou me ater a esta parte. Vou começar a contar a história quando a doença iniciou, ou, na verdade, quando já estava desenvolvida, mas passou a ser percebida por todos.

Carlos parecia ser um homem comum, tinha algum dinheiro de família e uma vida saudável. Ainda jovem, conheceu Marta, uma menina não muito bonita que morava perto de sua casa. Logo namoraram, noivaram e casaram, tudo sem perturbações ou problemas maiores dos que enfrentam outros casais.

Porém, no dia do casamento com Marta, os pais de Carlos sofreram um acidente e morreram e dizem que foram estes acontecimentos que deflagraram a doença de Carlos, ou um, ou outro, ou até mesmo ambos. Ele demonstrou uma grande tristeza com o acontecido. Após alguns dias, decidiram mudar para onde Carlos morava com os pais. Era uma casa grande, com aposentos espaçosos. O pátio era amplo e, segundo Carlos, “cabia muita coisa naquele terreno.”

Como disse, foi neste momento que a doença começou a surgir, mas sem lhe causar preocupações ou maiores constrangimentos. Carlos, aos poucos, passou a não querer se desfazer de pertences antigos, como roupas e sapatos velhos ou papéis sem serventia. Isto, todavia, não incomodava Marta, pois a vida deles como casal era ótima.

Carlos, entretanto, foi piorando e começou a guardar em casa potes de xampus, tubos de pasta de dente, escovas antigas e outros objetos de higiene, e foi neste momento que sua doença foi percebida. Carlos entrava no banheiro e lá ficava por horas. Não falava com ninguém e não respondia aos chamados da mulher. Depois, se ouvia a descarga, e ele saía, com um olhar distante e muito triste. Sua mulher, por vezes, o perguntou a respeito do que estava acontecendo, mas ele nunca respondeu, aparentava estar de fato abatido e vazio, alguma coisa parecia ter sido tirada dele.

Levaram-no a especialistas, vários, e cada um dava um diagnóstico diferente. Um deles disse para proibirem-no de entrar no banheiro, outro disse que se tratava de algo passageiro e outro, ainda, que era um problema decorrente de sua infância, e da demissão de sua babá, quando este tinha por volta de três anos. O fato é que nenhum tratamento funcionou, até porque Carlos não saía mais de casa e evitava ter contato com outras pessoas, a não ser com Marta, a qual fazia questão de ter sempre por perto. Ela gostava disso, gostava da necessidade dele de tê-la sempre por perto, se sentia amada, se sentia necessária. Amava ele também, amava ele por tudo que ele era e passava por cima de sua doença como se esta fosse apenas um pequeno defeito que pertence à personalidade de qualquer um.

Os meses se passavam, e a doença de Carlos piorava cada vez mais. Ele começou a guardar todo o lixo que era produzido em casa. Sacos se acumulavam na garagem. Aos poucos, tomaram conta da sala de jantar. O cheiro se tornou insuportável e animais surgiram na casa. Ratos e baratas eram constantes, e quando Marta matava um desses bichos, ele fazia questão de protegê-los, de modo a não permitir que ela os jogasse fora. Assim, eles apodreciam dentro da casa, onde quer que estivessem, colaborando ainda mais para o cheiro insuportável.

O local estava inabitável, não havia lugar para se acomodar e algumas portas não podiam mais ser fechadas ou abertas, uma vez que as pilhas de lixo ocupavam toda a casa. Montanhas saíam pelas janelas e, do lado de dentro, um estreito corredor formado por uma aglomeração dessas “coisas” malcheirosas construía uma estreita trilha, por onde ainda se podia chegar ao quarto, à cozinha e aos banheiros. Isto, contudo, de nada adiantava, uma vez que estes aposentos não tinham mais muita utilidade nem espaço para suas funções. Além disso, as portas haviam sido obstruídas e não era mais possível entrar ou sair.

A vida de Marta se tornou insuportável. O ar dentro dos aposentos era quente e fedorento. Marta, por instantes, tentava prender a respiração para não sentir aquele cheiro, mas, momentos depois, tinha que respirar e o fazia com força para recuperar novamente o ar. Então, sentia o cheiro forte e azedo, passava mal, ficava enjoada e vomitava. Apesar disso, ela não conseguia ir embora. Amava Carlos e gostava de estar com ele. Mas como era terrível amar alguém que não a respeitava, que a fazia morar em um lugar como aquele! Ela passava os dias chorando, tentando buscar coragem para ir embora, mas não conseguia: seu amor por ele era maior do que o amor por ela mesma.


Carlos já não tomava banho fazia meses e se justificava dizendo que não poderia deixar a água escorrer pelo ralo (mesmo este já estando há muito obstruído) e ainda que a água, passando em seu corpo, tiraria dele sua pele, alguns pelos e os animais microscópicos que lá viviam. Eu não posso me desfazer disto, dizia ele com sinceridade. Ou, quando Marta tentava jogar algo fora – você não pode tirar isso de mim, gritava angustiado. De fato não podia, sua doença não deixava. Essas frases eram repetidas dezenas, centenas, milhares de vezes durante um dia e Marta já não aguentava mais.

Certo dia, ela precisou ir ao banheiro, mas como o do seu quarto estava obstruído pelas “coisas”, ela teve que ir ao outro, que ficava no final do corredor e só era utilizado por ele. Ao abrir a porta do banheiro, ainda com extrema dificuldade, sentindo que algo impedia seu movimento, Marta viu uma montanha malcheirosa de fezes e urina que ocupava todo o ambiente. Devia fazer meses que seu marido guardava seus excrementos naquele banheiro. Marta ficou tonta, nauseada, perdeu as forças, desmaiou e foi acudida por Carlos.

Ela acordou deitada sobre alguns sacos de lixo pretos, no meio da sala de estar.

Estava furiosa, não entendia como seu marido podia fazer aquilo com ela, e muito menos com ele mesmo. Eles brigaram. Ela disse que ele tinha que jogar tudo fora senão ela mesma o faria. Eu não posso me desfazer disto, dizia ele, e você não pode tirar isso de mim! Marta não entendia. Esse monte de sujeira, esse monte de lixo, restos de comida e esta montanha de merda? – questionava ela. Mas isso tudo é seu, é tudo para você, são meus presentes para você, respondia Carlos chateado com a incompreensão da mulher. No fundo, sabia que não era verdade, ou em parte não era verdade. Sabia que muito além de um presente para ela, aquilo era um presente para ele mesmo, reter tudo aquilo era, antes de tudo, um presente para si mesmo. Mas isso é sujeira, é lixo, é merda – repetia ela – é sujeira, é lixo, é merda...

Carlos ficou embravecido, e sua irritação se tornou cada vez maior e mais incontrolável. “Sujeira, lixo, merda...” essas palavras ressoavam na cabeça de Carlos e já não faziam mais sentido, apenas se repetiam, iam e vinham, já sem significado. “Suj, Lix, Mer, Suj, Lix, Mer...” as palavras rodavam em sua cabeça. “S, L, M, S, L, M, S, L, M...” Marta falava sem parar, mas as palavras não chegavam mais à consciência de Carlos, ele não estava conectado com a realidade, ou com as palavras de Marta. “S, L, M, S, L, M, S, L, M...” as letras se repetiam em sua mente e Marta continuava e gesticular e a mexer os lábios, mas nada penetrava nos pensamentos de Carlos.

Isso não é Sujeira, isso não é Lixo, isso não é Merda – repetia ele enquanto olhava o caos em que havia se transformado a residência do casal.

Então, de repente, a sua mente se abriu para uma frase de Marta, a qual era mais importante do que qualquer outra: chega, vou embora!, gritou ela enfurecida.

A irritação de Carlos tomou proporções gigantescas e mesclou-se com um pavor imenso, que cresceu e tomou conta dele, de sua mente, de seus atos. “Sujeira, Lixo, Merda, Ir Embora”. Não, ela não poderia ir embora! Carlos investiu com rapidez contra Marta, agarrou-a pelo pescoço e apertou forte por alguns instantes. Para Carlos pareceu apenas um segundo, pois na sua mente não passava o tempo, apenas pensamentos e as palavras de Marta “S, L, M, S, L, M, S, L, M...”. Ir embora! Embora! “S, L, M, I, E, S, L, M, I, E, S, L, M, I, E, S, L, M, I, E...”. Já para Marta aquele momento deve ter durado uma eternidade.

Marta caiu no chão sem vida. Carlos sentiu um alívio intenso, pegou o corpo da mulher e jogou em cima da montanha de “coisas”.

Como “ir embora”? – pensou ele.

Eu não poderia me desfazer disto e você não pode tirar isso de mim.

por Rafael Spinelli


Ficção de Polpa - Volume 1 - Organizado por Samir Machado de Machado - 2012.

Dias de Fome, Noites de Cão

Ele não sabia do cachorro. Estava com fome, muita fome. Fome de catar comida no lixo das casas. Às vezes, passava mal. Duas ou três vezes, desmaiara. Não havia alternativas. Chegara do interior, onde deixara a família, para tentar a sorte. Que não viera junto.

O pouco dinheiro que trouxera perdera com uma dessas mulheres que apanham esses homens sem rumo em ruas quaisquer. A mulher, pelo menos, era das boas. Divertiu-se. Depois o roubo, a reclamação, os gritos, e os homens que ela chamara para que a defendessem.

Apanhou um bocado. Perdeu um dente, e a dor que sentiu no peito indicava uma costela quebrada. Que haveria de soldar-se. Tudo se arranja com o tempo, refletia o homem. Menos a fome que o obrigava a comer lixo. Se ainda pudesse voltar para casa.

A casa ficava no final de uma rua sem saída. Sólida. Dois pavimentos. Cercada por muros altos cobertos de hera. A gente que morava ali não passava fome, com certeza. Sobrava-lhes mais que o suficiente.

Aproximava-se à noitinha com cuidados para não ser visto. As casas daquela rua possuíam pátios enormes, portanto restavam um tanto quanto isoladas. O que se tornava interessante. Observava os horários de saída e entrada das casas vizinhas.

Não percebera movimento maior na casa. Como se estivesse quase abandonada. Só as luzes. Que se acendiam pouco depois que ele chegava. As mesmas luzes que acabaram por intrigá-lo. Percebeu. Com o passar dos dias, era sempre menor o número de lâmpadas acesas. Até restar uma. E, dias depois, nenhuma. Teriam viajado? Ninguém estaria protegendo a casa? Não notara nenhuma atitude diferente nos últimos dias que indicasse o abandono da casa por parte de seus proprietários. Sequer marcas de pneu sinalizavam algum movimento.

Aguardou alguns dias e, como a situação não se modificasse, decidiu.

Entrar pelo portão principal não era conveniente. Procurou um local mais protegido que o afastasse dos possíveis olhares da vizinhança. Com esforço, agarrando-se nas heras, escalou o muro. Sentado no alto, observou, com cuidado, o que os olhos podiam ver. Absoluto silêncio. Nenhum sinal de luz na casa. As árvores, em movimentos discretos devido ao pouco vento, inundavam-se de luz graças à lua.

Procurou alguma árvore próxima ao muro que o auxiliasse na descida. Nenhuma. Resolveu pular. Caiu de mau jeito. Machucou a perna esquerda. Algo lhe despertou a atenção. Como se estivesse sendo observado. Um ressonar leve. Um barulho de folhas amassadas. Olhou atentamente em todas as direções. Alguns passos em direção a uma árvore. Nada. Mancando, aproximou-se da casa. A porta estava apenas encostada. Empurrou-a. Entrou em meio à completa escuridão.

Tateando, buscou um interruptor.

Estupefato, olhava a sala. Havia um odor que não distinguia. Não era de mofo ou de casa fechada. Talvez... Mas ele não podia acreditar. Os móveis encontravam-se derrubados. Uma quantidade de vasos, copos e pratos quebrados e tapetes fora do lugar. Como se tivesse havido uma luta feroz e alguém, tentando escapar de alguma ameaça iminente, fora derrubando tudo ao seu redor para se proteger. E, em desespero, acabara por quebrar o que se punha ao alcance. Ninguém na sala. Nenhum som. No interruptor, manchas de sangue. E os ossos. Ossos de todos os tamanhos e em quantidade. Limpos. Como se houvessem sido lavados. Ou, então, descarnados até o que o último resquício de carne desaparecesse. Meus Deus!, o homem pensou atônito, são ossos...

Não conseguiu completar o pensamento. Um ruído o fez voltar-se. Um grito de pavor travou-se na garganta.


O cão era enorme. Negro. Pelo curto, lustroso. Nele, se distinguiam os olhos, claros e frios. E as mandíbulas. O cão vigiava como se ao homem coubesse a iniciativa. E nessa expectativa, cuidaram-se por alguns segundos. O homem arfava, o cão não se movia. Embora mancasse, correu para a escada e procurou subi-la o mais rapidamente possível. O cão, sem pressa, o acompanhava.

Ao abrir a primeira porta encontrada, cambaleou. O fedor de podridão entrou por suas narinas, por sua boca, por seus poros. Encharcou-o por inteiro. Sentiu náusea. O vômito chegou-lhe à boca. Cambaleou. Ajoelhou-se e baixou a cabeça, encostando-a no chão. Ao se recobrar minimamente, viu sobre a cama um resto de corpo do qual não mais se distinguia o sexo tal a putrefação. Faltavam-lhe pedaços, sobravam-lhe ossos. O sangue, coagulado, espalhava-se pelos lençóis, pelo piso, sob os seus pés.
Aterrorizado, virou-se para trancar a porta. Tarde demais.

Terminada a tarefa, o cão, placidamente, desce, degrau por degrau, e chega à sala. Fareja os ossos espalhados até se decidir por um deles. Abocanha-o e volta para o seu lugar. Aninha-se sobre as folhas, debaixo da árvore copada, segura o osso com as patas e o rói. Satisfeito, larga um suspiro e encaixa a cabeça entre as patas. À espera.

por Sergio Napp


Ficção de Polpa - Volume 1 - Organizado por Samir Machado de Machado - 2012.

Os Internos


“Lisonjeava-me que o professor me iniciasse em seus segredos profissionais, mas não disse nada, antes concentrei-me inteiramente na dor causada pelos dois parafusos com que o torniquete de parafuso estava fixado ao meu maxilar.” — Hans-Ulrich Treichel, O Perdido

É óbvio que tenho certeza de que aquele lugar existe. Tenho tanta certeza que me dá até raiva de explicar. Aquele lugar existe simplesmente porque há tempos eu estudo lá. Fica numa travessa que liga duas ruas esquecidas da Zona Norte de Porto Alegre, bem em frente a um condomínio com muro alto e cerca eletrificada. Não falo do colégio em si; o que eu quero dizer é que existe um outro lugar dentro desse mesmo colégio, um lugar muito diferente daquilo que ele é durante o dia. Sei que as pessoas costumam acreditar que os colégios funcionam apenas durante o dia e não há nada neles à noite a não ser colégios fechados. Mas isso é o que elas pensam.

Foi bem nesse lugar que muitos não acreditam existir que, em um dia comum de final de ano, quando todos mal podiam esperar pelas férias de verão, aconteceu o que eu vou contar. Tudo andava normal: a campainha tocou no mesmo horário das seis horas da tarde, guardei meu caderno e estojo dentro da mochila e fui para o portão do colégio esperar que me buscassem. Como sempre acontecia, quase todos os alunos já haviam ido embora, e eu continuava lá no portão, ao lado do guarda, esperando a minha mãe. Aos poucos, um por um, os últimos alunos se mandavam. Eram umas sete da noite quando dois irmãos da sétima série que esperavam escorados em uma mureta também se foram, me tornando oficialmente o último a ir embora do colégio.

Odeio ficar sozinho com alguém que não conheço. Cruzei os braços e fiquei ouvindo o guarda assoviar uma música. Olhávamos os dois para a rua na esperança de que o carro da minha mãe aparecesse logo. Não desviei o olhar dos paralelepípedos por um segundo sequer, temendo um início de conversa com o guarda. Mesmo assim, quando cansou de assoviar, o guarda disse:

— Tua mãe costuma se atrasar, né?

Fiz que sim com a cabeça só pra não ter que explicar. Resolvi ir ao banheiro para escapar daquela conversa toda, então avisei o guarda. Antes que eu fosse, porém, ele me deteve com a explicação de que, àquela hora, os banheiros já estariam todos trancados. Fiquei parado na frente dele sem dizer nada, com as duas mãos no meio das pernas, até que ele me mandou usar o banheiro do primeiro andar, junto à sala dos professores, no outro extremo do prédio. Deixei a mochila ali e me fui.

Quando voltava do banheiro, fui surpreendido por uma mulher no meio do caminho. Apesar do susto, cumprimentei-a com um sinal de cabeça e segui caminhando em direção à saída. Ela, no entanto, me parou com um monte de perguntas sobre a minha série e sobre o que eu estava fazendo ali. Quando respondi, dois homenzarrões surgiram de trás dela e me seguraram.

Agarrado pelos braços, fui levado até os fundos do colégio, que até então eu conhecia apenas como “área da pré-escola”. Era uma parte dividida do restante do prédio por uma murada, que só tinha acesso através de uma passagem por dentro da sala dos professores. Depois de abrirem a grade interna da sala, que dividia as duas partes do colégio, a mulher apontou para uma porta vermelha e ordenou que eu entrasse. Foi quando eu descobri duas coisas: 1) aquela área não era da pré-escola e 2) eu não era o último aluno a ir embora naquela noite.

Havia quatro filas de cadeiras, mas nenhum quadro negro naquela sala. As janelas tinham as cortinas cerradas de modo que pouca ou nenhuma luz passava através delas. Além de mim, mais uns seis alunos estavam lá. No canto próximo à porta, havia uma garota estendida sobre uma maca daquelas usadas para dar os primeiros socorros às pessoas acidentadas. Ela choramingava de uma maneira estranha, sem mexer a boca, soltando um ruído contínuo do peito ou até da cabeça. Não parecia consciente. Sem saber o que fazer, escolhi uma cadeira vazia e me sentei.

Não demorou nada e duas mulheres que pareciam enfermeiras, trajando calças de algodão, camisas brancas sem gola colocadas pra dentro das calças e cabelos presos em rabos-de-cavalo, entraram sem bater na porta. Elas se comportavam como se não tivessem nos visto. Eu não sabia quem eram e o que faziam ali, mas daquelas mulheres emanava uma autoridade natural; falavam baixo e jamais repetiam nada. Tinham vozes mais grossas que o normal para mulheres. Sobre as bandejas de metal que carregavam, pude ver seringas e nacos de algodão espalhados, além de tiras compridas de borracha de soro. Uma das enfermeiras, a mais alta, prendia sob a axila uma prancheta com umas folhas pregadas. Depois de olhar para aquela prancheta por um momento, vi que se tratava de uma listagem. Uma delas disse:

— Vamos fazer uns exames. São exames-surpresa.

Estranhamente, todos pareciam estar esperando por aquele exame. Quanto a mim, não desconfiava de nada, mas mesmo assim achei melhor não fazer qualquer pergunta. Àquela altura, me submeter a eles parecia inevitável. Uma das enfermeiras foi até a moça deitada, apoiou a bandeja sobre a borda da maca e puxou o braço esquerdo dela. Enquanto via a enfermeira amarrá-lo com uma tira de borracha de soro, meu próprio braço foi agarrado. Senti uma picada forte seguida de uma ardência. Depois, veio uma fraqueza quando vi uma porção de sangue preto enchendo a ampola de vidro. Fiquei nauseado até que não pude segurar a ânsia e vomitei sobre meu próprio colo, respingando no meu braço atado, no avental da enfermeira e na listagem de nomes que ela carregava. Quando finalmente retirou a seringa do meu braço, ela não usou nenhum dos nacos de algodão para aparar o ferimento por causa da sujeira. Um ponto de sangue cresceu advindo do furo minúsculo coberto pelo caldo amarelado até virar uma gota. Ele escorreu e formou um filete espesso que se misturou ao vômito antes de pingar no piso frio do chão.

Acordei com a garganta ácida, e percebi que já era noite alta quando fomos levados ao pátio interno dos fundos do colégio. Era cercado por um muro altíssimo em formato circular, que dava ao espaço um aspecto de poço gigantesco. No meio daquela área mal-iluminada, sob um coreto baixo de madeira, um grupo de enfermeiras reunia as pessoas para o que parecia ser algum tipo de comunicado. Alunos iam surgindo como ratos, vindos de todos os cantos. Debaixo do coreto, uma mulher vestindo um saiote negro até o chão e com os cabelos presos por um coque trazia consigo a prancheta em que meu vômito respingara antes. O momento parecia importante. Um grupo de uns cem alunos se espremia em silêncio em torno do coreto. Sem se importar com a movimentação que ainda havia no pátio, a mulher de saiote negro limpou a garganta com um pigarro e começou a falar:

— Aqueles que foram reprovados no exame e que, portanto, necessitam de assistência intensiva imediata, permanecendo sob nosso acompanhamento na condição de internos enquanto durar a recuperação, em ordem alfabética são — fez uma pausa para respirar e depois reiniciou em alto volume a leitura dos nomes contidos na listagem — Amanda Raquel Mazenda, Ana Carolina Porto de Medeiros, Beatriz Lins Bueno, Bruno Xavier Zago, Carlos Nilo Paiva, Caroline Signore Terra, Cláudio Neves Shubert...

À medida que a lista ia sendo revelada, dava para ouvir alguns soluços ao fundo. Pessoas começavam a chorar, tapando o rosto com as mãos. Outras olhavam para os lados após o anúncio de cada nome, como que à procura de seu dono. Por fim, quando a leitura terminou, a mulher de saiote negro avisou que aqueles alunos que quisessem conferir o resultado preciso do exame deveriam se aproximar para fazer um pedido de consulta à planilha. Uma grande fila se formou. Enquanto algumas pessoas choramingavam com discrição, outras cochichavam baixinho umas ao ouvido das outras, comentando algum nome inesperado que havia aparecido. Como bem se podia entender, aqueles que foram reprovados no exame não se deram ao trabalho de entrar na fila para saber o resultado preciso e, dessa forma, só de olhar para o pátio dava para saber quem eram os reprovados.

Depois de poucos minutos na fila — a fila andou rápido e muito ordenada —, chegou a minha vez. Não havia ninguém declamando os resultados dos exames. Em vez disso, a coisa funcionava assim: o aluno dizia o nome para uma enfermeira; esta enfermeira então o encaminhava para uma das cinco enfermeiras com cópias da lista; estas, então, procuravam a folha correta e mostravam para o aluno. Na verdade, cada um tinha apenas poucos segundos para olhar a planilha, e o que eu pude mesmo ver ao lado do meu nome foi um código assim: 85794238529.

Enquanto eu esperava para olhar aqueles quadrados, sem que eu percebesse, uma outra fila foi formada junto ao muro. Eram os reprovados, que compunham um meio-círculo ao redor do pátio. Assim que todos olharam seus resultados, as enfermeiras com as cópias da lista deram lugar a quatro novas enfermeiras que traziam até o coreto uma banqueta cada uma. À medida que eu e os demais aprovados no exame fomos sendo retirados do pátio, os reprovados eram chamados na ordem da fila a se sentarem nas banquetas. Empunhando máquinas elétricas, tesouras e navalhas, as enfermeiras tosavam e depois aparavam ao máximo os cabelos dos alunos que haviam falhado no exame. Por último, com a ajuda de sabão e água quente, raspavam com força até que não restasse nenhum fio. Em seguida, um homem de óculos que carregava outra prancheta ia até o aluno já careca e, em sua cabeça, fazia algumas marcações com uma caneta piloto, tais como pontos, sinais em xis e linhas tracejadas.

Já a caminho da saída, quando éramos guiados em fila pelos corredores, cruzamos com pessoas vestidas de maneira muito estranha: uniformes de algodão branco sob aventais brancos de borracha, além de luvas e máscaras do mesmo material. Cada uma daquelas pessoas carregava consigo uma maleta de plástico bem comum, daquelas que podem ser utilizadas por médicos, pescadores ou operários. As maletas pareciam estar pesadas, mas de fato era impossível saber o que havia ali dentro. O máximo que consegui foi ouvir o barulho de metal sacudindo e se batendo dentro delas.

Ao atravessar de volta a porta que dividia o colégio, fui cegado pela luz do dia que entrava pelas janelas sem cortina. Os inspetores mandavam os alunos para dentro das salas e carros buzinavam em frente ao colégio como em um dia letivo qualquer. As garotas carregavam novamente os livros junto ao peito e sacudiam os cabelos, os atrasados corriam, a tia da portaria batia palmas para apressá-los como sempre.

Aquilo tudo e, então, a aula simplesmente estava por recomeçar?

O sinal tocou e eu fiquei ali parado bem onde estava. Enquanto analisava tudo com o máximo cuidado, percebi que estava novamente com minha mochila nas costas. Fiquei incrível. Passado o eco da campainha que ainda restava dentro dos meus ouvidos, fui para a aula, escutando o barulho que vinha do outro lado do colégio. Fora como um déjà vu. As marteladas, os sons de ferro se chocando e as serras tinindo eu não saberia explicar. Mas os gritos de desespero e o choro, eu sei, não eram de crianças da pré-escola.

por Gustavo Faraon


Ficção de Polpa - Volume 1 - Organizado por Samir Machado de Machado - 2012.

Cosmologia


Cosmologia (ou de como uma simples coceira pode mudar a vida de alguém).

Começou tímida, uma coceirinha de nada. Enfiei a chave de casa no ouvido e girei como quem abre uma fechadura na própria cabeça. O metal frio fez com que eu me arrepiasse e a coceira naquele momento passou.

No outro dia, quando eu estava no escritório, voltou um pouco mais forte. Sem cotonete à mão, alcancei a tampa da minha caneta e fui introduzindo devagar. Aos poucos diminuía, mas de súbito voltava, e eu era obrigado a colocar toda a parte fina da tampa para dentro do ouvido, mexendo, girando, cutucando de leve o tímpano delicado. Esse ritual repetiu-se algumas vezes até acalmar a coceira interna. Só depois disso, pude voltar ao trabalho.

No banho, antes de dormir, lavei bem e deixei um pouco de água quente escorrer para dentro. Ao terminar, desliguei o chuveiro e peguei a toalha. Sequei com delicadeza e introduzi uma ponta da toalha no ouvido, mexendo lentamente para dentro e para fora. As cerdas felpudas faziam cócegas nas paredes do ouvido e eu ameacei um riso nervoso. O ar úmido deixava todo o ambiente quente e aconchegante, ao mesmo tempo em que eu relaxava meu corpo sentindo a toalha úmida entrando na minha cabeça.

A noite, porém, foi difícil. A qualquer desconforto, eu, automaticamente, levava o dedo ao ouvido e tentava introduzi-lo, sem sucesso, até a maldita coceira diminuir. A ponta da unha arranhava as paredes internas do ouvido e eu, com medo que sangrassem, dava tapas leves na fronte e fechava os olhos querendo relaxar. Mas, se eu virava a cabeça para um lado, o incômodo no ouvido começava de novo. Então, eu me espreguiçava para esticar todos os músculos e convidá-los a dormir, deixava a cabeça quieta no travesseiro, fechava os olhos, respirava fundo e, antes do último pensamento acordado, a coceira voltava.

Pensei que um frio inexistente pudesse estar atrapalhando meu sono e me cobri. Fiquei quieto uns minutos, mas, ao primeiro movimento do meu corpo, sentia a coceira no ouvido de novo. Empurrei o lençol com os pés na esperança que o ar no meu corpo pudesse refrescar e acalmar. Em vão, pois em minutos a coceira incomodava outra vez.

Decidi levantar. Tomei água, escutei duas músicas no rádio e, já com obrigação de dormir, voltei pro quarto querendo descansar. Na boca, muita saliva quente e doce, e, ao mesmo tempo em que eu enfiava o dedo no ouvido, apertava a língua contra o céu da boca, coçando ambos, como se alguma ligação houvesse. Sobre o lençol, me encolhi de olhos fechados e ouvidos atentos, viajando com o pensamento num quase-sono, até que a coceira voltou para tirar meu quase sossego.

Comecei a cutucar mais e mais forte e a coceira não diminuía e eu coçava mais e mais e mais e mais e já estava de pé depois de me remexer bastante na cama e aquilo incomodava muito e parecia líquido e depois um pouco mais sólido e às vezes bem duro e às vezes meio pastoso, mas sempre coçando coçando coçando e estava doendo muito e eu ali tentando enfiar o dedo com os dentes cerrados o corpo teso dando tapas na cabeça e chacoalhando de um lado para outro e eu estava muito nervoso e meu dedo não entrava e eu só não gritei porque não tive forças naquele momento e a maldita coceira ali dentro e coçava coçava coçava e eu metendo o dedo até que encostei em algo.

Parecia plástico, mas não era. Nem vidro, nem papelão, nem madeira. Cutuquei um pouco mais e veio saindo uma coisa fina, que parecia sólida, mas, ao mesmo tempo, era flexível. Com muito esforço, consegui segurar usando os dedos como uma pinça e fui puxando pra fora. Aí já não era mais a coceira que atrapalhava.

Aos poucos, eu comecei a sentir dor. Muita dor. Alguma coisa dentro do meu ouvido estava emperrada, e eu forçava para que saísse lá de dentro, sem saber do que se tratava. Mesmo com a dor forte, eu continuava a puxar, meio assustado, meio curioso. A coisa continuou saindo, e eu sentia as paredes internas da minha cabeça pressionarem umas às outras, como se no outro segundo fossem estourar com tudo o que estivesse dentro, e também por isso doía. Quis ir ao banheiro para ver pelo espelho o que estava saindo, mas não tive forças. A dor me consumia e eu continuei no quarto, puxando e sofrendo, curiosidade e medo, agonia e dor.

Quando senti algo mais fofo, meio mole, eu me assustei. Tentei enfiar de volta, mas, fosse o que fosse, estava emperrado dentro do meu ouvido. Insisti apertando com o indicador e empurrando a cabeça no sentido contrário, sem estocadas rápidas e fortes, mas não funcionou. Não tive escolha. Segurei firme com os dedos e puxei forte. Do meu ouvido, de dentro da minha cabeça, saiu algo em forma de bastão, mais grosso que uma caneta e com uns dez centímetros de comprimento.

Emputeci! Já estava havia minutos nessa função e a dor era muito forte. Fechei a mão em volta do tal bastão, apertei com toda a força ao mesmo tempo em que puxava pra fora da cabeça e gritei arregalando os olhos quando percebi que aquilo que eu pensara ser um bastão era na verdade um dedo.

Naquele momento, saía uma mão de dentro da minha cabeça. Uma mão de gente, mão de verdade, mão que saía de mim e eu não podia deixar presa no meu ouvido.

O susto pela mão era tão grande quanto a curiosidade em descobrir o que estava acontecendo. Ainda maior, porém, era o misto de dor e medo que eu sentia, mas precisava continuar puxando aquela mão quente e fofa de dentro do meu ouvido para fora de mim.

A mão continuou saindo e depois dela veio um braço e eu com muita dor e a mão viva se mexendo e o braço também e eu ali puxando tudo aquilo e saiu um ombro e continuei nesse esforço todo e quando veio a cabeça eu fechei os olhos e gritei muito porque estava doendo bastante e quando dói assim eu grito e fecho os olhos e a cabeça saiu dum jeito que pensei que eu ia explodir e logo depois veio o outro ombro e um tronco e também consegui ver um umbigo e logo atrás vieram duas pernas seguidas por dois pés que ao saírem quase estouraram meu crânio e quando eu menos esperava olhei para o lado e eu estava ali.

Eu do meu lado.

Um outro eu.

Eu me encarando.

Foi então que senti uma coceira no outro ouvido.

por Marcelo Juchem


Ficção de Polpa - Volume 1 - Organizado por Samir Machado de Machado - 2012.

Linguista


“I have no armour left. You’ve stripped it from me. Whatever is left of me — whatever is left of me — whatever I am — I’m yours.” — James Bond

Escrevo, pois é o que me resta. Apenas isso importa dizer agora; prefiro ser direto e contar de uma vez a história da mulher que mudou minha vida.

Eu a conheci em um sarau. Quando pus os olhos nos dela, vi mais que costumava ver. Usei a fala e a interpelei. Disse-me que estudava línguas mortas, em especial o latim. Percebi que éramos da mesma área. Assim como fiz com ela, apresento-me ao leitor: tenho 35 anos, ocupo-me dos estudos da língua. Dedico-me com afinco às minhas pesquisas. Passo os dias na universidade, lecionando e coordenando projetos. As noites tomo como extensão do dia: imerso nos livros. Meu contato com as mulheres, e tal informação ofereço apenas ao leitor, costumava ser inconstante. Quando alguma acendia meu interesse, o enfado não tardava a surgir. Os casos eram rápidos e superficiais. Eu culpava todas por não me trazerem o conteúdo fascinante que eu encontrava nos estudos da língua.

Entretanto, quando a conheci, no sarau, vi mais que costumava ver. Diana.

Nossos primeiros assuntos foram restritos aos aspectos teóricos. Discutimos as ideias dos nossos mestres; a língua fascinava ambos. Com o laço inicial formado, passamos aos aspectos pessoais. Nesse campo, eu tinha por hábito ser um tanto reservado. Media cada momento da troca para não correr o risco de dar mais que recebia.
Naquela noite, foi diferente. Com o incentivo do álcool e dos olhos grandes de Diana, abri todas as portas e a deixei entrar em meu âmago. Assim, tão fácil, ela já tinha mais de mim que qualquer outra jamais tivera.

Diana usava a força dos olhos grandes, quase externos, de brilho esmeraldino, para lançar-me um feitiço hipnótico. Eu poderia ficar estático diante de tais olhos até que ela me despertasse com estalar de dedos. A mulher falava com voz doce, bem-sonante, nem grave ou aguda, apenas doce – eu sentia pitadas de glicose em seus decibéis. Ela usava um timbre médio, sem alterações, uma linha constante que não dava sobressaltos. Aumentava o efeito de hipnose. O rosto trazia uma sutil ambiguidade: ao mesmo tempo em que os traços eram finos, davam efeito de uma força, noção de comando. Domínio.

Diana me tocava de leve durante a conversa. Usava as pontas dos dedos como gotas de chuva em meus braços. Minha pele agradecia, hidratava-se. Era sinal de interesse mútuo a boa conversação que mantínhamos. A única forma de interrompê-la seria com uma outra funcionalidade dos lábios: o beijo. As línguas se entrosaram de todo. Não se largavam, lutavam, uma sobre a outra em alternância – sem vencedor. Foi um beijo gigantesco.

Assim passamos boa parte da madrugada: agradável encontro de bocas. As mesmas que combinaram atividade semelhante para a noite seguinte. No segundo encontro, as línguas despertaram o desejo de explorar muito mais que uma à outra, de desvendar texturas e relevos particulares — pescoço, peito, coxas. A minha percorreu uma pele branca com gosto de mulher. Sentiu o desenho do mamilo e desceu até o éden pantanoso. Lá, com movimento incessante, divertiu-se e gerou diversão. Meus ouvidos captavam o efeito do trabalho da língua. Os gemidos de Diana me davam ordem para continuar; até que um grito intenso me avisou que podia parar. Foi a vez da minha companheira botar a língua em ação e me proporcionar farta dose de prazer oral. Meu clímax enérgico foi amostra não-verbal de apreço pelo esforço dela. Ambos satisfeitos, juntamo-nos em abraço silencioso que trazia todas as palavras de amor. Nossas línguas, mais uma vez, uniram-se, traziam sabores um do outro e se trocavam em movimento interminável, coeso; novo beijo a durar mais que vários minutos.

Nas duas primeiras semanas, vimo-nos todas as noites. Deixamos de lado nossos estudos linguísticos e dedicamo-nos ao uso empírico da língua, a minha e a dela. Fundiam-se em uma só: não havia “eu” e “tu”, apenas “nós”. Passei a perceber que eu pouco sabia sobre a mulher com quem me relacionava. O corpo e a mente de Diana desapareciam, e tudo se resumia à sua língua, fonte de expressão e prazer. O mesmo acontecia, posso deduzir, com ela em relação a mim. Não existia sujeito, apenas objeto. Línguas vivas em pessoas inertes.

Numa noite da semana seguinte, fui visitá-la de forma usual. Os encontros aconteciam sempre em sua casa. Entrei e, sem palavras, a beijei. Logo, meus sentidos acusaram algo estranho. Percebi Diana mais ansiosa. A língua movimentava-se frenética, inquieta. Eu esmerava-me, no beijo, para seguir tal ritmo, fazia esforço incrível com meus músculos, mas minha língua não era apta a acompanhá-la. Passamos a noite com os lábios juntos e, toda vez que eu tentava equilibrar o beijo, Diana era mais rápida, mais ágil. A língua dela parecia crescer dentro da minha boca e me envolvia o corpo todo num lamber sem fim.

Achei estranho o fato, mas procurei ignorá-lo. Não foi possível: na noite seguinte, o fenômeno se repetiu com maior intensidade. A língua de Diana tomou as rédeas. Fez, da minha, escrava. Cheguei à minha casa sentindo pequenos calafrios. Medo de perdê-la, de ficar sem a língua na qual estava viciado. Da cesta de frutas, peguei uma uva. Fiz movimentos, tentativa de treinar-me, de exercitar minha língua de forma a adquirir velocidade semelhante à de Diana. Foram vários minutos com a uva rodopiando em minha boca, meu desespero girando sem parar. Necessidade de estar à altura dela, daquele ritmo intenso, potência de fúria. Treinei por mais uma boa dose de tempo e julguei ter obtido êxito.

No dia seguinte, visitei Diana tomado de expectativa. Como era usual, não dispusemos de palavras. O encontrar dos olhos era comunicação para o passo seguinte: o beijo. Invadi sua boca com voracidade e mostrei-me mais ágil. Diana, no entanto, surpreendeu-me com um ritmo inesperado, movimentou a língua com força ainda maior que a minha. Domou-me, intransigente. Atirou-me na cama, despiu-me, montou em mim. Ela decidia a hora de aumentar e diminuir os movimentos do sexo. As posições variavam, sempre com ela por cima, no comando. Eu tentava surpreendê-la com minha língua, tocar-lhe os seios ou o pescoço. Ela me afastava. Atingiu o clímax com a cabeça para trás, os cabelos ondulando, enorme vibração. Desceu de mim e dispôs da língua quente para me oferecer prazer semelhante ao que havia sentido. Saciou-me, sem me dar escolha. Gozei, pois assim ela determinou.

Após essa noite, inventei uma escusa para evitá-la. Não sabia como agir: nosso equilíbrio se havia extinguido. Ela tornara-se “eu”, eu era “tu”. Um “tu” que só existia criado pelo “eu”.

A apatia tomou conta de mim por algum tempo. Não atendia as ligações de Diana, era a única forma de evitar a submissão. A hombridade que ainda me habitava fez-me tomar uma decisão séria. Reuni as forças que me restavam e fui ter com Diana. Fui à casa dela e usei a língua, depois de muito tempo, para lhe falar. Com tom forte, mostrei-me resoluto e disse que era momento de interromper nossa relação. Já não me sentia mais motivado por ela.

Diana, para minha surpresa, aceitou meu pedido sem contra-argumentação. Estranhei, pois já havia aprendido que essa mulher era verbo transitivo indireto: jamais apresentava voz passiva. A língua dela, no entanto, foi indolente. Apenas pediu um último brinde, despedida. Pareceu proposta justa. Consenti. Ela trouxe os copos de champanhe e bebemos juntos de um só gole. As línguas experimentaram o álcool; a minha, no entanto, delatou uma dormência maior. Passei a sentir o corpo fraco, os olhos embaçaram. Havia sido dopado. Tonto e entorpecido, fui levado a uma sala em que jamais estivera, onde, em poucos segundos, fui amarrado a uma cadeira. Enquanto minha mente desvendava o recinto, vi Diana aproximar-se com reluzente navalha.

Fiquei estático no momento em que ela abriu minha boca e puxou a língua para fora. Eu deveria ter vontade de gritar, debater-me. Não tinha. Vi seus olhos cada vez mais saltados, para fora, intensos, completamente fora de órbita. Traziam prazer selvagem – prenunciado em nossos beijos – em segurar minha língua e, de leve, acariciá-la com a navalha gelada. Minha língua seguia imóvel em sua mão, eu respirava com dificuldade, alongava o olhar para acompanhar a movimentação da lâmina, que dançava em vaivém dentro e fora da minha boca.

Não gritei no primeiro corte. Foi lento, angustiante. A navalha abriu minha língua de leve, verticalmente, rasgou-a fácil, feito navio singrando os mares. O sangue surgiu, e minha boca seca foi tomada de líquido espesso. A dor veio em pontadas. Maior, entretanto, era o desespero de ver Diana com o instrumento na mão, com os olhos sádicos de um carrasco, mas sem máscara, sem subterfúgio.

Diana continuava a segurar minha língua vermelha. Beijou-me a face, o pescoço.

Apertou forte a navalha e voltou a dirigi-la à minha boca. Fechei os olhos, os abri. Não sabia o que era pior. A lâmina ia e vinha, fazia pequenos cortes, deixava vestígio de sangue. Minha mente se perdia, suplicando pela irrealidade. A dor aguda surgia, sumia. Minha angústia, jamais. Só aumentava ao ver Diana de posse da navalha, ensaiando devagar um movimento de corte seco, guilhotina.

Diana usou a mão esquerda para puxar minha língua com força. Tirou-a da boca tanto quanto foi possível. Com a direita, levantou a lâmina e paralisou. Focou os olhos na minha língua, com desejo, admiração, como fizera em tantas outras vezes. Prendi a respiração quando vi o metal gelado descer com fúria rápida. Senti minha carne se partir, meus músculos rasgados, inúteis. Sangue por toda parte e dor, dor, dor.

Diana deu um riso extasiado, rugido de prazer. Levantou-se e caminhou até um canto da sala. Sangrando em desespero, vi Diana depositar minha língua em um vidro cheio de líquido e colocá-lo numa prateleira repleta deles. Era mais um item para sua coleção de línguas mortas.

por Rodrigo Rosp


Ficção de Polpa - Volume 1 - Organizado por Samir Machado de Machado - 2012.

Carne

Acordei com fome. E com uma dor de cabeça insuportável. Provavelmente, bebi alguma coisa forte na noite anterior. Deve ter sido uma festa muito boa: não me lembro de nada recente e estou vestindo uma roupa de sair. Acho que dormi com ela. No estado em que estava, provavelmente, não tive paciência de vestir algo mais confortável.

Tem um cheiro estranho por aqui. Parece lixo, mofo. Deve ter alguma coisa apodrecendo. Não, é só desse lugar. Estas roupas estão fedendo. Será que o cheiro deste lugar impregnou nelas? Estão imundas, cheias de pó. E essa dor de cabeça desgraçada! Preciso me levantar e trocar essas roupas.

Espera um pouco. Aqui não é a minha casa. Olha só pra este lugar. Paredes descascando, pedaços de tecido rasgado atirados pelos cantos, as cômodas e o guarda-roupa com as portas e gavetas escancaradas. A escrivaninha do canto foi atirada contra a parede. Tem um desgaste na quina desse móvel que se encaixa com aquele talho aberto na parede e com os pedaços de tijolo e cimento espalhados pelo chão. O lustre está dependurado, pendendo no ar graças a um fio de cobre desencapado. Falta pouco para se estatelar no chão. E o fedor. É azedo, insuportável e se espalha facilmente. Como quando alguém mata uma aranha, daquelas grandes, e é impossível evitar que aquele cheiro ocre invada nossas narinas. Ele vem da cozinha. Vou para lá e aproveitar para matar a fome.

Meus passos são lentos. Deve ser a dor de cabeça, mas acho que, se comer alguma coisa, para de incomodar. Eu tento me apressar para cruzar o corredor e chegar de uma vez à cozinha, mas é impossível.

Sinto-me um pouco tonto. Não é uma tontura de embriaguez, nem de labirintite. Tive isso quando era criança depois que caí do beliche de cabeça no chão. Não sabia onde era esquerda ou direita e não podia andar sozinho pela cidade sem me perder. Hoje, é diferente. Tem essa dor na parte de cima da minha cabeça me impedindo de agir direito, como se a comunicação mental com meu corpo estivesse bloqueada de algum jeito. Estou lento até para piscar. É como se o corpo respondesse meio segundo depois de ter ordenado a ação. Tudo truncado.

É nessa tranqueira que eu entro na cozinha. Tem comida espalhada pelo chão. Está tudo sujo e desarrumado. Copos e talheres quebrados. Os armários também estão escancarados. O lixo está aberto. As moscas revoam sobre ele, buscando alguma coisa gostosa para saciar sua fome. Eu também quero comer. Até já sei o que quero: uma carne bem suculenta. Eu não sou daqueles que curtem um bife malpassado, mas tudo que desejo é sentir a maciez da carne misturada com o suquinho formado pelo sangue sobre a minha língua e cortar cada pedacinho com os dentes.

Não foi uma festa o que aconteceu aqui. Os únicos que podem ter festejado são os ladrões que pilharam este lugar e talvez os outros insetos no meio daquele lixo, sob as moscas. Deviam estar procurando algo valioso pelo jeito como deixaram este lugar. E eu me pergunto o que foi que vim fazer aqui.

O fedor vem da geladeira, a porta está entreaberta. A luz de dentro está falhando. Acho que faz tempo que esta porta está dessa maneira. Eu abro a geladeira, o fedor invade minhas narinas e junto com aquela visão me provoca ânsia de vômito. Dedos, olhos, orelhas em um determinado estado de decomposição estão dentro de uma panela, mantendo as moscas e os besouros longe.

Minha reação foi correr para o banheiro, certo de que meu estômago revolveria qualquer coisa que eu tenha comido antes. Contudo, minhas pernas me obedecem com dificuldade. A maldita dor. Não posso evitar: vomito ali mesmo. Lentamente me agacho, mas nada acontece. Então me levanto decidido a fazer aquela dor passar. Queria sair de uma vez dessa casa estranha que já começava a me provocar arrepios e pensamentos asquerosos.

Reviro os armários em busca de alguma coisa para comer, mas que tenha um aspecto saudável, o que parece raro. Abro portas, muitas sem nada dentro. Em outras, só o que encontro são louças e utensílios de cozinha. Assim como no chão, havia coisas quebradas e esparramadas. Por fim, localizo um vidro de pepinos em conserva, fechado, intocado. Não gosto de pepino, mas pela fome que estou me vejo obrigado a comer. Não sacio minha fome. Parece pior agora. É uma vontade de comer ainda maior, e cada vez mais específica. Eu quero carne.


Saio da casa e vejo. Não apenas aquela casa estava de pernas pro ar, tudo ao seu redor também estava. Havia alguns carros com os vidros quebrados, placas de trânsito retorcidas, jardins estragados, muito lixo e pedaços de tudo quanto era coisa espalhados pelo chão. A destruição persiste até onde a vista alcança. Um cenário pós-apocalíptico. Uma guerra acabara de passar por ali e eu estava dormindo. Como não acordei com tudo isso acontecendo ao meu redor, só Deus sabe.

Além da constante dor de cabeça me incomodar, ouço os ganidos de um pastor alemão. Está latindo e rosnando para mim, mas está amarrado a uma barra de ferro, ao lado do seu canil. Eu vou até ele, devagar, da maneira que meu corpo obedece a minha cabeça. De repente, uma vontade surge na minha mente, e caminho mais decidido até o cão. Ele não para de rosnar e latir, fazendo cara feia. Chego tão perto dele e de uma maneira tão vagarosa que é impossível impedir que seus dentes afundem em minha perna e arranquem um bocado dela. Eu não sinto dor. Só fico mais decidido a fazer o que planejei. Não tem sangue escorrendo pela minha perna, mas eu não me preocupo com isso e seguro firme a cabeça e a mandíbula do animal. Minha dor de cabeça persiste e eu devo comer carne. Posso enxergar minha tíbia e, lutando contra as vontades do bicho, separo com força seu maxilar do crânio. Até que, enfim, arrebento a fuça do cachorro e o mato. Em seguida, acalmo minha vontade: mordo o cão e arranco um pedaço de seu lombo.

O sabor seria bom, não fossem os pelos. Aproveito e como um pouco mais do animal. Passo um tempo devorando o tecido muscular do bicho até chegar à conclusão de que não é aquilo que eu quero. Não é suficiente. Não encerra minha fome. Só me deixa mais sedento de carne, com a cara lambuzada de sangue. Minha dor de cabeça não passou, continuo lento, inclusive para mastigar.

Levanto-me para procurar alguém que possa explicar o que aconteceu. Sei que a esperança é pouca, mas é só o que tenho. Tiro o sangue do meu rosto passando a manga da camisa sobre a boca e encaro a destruição. Os vidros dos prédios estão estilhaçados, portas arrombadas como se saqueadas, alguns carros estão virados. No chão, jazem aves mortas, e vez que outra encontro também animais de pequeno porte como gatos e ratos, uns vivos e outros não. Continuo caminhando por uns cinco quilômetros e não vejo pessoa alguma.

Estou em um ambiente que desesperaria qualquer um, mas eu não consigo parar de pensar na música sobre o fim do mundo, porque me sentia bem. Só queria entender o que aconteceu aqui e matar a minha fome, comer carne e terminar com essa dor na minha cabeça.

Depois de quase uma hora, ouço uns barulhos estranhos vindos de um mercadinho revirado. Vou até lá, irritado com meus movimentos lerdos, mas consigo ver que tem gente no lugar. São três. Dois caras e uma garota. Estão recolhendo coisas e colocando nas suas mochilas. É possível que estejam angariando suprimentos para sobreviver nessa devastação. Finalmente vou poder falar com alguém para tentar entender o que aconteceu por aqui.

Porém, quanto mais eu me aproximo da garota, mais eu a desejo. Eu quero sentir seus braços nos meus dentes. Melhor que entender essa situação seria mastigar um pedaço do corpo dela. A pele tão clara pede para ser dilacerada. O ar inocente implora para ser cessado. Esse é o sabor da carne que quero sentir. Como se fosse aquele bife malpassado, cheio de sangue. Quero saboreá-la tão lentamente quanto me arrasto pela cidade.

Eles estão de costas, não podem me ver ou escutar meus passos vagarosos. Quando perceberem minha presença, já terei engolido um pedaço da garota. Toco o seu ombro, e ela retribui com um grito rouco, me empurra para trás e corre até seus amigos.

Um dos rapazes grita: “Cuidado! É um deles!”. O outro, arrancando um pedaço de ferro da prateleira com uma rapidez que para mim é extraordinária, avisa os amigos: “Eu dou um jeito nele, se afastem!”. Ele avança contra mim empunhando aquele pedaço de metal. Eu tento gritar: “Não!”, e o que sai da minha garganta são grunhidos e sons guturais.

Ele acerta o topo da minha cabeça com a arma improvisada, o lugar da fonte da dor. A dor é interrompida e perco o controle do corpo. Os três se afastam de mim e, antes de eu perder o discernimento e todos sentidos, ouço um dos caras dizer: “Agora ele está como deveria — morto em um corpo morto”.

por Guilherme Smee


Ficção de Polpa - Volume 1 - Organizado por Samir Machado de Machado - 2012.

O Homem que Criava Fábulas

Foi no final da primavera que recebi uma carta da velha Richmond. Era uma amiga de minha avó, conhecia-me desde a infância e foi quem me nutriu o interesse por mitologia. Seu nome completo era impronunciável, uma mistura de poloneses e russos culminando com o sobrenome inglês do marido.

Para todos os efeitos, chamavam-na de Berta. Já era rica estando solteira, ao casar-se, ficou milionária. O marido fazia-lhe todas as vontades. Quando se aposentou, os dois entregaram-se a excentricidades que somente os ricos podem usufruir sem que sejam internados, e uma delas era colecionar animais exóticos nos grandes e bem cuidados jardins de sua casa de campo – lembro que foi lá que vi um pavão pela primeira vez. A cada aniversário, enviavam-me coletâneas de fábulas, resumos de odisseias gregas, bestiários variados. Com a morte de minha avó, perdi o contato com o casal de ingleses.

Mas, então, a carta. Quando, após tanto tempo sem contato, recebe-se uma correspondência, fica-se surpreso não apenas que o remetente ainda esteja vivo, mas que também se lembre de nós, e esse foi o meu caso. Na semana seguinte, faria dez anos da morte de minha avó, creio que a data tenha lhes despertado a lembrança. Berta e o marido convidavam-me para o fim de semana, para conhecer os novos animais que enfeitavam os jardins de sua casa, uma fazenda distante 580 quilômetros da capital. Ofereciam-me seu carro e motorista para a viagem de ida e volta. Qualquer coisa que evocasse a lembrança de minha avó me era agradável e eu não tinha motivos para recusar.

Ao chegar à fazenda, a curiosidade se tornou maior: um muro de cinco ou seis metros de altura, com grades de ferro pontiagudas no topo, cercava a área. O muro, por sua vez, era ladeado por enormes e frondosos eucaliptos, tornando impossível ver o que havia dentro da propriedade. O motorista explicou-me que era para afastar curiosos e sem-terra – a única coisa que detestavam mais do que argentinos.

Vendo o muro, pensei: o que teriam aprontado os Richmond dessa vez? Olhei para os jardins e os gramados, enquanto o carro percorria uma estradinha de terra até a casa da fazenda, mas não vi nada. Ao descer do carro, ela veio me cumprimentar. Estava gorda, o cabelo volumoso de laquê, joias pendendo dos punhos às dezenas, vestido pavonesco, uma diva de ópera. O marido, cujo primeiro nome nunca me foi revelado (sempre o tratavam pelo sobrenome) era franzino, magro, cabelos brancos, parecia quebrar quando o abraçavam forte.

Almoçamos. Passamos para a sobremesa, o café, os licores, e, quando achei que aqueles ingleses não parariam mais de comer, convidaram-me a uma caminhada para a digestão. Berta pegou-me pelo braço e disse que me mostraria os novos mimos que o marido tinha lhe dado no último aniversário. Começaremos pelo estábulo, você vai adorar, garantiu. Assim, lá fomos, e vi os animais. Chamavam-se Jorge e George. Vi suas testas. Não sabia se ficava maravilhado ou horrorizado, perguntei como uma coisa daquelas acontecera.

– Não aconteceu, nós os fizemos – explicou-me o velho Richmond, sorrindo deorgulho e satisfação. – Genética, menino. Pegamos o código genético de um narval e misturamos com o de um cavalo, inseminamos uma égua e...

Berta o interrompeu. Não estava interessada em ouvir novamente as tediosas explicações de seu marido, era tudo muito técnico, e os funcionários do laboratório que cuidassem dessas coisas. Virou-se para mim.

– Afinal, não nos interessa como isso é feito, e sim o resultado. Um narval e um cavalo, e temos estes dois belos animais aqui. São belos, não é mesmo?

Respondi que sim. Que mais poderia dizer? Nunca imaginei que veria um par de unicórnios na minha frente. Berta tomou-me pelo braço e seguimos o passeio. Um criado da casa trouxe-nos um carrinho desses que usam nos campos de golfe. O velho Richmond assumiu a direção. Os jardins eram belíssimos trabalhos de paisagismo, com sebes podadas na forma de animais e flores de todo tipo.

– Olhe bem para elas, meu querido – disse Berta, apontando-me a sebe.

Olhei outra vez. Moviam-se. O borametz, murmurei, empolgado. O cordeiro vegetal da Tartália! O velho Richmond começou a falar do cruzamento de animais e plantas, mas Berta o interrompeu novamente. Sem explicações, pediu, o que importa é a beleza dos resultados.

Chegamos à beira de um lago artificial, com um coreto de mármore em estilo neoclássico. Cisnes enormes nadavam no lago, mas, conforme chegamos mais perto, percebi que não eram cisnes, mas cavalos com asas de cisnes. Pégasos, dóceis como nunca vira. Perguntei se podiam voar, mas não, aquelas asas eram apenas um acréscimo estético, e mesmo os animais não pareciam saber bem como manejá-las. A todo momento, Berta me perguntava: não são lindos? Não são maravilhosos?

Por mais que estivesse deslumbrado, sentia-me cada vez mais constrangido frente àqueles animais. O simples fato de existirem me incomodava: não eram mamutes, dinossauros, dodôs ou qualquer outro animal extinto pelo destino; eram animais criados da imaginação do homem, não possuíam um lugar na ordem das coisas, não se encaixavam numa cadeia alimentar – e o borametz sequer poderia ser corretamente classificado. Se eram belos? Sim, claro. Horrorosamente belos.

Voltamos para a casa principal. Berta anunciou que estava cansada e se deitaria. Disse-me para ficar à vontade na propriedade. Após sair, foi o velho Richmond quem me tomou pelo braço e perguntou: quer ver um segredo? Estou guardando para o Natal. Concordei, voltamos ao carrinho de golfe e andamos quase dois quilômetros propriedade adentro até uma construção feia de concreto cinzento. Ali, havia homens armados e outros de jalecos brancos, fumando do lado de fora do prédio. Passamos pelos guardas, descemos do carro, ultrapassamos portas e corredores sombrios, descemos algumas escadas de concreto e estávamos numa espécie de fosso, com celas gradeadas e vazias. Exceto uma.

– Você vai gostar dela – disse-me o velho. – Mas não se aproxime muito da grade. Ela é inteligente e, desde que começou a falar, tem se mostrado astuta. Perdoe-nos pelo mau cheiro, mas deixamos de limpar a jaula desde que tivemos um... acidente.


Um fedor de carne estragada e sujeira encheu-me as narinas, cheiro que sentia sempre que visitava os grandes carnívoros do zoológico. Havia uma toca. Dentro da toca, um par de olhos amarelos e vibrantes nos fitava.

– Minha querida, eu trouxe visitas – disse o velho.

Surgiu um par de patas largas e peludas, enormes patas felinas. Em seguida, um par de seios volumosos e empinados, seguidos por um resto de corpo leonino, dotado de vistosas asas de águia. Tinha uma face humana feminina cuja beleza artificial provocava-me um estranhamento, misto de asco e atração. Seus lábios eram carnudos, o nariz era pequeno, uma perfeição científica.

– Ele é uma piada? – perguntou ela ao velho, mas olhando diretamente para mim. Sua voz pastosa e andrógina deu-me calafrios.

O velho olhou-me preocupado e explicou-me: logo que ela desenvolveu a habilidade da fala, comunicava-se como uma criança. Os tratadores acreditaram, então, que seria um bom passatempo deixá-la assistindo a velhos desenhos animados. Ela quis saber por que o gato ou o coiote sempre sofriam os piores destinos. Essa, explicaram, era a piada. Ela, então, manifestou o desejo de ter um gato como companhia, mas, aborrecida porque o animal não falava como ela, o devorou. Os tratadores riram, dizendo que ali estava outra boa piada.

– Não sou uma piada – respondi-lhe. – Mas posso conversar com você.

– Você pode me fazer rir?

Ergui os ombros. Talvez, se soubesse o que a fazia rir. Comida, ela me disse.

– Você ri quando come? − perguntei.

– Não, eu rio quando mato o que como.

Não consegui esconder meu asco daquele animal, e comentei que aquilo era uma coisa horrível de se dizer. Ela ficou perturbada, olhou para o velho Richmond como que em busca de uma resposta que não encontrou. Encarou-me, outra vez, com uma expressão intrigada.

Pedi para ir embora, era desconfortável ficar perto daquela coisa. O velho Richmond me acompanhou até a saída, pediu-me compreensão, disse que aquele animal era novo, recém começava a compreender o mundo à sua volta. Quando estivesse totalmente pronto, socializado, seria como um leão dotado de compreensão humana, uma perfeita companhia para o sítio dos Richmond.

Argumentei que um leão que compreende o próprio instinto e o verbaliza não necessariamente o abandona. Mas o velho me garantiu que, com ela, seria diferente. Ela seria especial. Como a filha que não tiveram.

Passei a noite na fazenda, uma noite horrível. Sonhei com Ela, sua face perfeita, seus seios empinados e suas patas de animal. Acordei incomodado com a ideia de estar próximo a uma criatura como aquela, quis ir embora imediatamente. Encontrei Berta na mesa do desjejum.

− Algo está errado − comentou ela, servindo-me de leite quente. − Não sente algo de estranho no ar? Até os animais estão agitados, tensos. Pobrezinhos. Não deve ser o tempo. Deve ter entrado algum animal de fora, um cão ou algo assim.

Senti um calafrio. A sensação de “algo errado” de Berta passou para mim. Um medo que vinha da minha infância, do sítio de meus avós, de quando algum animal conhecido aparecia morto por outro de fora, o incômodo da presença externa no ambiente familiar.

A resposta veio através de um empregado: havim encontrado o corpo do velho Richmond. Berta ficou em silêncio por um longo tempo, mas, com a fleuma que adquiriu do marido, perguntou com muita calma o que ocorrera. O empregado explicou que o velho fora morto por um animal novo, que nem havia saído fora do laboratório. Não quiseram mostrar a ela as gravações das câmeras de segurança.

Mas eu vi. Não havia som, não ficou claro o motivo que fez o velho entrar na jaula de madrugada. Na imagem chuviscada e cinzenta, pude ver apenas que chegou próximo o bastante da criatura para recebesse uma patada. O velho curvou-se, levando as mãos ao estômago. Quando as tirou, vi que segurava os próprios intestinos. Caiu no chão ainda vivo, enquanto Ela lhe devorava as vísceras. Terminada a refeição, a criatura ergueu o rosto e o balançou de um modo estranho. Aproximei os olhos do monitor: o animal gargalhava, e o fez por vários minutos antes de sair da jaula.

O resto da manhã foi terrível. Berta não imaginava por que o marido pudesse pensar que algo assim a agradaria, ela nunca quis nada que tivesse feições humanas. Mas compreendeu que eu quisesse ir embora o mais rápido possível. Lamentou que minha visita ocorresse num momento tão trágico, mas convidou-me para regressar assim que tudo voltasse à normalidade. Agradeci o convite prometendo retornar. Nunca mais pus os pés naquela fazenda outra vez.

Logo na saída, vi os funcionários agitados perto do portão. Enfim, haviam encontrado o animal. Aparentemente, tentara voar para ultrapassar o muro da propriedade, mas, ao chegar ao topo, caiu sobre as lanças. Morreu empalada.

por Samir Machado de Machado


Ficção de Polpa - Volume 1 - Organizado por Samir Machado de Machado - 2012.
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